Por Juliana Vannucchi
| Cynthia Ross: "Muitas vezes me disseram que escrevo o que as pessoas
sentem, mas não conseguem expressar em palavras". (Foto: Rick McGinnis) |
Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)
Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada
Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.
Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.
Um breve questionamento e historio sobre o assunto.
Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.
Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos
Por Juliana Vannucchi
| Cynthia Ross: "Muitas vezes me disseram que escrevo o que as pessoas
sentem, mas não conseguem expressar em palavras". (Foto: Rick McGinnis) |
Por Juliana Vannucchi
Paul Talbot, residente de Piedade, uma singela e fria cidade localizada no interior paulista, é um talentoso desenhista e quadrinista que ao longo dos últimos anos, viu suas produções artísticas lhe renderam cada vez mais destaque e reconhecimento. Em sua vasta bagagem, acumula participações em diversos eventos culturais, como o Ilustra Comic Fest, ocorrido em 2023, o Gibi SP, que também aconteceu no ano passado, além de ter marcado presença no Palco Livre, em sua cidade natal, no Sesc Sorocaba, e na XXVII Feira do Beco do Inferno, que também ocorreu em Sorocaba, em 2024. E aliás, foi justamente nesse último evento citado que eu conheci o trabalho de Paul Talbot. Na referida Feira, que reuniu uma quantidade volumosa de diferentes e habilidosos artistas da região, o universo visual criado por Paul e sua forma de expressão artística, atraiu particularmente a minha atenção. Foi justamente essa experiência que deu vida ao presente texto. Lembro-me claramente que no instante em que me deparei com as criações de Talbot, percebi de imediato que seus desenhos pareciam captar a atmosfera sombria das histórias de Edgar Allan Poe e misturá-las com os elementos fantásticos de Lovecraft. Como resultado, suas ilustrações me pareceram verdadeiros portais que se abrem para um mundo paralelo, no qual encontramos criaturas mágicas e ambientes despóticos. Conversando com o artista, fui capaz de compreender melhor suas perspectivas sobre a arte e as propostas que pairam por trás da originalidade de suas ilustrações, que nos transportam tão facilmente para além dos limites habituais do espaço e do tempo.
| Paul Talbot entende que um dos principais significados da arte é o espírito de revolta que ela desperte no ser humano. |
A arte entrou na vida de Paul por meio da escola e através de programas televisivos. A partir disso, desde a tenta idade, ele passava horas imerso em seu processo criativo e sempre se empenhava em aprimorar suas técnicas. Os anos se passaram e Talbot nunca parou desenhar, nutrindo sempre uma imensa paixão por essa atividade. O quadrinista entende que a arte, sua eterna companheira, deve ter espaço na vida de todas as pessoas, pois assim como ela sempre foi relevante para ele, pode ser também prazerosa e transformadora para qualquer um: “Penso que a importância da arte para o ser humano e para a sociedade em si, é algo imensurável. Até mesmo boa parte daquilo que é consiste na arte mainstream, muitas vezes teve em sua origem numa fonte que demandou criatividade, ou seja, exigiu um modo novo de produzir. Por mais, é claro. que seja um saco ver o corporativo "capitalizar" em cima dessas coisas, é de suma importância existir essa autenticidade... Essa postura de não se curvar diante da indústria mainstream, de não perder sua identidade mediante as cobranças que ela faz, evitando contaminar-se por ela. O artista seguiu sua reflexão sobre o tema: “Eu mesmo não vejo problema algum no fato de eu não viver da minha própria arte e tê-la apenas como hobby, como uma paixão, contanto que ela permaneça autêntica ao invés de se tornar um “produto” que visa seguir tendências específicas. Acho que foi o David Lynch que certa vez disse que “viver a vida artística é uma vida de trabalho".
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| Paul ostenta um brilhantismo estético especial em suas produções que são, na maior parte das vezes, permeadas por elementos fantásticos, pelo horror e por referências a símbolos e criaturas mística. |
A partir das considerações e diálogos acima, perguntei a Talbot se ele acredita, levando em conta o atual contexto da realidade brasileira, ser possível viver apenas de arte. A esse respeito, o ilustrador respondeu, de maneira meditativa: “Bem... Dar aula de arte é viver de arte, por mais que não consiste numa venda direta da obra artística em si? Ou, então, viver de arte seria viver da arte sem "comprometer" a visão artística? Ou poderíamos aceitar nesse sentido alguns desenhos feitos sob encomenda? Isso sem contar a necessidade de correr atrás de projetos culturais e eventos para participação e venda da arte, além de divulgação e etc. Então, em suma, acredito que seja possível... Mas não há uma "fórmula" específica para isso; há caminhos, meios. No campo artístico é preciso dar “os pulos” (risos) e mesmo assim, não há segurança ou garantia”.
Paul ostenta um brilhantismo estético especial em suas produções que são, na maior parte das vezes, permeadas por elementos fantásticos, pelo horror e por referências a símbolos e criaturas místicas. Tudo isso se expressa através de detalhes impressionantes e de uma enorme variedade de cores. Nesse sentido, o ilustrador nos contou que, embora trabalhe com fan-art, também dá vida aos seus próprios personagens: “Crio tanto obras originais, quanto fan-art. Fan-art, no caso envolve esboçar um determinado personagem que já existe, contudo, eu faço isso sempre dentro do meu próprio estilo de desenho, valorizando os meus traços. A ideia dos personagens, cenários e etc. sempre está alinhada com algo que quero contar. Muitas vezes ocorre, portanto, uma espécie de simbiose para fazer a narrativa funcionar. Às vezes, basta eu pensar numa "imagem" ou "fala" para começar a construir uma história ao redor disso”. O artista revelou ao Fanzine Brasil que por meio dessas abordagens, pretende surpreender e também articula-se para gerar um certo desconforto naqueles que contemplam seus desenhos: “Tento fazer algo que cause uma espécie de "impacto visual" capaz de misturar o belo e o grotesco. Uma repulsa atraente, eu diria”.
| "Sempre tive interesse em desenhar os arcanos maiores porque adoro a estética de tais cartas" (Talbot) |
Um dos legados mais autênticos do jovem ilustrador e que chama a atenção pela engenhosidade, é seu baralho de tarot. A esse respeito, nos contou: “Foi meu projeto do Inktober de 2022. Sempre tive interesse em desenhar os arcanos maiores porque adoro a estética de tais cartas. A ideia de fazer a temática horror industrial/mecânico veio do filme "Tetsuo: O Homem de Ferro". Porém, eu busquei transmitir a ideia do ser humano sendo usado como matéria prima para uma indústria comandada por uma inteligência artificial. Até mesmo os números e nomes das cartas, além da forma habitual, também são descritos com código binário e código baudot, respectivamente. Que é pra dar mais ainda essa impressão de ser a "máquina" no comando de tudo. O código baudot foi uma homenagem ao conto "I have no mouth, and I must scream" do Harlan Ellison.
