Fanzine Brasil

SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

sábado, 24 de outubro de 2020

AS LOUCAS AVENTURAS DO THE JESUS AND MARY CHAIN

Por: Vannucchi e Marinho

O The Jesus And Mary Chain é uma das bandas mais queridas dos anos oitenta. O single “Just Like Honey” encantou e ainda encanta muitos corações ao redor do mundo. Há muita inspiração e talento por trás dessa música. Aliás, inspiração e talento acompanharam os irmãos Reid desde seus primeiros passos. Em relação ao surgimento do grupo, os músicos já revelaram que a ideia de ter uma banda os acompanhava desde 1977, mas de acordo com Jim: “Durou até os anos 80 porque éramos muito preguiçosos”. Já William afirmou que foi a época perfeita, pois “não havia mais músicas feitas com guitarras. Todos estavam fazendo música pop eletrônica”. Mas o duo de cabelos desgrenhados estava prestes a oferecer algo novo para o mundo. A sintonia entre eles parecia propícia para isso. Os irmãos costumavam se dar bem antes dessa época, antes de formarem a banda. A esse respeito, Jim afirmou: “Sempre brigávamos quando crianças, mas alguns anos antes de formar o Mary Chain, nós nos dávamos muito bem. Descobrimos as mesmas músicas de que gostávamos na mesma época, era eu e o William contra o mundo. Mas aos poucos, e é difícil descrever como, tudo mudou. Quero dizer, há uma quantidade limitada de oxigênio que uma banda pode produzir e de repente estávamos discutindo o tempo todo”.

A partir de uma ideia ousada e uma relação sólida, a história do Mary Chain finalmente começou a ser escrita. Inicialmente, a banda contava com Doug Hart no baixo e com Bobby Gillespie na bateria. Jim Reid se tornou o vocalista após perder no cara ou coroa. Nenhum dos irmãos queria ser o frontman, mas precisaram decidir quem aceitaria o desafio e Jim, relutantemente, acabou sendo o vocalista. William chegou a dizer que gostava muito mais da voz do irmão: “Eu era meio que o vocalista no início, mas quando eu cantava usava minha voz anasalada e meu irmão usava a voz da garganta, o que era muito legal!”.

Just like honey. Just like honey. Just like honey. Just like honey...
 

Foi então que o Mary Chain começou a buscar seu espaço. Inicialmente, a própria banda financiou suas primeiras gravações com o seguro-desemprego que os irmãos Reid recebiam após perderem seu trabalho numa fábrica. Antes de lançarem o icônico Psychocandy, que foi o álbum de estreia, o quarteto lutava para achar lugares onde tocar e constantemente alegava ser uma banda de apoio de qualquer show que encontrasse, apenas para fazer sets curtos e então ir embora. E falando nisso, certa vez, quando questionado sobre qual foi a principal influência para criar o álbum Psychocandy para a revista Vogue, Jim afirmou: “Os anos 80... eu não me sentia confortável naquela década. Tudo sobre aquela época era o exato oposto do que gostávamos. Odiávamos tudo que ouvíamos no rádio e por isso fizemos esse álbum”.

Os primeiros shows da banda eram absurdamente violentos e caóticos. Geralmente, incitados pelos próprios músicos e pela sua equipe, os fãs eram incentivados a jogar garrafas e qualquer coisa no palco, chegando a banda a ser chamada pela mídia de “os novos Sex Pistols”. William afirmou depois que, na verdade, detestava o que via: “Eu odeio e desprezo. Nos atrapalha muito quando se trata de conseguir shows e distorce nossa imagem”. Parte de toda essa controvérsia era incentivada pelo gerente do TJAMC, Alan Mcgee, fundador da Creation Records. Inclusive, ele encorajou os rumores de que a banda havia roubado dinheiro e destruído o escritório do diretor geral da WMG. Anos mais tarde, Alan Mcgee foi o responsável por assinar com uma das maiores bandas do anos 90: o Oasis, também liderada por dois irmãos problemáticos.

Além do caos incondicional em cima dos palcos, a história do The Jesus And Mary Chain foi marcada por diversas polêmicas. Uma das maiores discussões envolvendo a banda foi uma declaração de Jim feita durante entrevista para a TV Belga, em 1985, na qual ele mencionou que odiava o Joy Division. Porém, mais tarde, no aniversário de 30 anos do primeiro álbum, o músico esclareceu essa situação: “Eu odeio aquele vídeo. O que acontece é que íamos fazer uma apresentação e de antemão alguém nos disse – esse entrevistador é muito fã de Joy Division, então o que quer que vocês façam, não falem mal dessa banda – e isso era como balançar uma bandeira vermelha na frente de um touro pra nós. Eu não sabia que anos depois as pessoas estariam assistindo, e a verdade é que Joy Division é uma das minhas bandas preferidas”.

Em seu período de estrada, o TJAMC acumulou muitas outras aventuras em sua bagagem. 

E houve mais polêmicas ao redor dos irmãos. Muitos os detestavam com todas as forças. A BBC odiava o grupo. Em 1986, baniram a música “Some Candy Talking” alegando glamorização do uso de heroína. Jim disse: “Ironicamente, é nossa única música que não fala sobre drogas. Eles na verdade não baniram, apenas não tocaram, o que é uma pena, pois aí teríamos vendido várias cópias”. Mas tudo bem. No ano seguinte, “April Skies” chegou à oitava posição nas paradas musicais, o que significava que finalmente iriam realizar o sonho de tocar no “Top of the Pops”. Eles apareceram bêbados para a apresentação, o que levou a um banimento permanente do programa. Sobre o incidente, Jim disse: “Bem, ficamos sentados esperando o dia todo e nunca gostamos de ficar parados, então é isso, ficamos bêbados. Mas não fizemos nada. Nada foi destruído e ninguém foi xingado, mas o fato de ficarmos bêbados no edifício da BBC foi o suficiente para incomodar de qualquer maneira”. Meses depois a edição americana se recusou a passar os vídeos da banda por alegações de “sacrilégio” por conta do nome. O Top of the Pops e a BBC também se recusaram a tocar o single “Reverence”, de 1992, que inclui os versos “Eu quero morrer como JFK/Quero morrer nos Estados Unidos/Quero morrer como Jesus Cristo/Quero morrer numa cama de espinhos”. Jim mais tarde brincou dizendo: “A verdade por trás disso é uma piada, a ideia de banir o Mary Chain da BBC. A BBC nunca tocava nossos álbuns mesmo”.

Mas o fato é que mesmo entre essas tantas confusões, o The Jesus And Mary Chain ia se firmando cada vez mais. Ao longo do caminho, a formação original do grupo se alterou, embora esse detalhe não tenha impedido a banda de produzir alguns álbuns lendários e de fazer shows inesquecíveis. Uma dessas apresentações ocorreu em 1992, quando o famoso festival Lollapalooza incluiu a banda junto com Pearl Jam, Soundgarden, Ice Cube e Red Hot Chili Peppers. Eles odiaram cada segundo dessa aventura. William disse a respeito: “a pior turnê da minha vida”. Na reedição de 2011 do álbum Honey’s Dead, Jim relembra a ocasião: “Quando começou a turnê, o Pearl Jam tinha o álbum número 1 na América. Então lá estávamos nós tendo que subir no palco às duas horas da tarde após a droga do Pearl Jam! Seu cantor costumava subir nas caixas do PA como uma cabra da montanha e todo mundo ficava louco; então chegava nossa vez, e tocávamos parados como idiotas miseráveis, tocávamos algumas músicas e assistíamos todo mundo comprar cachorros-quentes e camisetas do Pearl Jam”. Ele segue recordando a experiência: “Essa foi a primeira semana, pelo amor de Deus! Tentamos fazer o Pearl Jam mudar de horário com a gente, mas eles não quiseram. Tentamos sair da turnê, mas não conseguimos, então apenas tivemos que nos forçar a isso e ficar totalmente bêbados por 12 semanas. Éramos a vergonha da turnê - todo mundo nos odiava e todo mundo odiava nosso comportamento”. Infelizes durante a turnê, os irmãos Reid começaram a brigar mais do que o normal. William estava de tão mau humor que, quando alguém da tripulação do Ice Cube o encharcou com uma pistola d'água, ele tentou começar uma briga com os integrantes da banda. Como resultado, levou garrafadas e ficou totalmente ensanguentado. Depois de descobrir que o Ice Cube e companhia estavam supostamente carregando armas em seu ônibus, William recuou.

