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SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

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WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

10 ÁLBUNS DE ROCK QUE COMPLETAM 50 ANOS EM 2020:



 Por: Vannucchi e Marinho

2020 é um ano especial para os amantes do Rock And Roll, pois é um período no qual alguns dos maiores clássicos desse gênero musical estão completando cinquenta anos. O tempo pode passar, mas a atemporalidade, no final das contas, certamente é um dos fatores que faz com que um determinado álbum (o outra manifestação artística) torne-se um clássico. Confira nossa lista e deixe seu comentário.

American Beauty - Greatful Dead:

Este foi mais um acerto do Greatful Dead, que é uma das bandas mais interessantes e poderosas do Rock norte-americano. O álbum, no geral, soa de uma maneira bem cativante, tendo uma atmosfera especialmente voltada para o Folk. Contudo, apesar de seu vigor, e dos elogios recebidos na época em que foi lançado, o “American Beuty” não atingiu o mesmo patamar de reconhecimento e sucesso de outros álbuns que fazem parte da extensa carreira do Greatful Dead.

É válido notar que este não foi o único disco que a banda lançou em 1970. Em outubro deste mesmo ano, o mundo também conheceu o “Greatful Dead”, álbum duplo gravado ao vivo.


Paranoid - Black Sabbath:

O Paranoid é o álbum preferido de muitos fãs do Black Sabbath. É sem dúvida uma obra-prima do Rock & Roll e um dos álbuns mais comerciais já produzidos pela banda. É nele que se encontram alguns dos maiores clássicos do Sabbath, como “War Pigs” e “Iron Man”. Porém, não são somente essas duas músicas que justificam seu reconhecimento e sua atemporalidade, pois o álbum, do início ao fim é simplesmente fenomenal, e oferece uma experiência catártica e emocionante capaz de afetar qualquer ouvinte. Ao meu ver, além da sonoridade incrível que ele possui, também é nesse álbum que se encontram as melhores letras da banda. É válido observar que foi também em 1970 que o Black Sabbath lançou também o seu álbum de estreia e, portanto, há duas comemorações marcantes para a banda em 2020. Tanto o primeiro disco - intitulado "Black Sabbath" - quanto o "Paranoid", foram e continuam sendo arrebatadores.

Morrison Hotel - The Doors:

O Morrison Hotel certamente não é o melhor álbum da discografia do The Doors. Embora ele seja qualificado e carregue alguns hits da banda, tal como a agitada “Roadhouse Blues” e a introspectiva “Waiting For The Sun”, ele marca um certo “declínio” do The Doors se comparado com as produções que o antecedem. Na realidade, de maneira geral, toda a fase setentista do grupo liderado por Morrison, definitivamente não foi tão gloriosa quanto a o período no qual os primeiros quatro álbuns de estúdio foram lançados, no final dos anos sessenta. Mas, de qualquer forma, esse é um trabalho competente e que, apesar de não ser tão especial, provavelmente ainda supera todos os outros que o sucederam.

Led Zeppelin III - Led Zeppelin:

Possivelmente, o Led Zeppelin III tenha sido o lançamento mais primoroso dos anos setenta e para muitos, esta foi a melhor produção de toda a brilhante carreira da banda. A primeira faixa, "Immigrant Song", por si só já vale o álbum inteiro. Mas felizmente, essa música de abertura é seguida por outras grandes pérolas como "Celebration Day", "Since I've Been Lobving You" e "Tangerine". Com uma pegada bastante Folk que é mesclada na medida com toques acentuados de guitarra, o Led Zeppelin III é um verdadeiro deleite aos fãs do Rock. Ele é profundo em sua totalidade, e consegue ser agitado, mas ao mesmo tempo doce e suave. É uma verdadeira obra prima do Rock And Roll.

Fun House - The Stooges:

O segundo álbum do The Stooges compõe a “tríade” da banda, da qual também fazem parte o “The Stooges”, que o antecede, e o “Raw Power”, que o sucede. Esses três lançamentos foram igualmente relevantes para a consolidação do Punk Rock e todos representam um valor histórico inestimável para o Rock & Roll.