Para encerrar nossa produtiva conversa, Paul Talbot também discorreu sobre o significado arte e sobre a importância do espírito de revolta que ela envolve, podendo, a partir de tal estado, libertar o ser humano das tantas amarras que o cercam: “Arte não é comodidade. É preciso acreditar na visão, no processo. Deve haver revolta… e que essa revolta sirva como fonte de inspiração”. Artistas como Paul impressionam pelo modo através do qual brincam com suas imaginações e, dessa forma, conduzem os espectadores para caminhos inusitados, diferentes do convencional. Por isso, podemos seguramente afirmar que o dom de arte corre nas veias de Talbot, que possui maestria em sua habilidade, além de carregar em si um notável e inesgotável ímpeto de criatividade.
Por Juliana Vannucchi
“Acho que é possível dizer que o Sonic Youth sempre tentou desafiar as expectativas das pessoas”. (p. 151, 2015).
Após um casamento de quase 30 anos, em 2011, Kim Gordon e Thurston Moore anunciaram o divórcio e decretaram com isso o fim do Sonic Youth. Alguns anos mais tarde, a baixista da banda alternativa mais importante dos anos oitenta publicou um livro biográfico que em português foi intitulado “A Garota da Banda”, no qual Gordon compartilha com os leitores alguns dos momentos mais marcantes e decisivos de sua vida. Ela aborda em detalhes o fim trágico de seu casamento, marcado por uma traumática traição do marido, além de tecer comentários sobre bastidores de álbuns, músicas e videoclipes da banda norte-americana.
Sabemos que ao longo de sua trajetória, Kim destacou-se especialmente como baixista do Sonic Youth, e geralmente a conhecemos somente sob tal rótulo. Contudo, acabamos por nos limitar se a considerarmos apenas por essa perspectiva, pois ela também merece ser lembrada pela sua carreira como artista visual. Aliás, cabe dizer que numa entrevista concedida em 2022, Gordon chegou a dizer que sempre se reconheceu mais como artista do que musicista. E em sua biografia, fala que se sentia limitada como cantora, sendo que justamente por isso optou por fazer uso de uma abordagem vocal falada e rítmica. Embora nunca tenha se visto como uma boa cantora ou musicista, lembra aos leitores que (...) desde o início, o rock and roll nunca teve base em formação musical ou técnica, assim como o punk rock nunca teve a ver com ser um bom músico”. (p. 137, 2015). Ainda nesse contexto, explica: “O melhor tipo de música vem quando você é intuitivo, inconsciente de seu corpo, perdendo a cabeça, de certo modo (...)”.
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| "O detalhe é importante, pois ele praticamente se torna a própria obra quando se trata de arte conceitual”. - Kim Gordon |
Desde a juventude, Gordon sempre nutriu um forte interesse pela arte e decidiu que esse era o caminho profissional que desejava trilhar. Nesse período de sua vida, o irmão de um amigo chegou a confrontá-la a respeito de sua escolha: “Artista? Como vai virar artista? E se você falhar? Você tem um plano B?”. Mas Kim estava convicta a respeito de seu destino e de seu desejo: “Nunca me ocorreu que eu poderia falhar”. Em sua biografia, ela releva que no universo das artes, seu primeiro mentor (conforme ela mesma define) foi um artista conceituado chamado John Knight. Segundo Gordon (p.83, 2015), ele a ensinou “que qualquer coisa - um carro, uma casa, um gramado - poderia ser vista e analisada em termos estéticos”. Ele também lhe mostrou que “toda arte deriva de uma ideia”. “Discutíamos em detalhes qualquer coisa que aparecesse ou estivesse ali por acaso - que tipo de fonte uma máquina de escrever usava, por exemplo. Uma mais previsível ou mais rebuscada?”. E completa Kim: “Isso pode parecer trivial, mas mostra que o detalhe é importante, pois ele praticamente se torna a própria obra quando se trata de arte conceitual”. Vale observar que esse referido contexto artístico certamente influenciou de alguma forma a estética e a sonoridade do Sonic Youth, banda que abusou de experimentalismos melódicos, de ruídos e de dissonâncias.
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| "As mulheres são anarquistas e revolucionárias naturais". - Kim Gordon |
No final dos anos setenta, Kim Gordon estudou no Otis Art Institute. Sua primeira exposição foi realizada poucos anos depois, em 1981. Cabe dizer que ela contribuiu com inúmeros campos culturais diferentes, como moda, design, cinema, pintura, etc. A título de curiosidade, vale dizer que antes de seguir sua carreira artística, trabalhou como ajudante de garçom e assistente de escritório.
No livro, Kim também conta o quanto a convivência com Keller, seu irmão esquizofrênico, foi dramática e deixou marcas na artista, embora ela também assuma sua consideração e carinho por ele. Keller sempre foi inteligente e apresentou autores importantes para Kim (como Nietzsche, Balzac e Sartre, por exemplo), porém, também fazia brincadeiras agressivas e um tanto perturbadoras. Uma vez, por exemplo, pulou nu na cama da irmã. Keller se formou na Universidade da Califórnia e fez mestrado em clássicos na Universidade de Berkeley , sendo que foi nessa época que teve seu primeiro surto psicótico completo. Depois desse episódio, piorou bastante e precisou ser internado numa casa de repouso. Keller faleceu no início de 2023.