Em seu período de estrada, o The Jesus And Mary Chain acumulou muitas outras aventuras em sua bagagem. E também produziu muitos álbuns qualificados. Esse conjunto de fatos certamente justifica as razões pelas quais se tornaram um mito.


sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O FANTÁSTICO MUNDO DE DAVID BYRNE

 Por: Juliana Vannucchi
 
David Byrne, o prestigiado vocalista do Talking Heads, nasceu na Escócia, no ano de 1952. Durante a infância, mudou-se para os Estados Unidos, país no qual mais tarde consolidou sua brilhante carreira artística que o projetou para o mundo todo.

Seu destaque no meio musical sempre chamou a atenção e lhe rendeu elogios, e o escocês logo encantou o mundo todo com sua singularidade sonora e experimentos ousados. A música esteve presente na vida de Byrne desde a tenra idade. De acordo com seus pais, aos três anos, ele tocava um fonógrafo e, aos cinco, aprendeu a tocar gaita. Foi também na infância que algumas peculiaridades começaram a fazer parte de seu comportamento. Ele foi diagnosticado com síndrome de Aspenger. Mais tarde, antes de ingressar no Ensino Médio, Byrne já sabia tocar guitarra, acordeão e violino. Apesar da familiaridade do jovem com esses três instrumentos, curiosamente, ele chegou a ser dispensado do coral de escola, pois alegaram que era muito desafinado e retraído... Estavam despachando um dos maiores nomes da Art Rock.  

Mas apesar do seu notável destaque no meio musical, nossa intenção através desse texto é mostrar que o talento de Byrne e sua inventividade sempre estiveram muito além dos palcos e suas contribuições artísticas e culturais merecem ser reconhecidas e contempladas. Vale a pena mergulhar mais a fundo na trajetória desse gênio! E desde já, é importante dizer que sua frutífera carreira se estende muito além dos horizontes que vamos apresentar... poucos músicos foram tão longe e com tanto êxito. 
 
Byrne é um grande admirador da música popular brasileira
 
BYRNE CRIA SUA PRÓPRIA GRAVADORA E SUA PRÓPRIA ESTAÇÃO DE RÁDIO:
 
Byrne inaugurou sua uma gravadora autoral, chamada Luaka Bop, em 1991, em New York. A intenção por trás de sua fundação era dar espaço para bandas e músicos da América Latina. Isso se concretizou e muitos artistas desse continente foram promovidos pela Luaka Bop, sendo que uma dessas bandas nos é bem familiar: Os Mutantes. Aliás, a gravadora teve uma forte inclinação para a música brasileira, que sempre foi de grande interesse para Byrne (as músicas de Moreno Veloso e Tim Maia, por exemplo, também marcaram presença na Luaka Bop, que lançou materiais desses lendários artistas nacionais). Byrne é um admirador da música brasileira e já lançou mais de uma compilação de clássicos com canções populares do Brasil. A esse respeito e se referindo ao seu apreço pela cultura de nosso país, no site oficial da gravadora o artista reflete: “A música popular brasileira desempenha um papel maior na vida cultural do Brasil do que a música popular parece desempenhar em outros lugares. Somente na segunda metade do século XX é que a maioria da população do país se tornou, de fato, alfabetizada. E a grande maioria dos brasileiros ainda vive abaixo da pobreza. Talvez esses fatos contribuam para a importância da tradição oral no Brasil [...] Apesar da pobreza e do isolamento de grande parte do Brasil, a parcela alfabetizada da população é excepcionalmente informada. Eles têm uma consciência aguda dos desenvolvimentos culturais no resto do mundo”. Eis aqui uma ótica a respeito da tradição de nosso país que, por vezes, nós próprios não temos. O frontman do Talking Heads, certa vez, deu uma declaração bem interessante em relação ao logo da gravadora, já que a imagem sempre despertava curiosidade: “É um símbolo maçônico bastante obscuro, vinculado em vários momentos à Trindade dos Illuminati e aos Cavaleiros Templários egípcios. Os cavaleiros eram os guardiões dos segredos da harmonia. Daí a conexão óbvia e apropriada com a música. Mas seu conceito de harmonia era muito maior e abrangente do que o nosso - não apenas abrangendo a harmonia das esferas, dos céus, mas a harmonia dos fluidos internos e forças dinâmicas - e no caso dos Cavaleiros Egípcios, estes eram governados pelos mortos. Os Cavaleiros acreditavam que os mortos são os guardiões dos dias atuais e que nenhuma harmonia pode ser verdadeira e duradoura sem a sua ajuda. O olho do tronco Luaka Bop é o olho de Vilaç Trimegistes, o alquimista balcânico que deu os olhos à sua obra e foi o primeiro a desvendar os segredos dos Cavaleiros Egípcios. A forma e o significado do Olho de Vilaç têm uma relação matemática com a embarcação, ou “coração”, sendo o coração considerado um vaso não apenas para o sangue, mas para os mortos. Os raios, “espinhos” ou pregos que revestem e protegem o vaso foram incorporados durante a Idade Média, acréscimo que se julgou necessário pelo poder do Papado”. Certamente essa revelação abre margem para que se coloque mais um grande nome da música em meio a teorias da conspiração!

Em 2005, percebendo o potencial da internet, David Byrne criou sua própria emissora de rádio. Mensalmente, ele organizava uma lista de músicas de que gostava, passeando por diversos gêneros, como música africana, ópera clássica, trilha sonora de filmes italianos, dentre outras abordagens... Eis aqui mais uma jogada criativa do nosso visionário mestre!
 
Byrne vestindo um de seus tradicionais trajes largos...

E O OSCAR VAI PARA...
David Byrne foi a mente criativa por trás da trilha sonora do longa “O Último Imperador”, um dos filmes mais exaltados dos anos oitenta. Esse feito não é para qualquer um. E além de levar esse tão almejado prêmio para a casa, esse trabalho musical também levou Byrne a conquistar o Golden Globe de melhor trilha sonora.   

E as relações de Byrne com a Sétima Arte não param por aí. Em 1986, ele deu o pontapé inicial em suas aventuras fílmicas, dirigido “True Stories”, que embora tenha se tornado um clássico cult, não obteve sucesso comercial significativo. Daí em diante, sua carreira cinematográfica foi prolífera: dirigiu o documentário “Île Aiye”, filmado na Bahia e cujo foco é o Candomblé. Conforme consta no renomado “The Wall Street Journal”, “o documentário explora a maneira pela qual o Candomblé influenciou a vida diária e a cultura do povo brasileiro na música, arte, religião, teatro, comida, dança, poesia e muito mais (...) Byrne fez justiça a uma cultura maravilhosa”.

O produtor escocês também foi o responsável pelo design e pela discografia de “Stop Making Scene”. Além disso, o frontman do Talking Heads também teve participação colaborativa na produção musical do famoso filme “Wall Street”, de 2010, dirigido pelo célebre Oliver Stone.