O “Fun House” possui como grande diferencial o fato de ter sido gravado ao vivo. De maneira geral, podemos dizer que este é um trabalho elogiável e que foi capaz de manter a aura bruta, a indecência comportamental e as destrezas sonoras alucinantes que já estavam contidas no álbum de estreia do grupo. Contudo, talvez seja o menos memorável dentre os três grandes álbuns do The Stooges, pois o primeiro lançamento foi muito marcante por apresentar ao mundo um conteúdo surpreendente escrachante e, na sequência, após o curioso experimento de produzir um álbum com gravações realizadas durante shows, os patetas mais amados do Punk Rock deram vida ao magnífico “Raw Power”.

In Rock - Deep Purple:

Um dos álbuns mais lendários do Deep Purple e um dos mais respeitáveis de toda a história do Rock And Roll. O fato mais interessante a seu respeito é que ele foi a primeira gravação de estúdio a contar com a participação de Ian Gillan, vocalista que após esse trabalho mítico, foi aclamado pela crítica e pelos fãs, se tornando o principal expoente do Deep Purple, banda com a qual posteriormente gravaria discos ainda mais célebres do que o In Rock. Esse álbum, que foi o quarto da discografia da banda, apresenta um amadurecimento musical significativo em relação aos três primeiros que, de certa forma, eram mais "experimentais", sendo que o In Rock já apresenta uma sonoridade na qual encontramos uma linha sonora que construiu a "cara" do Deep Purple. Foi neste momento que a banda parece de fato ter encontrado o seu caminho na estrada do Rock & Roll.


The Man Who Sold The World - David Bowie:


Foi em 1970 que David Bowie lançou um dos mais ilustres álbuns de sua carreira: o “The Man Who Sold The World”, sua terceira produção de estúdio, com melodias e tonalidades bem diferentes das primeiras produções e que carregam um instrumental mais pesado, fato que o levou, inclusive, a ser comparado com bandas como Black Sabbath e Led Zeppelin.

O disco foi bem visto pela crítica, marcando assim a vasta trajetória do camaleão. O “The Man Who Sold The World” é essencialmente mais original do que os seus dois antecessores e nesta obra, Bowie apresenta uma criatividade diferenciada que não tinha mostrado até então. É possível dizer que foi esse terceiro álbum que alavancou de vez sua carreira artística e o arremessou ao mercado musical. O disco, entretanto, ao longo de sua produção, parece ter se moldado mais pelas ideias do produtor Tony Visconti do que pelas ideias do próprio camaleão. Na capa, vemos o músico usando um vestido. Essa imagem é importante pois ela representa um vestígio do perfil andrógeno que se tornaria uma assinatura da maior parte da carreira de David Bowie.

Em suma, é um álbum muito competente, mas que não chega perto do que estava por vir, nem em questão de forma, nem de conteúdo

Back In The USA - MC5:

O MC5 é um mito do Protopunk e uma das bandas mais influentes do Rock. O “Back In The USA” é o primeiro álbum de estúdio da célebre e curta discografia lançada pelo grupo, que após essa produção, teria apenas mais um álbum. Até hoje, este disco barulhento e enérgico é uma das principais referências do garage rock, gênero que foi fundado justamente pelo próprio MC5. Mas apesar de ser muito bom, e de expor toda a aura que sempre fez parte da banda, foi definitivamente superado pelo “High Time”.


Atom Heart Mother - Pink Floyd:


Este lendário álbum do Pink Floyd também está completamento 50 anos em 2020. Pode ser que você não conheça as músicas que compõe essa pérola, mas você certamente já se deparou com sua icônica “capa da vaquinha”, que se tornou um encarte marcante na história do Rock And Roll. E aliás, caso você esteja se perguntando a razão pela qual a banda lançou um disco com uma capa tão estranha, a explicação é a seguinte: os membros do Pink Floyd estavam um tanto saturados com a categorização que a mídia colocava em cima da banda e, dessa forma, pensaram em utilizar na capa do álbum uma imagem que os afastasse dos rótulos que vinham recebendo até o momento.

