Fanzine Brasil

SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

segunda-feira, 8 de março de 2021

GIRL POWER: O QUE PODEMOS APRENDER COM AS MULHERES MAIS LENDÁRIAS DO ROCK AND ROLL?

 Criação, organização e introdução: 

Juliana Vannucchi

Colaboradores convidados: 

Mau Carlakoski 

(vocalista e guitarrista da banda She is Dead)

Karlos Júnior

(músico e criador do projeto Quântico Romance)

 Ulisses 

(aka Ulixo, criador do Zine DF Caos)

Rosa Martins 

(leitora do site e amiga)

 Thiago Halleck  

(baixista da banda Gangue Morcego, da 1983 e criador do projeto HallecӃ)

 
O que podemos aprender com as mulheres mais lendárias do rock and roll? Essa é uma pergunta  instigante que possibilita incontáveis respostas e caminhos reflexivos. Contudo, de maneira geral, através da nossa lista, vemos que essas poderosas mulheres nos ensinam a nos tornarmos pessoas mais seguras, mas fortalecidas, corajosas e mais preparadas para sermos aquilo que queremos ser e para termos voz ativa na sociedade. Essas personalidades ilustres cravaram seus nomes na história do rock e deixaram uma herança cultural valiosa, que nos incentiva a não depender de terceiros, a tentar, a criar, a ousar e a arriscar, sem que nos preocupemos  tanto com o resultado, mas para que fiquemos focados especialmente no processo criativo.  Estimulam-nos a fazer a nossa própria roupa, revista ou música do jeito que quisermos e, se não der certo, não tem problema. Ensinam-nos a concretizar nossas ideias, sejam lá quais forem. São mulheres que brindaram a autenticidade e que correram riscos e desafiaram normas para conquistar seu espaço no mundo.

Viv Albertine (por: Juliana Vannucchi)

A líder do The Slits é um verdadeiro ícone cultural dos nossos tempos. Além da sua contribuição no meio musical, ela já foi ativa no campo cinematográfico e televisivo, além de ter tido bastante reconhecimento como escritora.

Por meio de suas desconstruções estilísticas e experimentos sonoros, a banda The Slits foi um verdadeiro símbolo de expansão e liberdade feminina na música. A impactante capa do Cut, álbum mais expressivo e conceituado da trajetória do grupo, com as três integrantes despidas da cintura para cima, se tornou icônica. A esse respeito, Albertine declarou certa vez ao The Guardian: “Queríamos uma postura guerreira, queríamos ser uma tribo (...) Sabíamos, como não estávamos vestidas, que tínhamos que parecer confrontadoras e duronas. Não queríamos ser convidativas ao olhar masculino”. De fato, a nudez presente na imagem do álbum não possui apelo sexual, e pode-se dizer que tem um viés essencialmente artístico, simbolizando a força e a emancipação femininas. Numa entrevista que deu em 2014, comentou que a sociedade da época em que sua banda foi formada era muito patriarcal e, por isso, a The Slits chocou muitas pessoas e  rompeu com vários padrões estabelecidos naquele contexto, pois segundo ela, não havia questionamento a nenhum homem nesse período, apenas aceitava-se o que eles diziam e faziam. Viv acredita que a música punk era uma verdadeira rebelião. Esses elementos que compunham a atmosfera social e política do surgimento da banda certamente justificam as razões pelas quais suas letras sempre foram repletas de críticas aos costumes estabelecidos e às imposições feitas pela sociedade. 

Viv Albertine

Siouxsie Sioux (por: Juliana Vannucchi)

A provocante Siouxsie Sioux é uma das mulheres mais transgressoras e rebeldes de todos os tempos. Sempre buscou combater paradigmas para poder firmar sua singularidade e se libertar de qualquer amarra que lhe fosse imposta. Isso fez de Siouxsie uma das mulheres mais corajosas e originais de todos os tempos. Numa entrevista concedida durante o período de seu único álbum solo, o Mantaray, ao comentar sobre os primórdios do punk rock e sobre as lições aprendidas no decorrer dessa época, aconselhou o público presente: "Faça o que você quer fazer e fodam-se os outros". Na mesma ocasião, com convicção, afirmou que o punk "permanece vivo em nossos espíritos e também em nossas atitudes". Sioux, certa vez, também aconselhou que sempre busquemos alicerçar nossas vidas naquilo que corresponde a nossa autêntica subjetividade, dizendo que cada um tem sua própria jornada, e essa jornada, por ser individual não pertence a mais ninguém. Não é à toa que podemos considerá-la um verdadeiro modelo de autoafirmação.