Em uma de suas fotos mais icônicas, vemos Kim vestindo uma camiseta verde na qual está escrito em letras pretas discretas: "Girls invented punk rock, not England". De fato, o punk não nasceu na Inglaterra, ele apenas amadureceu, desenvolveu-se e teve seu auge no país. E as mulheres, em sua própria natureza, talvez tenham, de fato, inventado o punk rock. Certa vez, Kim fez a seguinte declaração: “As mulheres são anarquistas e revolucionárias naturais, porque elas sempre foram cidadãs de segunda classe e tiveram que fazer o seu próprio caminho”. Na biografia, a baixista, que sempre mostrou envolvimento com o feminismo, comenta que em geral as mulheres não têm realmente permissão para “mandar ver”, para agir como gostariam e ser o que desejam. A esse respeito, escreve: “(...) Culturalmente nós não permitimos que as mulheres sejam tão livres quanto elas gostariam e isso é assustador. Nós ou rejeitamos essas mulheres ou as consideramos loucas (...) No final do dia é esperado que as mulheres sustentem o mundo, não que o aniquilem”. (p. 137, 2015). Kim também alfinetou Lana Del Rey, ao expressar sua indignação com a banalização do feminismo e das lutas das mulheres: “Hoje temos pessoas como Lana Del Rey que nem sabem o que é feminismo, que acreditam que as mulheres podem fazer tudo o que quiserem, o que, em seu mundo, é flertar com a autodestruição, seja dormindo com homens mais velhos nojentos ou sendo estuprada por um grupo de motociclistas". A crítica se refere a um polêmico videoclipe em que Del Rey aparece sendo violentada sexualmente e também serve, sobretudo, como resposta a uma entrevista concedida certa vez pela cantora pop, na qual disse: “Não estou interessada em feminismo. Minha ideia de uma verdadeira feminista é uma mulher que se sinta livre o bastante para fazer o que quiser”. Kim ainda indagou nesse trecho do livro: “Se ela realmente acredita que é bonito quando os músicos desaparecem numa espiral de drogas e depressão, por que ela não se mata?”. No mesmo ano, Gordon disse também que Lana Del Rey “não sabe nada sobre feminismo” e que é popular porque faz música fácil, convencional e que “apela para bases genéricas”, razões pelas quais a cantora conseguiu tornar-se famosa. O eixo das críticas de Kim consiste na ideia de que há uma indústria machista por trás de imagens e lutas banais do feminismo e, portanto, é preciso que haja cautela e atenção para que ações aparentemente de cunho feminista no universo musical não estejam, na verdade, alimentando fantasias masculinas e discursos machistas. Ela está certíssima em relação a isso. Às vezes, afinal, conceitos ilusórios de liberdade e de luta apenas nos escravizam ainda mais e alimentam os detentores do poder.
Kim Gordon é muito mais que uma baixista. Ela é um verdadeiro ícone cultural e provavelmente é a artista mais intelectual surgida do universo punk. É fundamental que a vejamos sob essa perspectiva que não se limita aos palcos. Precisamos de músicos militantes, pensantes, ousados e criativos como Kim. As tais bases genéricas que fomentam a indústrias musical saturam e são fracas. Nossas mentes prezam por um alimento mais profundo, por um estímulo sonoro mais desafiador, capaz de dialogar com a nossa alma e fazer nosso corpo responder automaticamente a isso. Precisamos muito do Sonic Youth!
Referências:
GORDON, Kim. A garota da banda. Rio de Janeiro: Fábrica231, 2015.
Por Juliana Vannucchi
“Eu adorei esse lugar, sua elegância miserável e a história que ele guardava de forma tão possessiva... Muitos escreveram, conversaram e tiveram convulsões nessas casas de bonecas vitorianas. Tantas saias haviam balançado naquelas desgastadas escadas de mármore. Tantas almas transitórias se casaram, deixaram uma marca e sucumbiram aqui.”
Patti Smith
Construído entre os anos de 1883 e 1885 e inaugurado em 1884, o imponente Hotel Chelsea, que possui um total de doze andares e localiza-se na 222 West 23rd Street, figura entre os prédios mais antigos de New York, Atualmente, é considerado um importante ponto turístico. Na realidade, desde a época de sua construção, o hotel já despertava a atenção popular por ter sido o primeiro prédio comercial da cidade, por estar entre os mais altos e também por ser, desde os primórdios, visualmente expressivo. O espaço tornou-se especialmente conhecido por ser um dos locais mais emblemáticos da história do rock and roll, sendo palco de incicentes trágicos, zona de inspiração e abrigo para ícones deslocados do mundo da música. Ao longo do tempo, marcaram presença no Chelsea algumas das lendas mais prestigiadas da história do rock, como Iggy Pop, Jim Morrison, Patti Smith, Iggy Pop, John Cale, Patti Smith, Greatful Dead, Alice Cooper, Pink Floyd, Jeff Beck, Dee Dee Ramone, Leonard Cohen, Phil Lynott, Janis Joplin, Sid Vicious, Jimi Hendrix e muitos, muitos outros, além de ter hospedado alguns dos nomes mais influentes da literatura mundial, como Allen Ginsberg, Mark Twian, Jack Kerouac, Arthur C. Clarke (que, inclusive, escreveu o o clássico “2001: Uma Odisseia no Espaço” num quarto do hotel) o casal de intelectuais Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre & muitos outros célebres escritores. Ademais, cabe citar, ainda que brevemente, que muitos pintores, cineastas, fotógrafos, atores e atrizes dos mais conceituados tiveram passagem pelo Hotel Chelsea, dentre os quais, destacam-se Stanley Kubrick, Al Pacino e Dennis Hopper – mas a lista é muito mais extensa. Á título de curiosidade, vale dizer também que sobreviventes do Titanic passaram um tempo hospedados lá...
O hotel em si, histórica e brevemente falando, oscilou entre momentos de ostentação e glória e de enfrentamento de crises. Durante os anos setenta, a maioria de seus ocupantes eram moradores fixos e, nesse período, o ambiente começou a entrar em situação declínio, tendo ocupações muito precárias e uma alarmante infestação de baratas. Isso, no entanto, não impediu, por exemplo, que estrelas do teatro e do cinema vivessem por lá. Foi um momento real de crise, mas que foi insuficiente para afastar a atenção pública. Na verdade, a aura decadente, de certa forma, apenas tornou o espaço mais interessantee charmoso para algumas pessoas, sendo que foi justamente no decorrer dos anos setenta que o ambiente se tornou propício e popular entre músicos e bandas de rock. Na época em questão, o uso indiscriminado de drogas e bebidas passou a imperar descontroladamente no hotel e um bordel operava em suas instalações. Era um ambiente, genuinamente perigoso, repleto de assalto, roubos, suicídios, morte e violência. Enfim... condições que muitos evitam e tantos outros buscam...