Esta foi a quinta produção de estúdio gravada pela banda. Para alguns, a capa é melhor do que o conteúdo musical em si, que talvez soe excessivamente repetitivo em suas experimentações, embora aos olhos dos fãs, geralmente o Atom seja mais um acerto, no qual encontra-se uma demonstração da unicidade sonora da banda. O fato é que esse foi mais um álbum atemporal do Pink Floyd.

Curiosamente, no mesmo ano em que este álbum chegava nas prateleiras das lojas, Syd Barret também inaugurava sua carreira solo...


Easy Action - Alice Cooper:

Este foi o segundo álbum lançado pelo mestre do “horror rock”, junto com sua banda. É um trabalho conciso e intenso, que dispõe de um puro Rock And Roll, e assim, soa de maneira bem envolvente. Porém, o “Easy Action”, embora seja uma produção agradável, ainda estava longe da maturidade estética que a banda atingiria nos anos seguintes. Este disco pode ser compreendido como uma espécie de “experimento”, de introdução, e de caminhada até o auge que ainda estava por vir. Por fim, pode ser considerado mais um acerto da banda, ainda que não seja extraordinário.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A AURA DIONISÍACA DE JIM MORRISON

Por: Vannucchi
 
O The Doors é uma das bandas mais populares e icônicas da prolifera e vasta história do Rock And Roll. O grupo foi formado em 1965, no estado da Califórnia e tornou-se especialmente marcante pela figura do vocalista e poeta Jim Morrison, cujo comportamento era traçado pelo excesso de ousadias e de certas singularidades, além do grande abuso na ingestão de álcool e de drogas.

Morrison, além de conduzir a voz do The Doors, também possuía afinidades com outras artes além da música. Após intenso período de leitura durante a adolescência, em 1964 ingressou na UCLA e lá estudou cinema e teatro, ao lado de grandes nomes como, por exemplo, Francis Ford Copolla. Durante sua vida, teve dois livros de poesia publicados (ambos em 1969), sendo que o primeiro dividia-se em dois volumes: “The Lords/Notes on Vision” e “The New Creatures”. A primeira obra trata-se basicamente de impressões e reflexões de Morrison acerca de inúmeros aspectos que faziam parte de seu cotidiano, tal como pessoas, lugares ou até mesmo o cinema. Já o segundo, possui linhas construídas com mais emoção e carrega estruturas poéticas mais harmônicas. Posteriormente, os dois títulos foram compilados num único volume chamado “The Lords and The New Creatures” e após o falecimento do músico, outros livros de poesia foram lançados sob organização de seu amigo Frank Lisciandro e dos pais da namorada do músico. O primeiro volume póstumo lançado chamou-se “Wilderness” (1988) e o segundo foi intitulado como “The American Night” (1990), ambos tornaram-se enorme sucesso comercial.

Além do interesse pela prática artística, o músico lia muitos autores que o inspiravam. Apreciava obras de grandes nomes da literatura, tal como Franz Kafka, Rimbaud e Charles Baudelaire e William Blake. Aliás, o próprio nome da banda, “The Doors” (em português, “as portas”) que refere-se às “portas da percepção” foi escolhido por Morrison com base em um poema de autoria de Blake, que certa vez, escreveu: “Quando as portas da percepção se abrem, tudo parece ao homem tal como realmente é: infinito”. Outra característica que certamente fez parte da carga de conhecimento de Jim Morrison, foi a Filosofia, área com a qual possuía grande afinidade. Em biografias, comumente conta-se que o músico costumava ler obras de Nietzsche, Camus e Jean-Paul Sartre. Dentre estes filósofos mencionados, Morrisson parecia nutrir um interesse especial por Nietzsche, cujo pensamento foi uma de suas grandes inspirações e, aparentemente, o líder do The Doors tentou praticar em sua vida alguns elementos propostos nas obras do filósofo alemão, conforme veremos abaixo.