Siouxsie Sioux  

Elisabeth Fraser (por: Rosa Martins)

Elizabeth Fraser é mais que uma poetisa e cantora. A doce e tímida punk, que na adolescência ouvia Siouxsie, The Birthday Party e Sex Pistols, colocou à frente a sua voz poderosa e arrebatadora, sua exposição doce e ocasionalmente profana com inflexão punk, tão inspiradora que transforma uma canção numa experiência de vida para toda vida. Obrigada, Elizabeth Fraser.

Elisabeth Fraser

Jessie Evans (por: Juliana Vannucchi)

Jessie Evans é uma das artistas mais versáteis, brilhantes e diferenciadas de nossos tempos. Ao longo de sua carreira, já se apresentou em alguns dos palcos mais célebres de todo o continente europeu, além de ter feito colaborações com músicos como Budgie, Lydia Lunch e Tobby Dammit. Suas canções já migraram por estilos bem diversos, indo de uma atmosfera mais sombria até vibrantes ritmos afro. Independe do que faz, ela sempre nos leva magicamente para qualquer dimensão! E o que impressiona é sua capacidade de manter um excelente padrão de qualidade em todos os seus álbuns e em todos os gêneros pelos quais percorre.

Além de seu extraordinário talento musical, Jessie é uma mulher determinada e esforçada em sua vida pessoal. Atualmente, e para nosso orgulho, a cantora vive no litoral do Brasil e continua ativa e dinâmica em suas produções.

Jessie Evans

Kim Gordon (por: Thiago Halleck)

Eu gostava de uma música ou duas, mas me lembro de ter realmente conhecido Sonic Youth em 2005, quando a banda tocou no Rio de Janeiro com o Nine Inch Nails e o Stooges, e aquela experiência mudou a minha vida. Eu fiquei com um olho grudado no Ranaldo e o outro na Kim o tempo inteiro. Para mim, foi muito importante na compreensão de que barulho, desafinação e demais esquisitices podem ser elementos valorosos dentro de uma música, se usados com sabedoria. Aí, eu comecei a devorar a banda e vi que as minhas preferidas eram, quase todas, as que ela cantava: Shadow Of A Doubt, Cross The Breeze, Massage The History, Kool Thing e várias outras estão aí para provar. Isso sem falar que ela não se resume ao Sonic Youth: Kim brilha em todas as bandas e projetos musicais por onde ela passa, brilha como produtora (o primeiro álbum do Hole que o diga), brilha como artista visual, brilha como atriz. David Grohl, uma vez, disse que Kim Gordon era um farol de luz em uma cena punk predominantemente masculina, e ele não poderia estar mais correto. Kim é luz, é raio, estrela e luar, é manhã de Sol, meu iaiá, meu ioiô!

Kim Gordon

Patricia Morrion (por: Thiago Halleck)

Patricia Morrison é simplesmente fantástica, e é realmente uma pena que ela tenha se aposentado tão cedo. A figura poderosa, o visual emblemático e as linhas de baixo proeminentes e cheias de identidade tornam simplesmente impossível pensar em Sisters Of Mercy sem que a imagem dela imediatamente venha à cabeça - muitas vezes, antes mesmo do próprio Eldritch. Deixou uma marca forte no Damned, mesmo só tendo gravado um álbum com eles (provavelmente, o meu preferido). E o álbum solo, de 1994, é espetacular, mesmo que pouco comentado. Não penso duas vezes antes de apontá-la como uma das principais referências dentro do panteão feminino das cenas punk e gótica, junto com Siouxsie, Poly Styrene, Anja Huwe etc.

Patricia Morrion

                                                      Poison Ivy (por: Mau Carlakoski)

Poison Ivy lidera o rock selvagem no meu coração com seus riffs e sua postura sem igual. Ela é puro rock and roll! Seu jeito de tocar, seus trajes, seu olhar... tudo nela é absolutamente brilhante e fascinante. Ela foi o par perfeito para Lux, eles eram o casal ideal para fomentar aquela barulheira do The Cramps que nós tanto amamos! Definitivamente, o casal mais memorável do Rock! Ivy é totalmente única. Sem paralelos!