DAVID BYRNE EM VERDE E AMARELO - O APREÇO DO MÚSICO POR TOM ZÉ E CAETANO VELOSO:

Numa das vindas de David Byrne ao Brasil, ele adquiriu um apanhado de LPs que levou com ele para os Estados Unidos. Dentre os tantos discos e músicas que passavam por seus ouvidos, algumas prenderam de imediato a sua atenção: tratava-se de faixas como “Mã” ou “Tô”, de Tom Zé, nas quais o músico brasileiro usou sons de liquidificadores, máquinas de escrever e serra elétrica. O encanto de Byrne o levou a entrar em contato com Zé, que nesse período vivia uma das fases mais conturbadas de sua existência, conforme ele mesmo revelou ao Jornal Folha de São Paulo: “Eu estava tão confuso na minha vida que isso só tem explicação na psiquiatria. Como chama aquele negócio que a cabeça racha e você não sabe o que pensa de lá e de cá? Esquizofrenia. Ser afastado do colo da mãe, um artista ser afastado do colo do público… Fiquei doente de todo jeito, estive para morrer três ou quatro vezes. Não tinha doença, era a cabeça que enrolava. Em 85, não digeria nada. Ficava em pé para enganar Neusa (sua mulher), para ela pensar que eu estava vivo. Estômago, intestino, nada funcionava, tudo deteriorado, a pele da mão apodrecendo, alergias. Fui à macrobiótica, me curei com dez dias de arroz”. (Declaração concedida à Alexandre Sanches na Folha de S. Paulo em 2000).

Byrne valorizou Tom Zé de uma maneira que os brasileiros não faziam. Ele enalteceu um artista praticamente ignorado pelo seu próprio povo e em pouco tempo o lançou na cena musical mundial.

Caetano Veloso e David Byrne
Mas é válido notar que Tom Zé não foi o único artista que cativou Byrne. Houve ainda uma apresentação inesquecível de Byrne e Caetano Veloso, ocorrida em 2004, no VMB, da MTV. Foi um momento icônico e inesquecível, marcado por um ataque de fúria do músico brasileiro, que ficou frustrado pelas falhas apresentadas em seu microfone e teve um chilique em cima do palco. Por fim, o equipamento funcionou e eles se apresentaram com maestria. Nesse mesmo ano, o duo tocou junto no Carnegie Hall, em Nova Iorque, e esse show se transformou num álbum antológico intitulado “Caetano Veloso and David Byrne Live at Carnegie Hall”. No encarte, Byrne descreve a singularidade musical de Caetano, demonstrando sua imensa admiração pelo músico brasileiro: “Não vou tentar descrever o que Caetano faz, porque seu trabalho é extremamente variado e não é fácil comparar com ninguém da América do Norte ou da Europa”. E além disso, ele também já subiu aos palcos com Gilberto Gil.

O aclamado vocalista do Talking Heads também já colaborou com muitos outros gênios da música, como o amigo Brian Eno, Fatboy Slim e St. Vincent.

UM AUTOR RESPEITÁVEL:

Ao longo de sua magnífica carreira, Byrne também se aventurou como escritor, sendo bem sucedido nesse meio. E a boa notícia é que podemos encontrar seus livros em português. No catálogo disponível em nosso país, encontram-se: “Diários de Bicicleta” e “Como Funciona a Música”. O segundo, ao longo de suas 397 páginas, dentre outros assuntos, aborda reflexões referentes ao vasto e complexo mercado sonoro e à produção musical e, certamente, é indispensável na prateleira de músicos e amantes da música. Esse livro, em particular, foi bem elogiado desde o seu lançamento, cativando o público e os fãs brasileiros e revelando o lado intelectual de Byrne.

Referências:

https://www.google.com.br/amp/s/brasil.elpais.com/brasil/2016/09/19/opinion/1474289224_588882.html%3foutputType=amp

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Luaka_Bop

http://almanaque.folha.uol.com.br/tomze.htm

https://www.google.com.br/amp/s/oglobo.globo.com/cultura/musica/tom-ze-ganha-biografia-italiana-com-prefacio-de-david-byrne-23861372%3fversao=amp

https://www.google.com.br/amp/s/rollingstone.uol.com.br/amp/noticia/david-byrne-revela-por-que-nao-vai-reunir-o-talking-heads/

https://www.google.com.br/amp/s/www.publico.pt/2018/04/20/culturaipsilon/entrevista/david-byrne-somos-apenas-turistas-nesta-vida-mas-a-vista-nao-e-ma-1810799/amp

https://www.google.com.br/amp/s/brasil.elpais.com/brasil/2014/05/01/cultura/1398938213_366136.html%3foutputType=amp

https://www.google.com.br/amp/s/www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2020/07/21/chris-frantz-david-byrne-talking-heads/amp/

https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/ex-diretor-da-mtv-lanca-livro-e-revela-bastidores-de-piti-de-caetano-2333

https://www.google.com.br/amp/s/www.redebrasilatual.com.br/blogs/2012/05/caetano-veloso-e-david-byrne-juntos-e-ao-vivo-em-cd-historico/amp/

https://en.m.wikipedia.org/wiki/David_Byrne

https://luakabop.com/catalog/brazil-classics-1-beleza-tropical/

http://davidbyrne.com/explore/ile-aiye-the-house-of-life/about

terça-feira, 13 de outubro de 2020

JESSIE EVANS FALA COM O FANZINE BRASIL SOBRE A ATUAL FASE PANDÊMICA NO MUNDO, FORMAÇÕES MUSICAS E SUAS INFLUÊNCIAS DA MÚSICA BRASILEIRA:

Por: Diego Bagatin (tradução - Vannucchi e Marinho)
 
Jessie Evans já é bastante reconhecida por seus discos e shows no mundo afora, e por todos os seus anos de carreira por trabalhos de respeito, desde contribuições com o baterista Toby Dammit até em apresentações de abertura nos shows dos Stooges no ano de 2010. Batemos um papo com a nossa querida compositora e saxofonista sobre diversos assuntos, desde sua fase em Berlim até sobre como alguns fãs de música em geral julgam a liberdade de expressão de certos artistas.

1. Olá, Jessie! Primeiramente, muito obrigado por nos conceder essa entrevista para o Fanzine Brasil. É um prazer estar junto com essa galera produzindo materiais de qualidade com artistas sensacionais assim como você! Como está sendo a sua vida durante a quarentena por aqui no Brasil, o que você mais tem feito durante esse período? No começo de tudo isso, você estava aqui mesmo no país?

Eu estava numa turnê de 7 meses na Califórnia e no México na época do lockdown. Minha intuição era a de que essa poderia ser minha “última chance” de sair daqui para fazer uma turnê e ver a família, e eu estava certa! No início de março as coisas estavam começando a ficar loucas na Califórnia e meus últimos shows foram cancelados. As pessoas começaram a entrar em pânico, comprando toda a comida das lojas e todo o papel higiênico. Estávamos nervosos com a possibilidade de ficarmos presos na Califórnia, mas, felizmente, pudemos comprar a tempo as nossas passagens de volta para o Brasil, pois as fronteiras estavam todas fechando. Chegamos em São Paulo no dia 16 de março e em Ubatuba no dia 18, poucos dias depois do fechamento das fronteiras da nossa cidade e um dia antes do fechamento de todas as lojas. Foi um primeiro mês muito difícil porque a nossa casa ainda estava sublocada e estávamos hospedadas na casa de um amigo que estava fora da cidade e o local em que ele mora é muito isolado, infestado de milípedes, sem wi-fi e sem cozinha. Passei o primeiro aniversário da minha filha Rubi lavando todas as minhas roupas mofadas em um balde na varanda. Comemoramos com um bolo de aveia e banana que eu fiz numa frigideira, só eu e minhas filhas. Foi difícil, mas eu sabia que éramos abençoadas por ter voltado para o Brasil. Tentamos ir à praia algumas vezes, mas as praias foram bloqueadas e um vigilante chamou a polícia por causa de nós. Não poder sair e dar uma caminhada na praia com minhas filhas nos dias de calor era insuportável. Todos na rua olham uns para os outros com desconfiança, temerosos de que vão infectar uns aos outros. É preciso considerar o impacto que esse tipo de bloqueio universal tem sobre a saúde mental e o abuso dentro de famílias onde as pessoas ficam presas juntas em pequenos espaços (ou pior, sem abrigo). 
 