Em aspectos gerais, tanto no que diz respeito ao comportamento que teve tanto em seu cotidiano privado, quanto no cenário artístico, as atitudes de Jim foram extravagantes, inquietantes e, de certa forma, intrigantes. O músico colocou a liberdade como um dos pontos essenciais de suas produções artísticas, incentivando o público a também ser livre – ao extremo, fosse lá o que cada um compreendesse como “liberdade”. Não é possível sabermos se o vocalista do The Doors estava ciente (plena ou parcialmente) de que sua selvageria poderia trazer problemas, mas Jim parecia abraçar as consequências de suas extravagâncias com certa serenidade. Abusar de entorpecentes era uma atitude que fazia parte de seu cotidiano porque o artista gostava de experiências novas, de debruçar-se na plenitude de sua vida. Há uma letra (“Unhappy Girl”) que parece demonstrar bem essa maneira como o músico encarava a vida:

    (…)

    “Menina triste

    Rasgue sua rede

    Arrebente todas as suas grades

    Derreta sua cela hoje mesmo

    Você foi condenada a uma prisão

    Que você mesma criou


    (…)

    Não perca a sua chance

    De nadar no mistério

    Você está morrendo numa prisão

    Que você mesma criou
”.  (tradução livre).

Na letra, vemos a exposição daquilo que Jim pretendia por intermédio sua arte: incentivar a liberdade, demolindo paradigmas. Grades estas, das celas que muitas pessoas criamos (ou nas quais nos inserimos) e que nós próprios podemos romper. O ser humano é livre para escolher, para tomar caminhos diversos e o faz. Porém, muitas vezes o faz sob influências externas, não de maneira pura e honesta, não como gostaria. É nesse momento em que surgem as celas que o aprisionam.

Obscenidades nos palcos, provocações à plateia, desafiar as autoridades e, a qualquer momento, proferir o que se encontrava em sua mente, foram alguns dos atos que Jim concretizou, mas que, como qualquer ação gera reação. Jim Morrison, certa vez, autointitulou-se como o “rei orgástico”, codinome cabível considerando que em muitos de seus shows, o músico empregava um comportamento traçado por uma sensualidade sem pudores. Aliás, foi justamente o excesso de apologias sexuais que praticamente comprometeu sua carreira, pois em uma das várias apresentações da banda, as consequências deste tipo de extrapolamento foram sérias. Conforme citado pelo jornal The Miami News (1969): “Agora seus dias estão contados, e o caminho para prendê-lo está totalmente aberto” (…) simulou ato de masturbação e abriu a braguilha num degradante espetáculo em que prevaleceram a linguagem chula e palavras de baixo calão (…). As consequências sociais geradas por este fato foram imensas. Jim Morrison foi manchete dos mais importantes meios de comunicação da época. Poucos dias após este show, o capitão da Divisão de Segurança da Polícia de Miami fez um pedido de prisão para o músico. Somado a isso, no mesmo período, Mike Levesque, um jovem católico, com apoio do presidente Nixon, deu início a um movimento chamado “Cruzada Pela Decência”, cujo um dos alvos era o vocalista do The Doors. Morrison defendia-se. Acreditava que sua música consistia numa experiência essencialmente catártica e que as apologias sexuais eram um dos inúmeros componentes desta finalidade musical: “A música é muito erótica. Uma de suas funções consiste em purgação catártica das emoções. Chamar nossa música de orgástica é o mesmo que dizer que somos capazes de levar as pessoas a um tipo de orgasmo emocional, por meio das letras e do som“. (Entrevista à Danny Sugerman). Lembremos que Morrison havia estudado teatro e cinema e, aparentemente, estas áreas refletiam o seu comportamento em cima dos palcos. A performance era fundamental para o músico. Ela precisava ser caprichada e qualquer elemento poderia fazer parte deste processo: “O sexo é apenas uma parte de minha performance. Existem milhares de outros fatores. É decerto importante, mas não creio que seja a coisa principal. Evidentemente é uma das bases naturais da música. Não pode ser separado“. (Entrevista à Mike Grant, Rave, 1968).


"Jim era essencialmente dionisíaco: agia com liberdade, entregava-se, sem pudores aos seus sentimentos, guiava-se pelos instintos".  
 