    Poison Ivy

Gillian Lesley Gilbert (por: Mau Carlakoski)

A Gillian é uma mulher que me faz dançar, sonhar e voar com cada arranjo vindo do seu teclado... Sua música é como um atraente poema místico. Muitas bandas de nossos tempos - ainda que não saibam -  carregam em suas próprias produções alguns traços legados da arrebatadora música de Gilbert!

Gillian Gilbert

Kim Deal (por: Mau Carlakoski)

A Deal é simplesmente a baixista mais querida do mundo, seus baixos soam como um amigo falando o quanto é legal viver. Ela é virtuosa e sempre esteve caminhando para a construção de novas ideias. O que ela faz é simplesmente entusiasmante e atinge potencialmente qualquer ouvinte! 

Kim Deal

Ari Up (por: Juliana Vannucchi)

Ari Up sempre foi uma das figuras mais cativantes do punk rock. Era inteligente , talentosa e  sempre batalhou para fazer com que as mulheres tivessem espaço na música e fossem respeitadas nesse meio artístico. Numa entrevista concedida à BBC, comentou que via grupos de meninos que faziam várias coisas que queriam, mas não eram criticados. No entanto, quando garotas tentavam a mesma coisa, geralmente sofriam críticas. Rompendo barreiras e tirando qualquer tipo de censura do seu caminho, Ari Up se transformou num verdadeiro mito do punk rock e a The Slits foi uma das bandas mais revolucionárias da história do rock. Ari Up via essas mudanças como algo necessário e acreditava que as bandas que pertenciam ao movimento punk eram, inclusive, responsáveis por gerar essas transformações culturais - políticas, filosóficas, musicais, etc. 

Ari Up


                                                             Lora Logic (por: Juliana Vannucchi)

Lora Logic foi umas das responsáveis por inovar a sonoridade crua e tradicional do punk ao inserir engenhosas linhas de saxofone nas músicas da banda X-Ray Spex, da qual participou durante um período. Sim, podemos dizer portanto que, historicamente, ela colaborou para que o punk tivesse uma nova cara e atravessasse fronteiras estéticas, experimentando possibilidades musicais distintas daquelas que marcaram seu período embrionário. Certamente, esse feito é suficiente para que a magnífica Lora Logic seja considerada, sem exageros, como a maior saxofonista de toda a era punk. 

Lora Logic

Poly Styrene (por: Juliana Vannucchi)

Styrene pode ser definida como um símbolo de força, resistência e superação. Foi uma mulher guerreira que se desvinculou totalmente de todos os padrões femininos impostos no período em que esteve à frente da banda X-Ray Spex. Sofreu diversos ataques raciais e machistas e foi alvo de preconceito devido à sua aparência, mas, ao invés de se entregar ao sofrimento que tudo isso lhe causava, ela simplesmente escreveu uma série de letras ácidas que atacam a sociedade pós-moderna e seus principais componentes, como a alienação, a identidade, a opressão e o consumismo.


                                                     Debbie Harry (por: Juliana Vannucchi)

A belíssima Debbie Harry não apenas consolidou sua fama como o maior símbolo da New Wave, mas também obteve sucesso como atriz, tendo participado de mais de sessenta filmes. Por isso, podemos assegurar que a icônica vocalista do Blondie é uma verdadeira referência cultural. Conhecida e respeitada em todos os cantos do mundo, suas canções agradáveis e vibrantes ainda arrancam suspiros de muitas pessoas e tocam constantemente em várias rádios e discotecas.

Debbie Harry

Tina Weymouth  (por: Juliana Vannucchi)

Tina é especialmente aclamada por suas inconfundíveis mesclas de melodias rítmicas da dance music com riffs minimalistas... Seria uma combinação improvável para muitos, mas não na mão dessa habilidosa artista, que praticamente brincava com seu instrumento. Tina sempre foi uma baixista ousada e inventiva, que fez de seu talento uma espécie de laboratório de experimentos sonoros. É válido lembrar que ela já foi eleita a melhor baixista do planeta por sua memorável contribuição na música "Psycho Killer", faixa mais famosa do Talking Heads. Outro aspecto que a tornou muito conhecida foi sua irreverência em cima dos palcos. O comportamento agitado e um tanto teatral nos shows sempre atraíram os olhos do público.

Tina Weymouth

Pam Hogg (por: Juliana Vannucchi)

Pam Hogg é um dos maiores nomes por trás do aspecto visual do universo punk e pós-punk. Essa lenda da moda underground possui como admiradores alguns dos maiores nomes da música, como Ian Astbury e Siouxsie Sioux. Mas o talento de Hogg não se restringe apenas à moda: ela também já fez parte de um notável projeto musical chamado “Hogg Doll”, através do qual mostrou grande presença de palco e nos presenteou com uma voz encantadora.