Aliás, nesse ponto de nossa abordagem, é preciso mencionar também que há um lado bastante sombrio em relação à história do hotel, uma vez que várias mortes brutais aconteceram por lá, rendendo ao local a fama de mal-assombrado! A morte mais conhecida do hotel, sem dúvida foi a de Nancy Spungen, companheira de Sid Vicious, mítico baixista dos Sex Pistols, que encontrou o corpo da namorada debaixo de uma pia de banheiro, na manhã do dia 12 de outubro de 1978. Ela havia sido violentamente esfaqueada no abdômen. Sid confessou que eles tiveram uma forte discussão na noite anterior e, em desespero, após encontrar Nancy sem vida, tentou limpar a faca usada para matá-la. Ele foi acusado pelo crime sangrento e chegou a ser preso, mas sua fiança logo foi paga e o músico normalmente negava a autoria do crime, embira algumas fontes aleguem que tenha admitido em certas ocasiões. Vicious veio a óbito poucos meses depois do ocorrido, antes mesmo que acontecesse o julgamento do caso. Rockets Redglare, um fornecedor de drogas que frequentava o local também foi acusado e aparentemente, assumiu o crime em círculos de amigos. Porém, de modo geral, devido a todos esses aspectos, até hoje, o assassinato de Spungen permanece sendo um evento nebuloso e envolto em mistérios. Falando nesse lado obscuro, Dee Dee Ramone, famoso baixista do Ramones, chegou a escrever um livro chamado “Chelsea Horror Hotel” no qual relatou como foi a experiência de viver no Chelsea e, em seus registros, fala a respeito da presença de demônios e de energias atípicas. Entretanto, essas pinceladas sobrenaturais, parecem ter sido apenas uma cartada usada por Dee Dee para tornar seu livro mais atrativo.
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| O Hotel Chelsea foi um espaço cultural de extrema importância. Foi palco de incidentes, zona de inspiração e abrigo para ícones do rock and roll. |
Reflitamos: Qual outro lugar no mundo foi capaz de atrair tantos espíritos talentosos e geniais, de áreas tão diferentes? Parece que tudo aconteceu naqueles quartos e corredores, habitados por uma clientela diversificada, pelos quais cambaleavam diariamente personalidades boêmias e transitavam figuras excêntricas, aspirantes a artistas, almas eufóricas, talentosas, depravadas e elegantes, que transformaram o espaço num campo minado decadente de drogas e álcool e ao mesmo tempo, num verdadeiro polo artístico no qual ocorriam experimentos de vanguarda. Desde seus primórdios, o hotel recebeu inquilinos muito variados, de ocupações e classes sociais bem distintas – e na maior parte das vezes, todos “juntos e misturados”. E, o mais importante é que o hotel sobreviveu a todo tipo de mudança. Leiamos e pensemos nas observações feitas pelo jornalista Pete Hamill sobre o público tão variado que passou por lá: "Radicais na década de 1930, marinheiros britânicos na década de 40, Beats na década de 50, hippies na década de 60, poseurs decadentes na década de 70". Ainda, dentro desse âmbito, é válido citar uma menção datada de 1993, publicada pelo The New York Times: "Teimosamente resistente à mudança, o Chelsea está - ainda - na moda." O repórter em questão ainda ilustrou o hotel da seguinte maneira: “É uma Torre de Babel de criatividade e mau comportamento que, no entanto, permaneceu um sucesso”. No contexto específico do rock and roll, enfoque de nosso texto, podemos considerar que o hotel serviu como um verdadeiro abrigo para almas marginalizadas, desajustadas e deslocadas. Foi um espaço quer surgiu de passagem ou mesmo residência para artistas que estavam existencialmente perdidos e/ou que precisavam de um ambiente confortável para poder produzir sua arte com maior liberdade. Nesse sentido, o Chelsea Hotel deixou como legado inúmeras histórias interessantes para os fãs do rock, como, por exemplo, o fatídico encontro entre Leonard Cohen e Janis Joplin, ocorrido num elevador, que acabou tornando-se um breve romance, cuja história foi imortalizada na canção “Chelsea Hotel #2”, na qual Cohen relata momentos íntimos vividos com a amante e expõe seus sentimentos de maneira honesta, eloquente e crua.
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| Joplin foi uma das tantas personalidades lendárias que marcou presença no Chelsea. |
Andy Warhol, brilhante artista norte-americano, grande mestre da pop-art e guru do punk rock, usou o Hotel Chelsea para suas ousadas criações artísticas. Lá, em 1966, ao lado do coprodutor Paul Morrisey, ele gravou parte do filme “Chelsea Girls”, produção que mostra a vida cotidiana de algumas mulheres conhecidas por Andy e que viviam no local. É um longa de cunho experimental, bastante exótico, gravado com pessoas reais que interpretaram a si mesmas, e conduzido de maneira bem peculiar (vemos, por exemplo, imagens sendo mostradas na tela dividida ao meio, sendo um lado da tela em P&B e outro colorido). É um filme um pouco difícil de ser digerido e por isso, foi um tanto mal interpretado, recebendo bastante crítica negativa. Contudo, foi uma produção libertadora e que influenciou muitos cineastas de gerações seguintes. Curiosamente, cabe destacar que o título do filme inspirou o nome do primeiro álbum solo de Nico, ex-Velvet Underground, chamado “Chelsea Girl”. Aliás, muitas músicas de alguns dos mais renomados mitos do rock foram influenciadas por vivências no local, ou fazem até mesmo alusões diretas ao hotel. É o caso da famosa “Third Week In The Chelsea”, de Jefferson Airplane, “We Will Fall”, clássico soturno do The Stooges, da balada “Midnight In Chelsea”, de Bon Jovi e tantos outros hinos atemporais. Além disso, o clip oficial da espetacular faixa “Edie (Ciao Baby)”, do The Cult, foi gravado nas intermediações do local e, assim, em certa medida, a música e o vídeo são uma verdadeira homenagem ao hotel.