Os hábitos de Jim, muito provavelmente, em partes, possuíam sua inspiração no pensamento de um dos maiores filósofos que já existiu, e que ele muito apreciava: Friedrich Nietzsche. Para o pensador alemão, a arte representa o antagonismo no qual encontram-se duas pulsões, a saber, a apolínea, em e a  dionisíaca. O filósofo os define como sendo as duas formas ontológicas e fundamentais do ser e da realidade. Nietzsche (p. 46, 2013) escreve “O homem dotado de um espírito filosófico tem mesmo o pressentimento de que, por trás dessa realidade em que existimos e vivemos se oculta uma segunda bem diferente e que, por conseguinte, a primeira também não passa de uma aparência (…)”. Esse outro plano era o que Morrison almejava atingir por intermédio da sua arte hipnótica: o plano do novo, do desconhecido, do irregular, da desmedida, dos mistérios, do oculto. Eis as “portas da percepção”- conforme o próprio Morrison certa vez declarou: “Há o conhecido, há o desconhecido e entre ambos há uma porta”. Pensando ainda dentro do conceito estético de Nietzsche, notamos que se encontra o combate entre a força da razão (apolínea) e a força do delírio (dionisíaca), sendo que esta última representa a afirmação da vida, aceitação dos instintos, e que molda o perfil do indivíduo que abraça a existência em sua plenitude, amando com tudo o que ela oferece, sejam coisas boas ou ruins. Essa última força seria o modo de vida que Morrison representava através de seu comportamento extravagante e delirante, e por meio de suas letras e melodias, que visavam levar os ouvintes para além de si mesmos, embriagá-los, libertá-los dos limites morais e conduzi-los para um estado de vida no qual não há pudores.

Dionísio é a figura que simboliza o delírio. Dionísio figura mitológica que representa a embriaguez. Filho de Zeus e da princesa Semele e o símbolo do caos, do insano, é o inesperado. É aquilo que se opõe ao racional, ao linear, ao conceitual, ao equilibrado. Através dos efeitos da embriaguez, objetos do inconsciente se manifestam e podem se expressar. É a intuição pura, a potência do êxtase que se contrapõe ao intelecto e ao equilíbrio do apolíneo. Jim Morrison, através de seus hábitos comportamentais, brindava o êxtase e talvez vivesse mais frequentemente no plano inconsciente do que no consciente. Jim era essencialmente dionisíaco: agia com liberdade, entregava-se, sem pudores aos seus sentimentos, guiava-se pelos instintos. Morrison vivia abraçado com seu lado mais insano. E esse comportamento dionisíaco, para ele, tinha um sentido, pois o vocalista acreditava que seu papel como vocalista de uma banda de Rock era muito grandioso e estava além de simplesmente cantar. Em uma entrevista, fez a seguinte declaração: “Penso na atividade do artista ou do xamã como um canal de escape. As pessoas projetam sobre ele suas fantasias e elas se tornam reais“. (Lizze James, 1969). Morrison, justamente buscava o êxtase obtido através do ritmo das músicas de sua banda.

Certa vez, num artigo intitulado “Apatia Pelo Demônio”, Mike Gershman indagou: “Mas o que está por trás deste demônio que supostamente corrompeu a juventude de Miami?”. Ele próprio respondeu nas linhas seguintes deste mesmo texto: “Ele (Jim Morrison) pega as pessoas numa dimensão mítica – como xamã, símbolo sexual, poeta e filósofo”. (Revista Rock, 1968). Ele paga as pessoas, enfim, através de sua potente aura dionisíaca.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

MARSICANO, Alberto. Jim Morrison: por ele mesmo. São Paulo: Martin Claret, 2005.

NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Editora Escala, 2013.

SUGERMAN, Danny; HOPKINS, Jerry. Jim Morrison: Ninguém Sai Vivo Daqui. São Paulo: Novo Século, 2013.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

BACK TO THE LAND - ESCARLATINA OBSESSIVA:

Por: Vannucchi

O Back To The Land é o trabalho mais recente lançado pelo duo Escarlatina Obsessiva. Embora seja o álbum mais original e qualificado já produzido pela dupla, provavelmente é também o mais incompreendido por uma grande parcela de fãs e críticos, que ainda não conseguiram entender a essencial proposta de Karolina e Zaf. “Mas, afinal, que proposta é essa?”. Mergulhe na discografia da EO. Assista aos vídeos oficiais que eles lançaram, deixe sua mente aberta e desvende.