Pam sempre foi extremamente autêntica em suas criações e jamais abandonou a ideologia D.I.Y. que, até hoje, se faz essencialmente presente em suas produções estilísticas. A fashion designer escocesa também é autodidata e, inclusive, já declarou que nunca estudou moda e por isso não segue regras específicas, fato que a faz trabalhar de uma maneira livre, espontânea, diferente e em contraponto com as imposições e exigências da grande indústria. Em suas peças são usados materiais bem variados, e suas inspirações são igualmente diversificadas. Todos esses aspectos fazem de Pam Hogg uma das mulheres mais inspiradoras, brilhantes e geniais de nosso tempo.

Atualmente, além do seu trabalho na moda, a subversiva designer escocesa mostra-se engajada em questões políticas e sociais e, inclusive, em mais de uma ocasião, já demonstrou seu inconformismo em relação ao deplorável e medonho governo de Jair Bolsonaro. Em 2020, tive a oportunidade de fazer uma brevíssima entrevista com ela por intermédio do Zine Última Quimera. Quando perguntamos sobre o efeito que seu trabalho pode causar nas pessoas, ela respondeu: “Eu ofereço um jeito de olhar para as coisas e espero que a visão através dos meus olhos ressoe, conecte e inspire (...) Eu me esforço até que seja atingida por um momento de alegria e, assim, sinto que estou dando algo para as pessoas”.

Pam Hogg

Brix Smith Start (por: Juliana Vannucchi)

A guitarrista e vocalista do The Fall esbanjou um enorme talento musical durante sua carreira, recebendo sempre muitos elogios por parte da crítica especializada. Brix teve participação ativa na produção de algumas da faixas de maior sucesso da banda. Além dessa marcante passagem pelo The Fall, ela também teve uma brevíssima passagem colaborativa com a banda Hole, liderada por Courtney Love, e também esteve com o Bangles.

Nos últimos anos, Brix Smith Start tem se dedicado à moda e já apareceu algumas vezes em programas televisivos nos quais foi consultada por ser especialista no assunto.
 
Brix Smith Start

Patti Smith (por: Juliana Vannucchi)

Patti Smith, a grande poeta do rock and roll, foi uma das precursoras do movimento punk norte-americano. Suas performances e seu lirismo sempre estiveram repletos de romantismo, emoções e sentimentos profundos, com os quais muitas pessoas se identificam. No livro "Mate-me Por Favor", declara em relação ao seu processo criativo: "Comecei a fazer sucesso escrevendo aqueles poemas longos, quase poemas de rock and roll (...) Escrevo pra ter alguém. Há um motivo por trás de tudo que escrevo (...) Outra coisa é que, através da performance, alcanço certos estados nos quais sinto minha mente muito aberta - cheia de luz, enorme (...)". Não há dúvida de que os ouvintes e espetactadores captam e entram nessa sintonia esplêndida da  poderosa "rainha underground".

Patti Smith

Joan Jett (por: Juliana Vannucchi)

Joan Jett é um verdadeiro mito do hard rock! Essa divindade sagrada do rock and roll  mudou o cenário musical dos anos setenta e, a partir dessa década na qual iniciou sua carreira, eternizou seu sucesso! É uma cantora maravilhosa cujas músicas e álbuns são aclamados e tocados constantemente em todos os cantos do planeta. É praticamente impossível encontrar alguém que não admire essa mulher rebelde e glamourosa e que não chacoalhe a cabeça aos sons de seus eternos clássicos do rock!

Joan Jett

Lydia Lunch (por: Juliana Vannucchi)

Lunch sempre pareceu satisfeita e despreocupada em chocar o conservadorismo. Talvez, por isso, tenha caminhado em direções contrárias a qualquer tradicionalismo vigente. Foi a principal expoente da No Wave norte-americana, movimento musical desconstrutivo que buscava uma emancipar-se das cenas que imperavam na época. Em sua prolífica carreira, já gravou com Rowland Howard e Nick Cave, Bob Bert e outras personalidades históricas da cena pós-punk. Com um espírito livre e excêntrico, sempre foi provocativa e muito criativa, traço este que a fez se envolver com outras atividades além da música: é atriz, poeta e obteve um destaque especial em suas aventuras como escritora. Sua voz, potente e doce ao mesmo tempo, expressa sua força interior. Já tive a oportunidade de encontrá-la pessoalmente e posso garantir que  Lydia é uma pessoa fantástica.