Como pudemos observar, o Hotel Chelsea foi um recanto cultural que rendeu ao mundo incontáveis e brilhantes produções artísticas. Lá, pessoas imensamente talentosas sentiram-se suficientemente acolhidas e encontraram a atmosfera ideal para colocar suas ideias em prática e vivenciar suas liberdades criativas. Ademais, o Hotel Chelsea também foi um ambiente que ajudou particularmente a subcultura punk a se consolidar no cenário norte-americano, uma vez que vários músicos memoráveis que participaram do movimento em questão viveram e/ou se hospedaram no local. Por todos os aspectos listados e mencionados, esse solo consagrado, que também é caracterizado pela magia de sua bela arquitetura, se tornou, de modo geral, um point expressivo para a própria história social, ideológica e estética do rock and roll.
Referências:
https://aventurasnahistoria.uol.com.br/amp/noticias/vitrine/historia-hotel-chelsea.phtml
https://veja.abril.com.br/comportamento/um-icone-renovado-o-retorno-do-chelsea-hotel-apos-11-anos-de-hiato/mobile
https://en.wikipedia.org/wiki/Hotel_Chelsea
https://www.vanityfair.com/culture/2013/10/chelsea-hotel-oral-history
https://www.kidsofdada.com/blogs/magazine/17972221-inside-the-chelsea-hotel
https://cademeuwhiskey.wordpress.com/2017/05/26/chelsea-historias-e-lendas-do-hotel-favorito-do-rock-nroll/
https://www.vanityfair.com/culture/2013/10/chelsea-hotel-oral-history
Por Juliana Vannucchi e Neder de Paula
Em 2024, mais precisamente no dia 27 de março, o lendário grupo “Os Maltrapilhos” completou 30 anos de existência. A banda é amplamente reconhecida como uma das principais e mais queridas representantes do punk rock nacional, ainda que sua popularidade esteja muito além das fronteiras de nossas terras. Natural de Ceilândia, conhecida região do Distrito Federal que abrigou vários grupos punks, atualmente a banda conta com Márcio nos vocais e também é composta pelo guitarrista Rafael, pelo brilhante baixista Ismael, pelo baterista Magrão.
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| Com uma mensagem que atravessa culturas e idiomas, a banda continua a inspirar uma legião de seguidores. |
Com sua atitude irreverente e comprometimento com causas sociais, Os Maltrapilhos não apenas moldaram o cenário musical, mas também deixaram um legado duradouro que transcende o mundo da música. Suas performances enérgicas e suas letras provocativas continuam a ressoar com uma nova geração de fãs, demonstrando que o punk rock ainda é uma ferramenta poderosa de expressão e resistência. Desde os primórdios, por meio de sua arte, a banda travou uma verdadeira luta pela liberdade, pela democracia, pelo mutualismo, e pela revolta e, em função disso, com letras de cunho crítico e reflexivo, busca denunciar as faces obscuras presentes em nosso país, apresentado pautas sociais e políticas revelantes que arquitetam esse cenário lírico e oferecendo ao mundo aspectos crueis da realidade que nem sempre queremos ver. O grupo, dessa forma, visa utilizar a música como um catalisador capaz de instigar o ouvinte a refutar o mundo ao seu redor para que seja capaz de desvincular-se, assim, de todas as formas de ignorância e opressão que o cercam. Em tempos hostis, nos quais a intolerância e a injustiça imperam, as mensagens dos Maltrapilhos tornam-se mais fundamentais do que nunca.
No decorrer de todo esse tempo de estrada, o grupo construiu uma imagem sólida e influente no contexto do rock nacional, tornando-se uma verdadeira lenda brasileira de punk rock. Mas é evidente que sua influência vai muito além do sucesso nacional. Com uma base de fãs global e uma mensagem que atravessa culturas e idiomas, a banda continua a inspirar uma legião de seguidores dedicados, provando que, mesmo em um mundo em constante mudança, a essência do punk rock - a rebelião, a autenticidade e a luta por justiça social - permanece tão relevante como sempre.
Por Gregory Ferraz
Embora, de modo geral, em seu trabalho artístico, a fashion designer Pam Hogg busque de alguma forma a perfeição, ela prefere sempre encontrar no mundo a beleza da imperfeição. Em suas memórias afetivas, Hogg fala que quando não se tem nada, é possivel enriquecer-se com contos e invenções... nesse caso, sugere que se sintonize num rádio, mistérios e suspenses para tocar, e que sempre sobrevivamos e floresçamos com o poder da imaginação, que diante de qualquer carência, é capaz de nos prencheer e nos enriquecer.
Original,
inventiva, criativa, provocativa, audaciosa, dentre outras diversas outras
qualidades, Pam Hogg é uma designer de moda/musicista/cineasta que porta uma
força caleidoscópica e possui uma exuberância caótica que dificilmente se
consegue observar em uma única pessoa, devido à intensidade e obstinação
que são requeridas para ter esse raro perfil. Por isso, sempre vi a Pam como uma das poucas pessoas capazes de se fazer de recetáculo para suas próprias criações. Ela consegue capturar as ideias que flutuam em sua alma, o caos das suas colisões mentais e os fragmentos que daí partem. É capaz de capturá-los e juntá-los, fazendo com eles uma espécie de quebra-cabeça mágico. Esse processo criativo tão único faz com que Pam ocupe um local de abordagem não ortodoxo e muito específico dentro da moda, um local permeado pelo caos, que surge dessas colisões e capturas das suas experiências mentais.
Contadora de histórias, romântica, ousada, feroz, frágil, forte, com um background pós-punk londrino típico dos anos 80, ela consegue com seu design, tecer, costurar e conduzir sua imaginação em representações imagéticas de forma muita íntegra. Pam cria, dirige, produz e estiliza sozinha suas coleções, sempre tendo a autoconsciência da sua prosperidade na perturbação e na desordem, e é com esse pensamento que ela nunca se esquiva da política, sendo por isso, uma grande defensora dos oprimidos e renegados, carregando em si a missão ética pela qual vive, fomentando a crença na força das mulheres, na defesa dos direitos homossexuais e militando contra o imperativo do individualismo face à pressão para um conformismo medíocre.