O Back To The Land mostra a versatilidade de Karolina e Zaf.
 O álbum  é instrumentalmente potente e ousado, especialmente porque tenta se afastar da atmosfera Pós-punk que permeava os trabalhos anteriores - e faz isso com um êxito notável. Embora ainda seja  possível identificar um pano de fundo parcialmente sombrio em alguns momentos, esse aspecto, definitivamente não prevalece na totalidade do Back To The Land, tal como ocorre nas produções anteriores da EO. As letras, por sua vez, mantém o mesmo padrão de qualidade dos outros álbuns, ou seja, são escritas com profundidade e (aparentemente) abordam temáticas variadas. É válido citar também que o encarte do álbum (privilégio de quem tem o CD físico com o qual eu fui gentilmente presenteada por Karol e Zaf) possui ilustrações bem variadas e interessantes, que  complementam a autenticidade do Back To The Land. Considerando esses aspectos comentados, o Back To The Land mostra a versatilidade de Karolina e Zaf, cujas influências e gostos musicais são bastante diversificados. Depois dessa última produção, nos resta aguardar ansiosamente pelas próximas novidades. Espero que continuem se reinventando, pois eles possuem a (rara) capacidade de fazer isso com competência - e esse é um talento do qual muitos músicos carecem.

O Back To The Land é o último álbum lançado pelo duo Escarlatina Obsessiva.
 É interessante notar que grande parte dos críticos consideram que a EO seja um duo de música "gótica". Contudo, o Back To The Land parece sustentar minha antiga teoria de que eles não são.  Aliás, penso que qualquer tentativa de relacionar esse álbum em particular com com a sonoridade dark, é bastante errônea, pois embora em alguns momentos, ele beire esse percurso, os caminhos que o sustentam, de maneira geral, são outros. Eles são o que são: uma metamorfose underground musical. Enfim, o álbum em questão abre as portas para uma doce viagem pelas planícies místicas de lugar-nenhum. Você já esteve por lá? Experimente o BTTL e boa viagem!

*Observação: Consta um easter egg na capa!

Links Oficiais:

YouTube: https://www.youtube.com/user/escarlatinaobsessiva/videos

Bandcamp: https://escarlatinaobsessiva.bandcamp.com/

domingo, 5 de janeiro de 2020

CONHEÇA A BANDA QUÂNTICO ROMANCE:


Por: Vannucchi

Uma das maiores surpresas musicais de 2018 foi o surgimento do Quântico Romance, um duo carioca, formado por Karlos Júnior e Bruno Dorian, que entrou em cena silenciosamente, mas que, aos poucos, foi se firmando como um dos nomes mais criativos do universo underground brasileiro. No ano passado, eles lançaram o EP de estreia, intitulado "Azul na Escuridão", cuja sonoridade foi tão cativante, que fez com que nosso site os convidasse para compor a primeira coletânea que  lançamos, chamada "The Other Side" (https://www.youtube.com/watch?v=zMXh7bVDTHk).

O Quântico Romance é um projeto musical brasileiro de homecomputer, totalmente DIY.

O Quântico Romance produz uma música que pode ser definida como uma espécie de mistura inventiva, que porta pitadas de sonoridades do Joy Division, do Suicide e do Neu!, mas que transforma essa química num resultado atípico, único e ilustre. O que mais encanta em suas músicas é o fato de que, ao meu ver, até agora eles trilharam um caminho diferente e ousado, que não costuma ser seguido pela maior parte das bandas undergrounds do Brasil e, justamente, por isso, acredito que o duo tem potencial para se destacar cada vez mais e se firmar como uma vanguarda do cenário nacional da música independente. Eles são audaciosos e corajosos. Lembram os artistas que frequentavam o CBGB e que não tinham receio de tentar, de arriscar, de deixar com que o som acontecesse, independentemente de aprovações midiáticas e/ou públicas. Considerando esse aspecto citado, acredito que o Quântico Romance, em seu âmago, também carrega muito do Punk Rock, ao menos em questões ideológicas.

Agora estamos adentrando num novo ano. Vamos torcer para que os meninos continuem seguindo estradas criativas, e para que permaneçam sendo sempre movidos pelo sentimento e pelo instinto, que geram para eles uma estética arrebatadora e muito particular, distante de clichês, e livre de normas. 

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