Lydia Lunch

Lisa Gerrard (por: Juliana Vannucchi)

É uma tarefa difícil descrever a experiência vivida por um indivíduo quando a doce e mágica voz de Lisa Gerrard chega aos seus ouvidos. As melodias disparadas por seus lábios são simplesmente alucinantes e levam qualquer um para uma dimensão alheia ao espaço e ao tempo, numa espécie de viagem metafísica. Sua maneira de cantar é profunda e única. Todos os trabalhos musicais dos quais ela participou são presentes divinos que sempre soam de uma maneira agradável. Sua carreira é plenamente feita de acertos, Lisa Gerrard está sempre em alta. 

Lisa Gerrard
 

Dolores O’Riordan (por: Juliana Vannucchi) 

Dolores é dona de uma voz maravilhosa que emocionou gerações, que cativou corações e que mudou a vida de muitas pessoas. Sua presença de palco e sua doçura são imortais e, apesar de seu falecimento precoce ter entrestecido e chocado o mundo, ainda assim, felizmente, podemos continuar desfrutando de seu legado artístico. Suas músicas consolam, aliviam, inspiram, fortalecem e, por fim, podem ser uma verdadeira salvação existencial.

Dolores O’Riordan
 

                                                          Chrissie Hynde (por: Karlos Júnior)

Líder da banda The Pretenders, Chrissie vem há décadas atuando como vocalista, compositora e guitarrista do grupo, sendo a única voz ativa do projeto em seu tempo de vida. Como ícone e símbolo musical, sua gênese remete aos primórdios da história dos movimentos punk rock e new wave, destacando-se como inspiração para que milhares de outras mulheres sigam seus passos e lutem por seus espaços no universo da música. Chrissie destacou-se também nos últimos anos como ativista e defensora dos direitos dos animais, combatendo o especismo e buscando um tratamento mais ético às demais criaturas terrestres.

Chrissie Hynde


                                                               Nico (por: Karlos Júnior) 

Nome artístico de Christa Päffgen, cuja simbologia refere-se a um anagrama da palavra Icon (ícone), saído da mente de seu amigo Andy Warhol. Nico destacou-se como modelo em tenra idade e em seguida como atriz, ganhando um pequeno papel em "La dolce vita" de Fellini, e mais tarde como protagonista de "Strip-Tease", de Jacques Poitrenaud. Como integrante do Velvet Underground e depois em uma carreira solo, Nico brindou à música com seus vocais marcantes e experimentalismos sonoros, deixando um legado na história do rock e da música mundial.

Nico



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

UMA VIAGEM DIONISÍACA: II EXPOSIÇÃO ONLINE DE DESENHO E PINTURA DO SITE FANZINE BRASIL

 Organização: Juliana Vannucchi

Caros leitores e visitantes, sejam todos muito bem-vindos, é uma honra recebê-los em nossa casa! A Segunda Exposição Online de Desenho e Pintura do Fanzine Brasil visa atenuar o sofrimento e a falta de perspectiva diante de uma realidade tão complexa e difícil, além de proporcionar uma luz de otimismo, alegria e esperança às pessoas. Incentivamos o visitante a deixar seu comentário na postagem para prestigiar o trabalho dos artistas que estão participando de nossa exposição virtual. E lembre-se de ler e conhecer também outros conteúdos de nosso site.

Proposta:

Em 2018, o grupo australiano Dead Can Dance lançou um álbum intitulado “Dyonisus”. Esse foi o motor musical que nos inspirou a realizar a presente exposição. Nossa proposta foi para que os artistas convidados elaborassem um desenho e/ou pintura inspirados no referido álbum. A partir disso, os incentivamos a mergulhar em suas músicas, sentindo-as de maneira intensa, conectando-se com o seu conceito e elaborando um registro a partir dessa profunda experiência estética. Solicitamos também que cada artista enviasse um pequeno texto reflexivo a respeito da temática e do processo criativo de sua produção e ainda que escolhesse um título para a sua arte.