Sou muito grata por estar de volta aqui e apesar do caos do mundo, vivemos na natureza e ainda somos capazes de apreciar uma vida simples. Tem sido um momento muito desafiador para mim, como mãe solteira, já que as escolas fechadas. Ao mesmo tempo, estou precisando trabalhar como  professora, a indústria da música em pausa, então a luta é real. Criativamente, tem sido um momento incrível e me sinto muito inspirada. Estou trabalhando em um novo álbum com o produtor francês Younick do meu último álbum, Heartwave. E estou terminando um disco com Ima Felini (Amantes del Futuro). Tenho aprendido a lidar com o ensino domiciliar da minha filha de cinco anos, que recebe aulas diariamente no WhatsApp. Na maior parte dos dias, estou limpando e organizando minha casa e trabalhando na conclusão de muitos projetos em nossa terra e em muitos projetos de costura. Sou grata por este momento, pois é um momento de profunda limpeza e cura e acredito que este exercício para aprender como ensinar nossos próprios filhos é muito valioso. Percebo agora o privilégio que foi poder colocar minha primeira filha na rede pública de ensino desde que ela tinha 1,5 anos e sou muito agradecida ao Brasil pela creche gratuita. Costumava ter 8 horas por dia para trabalhar em casa. Nunca foi o suficiente! Mas agora minha filha de 5 anos observa a bebê por uma hora para que eu possa trabalhar nas minhas gravações. Limpar, cozinhar, tudo mais normalmente é feito com uma trilha sonora de gritos. Agradeço a este momento pela consciência que me deu sobre o que é necessário para sua educação e no que eu quero educá-la. Sinto que ainda estou na fase de preparação e tento ser moderada comigo mesma nos dias em que não consigo ser a autoridade que gostaria de ser. Mas, percebi recentemente que o mais importante para mim é sua educação espiritual e ensinar certos valores a minhas filhas. No que diz respeito a isso, estou muito satisfeita com o progresso que fizemos.

2. No início do ano, todos nós nem imaginávamos que essa fase em nossas vidas tomaria toda essa proporção do momento. Quando foi o último show que você fez pré-pandemia e quais são suas memórias desses saudosos momentos no palco antes de tudo isso acontecer?

O último show que eu fiz foi no dia 14 de março, no Klub Terminal, nos arredores de Los Angeles. Foi uma noite gótica bem divertida e me lembrou de muito de alguns dos primeiros shows que fiz em turnê quando estava tocando com a banda The Vanishing e com o grupo Subtonix, no final da minha adolescência, perto dos vinte anos. Foi um ótimo final para a turnê de 16 shows de 2019 e, de certa forma, apesar da frustração de ter uma turnê com Vanishing cancelada este ano, me sinto realmente grata por ter algum tempo de folga agora. Eu realmente gosto de fazer shows, mas como mãe devo encontrar equilíbrio entre meus filhos e meus projetos criativos que também parecem crianças! Na verdade, a quarentena e o desastre financeiro que esse lockdown impôs à população não mudou tanto minha situação pessoal. Ser músico profissional tem sido uma forma desafiadora de ganhar dinheiro para mim desde que cheguei ao Brasil e agora não é diferente. Na verdade, é quase um alívio ter a possibilidade de ganhar dinheiro com shows ao vivo fora de questão por enquanto. Realmente parece um momento assustador para a música e para a arte, mas acho que não devemos desanimar. Historicamente, os períodos de turbulência e fascismo sempre foram ótimos para a arte. Dalí disse uma vez: "Liberdade de qualquer tipo é o pior para a criatividade".
 
 
"Eu expresso muito na minha música sobre a libertação, mas também acabo às vezes escondendo o que quero dizer politicamente, porque me preocupo que isso vá alienar as pessoas com visões conflitantes".

3. Nós estamos vivendo em uma era de muita arrogância por parte de comunidades conservadoras que julgam a liberdade de expressão de muitos artistas e bandas em geral. Ao mesmo tempo em que o mundo possui apoiadores de governos conservadores e negam o fato de que música e política podem sim andar juntas, muitos outros músicos por todo o mundo estão manifestando suas posições contra esses governos. Qual a sua opinião sobre os “fãs” desses artistas não terem o conhecimento de que a música em geral é uma forma de expressão para os mais diversos assuntos?

Acredito que a música sempre foi uma das melhores formas de expressão. Especialmente desde a era digital, pois desse modo, mesmo com pouco esforço ela tem potencial para atingir muitas pessoas rapidamente sem muito esforço. É claro que os artistas devem expressar opiniões políticas se quiserem. Sinto que, como artistas, temos a responsabilidade de falar abertamente, de instigar mudanças e de falar abertamente em nome de pessoas que não têm os mesmos direitos. Eu expresso muito na minha música sobre a libertação, mas também acabo às vezes escondendo o que quero dizer politicamente, porque me preocupo que isso vá alienar as pessoas com visões conflitantes. Sempre me lembro de uma entrevista com o cantor jamaicano Alton Ellis. Ele disse que quando era jovem tentou dizer um monte de coisas políticas em suas canções, e acabou se metendo em muitos problemas por isso, e então decidiu continuar escrevendo sobre o amor. Eu concordo com isso de alguma forma. Acima de tudo, acho que o mais importante em escrever é ser honesto, escrever sobre o que você sabe. Portanto, falo com o coração e às vezes visto minhas visões com metáforas para que se tornem mais universais, em vez de referências específicas que podem se tornar irrelevantes com o tempo.
 
 
"Nós temos uma escolha com as coisas com que nos conectamos, no que participamos e em como escolhemos nos expressar. O que atrai cada pessoa é algo muito profundo e pessoal".
 
4. Mudando de assunto, não sei se você já assistiu, mas há uns anos eu assisti “B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin” (2015), que mostra a cena musical da Berlim Ocidental dos anos 90 sob a visão de Mark Reeder. O filme mostrava Berlim totalmente submerso num cenário em que o punk e o pós punk (e o começo de bandas como Einstürzende Neubauten) eram a trilha de fundo pra todas as noites que essas pessoas vivenciavam até o amanhecer. Quais são as suas memórias do tempo que você passou em Berlim nos anos 2000? Ainda havia um cenário forte desses estilos durante essa década?

Eu me mudei para Berlim em 2004 e morei lá até 2013. Fiz muitos amigos e trabalhei com vários artistas da cena dos anos 80 e 90. Fiz uma turnê pela Europa e gravei um álbum com a cantora / saxofonista Bettina Koester (Malaria!) e também trabalhei com Thomas Stern (Neubaten, Crime and the City Solution), além de ter formado uma banda com Beate Bartel (Liasons Dangereuses) e Bettina, com a qual abrimos um show para o Nick Cave. Nesse período entramos para o selo FATAL de Hanin Elias (Atari Teenage Riot) e colaborei com ela. Foi uma época maravilhosa e muito feliz em Berlim. Minhas melhores lembranças são de caminhar ao longo do canal perto de minha casa em Neukoln / Kreuzberg até as piscinas de Princenbad durante o verão, e lembro da vibração nas ruas tão “relaxadas”, as pessoas em sua maior parte, tão calmas e educadas.

5. Em 2018, tive o prazer de ver Toby Dammit tocar no show dos Bad Seeds em São Paulo enquanto ele substituía Thomas Wydler, que estava doente na época do show. Antes de vocês começarem a trabalhar juntos em seus discos, você já o conhecia pessoalmente? Como foi esse contato?