Assim, extravagante, contraditória, não convencional e dona de um profundo subconsciente, Pam leva seu coração e nas mangas a sua honra; em suas taxinhas, no seu látex e no seu pvc, sua justiça e creio que entre suas fitas, tesouras, agulhas, botões, colorblock e upcycling, nos resta o agradecer a Pam por nos mostrar que de uma punk bem atípica, de uma intransigente praticante do DIY e de uma autoditada, é possível saber que a desordem divina que convive dentro de cada um de nós, pode ser validada no mundo em que vivemos e estar associada a sucesso e construções positivas.
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| Um momento divino é quando uma pessoa me retira do estado de ignorância. |
Pessoalmente, acho que um momento divino é quando uma pessoa me retira do estado de ignorância, e essa é a Pam, uma pessoa sempre disposta a dar ao mundo o que o mundo não sabe o que quer, por isso, penso não haver possibilidade de se deparar com a obra de Pam Hogg sem ser arrebatado. Se ela se dirige na entrega do não óbvio, de remover barreiras do normativo e quebrar as regras que podem nos sufocar e nos enrijecer como sociedade, realmente, não há outra forma de abordar Pam a não ser pelo senso de agradecimento. Qualquer um que busque viver nessa vida de forma intensa, real e que queira acordar para a densa realidade, sabe o quanto são custosos os incômodos do caminho e, em tal sentido, nos depararmos com o ritmo alucinante da Pam equivale a nos depararmos com uma grande guerreira que tem uma jornada de muita reclusão autoimposta e que tem como caminho um percurso que migra através da escravidão e da restrição, até a aquisição de uma iluminação espiritual individual e coletiva. Um grande salve para a querida Pam Hogg.
Por Juliana Vannucchi
O Devo foi uma das bandas mais inovadoras dos anos setenta. Seus primeiros passos foram dados precisamente em 1974, e os embriões do grupo foram Gerald Casale e Mark Mothersbaugh, dois estudantes do curso de Arte da Universidade de Kent, em Ohio.
A grande chance do Devo engrenar veio com a trilha do curta-metragem no qual estrelaram, chamado “The Truth About De-Evolution”, que ganhou um prêmio no Festival de Cinema de Ann Arbor, em 1976. Quando o filme foi visto por David Bowie e Iggy Pop, os dois ficaram impressionados com o Devo e asseguraram para a banda um contrato com a gravadora Warner Bros. Foi assim que, com o produtor Brian Eno, o disco de estreia “Q: Are We Not Men? R: Qe Are Devo” ganhou vida. A partir disso, o grupo deslanchou numa carreira que foi feita mais de acertos do que de erros. De maneira geral, toda a trajetória do Devo foi brilhante e inspiradora.
No pano de fundo das origens do Devo, encontrava-se o conceito de “de-volução”, segundo o qual a humanidade, após chegar ao seu nível mais alto de evolução, iniciou um processo de declínio. Através de suas produções musicais, o Devo mostra que, de acordo com essa concepção, o ser humano, conforme vai se tornando mais decadente, apresenta um comportamento mecânico e pensamentos uniformes. Semelhantes a robôs, os homens da “de-volução” são revestidos por uma alienação comprometedora. Não mais pensam por si mesmos e não escolhem nada de maneira autônoma, sendo sempre condicionados por terceiros, além de estarem sempre imersos num estado de profunda alienação. Trata-se de um regresso preocupante. Numa entrevista concedida em 2019, Mark Mothersbaugh disse que na época em que essa ideia foi desenvolvida, ele pensava que a dupla estava paranoica. Contudo, lamenta perceber que tal concepção se concretizou e, na mesma entrevista, Gerald Casale comenta que as previsões que fizeram não apenas se efetivaram, mas também simplesmente superaram os seus medos. O baixista ainda reflete a respeito de nossos tempos: “(...) são 7 bilhões de pessoas no planeta e o caos reinando como o principal fator de como as pessoas tomam decisões - o caos e o medo”. Mark complementa a consideração filosófica de seu colega de banda e emenda: “E está se multiplicando rapidamente. São 7 bilhões de pessoas, indo cada vez mais rápido, e não estamos aprendendo nada."
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| O conceito de de-volução trabalhado pelo Devo parece ter canalizado com maestria o temor de Voltaire, ao mostrar que o ser humano está perdendo sua capacidade de reflexão autônoma. |
Voltaire, um dos maiores nomes do Iluminismo, viveu muito antes de os meninos do Devo. Em suas obras, o espirituoso pensador francês não abordou a “de-volução”, no entanto, ele sempre se mostrou preocupado com a incapacidade que alguns de seus contemporâneos tinham de pensar por si mesmos, sem serem instrumentalizados por instituições como o Estado e a Igreja. Voltaire prezava pela liberdade de pensamento e pelo fortalecimento do senso crítico, que poderiam ser alcançados se as pessoas fizessem bom uso da razão. Não à toa, certa vez escreveu: “Ouse pensar, amigo” – frase simples, curta, mas arrebatadora! Por meio de seus livros, tinha como um de seus principais objetivos fazer com que as pessoas despertassem e, dessa forma, rompessem as amarras que escravizavam suas mentes. Voltaire ensina que para exercitar o racionalismo crítico seria preciso vencer a superstição, que ele caracteriza como sendo uma “doença do espírito”, e o fanatismo, definido como uma espécie de seita que torna o homem firmemente convicto sobre algo, deixando-o tolo, horrível e beirando a irracionalidade. Além disso, prega que devemos sempre exercitar a tolerância, definida por ele como o “apanágio da humanidade” e cuja prática, em suma, consiste em não ser impiedoso, não perseguir nem transformar o diferente em inimigo. Tolerar é apaziguar discórdias e perdoar a própria tolice, pois segundo o iluminista francês, todo ser humano está sujeito ao erro, a fraquezas e à mutabilidade. É neste ponto que o célebre iluminista e a banda se encontram: o conceito de de-volução trabalhado pelo Devo parece ter canalizado com maestria o temor de Voltaire, ao mostrar que o ser humano está perdendo sua capacidade de reflexão autônoma, sendo cada vez mais controlado pelo sistema tradicional vigente que existe ao seu redor e mostrando-se cada vez mais cego em seu fanatismo, alienado em sua superstição e mais intolerante.