Além de nutrirmos uma enorme admiração pelo Dead Can Dance, a ideia de uma exposição baseada no álbum da banda foi fortalecida pela filosofia nietzschiana que, dentre tantas outras abordagens, faz referência e enaltece a figura de Dioniso, que surge como símbolo dos mistérios, do caos, do desconhecido, do sofrimento, do excesso e da desmedida, aspectos inerentes e fundamentais para a plenitude existencial.

ERICA IASSUDA:

"ADEUS, DARUMA".





Comentários da artista:

A série "Adeus, Daruma" surgiu a partir de uma memória de tristeza profunda, um desconforto  latente, porém devidamente reprimido  por pendências emocionais  a respeito do luto, propósito  de vida e o perdão. A série surge como uma forma de redenção e um primeiro passo para acessar e me libertar do que ficou pendente por tantos anos. A estética  deste políptico  foi inspirada pela dança japonesa Butoh experimental,  pós-guerra e avant-garde ao som do  álbum “Dyonisus” do Dead Can Dance, como registros  de uma performance de dança. Assim, enquanto a trilha sonora ritmada, ritual (dionísica!)  evoca o distanciamento  da racionalidade, essencial  para acessar emoções de terror, ansiedade e tristeza, o Butoh, por sua vez, traz a formalidade da beleza, da feiura e da verdade mais pura. A peça teatral é uma jornada de dentro para  fora e sobre transcendência  das emoções de sofrimento em liberdade.

Materiais e Técnicas: 

Políptico, registros de desenho, grafite, acrílica e aqualine sobre papel Aquarelle 300g. Diversos tamanhos.

KARLOS JÚNIOR:

"LAS BACANTES" 

Comentários do artista:

Envolto na atmosfera do álbum do Dead Can Dance e nos temas de suas faixas, eu me remeti às memórias que tenho de obras pertencentes à mitologia grega, filmes que vi na tenra idade e algumas leituras para imaginar a dança das bacantes, as consortes do deus do vinho, do amor e da celebração da vida e da alegria para criar a ilustração. A partir dessa experiência, a ideia foi fazer por meio da dança, Baco ou Dionísio ser invocado pelas jovens com sua taça de vinho sedutora.

Materiais e Técnicas:

Arte criada a partir de uma lapiseira Stadtler 2 mm e finalizada em canetas nanquim Micron, UniPin e tinta nanquim a pincel. 

 TUCA CHIVALE GALVAN: 

"PROFUNDEZAS EM COR"

 Comentários da artista:

Todo o processo de criação foi acontecendo ao som do álbum “Dyonisus” do grupo Dead Can Dance. E ao aceitar o convite de Juliana Vannucchi, do site Fanzine Brasil,  mergulhei em cada música, podendo assim me deixar inspirar pela composição de vários tipos de sons advindos de instrumentos musicais não muito convencionais e também de outros já popularmente conhecidos. A cada instrumento identificado, ou mesmo sem saber quais eram, fui construindo uma sequência de movimentos e uma explosão de cores, sentindo que estava em conformidade com o que estava escutando. Ora numa suavidade inebriante, ora sendo provocada por um incômodo desequilíbrio e por um mistério.

Trabalhei com os respingos representando a paixão, a embriaguez e o caos, assim como na definição ao Deus Dionísio, segundo Nietzsche. E como contraponto,  referenciei o Deus Apolo, permitindo-me harmonizar cores para dosar o equilíbrio.

E assim a aquarela foi finalizada. A escolha dessa técnica aconteceu pela possibilidade das transparências das cores, composição em nuances provocativas e o desafio de controlar o movimento da água  combinada com a tinta. O trabalho se tornou tão poético quanto a música.

Materiais e Técnicas: 

Aquarela e respingos.

SORAYA BALERA: 

"TRANSMUTAÇÃO"
 

 
Comentários da artista:
 
Quando dei as primeiras pinceladas na tela vazia, senti que estava mergulhando dentro da minha própria mente. As imagens que visualizei nesse momento inicial foram raios que logo transformaram-se em neurônios, simbolizando ligações interiores profundas conectadas ao medo. Por sua vez, as gotas que caem representam o sofrimento que vai sendo sutilmente levado. Mediante esse cenário, inúmeras bolhas sobem para representar a leveza As rosas surgem com o papel de suavizar essa condição descrita. A pintura feita trata-se, em suma, da captação de um processo no qual  o medo e a insegurança são transmutados em esperança, em cores, no aroma das rosas e no belo. O denso se esvaíra para dar espaço ao que é leve... 
 
Materiais e Técnicas: 
 
Óleo sobre tela (70cm × 80cm).