Eu conheci o Toby em Berlim, ele era o companheiro de quarto do meu engenheiro de som, Thomas Stern. Eu e a Bettina o convidamos para tocar bateria conosco em um show local e depois em alguns shows na Califórnia para o Autonervous. Depois disso, ele se juntou comigo para produzir e shows ao vivo para meu primeiro álbum “Is It Fire?”. O primeiro show que fizemos foi em Dublin, na Irlanda e o álbum foi gravado no México e em Berlim. Gravamos meu primeiro álbum solo “Is It Fire?” no México com Pepe Mogt “da produção do Nortec Collective”. Abrimos para A banda Iggy and The Stooges na Alemanha e na França, em Paris na LÓlympia .. e também abrimos para The Gossip, John Spencer Blues Explosion, e tocamos em muitos grandes festivais na Europa. Foi um ótimo momento e tiver uma ótima conexão com ele. Toby Dammit é um dos melhores bateristas e é uma honra e um prazer compartilhado tantos palcos com ele.

6. Antes de você começar a morar no Brasil, como era a sua familiaridade com a música brasileira? Quando nós conseguíamos assistir a shows presencialmente, você via muitos shows de artistas brasileiros por aqui?

Na minha primeira viagem eu adquiri um álbum maravilhoso chamado “FATAL‘ da Gal Costa. E Stan Getz com Astrud Gilberto era um dos meus favoritos porque que eu era uma garota punk de 19 anos tocando meu sax no meu quarto em São Francisco ao som desses álbuns. O último grande show em que eu fui, quando estava grávida da minha primeira filha, foi do Sean Kuti, que se apresentou nas ruas de São Paulo. Foi maravilhoso. Adorei ir a festas de reggae de rua em São Paulo quando cheguei.

7. Vamos conversar um pouco sobre a sua formação musical. Aposto que durante sua vida, você deve ter visto muitos shows sensacionais que foram pilares para sua formação e suas ideias artísticas. Quais foram os shows que você viu, de qualquer fase sua, que foram os pilares para que você entrasse nesse mundo?


Assistir o The Selector quando eu tinha 16 anos foi marcante. Pauline Black é uma das minhas cantoras favoritas de todos os tempos, junto com a Cyndi Lauper e ela me inspirou a entrar no mundo da música. Tocar ao lado de Grace Jones, Nina Hagen, Iggy e The Stooges (particularmente tendo a chance de colaborar e tocar com o saxofonista Steve Mackay) e Getachew Mekuria (saxofonista etíope) foram todas boas lembranças.

8. Por mais que haja pessoas que dizem que uma ou outra época foi melhor que a atual, no mundo todo há bandas surgindo a cada dia e muitas delas andam produzindo sons de qualidade equivalente às bandas antigas. Você acha que ainda falta um devido valor por parte de certas pessoas que negam a qualidade sonora dessas bandas e artistas independentes?

Gêneros de música, arte e as subculturas que eles criam se tornaram muitas vezes mais válidos para a identidade das pessoas do que patrimônio cultural. Eu acredito que é porque esses tipos de raízes são baseados na conexão emocional e na cura, ao invés de linhagem sanguínea. Nós temos uma escolha com as coisas com que nos conectamos, no que participamos e em como escolhemos nos expressar. O que atrai cada pessoa é algo muito profundo e pessoal. Eles são como tribos modernas. Eu acho que é uma coisa linda e vamos ver o que resiste ao teste do tempo e o que desaparece gradualmente.
    
9. Como você definiria a sua música para as pessoas que estão começando a conhecer você e seus álbuns?

Dark Cosmic Tropical Wew Wave, Reggae, World Pop...

10. Já que estamos falando sobre esse assunto, eu gostaria de saber uma última coisa: se você ficasse em uma ilha deserta e pudesse levar apenas três discos, quais seriam?

John Coltrane – A Love Supreme
Wild Belle – Dreamland
Cyndi Lauper - She’s So Unusual (minha primeira fita cassete comprada na sétima série, agora uma das favoritas das minhas filhas e a que eu escolheria para elas).
 

O Heartwave, lançado em 2019, é o álbum mais recente de Jessie Evans


 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

THEATRE OF HATE: UMA HISTÓRIA CURTA, MAS ATEMPORAL

 Por Abel Marinho

Um álbum antológico...

Westworld é o primeiro (e último) álbum de estúdio da banda inglesa Theatre of Hate, que encerrou nessa produção sua trajetória de estúdio. Após seu lançamento, foram criados alguns singles incríveis como “Original Sin”, “Rebel Without A Brain” e “Nero”, e o grupo conseguiu seguidores leais na cena underground, chamando a atenção do famoso DJ John Peel, antes mesmo de lançar seu álbum de estúdio. Parte dessa fascinação com o grupo se dá não só pela originalidade de misturar música Pós-punk com elementos western, como também pelos shows incríveis ao vivo, que eram cheios de intensidade. O Theatre of Hate era considerado uma das melhores bandas para se ver ao vivo na cena underground, e prova disso é que suas primeiras gravações oficiais foram justamente álbuns ao vivo lançados pela própria banda.

Toda essa repercussão positiva fez com que o grupo gravasse seu primeiro disco com ninguém menos que Mick Jones do The Clash. Com certeza, um ótimo pontapé inicial para qualquer banda! O álbum foi gravado com um quarteto que contava com a Kirk Brandon nos vocais e na guitarra, Stan Summers no baixo, John “Boy” Lennard no saxofone e Luke Rendle na bateria.  

O Westworld, de 1982, se tornou um dos álbuns mais memoráveis do Pós-punk britânico
 

E eles brilharam...

Começamos o álbum com aquela que é a melhor música da banda! “Do You Believe In The Westworld” é facilmente reconhecida pela bateria tribal que inicia a música simulando galopes, seguidos por uma guitarra com ritmo de funk tocada por Brandon, que pincela tudo com sua voz barítona desesperadora, cantando sobre imagens apocalípticas, assegurando um verdadeiro sentimento western como pano de fundo. A música termina com uma atmosfera um tanto épica e experimental. É com certeza um dos maiores hinos do pós-punk oitentista e o maior hit da banda, tendo garantido a eles um lugar no Top of the Pops, um dos maiores programas musicais do Reino Unido. O próprio John Peel introduziu a banda no início do programa, quebrando o hiato de 14 anos fora das telas.

Sobre o impacto de “Westworld”, Kirk Brandon afirmou: “Essa mitologia do faroeste sempre esteve presente. Mas a verdadeira pergunta da música - você acredita no mundo ocidental? - é uma pergunta tão grande, talvez ainda mais hoje, que acho que é com essa frase que as pessoas mais se conectaram. A música é, na verdade, sobre Ronald Reagan, os russos e a guerra nuclear. A maioria das pessoas com as quais eu cresci presumia que um dia as nuvens em forma de cogumelo iriam surgir e isso seria o fim de tudo”.

Após um finale tão grandioso como a faixa anterior, “Judgement Hymn” começa como uma trilha sonora de um faroeste melancólico acompanhado pelo saxofone fúnebre de Boy Lennard. Logo a bateria entra em ação, apresentando um dos momentos mais extraordinários do álbum e servindo como um complemento perfeito da faixa anterior, além de manter a mesma obscuridade dela. O saxofone e o baixo aqui são os carros chefes que carregam a sobriedade da canção, além de, obviamente, haver a voz valquírica de Brandon.

A letra dessa música é baseada numa canção de natal. Porém, sabemos que o vocalista da banda frequentava uma escola religiosa e isso nos permite especular que talvez essa vivência tenha sido a principal por trás da letra, embora aqui o tema religioso se torne releitura espetacularmente apocalíptica. O final da música é especialmente digno de atenção, justamente por ser tão caótico quanto a letra.

Após duas canções atmosféricas, “63” quebra um pouco com o esperado e nos apresenta um som mais punk, embora os vocais espaçados e distantes de Brandon continuem assegurando um certo ambiente taciturno. É uma canção interessante cuja letra não é muito diferente daquelas que escreviam outras bandas de punk/pós-punk: vemos aqui uma temática política e críticas ao governo - no caso, sobre soldados que eram enviados para a morte no Vietnã. Porém, a canção poderia ter uma produção um pouco mais clara e o refrão parece levemente desleixado e pouco inspirador.