O que Voltaire não imaginava era que o ser humano não seria unicamente dirigido por instituições como Igreja e Estado, mas também por novos “ídolos”, como consumismo e tecnologia. Isso porque em nossos tempos, além das instituições tradicionais que nos prendem, também somos asfixiados pelas mídias sociais e pelo sistema capitalista. De acordo com o conceito de “de-volução”, estamos cada vez menos civilizados e sentindo o efeito desumanizador da tecnologia. O homem carece cada vez mais de autenticidade, e vemos as pessoas cada vez mais “enlatadas”, isto é, mais parecidas umas com as outras, mais “robóticas” - não à toa o Devo utilizava uma estética futurista em suas apresentações, justamente para mostrar o quanto os homens seriam todos iguais futuramente. Acertaram em cheio: os padrões de beleza, as intervenções estéticas, as roupas e a internet tendem a padronizar não apenas a aparência das pessoas, mas seus comportamentos e pensamentos. Elas parecem sair programadas de fábricas.
Aqui, vale citar que Voltaire também atribuía um valor imenso à dúvida e ao espírito questionador. Pode-se dizer que, para ele, duvidar era mais revolucionário do que responder. Hoje, entretanto, as massas fazem cada vez menos perguntas e reproduzem cada vez mais aquilo que lhes é despejado como certeza (vide as assombrosas fake news que, aliás, serviram para consolidação da extrema-direita... Bolsonaro, numa tentativa de normalizá-las chegou, inclusive, a declarar que elas “são parte da vida”).
A crença cega e irracional em tantas “supostas verdades” é um marco de nosso mundo. A maior parte das pessoas não está ousando pensar, não está sendo assolada pelo páthos, não confronta a realidade, não filtra e não refuta informações. Simplesmente “copia” e “compartilha” informações sem consultar sua razão. É, Voltaire, lamento dizer, mas a realidade atual é assombrosa.
Mestres incontestáveis do gênero art rock, o Devo criou uma prestigiosa fusão entre a atmosfera da ficção científica e um clima futurista, que contou com pinceladas surrealistas e experimentalismos sonoros. Essas combinações tão singulares confrontavam a essência da maior parte das bandas da mesma época, que seguiam a trilha do punk rock e, por isso, podemos considerar que o Devo foi uma verdadeira vanguarda musical. Ainda que tenha surgido mediante a eclosão do punk norte-americano e certamente tenha herdado alguns elementos desse movimento, a banda era excêntrica e outsider, aspectos que a levaram para outro caminho. E se tem uma coisa que acredito que ficou clara neste texto é que a banda, além de toda a primazia estética digna de admiração, postulou um alerta e fez um diagnóstico preciso de nossos tempos que, definitivamente, merece ser levado em conta. Por outro lado, temos a obra de Voltaire. Ela está aí, à nossa disposição há séculos para alertar sobre os problemas oriundos da falta da liberdade de pensamento. É simples: “Ouse pensar, amigo”. Desconstrua, questione, ao menos tente sair da caverna!
Referências:
DURANT, Will. A Filosofia de Voltaire. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
PIMENTA, Jussara Santos. Voltaire: O Versejador, o Literato, o Comunicador. PUC – Rio. Revista Eletrônica UFSJ, 2002.
RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.
VOLTAIRE. O Filósofo Ignorante. Porto Alegre: L&PM Editores, 2013.
VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. São Paulo: Editora Escala, 2008.
https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2009/apr/30/devo-art-punk-80s-revival
https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2010/jun/17/devo-something-for-everybody-cd-review
https://web.archive.org/web/20071011183248/http://clubdevo.com/mp/bio.html
https://kcpr.org/2019/10/21/gut-feeling-an-interview-with-devo-the-band-that-predicted-the-future/
https://www.britannica.com/topic/Devo
Por Pedrinho Sangrento
Pouco se sabe sobre a vida pessoal da discreta Bilinda Butcher, mas o pouco que sei me prova que ela é alguém que você também deveria conhecer. Bilinda viveu teve um filho em sua adolescência, de quem ela cuidava sozinha, sem contar com a ajuda de um pai. Isso acorreu antes mesmo de ela se juntar ao My Bloody Valentine. As letras de "No More Sorry", escritas por Butcher são como uma carta muito pessoal de Bilinda ao seu filho Toby, e parecem relatar experiências um tanto traumáticas de seu passado. Numa entrevista, certa vez Bilinda disse: "A terapia da hipnose me fez lembrar de coisas da minha infância que me explicaram o porquê de eu estar vivendo com um parceiro tão abusivo, e eu percebi que muito do que aconteceu na minha infância não deveria ter acontecido nunca. Muito disso aparece nas minhas letras. Muito desse desconforto".
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| Bilinda foi o ingrediente final na receita que criou uma banda praticamente mitólogica. |
A jovem Bilinda foi capaz de transformar memórias dolorosas que ela queria esquecer numa poesia surreal, caracterizada por um toque de mistério e melancolia que enriqueceram o som do MBV e que, em conjunto, formaram a cara da banda. Aliás, não é a toa que o rosto de Bilinda é capa do EP "Feed Me With Your Kiss", de 1988. E essa seria a única (até então) vez em que a banda usaria uma capa com o rosto de um membro aparecendo com tanta nitidez. O My Bloody Valentine conta também com outra mulher incrível, a Debbie Googe, uma baixista à altura de Kim Gordon, cujos movimentos frenéticos que lembram os pioneiros do punk rock, como o MC5 e, além disso, ela tem um look de rockstar dos anos 90 completamente icônico.
O MBV é uma banda muito importante, pois foi praticamente responsável por criar o que veio ser a segunda onda de shoegaze do começo dos anos 90, e o toque feminino mágico de Debbie e Bilinda com os elementos sonoros brutais como a bateria selvagem com viradas de metralhadora de Colm e a guitarra de serra elétrica melódica de Kevin, em conjuto deram luz a uma das bandas mais autênticas e influentes da década de 80. E o mais importante, vale ressaltar, é uma banda com um rosto feminino.
Bilinda Butcher é tão importante para o MBV, quanto Debbie Harry para o Blondie, e sua influência continua sendo enorme nos dias de hoje. Ela foi o ingrediente final na receita que criou uma banda praticamente mitólogica. Bilinda, seja lá quem ela é for por trás da sua obra, é uma verdadeira heroína. Definitivamente, uma estrela que brilha no rock and roll.