THIAGO ROCHA:

"SILÊNCIO"

Comentários do artista:

Dentro do meu processo criativo, sempre procuro ouvir algo para acompanhar a inspiração durante o desenvolvimento. Muitas vezes me pego em um certo transe. Consequência da concentração e viagem para dentro das músicas. Nessa construção muitas vezes eu não tenho algo nítido do resultado final, tenho apenas a ideia da imagem central. É nesse momento que começo a discutir comigo mesmo o ponto final do processo. A música muitas vezes influencia, seja por sua batida, por sua história e sua letra. A imagem retratada é do filme Psicose, onde a o assassino assume dupla personalidade ouvindo a voz de sua falecida mãe. Eu acredito ser o mesmo silêncio que o meu, só que com finais, motivos e intuitos completamente diferentes.

Materiais e Técnicas:

Photoshop.

Artistas participantes: 

Erica Iassuda
(Instagram: @erica_com_c_de_casa)
 
 Karlos Júnior 
(Instagram: @karlosmjunior)
 
Soraya Balera
(Instagram: @sorayabalera)
 
 Thiago Rocha
(Instagram: @thiagorocha.art)
 
Tuca Galvan
(Instagram: @estefania_tuca)

RELIGIÃO, MODA E PUNK ROCK: UM POUCO MAIS SOBRE SIOUXSIE SIOUX

 Por Juliana Vannucchi

O Fanzine Brasil traz hoje a primeira lista de 2021. E para essa estreia escolhemos um tema que nossos leitores adoram: Siouxsie Sioux. Fizemos uma pesquisa sobre a lendária vocalista inglesa e elencamos alguns fatos bem curiosos sobre ela! Confira, compartilhe e deixe seu comentário!

UM POUCO MAIS SOBRE O GOSTO MUSICAL DE SIOUXSIE SIOUX: 

Uma vez, em outra lista do nosso site, citamos algumas das principais influências musicais de Siouxsie Sioux e mencionamos algumas bandas das quais ela gosta. Hoje, porém, faremos o contrário, e nesse primeiro tópico contaremos aos leitores o nome de um grupo que ela detesta com todas as forças!

Numa entrevista do início da década de noventa, Siouxsie declarou que odeia Genesis, banda à qual já dirigiu as seguintes palavras: “Eu os desprezo. Eu odeio a afabilidade deles, apenas aqueles caras comuns... o ... Eu odeio a música deles. Eu odeio como eles se colocam. Acho que deveriam ser (ela olha em volta em busca de uma punição adequada) ... queimados”.  Na sequência da entrevista em que fez essa observação, também disse que nunca conheceu os membros do Genesis e que não gostaria de conhecê-los.

"Não é que eu tenha qualquer intenção de criar um novo visual que seja memorável. Eu simplesmente me canso das coisas".

SID VICIOUS E OS PISTOLS: 

Sabemos que os Banshees emergiram durante a eclosão do punk rock inglês e que seu destino se cruzou com o dos membros do Sex Pistols. Siouxsie foi uma das tantas pessoas da cena londrina que tiveram o privilégio de conhecer pessoalmente uma das figuras mais caricatas da história do Rock And Roll: Sid Vicious. A esse respeito, numa entrevista concedida a David Cavanagh em 1992, a vocalista e cofundadora dos Banshees disse que havia um Sid antes do Sex Pistols e um depois. Sugeriu que ele mudou muito. Disse que antes de ele se juntar ao grupo punk, tinha um grande senso de humor. Mas na mesma entrevista em que teceu esse elogio, complementou: “Eu provavelmente não seria capaz de continuar com ele (após os Pistols). Pelo que ouvi, ele mudou muito. Eu o vi uma vez e quase não o reconheci. Ele simplesmente se foi. Ele deixou o planeta”.

Na mesma ocasião, Sioux foi questionada a respeito das bandas punks que admirava e respondeu de maneira segura: “De várias da América, como The Cramps. Suicide, Iggy mesmo naquela época. E os primórdios do Wire. Provavelmente há muito mais”.

Na sequência, foi questionada sobre três grandes bandas ingleses: Pistols, The Clash e The Damned. A essa pergunta, respondeu com certo tom de sarcasmo: “Oh, os caricatos. Bem, os Pistols foram muito importantes para mim, mas isso foi antes de eles assinarem e lançarem um disco. Foi o fato de ir aos shows que me afetou. Nunca toquei Pistols desde então. Eu nunca quis”.