“Love is A Ghost” volta com um clima bem mais funesto e talvez seja a canção mais sombria de todo o álbum. Com um andamento lento, toques de piano fúnebres, um saxofone grave de Boy e o baixo robusto de Stammers, pode ser o mais próximo que a banda tem de um som chamado gótico. A letra sobre o suicídio de um amante contribui para a dramaticidade da canção, embora novamente pudesse ser mais bem trabalhada e menos repetitiva.

Felizmente, a próxima canção, “The Wake”, é bem sucedida em seus elementos para compensar as falhas das duas canções anteriores. O clima é um tanto experimental e todos os instrumentos fazem sua parte com extrema proeza - o baixo, em si, merece uma atenção especial. No entanto, os vocais de Brandon poderiam ter sido mixados de uma maneira um pouco melhor, pois a intensidade que ele entrega na canção é realmente incrível! Quanto à letra, ela parece um tanto abstrata, embora se note certos temas sócio-políticos e o aparente medo de uma guerra surgir a qualquer momento.

“Conquistador” parece uma continuação da canção anterior e traz de volta o clima épico apresentado no início do álbum. Os cantos gregorianos ao fundo, juntos com a bateria militar e os vocais intimidadores, criticam os séculos e séculos de grandes conquistadores que deixaram trilhas e marcas de sangue para as gerações seguintes. O baterista Luke Rendle merece aclamação por carregar a faixa de forma majestosa, assim como Stammers também merece destaque por sempre oferecer linhas de baixo memoráveis e extremamente espantosas.

“The New Trail of Tears” é um interlúdio que encerra “Conquistador”, ainda continuando com os cantos gregorianos ao fundo, embora conte com a adição de outros instrumentos exóticos e uma ambiência mais elevada e grandiosa, por aproveitar-se de experimentalismos extravagantes. Essa música poderia facilmente ter sido feita pela banda australiana Dead Can Dance.
Infelizmente, a próxima faixa, “Freaks”, é uma das piores músicas já feitas por uma banda pós-punk, sendo até difícil de acreditar que não foi posta no álbum por alguma brincadeira. O instrumental circense agitado parece ter sido feito em cima da hora para preencher algum espaço no álbum, e essa música, com certeza, poderia ter sido substituída por qualquer outro single gravado pela banda. O final consegue ser um pouco melhor que o resto da música. De qualquer maneira, ainda bem que a faixa não dura tanto...

“Anniversary”, por outro lado, melhora um pouco o clima do álbum com uma mistura interessante de jazz e pós-punk. É uma faixa um tanto inquietante, carregada por um baixo minimalista e agudo, que é acompanhado por uma guitarra igualmente mínima. A voz de Brandon é tão tranquila e baixa que sequer parece ser o vocalista cantando, fato esse que adiciona um certo elemento de estranheza à canção, embora acabe funcionando de forma majestosa. O saxofone também tem um dos seus melhores momentos nessa canção um tanto sensual e sombria e as risadas ao fundo também soam bem assustadoras!

Enfim, terminamos o álbum com a dramática e hipnótica “The Klan”. Mesmo sendo um divisor de águas entre os fãs do grupo, essa faixa é um ótimo fechamento para um disco que é, no final das contas, bastante peculiar e esquisito. Nesse ponto, podemos entender que a banda se apropriou de elementos mostrados durante todo o álbum e os juntou num pós-punk experimental epopeico, que conta com baterias tribais e hipnotizantes, carregadas por pianos e uma instrumentalização oriental. É um final fabuloso e que merece reconhecimento!

Vale muito a pena conhecer...

Westworld é um álbum um tanto imprevisível! Nos momentos em que a banda se mostra inspirada, captura perfeitamente o sentimento que quer passar e, quando falham, o resultado não é necessariamente catastrófico, embora possa deixar o ouvinte com a impressão de que algo a mais poderia ser feito. Faixas que não são exatamente ruins poderiam ter sido mais bem interpretadas ou ter uma mixagem melhor. No entanto, podemos notar que, mesmo em sua época, o álbum também teve uma recepção mista, principalmente por não representar toda aquela fúria e energia que os caracterizam quando toavam ao vivo. A banda parece ter sido direcionada a transformar os seus hinos em versões maiores e mais cinematográficas, o que é o caso de canções como “Do You Believe in The Westworld”, “Judgement Hymn” e “Love is a Ghost”, embora a última deixe um pouco a desejar, apesar de ser um marco sensacional quando tocada ao vivo. Mesmo com essas falhas que foram apontadas, Westworld não é um álbum ruim, e isso pode ser provado pela sua relevância, afinal, ele se tornou um dos discos mais reverenciados e influentes da cena pós-punk, e seu impacto pode ser sentido em bandas do gênero até os dias de hoje!

A banda foi formada em 1980, na capital inglesa



terça-feira, 6 de outubro de 2020

ROCK AND ROLL ALL LIFE: A TRAJETÓRIA DE VINNIE MARIANO

Por Juliana Vannucchi

Se você mora em Sorocaba/SP, e gosta de Rock And Roll, certamente já ouviu falar no Vinnie Mariano. E, se por acaso, você mora em Sorocaba/SP, gosta de Rock e ainda não ouviu falar no Vinnie Mariano, então, certamente deveria conhecê-lo, pois ele é uma referência lendária nessa cena musical. O Fanzine Brasil teve a honra de bater um papo com o Vinnie, que, de uma maneira ou de outra, dedicou praticamente sua vida inteira ao Rock: ele já foi vocalista de banda, colaborador de revistas especializadas no assunto, trabalhou numa conceituada loja de discos, e já esteve cara a cara com alguns dos mais aclamados mitos do Rock. O Vinnie nos contou um pouco dessas suas aventuras fantásticas que fizeram parte de sua trajetória de vida, então coloque um som massa para tocar, aumente o volume, e confira essa entrevista exclusiva e especialíssima!

1. Vinicius, eu te conheci justamente através da música, numa ocasião em você estava se apresentando com a banda Oz Machine, no Back Road Bar, em Sorocaba. Poderia nos contar um pouco sobre esse grupo do qual você fez parte? A qualidade musical era incrível... lembro que seu estilo vocal era sempre muito elogiado!

Olá, Juliana! Muito obrigado pela oportunidade da entrevista e pela oportunidade de falar um pouco sobre minha história no meio musical. 

Antes da Oz Machine, nós nos apresentamos muito com a BORDERLINE, que foi a minha primeira banda. Tudo começou como uma brincadeira. Estava ajudando o Samuca (guitarrista) a encontrar os músicos. A ideia era se apresentar num festival no Pirilampus da Avenida SP. Só faltava um vocal. E acabei fazendo um teste e sendo efetivado...rs. A ideia, no início, era ser uma banda tributo ao AC/DC. Fizemos isso por um bom tempo, mas aquilo acabou sendo pouco para o tanto de bandas que gostávamos. E abrimos o leque incluindo no set clássicos de bandas que amamos como KROKUS, DOKKEN, SAXON, ACCEPT, MOTÖRHEAD, TWISTED SISTER, WHITESNAKE, THIN LIZZY, UFO, SCORPIONS etc. Foi um tempo animal. Um dos melhores de nossas vidas. Infelizmente, alguns problemas começaram a aparecer e a banda acabou. Eu fui morar em SP, passei cinco anos lá. E no último ano, os caras da Oz me procuraram pra saber se eu poderia fazer alguns shows pra cobrir o vocal deles, que acabara de ter saído. Era a oportunidade de tocar os bons e velhos clássicos do rock ‘n roll e não pensei duas vezes. A coisa deu tão certo que acabei sendo efetivado como vocalista e foram anos mágicos, recheados de apresentações memoráveis, e tenho certeza que digo isso por todos. Nossas apresentações sempre foram muito elogiadas, tanto por sermos fieis ao termo Heavy/Rock/Hard Rock 70s, quanto pela energia e competência de todos. Eram apresentações energéticas, cheias de feeling e performances. Ainda é assim quando nos apresentamos. O que tem se tornado cada vez  mais raro, infelizmente.