Por Juliana Vannucchi
No final dos anos 80 e início da década seguinte, quando o punk rock já não era mais uma novidade, a cidade de Manchester abrigou uma efervescente onda de bandas de rock que despontavam numa fascinante maré de criatividade. Esse período histórico e as características sonoras dessa geração de grupos emergentes ficou conhecido como “Madchester”. Foi justamente nesse contexto que surgiu o The Stones Roses, grupo formado em 1983, que contava com o talentoso Ian Brown nos vocais, John Squire na guitarra, Mani no contrabaixo e tinha Reni como baterista.
O primeiro álbum da banda, intitulado “The Stone Roses” foi lançado somente em 1989. Alguns anos mais tarde, em 1994, o quarteto de Manchester presenteou o mundo com o segundo e último disco de estúdio, chamado “Second Coming”. Os integrantes ficaram juntos até meados da década de noventa, quando, por fim, se separaram. Posteriormente, em 2011, anunciaram uma turnê e chegaram até mesmo a produzir novos materiais. No entanto, a carreira da banda nesse retorno não emplacou tanto como quando o debut que chamou a atenção do mundo todo foi lançado. Esse memorável álbum de estreia carrega um total de 11 faixas e possui uma aura imensamente original, cuja musicalidade desvinculava-se tanto do punk rock, quanto do pós-punk, gêneros mais populares do período em que foi gravado. Em função desses diferenciados aspectos criativos e de sua peculiaridade estética, a banda é considerada representante do “alternative rock”, uma vez que foi essencialmente transgressora, escapando dos padrões de sua época e conseguindo aventurar-se em novos terrenos sonoros.
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| Escutar essa banda é uma viagem fantástica, um deleite libertador |
O “The Stone Roses” é album que possui um carisma atemporal e cativante. Suas melodias grudam na cabeça e fisgam o coração, enquanto os sentimentos melancólicos despejados por Ian Brown soam como um sagrado templo acolhedor. É um disco extremamente qualificado em todos os sentidos possíveis, com variadas influências estilísticas e, em função desse conjunto de elementos, é improvável encontrar alguém que não se encante quando o ouve. Escutar essa obra-prima é uma viagem fantástica, um deleite libertador e repleto de mágica! O ouvinte simplesmente se perde por completo na experiência sonora profunda das faixas desse apaixonante disco.
Vale citar que a icônica capa desse aclamado álbum chegou, com justiça, a ser eleita pela revista “Q” como uma das "100 melhores capas de discos de todos os tempos". No artigo da “Q” a respeito da arte da capa, o guitarrista Squire, que a criou, revelou: “Ian certa vez conheceu um artista francês quando ele estava viajando pela Europa. Esse cara estava presente em tumultos e contou a Ian como limões foram usados como antídoto para gás lacrimogêneo. Havia um documentário com uma ótima cena no início, de um cara jogando pedras na polícia. Gostei muito da atitude dele”. Essa história contada por Squire, não apenas serviu como pano de fundo para a criação da capa do álbum, mas também inspirou uma letra da música "Made Of Stone".
Essa banda tão inovadora nos deixou como herança um álbum catártico que é capaz de transformar qualquer momento da vida numa experiência atípica e verdadeiramente cinematográfica. O The Stones Roses oferece a trilha sonora ideal para dar sabor a essa existência estranha, que por vezes é tão amarga e indigesta.
Por Neder de Paula
O mundo do rock independente foi profundamente marcado nos anos 80 e 90 por uma banda que, mesmo não conquistando inicialmente os holofotes comerciais, moldou o cenário musical com sua abordagem única e visceral. Estamos falando dos Pixies, uma banda que deixou sua marca indelével na história do rock alternativo.
Formada em 1986 em Boston, Massachusetts, os Pixies eram compostos por Black Francis (vocal e guitarra), Joey Santiago (guitarra), Kim Deal (baixo e vocal) e David Lovering (bateria). Desde o início, eles desafiaram as convenções, misturando elementos de punk, surf rock e indie em um som cru e inovador.
Os Pixies atingiram seu auge com os álbuns "Surfer Rosa" (1988) e "Doolittle" (1989). Faixas como "Where Is My Mind?", "Debaser" e "Monkey Gone to Heaven" tornaram-se hinos do movimento alternativo. A voz intensa de Black Francis, as letras surreais e as mudanças bruscas de dinâmica contribuíram para a singularidade da banda.
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| Os Pixies continuam a influenciar gerações de artistas, com suas contribuições ao rock alternativo reverberando em bandas contemporâneas. |
No início dos anos 90, conflitos internos e pressões comerciais começaram a surgir. Após o lançamento de "Trompe le Monde" (1991), a banda entrou em hiato. Kim Deal deixou o grupo, e os membros seguiram caminhos separados.
Houve, no entanto, um retorno triunfal: os Pixies surpreenderam os fãs em 2004, anunciando seu retorno com uma turnê mundial. Em 2014, lançaram "Indie Cindy", o primeiro álbum de estúdio em 23 anos. Embora tenha recebido críticas mistas, mostrou que a chama criativa ainda queimava.
Os Pixies continuam a influenciar gerações de artistas, com suas contribuições ao rock alternativo reverberando em bandas contemporâneas. A fusão de elementos barulhentos, melódicos e poéticos permanece uma referência inegável.
A jornada dos Pixies é um conto de resiliência e reinvenção. Do cenário independente aos grandes palcos e de volta ao estúdio, eles deixaram uma marca indelével. A discografia diversificada e o impacto duradouro atestam que os Pixies não são apenas uma banda, mas um ícone do rock independente que transcendeu gerações. Seu legado, agora entrelaçado com os altos e baixos da vida musical, continua a inspirar e influenciar, perpetuando o espírito inovador que os colocou no mapa musical há décadas.
Audição sugerida (leia-se indispensável)
1. Surfer Rosa (1988)
2. Doolittle (1989)
3. Bossanova (1990)
4. Trompe le Monde (1991)
5. Indie Cindy (2014)
6. Head Carrier (2016)
7. Beneath the Eyrie (2019) 8. Doggerel (2022)



Long Live Rock 'n' Roll