2. Falando na Oz Machine, gostaria de saber qual foi o momento mais memorável que você viu com essa banda...

Pergunta difícil de responder. Tocamos até num casamento...rs. Mas acho que um dos melhores shows nossos ocorreu num festival dos metalúrgicos no Parque das Águas, onde a galera simplesmente enlouqueceu. Nossos shows no Pirilampus sempre foram ótimos, bem como nossas apresentações no Back Road, que por ser um lugar menor, tinha muito proximidade com o público. Dizer um, especificamente, não sei dizer. 

A banda Oz Machine em ação

3. Mais recentemente, você fez parte do grupo Dogs of War, que tocava covers do Saxon. Como foi o processo de formação desse grupo? Eu vi que vocês toscaram no “Rock Of Ages”, que é um dos mais notáveis festivais de Rock da região de Sorocaba e, certamente, de todo o interior paulista...

Essa já era uma ideia antiga também do Samuca, de formarmos uma banda tributo à banda que ele mais ama no planeta. Quando ele quer fazer uma coisa, ele corre atrás de tudo. TUDO MESMO, pra vc não ter que se preocupar com nada a não ser tirar as músicas e tocar. O Samuca também é o idealizador do Rock Of Ages, então nossa apresentação por lá foi mais do que natural que acontecesse.

 

Vinicius Mariano se apresentando no festival Rock Of Ages

4. Aliás, já que mencionei o Saxon, aproveito para perguntar se você assistiu ao vídeo do Biff Byford tocando com o Seb. Foi postado em abril, no canal “PlanetSaxon”. Devido às atuais circunstâncias, muitos músicos tem utilizado plataformas digitais para divulgarem seus trabalhos. Como você vê o atual cenário musical em relação ao contexto em que vivemos, marcado pela pandemia? E quais são suas perspectivas para o futuro no que diz respeito ao universo musical?

Eu, sinceramente, não vi esse vídeo, mas soube da existência dele. Acho que as chamadas “lives” foram uma saída bem bacana de o pessoal se apresentar de forma segura e sem aglomeração. São legais, mas ainda estão longe de passarem a sensação de estar lá, in loco. Eu não sei muito o que esperar sobre o futuro da música e das apresentações ao vivo. Mas acho que ainda vai demorar pra tudo voltar ao normal, se é que voltaremos ao normal...


5.  Você acha que apresentações musicais drive-ins podem elitizar (ainda mais) a música?

Eu não tenho certeza. As apresentações que eu vi nesse sentido que ocorreram foram todas gratuitas. Se forem pra esse caminho, acho uma boa saída. Mas eu não vejo muito sentido em assistir um show de rock dessa forma. Pra ver num telão, eu prefiro assistir no conforto da minha casa, sentado no melhor lugar, sem stress e tomando uma cerveja realmente bem gelada...rs.

6. Falando em “elitizar”, você considera que a música é uma forma cultural elitizada no país? Talvez o advento da internet tenha melhorado um pouco essa situação, mas a aquisição de produtos físicos não é tão simples. Eu vejo que muitos colecionadores que antes compravam muita coisa, hoje reclamam dos valores elevados dos produtos. Além disso, não é fácil ter condição e investimento para frequentar shows e festivais... Gostaria que você refletisse sobre o assunto.

Eu acho que o grande problema do nosso país é a nossa economia. Muitos impostos que encarecem o produto final. Bem como a desvalorização da nossa moeda. A maioria dos discos de rock/metal são importados, e aí entre comprar um CD simples por 100 reais ou um vinil por 300, ou ainda, pagar quase 2mil reais pra comprar uma pista VIP e ver melhor um show por cerca de 2h, valor do aluguel de muitas casas ótimas por aí, quase a prestação de um carro ou moto, fica difícil. Só pra quem hj realmente pode. Os CDs nacionais também são bem caros, mas porque incidem muitos impostos sobre os produtos. Na minha opinião, o que é de cunho cultural, deveria se ter o mínimo de impostos sobre. Mas estamos num país onde a cultura de que “quanto mais ingênuo e ignorante, melhor”. Então não vejo uma saída enquanto algo REALMENTE GRANDE mudar.

7. Falando em produtos físicos, como CDs e LPs & afins, sei que um período marcante na sua vida foi quando você trabalhou na Transa Som Discos. Como era essa rotina cercada de discos e músicas?

Posso dizer que foi o melhor emprego que eu já tive e o melhor lugar em que eu já trabalhei. Sinto muita falta de não trabalhar mais lá, da rotina que tínhamos, da alegria quando chegavam os pacotes com as novidades em CD/LP/DVD, do prazer em explorar mais de 1 milhão de itens... sempre fui mente aberta pra música. E trabalhar lá, do lado de um mestre como o Vilmar, só fez eu explorar ainda mais e expandir a mente para novos e viajantes caminhos.  

8. Foi na Transa Som que descobri que você gosta de Depeche Mode. Acho que muitas pessoas que o conhecem, o vem como fã e entendedor de vertentes do Hard Rock e do Heavy Metal mas, infelizmente, talvez não saibam o quanto seu conhecimento musical é mais abrangente. Eu sei da sua afinidade com esses dois últimos gêneros citados, mas também sei que uma das bandas que mais marcou sua existência foi... o The Smiths! Então, nos conte, por favor, sobre sua relação com o Depeche e The Smiths e diga qual seu álbum favorito das respectivas discografias dessas bandas! Graças a você eu conheci o “Black Celebration"...

Hahahaha! Como eu disse, eu sempre fui mente aberta pra boa música. Sempre gostei de bandas que enfrentaram desafios, gravaram discos diferentes do habitual e foram pioneiros nisso. Adoro Depeche Mode, Duran Duran, New Order, Joy Division, Sisters Of Mercy, The Cure, Morrissey e, claro, The Smiths. Algumas músicas dessa última banda que citei me marcaram demais numa época. E posso dizer que parece que a “How Soon Is Now?” foi escrita pra mim...rs. Foi, por muito tempo, a história da minha vida. Acho que, de certo modo, ainda faz...rs. Assim como a “Regret”, do New Order. Meu disco favorito do DM é o “Music For The Masses”. Do Smiths eu não tenho um disco específico, mas acho que as coletâneas e a coletânea de singles são beeeem completas e tem todas as minhas músicas favoritas da banda.   

9. Você já encontrou álbuns ilustres por acaso lá na TSD, né? Como foi o caso do “Phantom, Rocker & Slick”. Quais outros bons álbuns já caíram nas suas mãos lá na loja? 

Ah, isso acontecia toda a semana. Praticamente todo dia. Não tenho nem como enumerar quantos discos clássicos e quantas versões espetaculares – em principal, as japonesas – passaram pelas minhas mãos. Algumas delas vieram parar na minha coleção...rs.

10. A mudança de mídias é grande e vem acontecendo de uma maneira rápida. O que ainda leva as pessoas a ainda comprarem produtos físicos? O que você observou em suas experiências na Transa Som? A geração mais antiga é que, de fato, mais consome esses produtos?

Acho que quem passou pela incomparável experiência de trocar cartas com materiais de bandas nacionais por bandas estrangeiras, comprava fitas K7 para gravar os discos dos amigos, quem ficava ligado pra saber o que estava chegando de discos nas principais lojas da cidade... enquanto ainda puder, vai reservar um pouco da sua grana para comprar seus discos favoritos e os lançamentos de novas bandas boas que tem aparecido no mercado. Quem gosta, vai continuar comprando, até quando puder. O prazer de chegar em casa e ouvir um bom disco de vinil... só quem já sentiu esse prazer sabe do que eu estou falando. Pra mim o estranho, na verdade, é alguém falar que gosta de Rock/Metal e não ter sequer um CD em casa. 

11. Qual é o primeiro CD ou LP realmente marcante que você se recorda de ter comprado? Qual é a memória mais antiga em relação a isso? E, em contrapartida, qual foi o último LP ou CD que você comprou?

O primeiro disco de vinil que eu comprei foi o “Live After Death”, do Iron Maiden. Em CD, foram dois de uma vez: “Into The Unknown”, do Mercyful Fate e “Cowboys From Hell”, do Pantera. Mas, sinceramente, eu já não me lembro das datas...rs. Todo mês eu compro alguma coisa nova. O último disco de vinil que eu comprei foi o “Fatherland”, do Ancient Rites, que, inclusive, acabou de chegar aqui enquanto eu respondo esta entrevista...rs.

12. Vinicius, você trabalhou na revista Valhalla, que foi uma das mais conceituadas em relação ao Heavy Metal, e ao Rock, em geral. Você entrevistou artistas importantes quando esteve lá, né? Como, por exemplo, os membros do Angra... Poderia nos contar qual foi a entrevista mais icônica que você já realizou nesse período em que esteve na Valhalla?

Sim. Eu era redator e depois assumi a parte de redator-chefe. Foi um período mágico. É impossível de descrever. Eu falei da Transa Som, mas, na realidade, trabalhar na Valhalla foi, até hoje, o grande trabalho da minha vida. Você estar em contato diariamente com o mundo do Rock e do Metal, entrevistar seus músicos favoritos.... ter contato com tudo o que envolve o meio... é algo surreal até hoje. Entrevistei muitas bandas, fui a inúmeros shows, e tive experiências visuais que algumas pessoas nem sonharam ter. Todo dia chegavam centenas de CDs, nacionais e importados, para resenha.

A entrevista mais icônica que eu fiz foi ter falado por telefone com o Max Cavalera (Sepultura, Cavalera Conspiracy, Soulfly), quando houve o lançamento do disco “Dark Ages”, do Soulfly. Meu ídolo do Metal nacional. Mas um dos momentos que mais me marcaram foi ter falado poucos segundos com o Gene Simmons (KISS) ao telefone e um pouco também com o mestre Quorthon, do BATHORY, uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos e um dos meus maiores ídolos do Metal. Pouco depois ele morreu e foi a única entrevista que ele deu para um veículo nacional antes de morrer. Além de ter passado varias horas com o Leo Leoni e o Steve Lee, do Gotthard, passeando por lugares históricos de SP, enquanto entrevistávamos a banda. Pouco depois o Steve Lee também morreu num acidente de moto, nos EUA.

Matéria com a Pitty 

Steve Lee (R.I.P.) e Leo Leoni, do Gotthard 
 

13. Foi por intermédio do trabalho na revista que você conheceu o Ronnie James Dio pessoalmente? Poderia nos contar como foi esse encontro? “Always meet your heroes”, como diz a Pam Hogg!

Na verdade, quando eu tirei essa foto eu já não fazia mais parte da revista. Foi no ano que ela encerrou as atividades. Tudo aconteceu por muita sorte. Minha ex-esposa tinha uma conhecida, na verdade uma “groupie” lá de SP, e ela nos colocou lá dentro. Conhecê-lo foi algo surreal. Eu fiquei travado! Ele percebeu e foi muito paciente, um verdadeiro gentleman. Brincou com nós, contou piadas e até tirou um sarro gritando “Viva a Itália”, que tinha acabado de ser campeã mundial em cima da França. Não é à toa que ele foi o mestre. Ainda me emociono quando me lembro desse dia.

Ronnie James Dio e Vinnie Mariano

14. Você também conheceu o Udo... e, aliás, eu estava lá! Haha. Como foi esse show que ele realizou em Sorocaba?

Sim, estávamos lá...rs. Foi um show só do Udo tocando clássicos do Accept. No caso do Udo, ele não estava muito de bom humor, mas até que nos atendeu bem. Também foi uma honra, um cara que eu sempre admirei e é uma das minhas principais influências vocais. 

15. Você também já foi colaborador da Roadie Crew e da SL Music, né? Ainda escreve para alguma dessas revistas?

Sim. Eu fui colaborador da Roadie Crew no período que estive morando em SP. Eu morava perto do mestre Ricardo Batalha, editor chefe da revista. Ele já era um amigo de longe nos tempos da Valhalla e passar a colaborar com eles foi mais um sonho realizado, por estar fazendo o que eu mais gosto na vida. Ao mesmo tempo eu era editor da SL Revista Eletrônica, do Souza Lima, que já era um campo mais eclético, com entrevistas e matérias sobre bandas e grupos de Jazz, MPB, Pop, etc. Infelizmente, hoje eu não colaboro mais com nenhuma delas. É meio decepcionante, porque não tenho mais tempo de fazer o que eu mais gostava na vida. 

16. Consegue listar suas dez bandas favoritas?

Ah, novamente impossível. Não quero ser injusto com ninguém...rs. E música, pra mim, vai muito de estado de espírito. E outra: eu sou apaixonado por todas as bandas da NWOBHM e as que seguem essa sonoridade, até os dias de hoje. Mas as que nunca saem da lista: Iron Maiden, Metallica, Black Sabbath, Thin Lizzy, Bathory, Running Wild, Dokken, Motley Crue, W.A.S.P., Mercyful Fate/King Diamond, Diamond Head, Grave Digger, Candlemass, Katatonia, Sodom, Motörhead, Lynch Mob, Mayhem, Rough Cutt, UFO... e por aí vai...rs.

17. Se você se mudasse para uma ilha deserta, e só pudesse levar um álbum com você, qual escolheria?

Acho que levaria o Hammerheart, do Bathory. 

18. Se pudesse escolher apenas quatro das bandas abaixo para tocar numa festa sua, quais escolheria?

AC/DC
Queensrÿche
Alice Cooper
Led Zeppelin
Black Sabbath
Running Wild
Thin Lizzy
King Diamond
Kreator
Venom

Black Sabbath, Running Wild, King, Thin Lizzy e Diamond.

19. E agora, o Fanzine Brasil te convida para um bate-bola. Pega aí camisa 10 aí, e a vamos lá!
Vamos lá!


a) Uma banda de Rock que todo mundo gosta e eu não... 

Não diria que eu não gosto, mas não sou tão fã: Queen.


b) Uma música/banda/álbum que eu adoro, mas tenho vergonha de admitir que escuto... 

Hahahaha! Não tenho vergonha de admitir que eu escuto, mas adoro Dead Or Alive e Gene Loves Jezebel. 


c) Afinal, entre os Sex Pistols e os Ramones, o melhor é...  

Pra mim, sem dúvida, Sex Pistols. 

 
d) Uma música que faz você chorar...

Váriasssssss......kkkkkk! Sou um chorão de mão cheia! Um cara que chorou até no filme “Leão Branco”, do Van Damme... o que você espera? (risos). Mas se tem uma que é “batata”, esta música se chama “Night And Day”, do Axel Rudi Pell, por me lembrar de um período muito triste da minha vida. E também, “We Might as Well Be Strangers”, do Keane. É choradeira na certa....rs.


e) Uma música cuja letra te emocione...

Muitas letras para mencionar... “Forever Free”, “Hold On To My Heart” e “The Idol”, do W.A.S.P., seguramente. “Song to Hall up High”, do Bathory, “Ballad Of The Willian Kid”, do Running Wild, “Pieces”, de Paul Shortino e John Northrup, “Home Sweet Home, do Motley Crue, “Criminal”, do Katatonia, “Willian Wallace”, do Grave Digger e “The Highwayman”, de Loreena McKennitt, são algumas delas.




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