MODA:

Siouxsie Sioux é constantemente lembrada pelo seu visual excêntrico e muito original. A cantora, em mais de uma ocasião, já comentou que suas vestimentas eram escolhidas de maneira espontânea. Numa entrevista realizada no início dos anos 90, a vocalista comentou esse fato e também, como de costume, lamentou-se por ter sido associada ao universo gótico, ao qual ela já disse inúmeras vezes que não pertence: “Não é que eu tenha qualquer intenção de criar um novo visual que seja memorável. Eu simplesmente me canso das coisas mais rápido do que a maioria das pessoas e, muitas vezes, sinto vontade de ser contrária, apenas porque alguém tem que ser. É bom que algumas coisas sejam lembradas. Outras vezes, é irritante. A Siouxsie com cabelo espetado e botas de couro preto na coxa tornou-se uma espécie de ícone. Obviamente, esse visual influenciou garotas e garotos que formaram bandas e, infelizmente, se tornou gótico”.

 

"A Siouxsie com cabelo espetado e botas de couro preto na coxa tornou-se uma espécie de ícone. Obviamente, esse visual influenciou garotas e garotos que formaram bandas e, infelizmente, se tornou gótico".

SIOUX TOCA GUITARRA?

Siouxsie confessou, numa entrevista concedida no ano de 1992, que começou a se sentir uma cantora de verdade somente na época em que o álbum Kaleidoscope foi lançado – isto é, em 1980. Foi um momento especial e que representou um notável amadurecimento para ela. Nesse mesmo período, Sioux aprendeu a tocar guitarra. A vocalista dos  Banshees comentou sobre essa experiência: “Eu aprendi o básico de guitarra e comecei a compor na guitarra. Não sou uma guitarrista solo e nem nada do tipo, mas eu aprendi como uma música deve soar. Às vezes, ainda fico frustrada com a minha falta de habilidade, mas é muito rápido quando você compõe algo na guitarra - há um certo imediatismo que você não percebe quando compõe algo no teclado”.

UMA VISÃO CRÍTICA SOBRE A IGREJA E SOBRE A RELIGIÃO:

Vejamos agora, para encerrar nossa lista, algumas palavras e reflexões de Siouxsie Sioux a respeito das religiões “Quando estou numa igreja, sinto-me muito religiosa, mas acho que a religião foi desgraçada através dos tempos. Eu vou mais pelo lado do simbolismo dela do que por sua realidade. A religião se tornou tão politizada que atualmente ela parece ser uma intenção do homem em assustar as pessoas para que elas se comportem. A religião é sempre usada como uma ameaça ou um poder - eu conheço muitas pessoas que tiveram uma educação católica que ainda têm um medo ao invés de um amor a Deus”. Mas apesar dessa perspectiva mais crítica, Sioux declarou: “Mas ainda tenho uma crença provinda da infância nas igrejas, devido a sua beleza e tranquilidade. Num dia de calor, você pode ir à igreja, ela é um ambiente maravilhosamente fresco. Tem janelas lindas e às vezes cascatas de flores e é lindo."

 

"A religião é sempre usada como uma ameaça ou um poder (...)"


Referências:

http://www.thebansheesandothercreatures.co.uk

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

THE DAMNED: QUANDO UM VAMPIRO PUNK E UM GUITARRISTA PSICODÉLICO DECIDEM FAZER MÚSICA

 Por Juliana Vannucchi

Não há como pensar na história do punk rock sem levar em conta a trajetória do The Damned, uma das bandas pioneiras do gênero e um dos maiores expoentes da cena inglesa dos anos setenta (ou, talvez, mais adequadamente falando, da OAP: Old Age Punk). Aliás, neste ponto é importante frisar que a banda foi um dos primeiros grupos punks do Reino Unido a lançar um compacto ("New Rose", lançado em outubro de 1976) e também um álbum. São feitos simplesmente históricos. Porém, o The Damned não estacionou seu estilo nos limites impostos pelo mundo punk e incorporou em sua estética um toque exótico de fantasia misturado com uma aura cinematográfica de terror e uma pincelada extra de psicodelia. A soma desses elementos fez surgir uma das bandas mais peculiares, queridas e aclamadas da cena punk e pós-punk e que despertou a paixão de muitas pessoas, incluindo ninguém mais ninguém menos do que Jimmy Page, que chegou a declarar que “sempre amou o The Damned”.

UM DUO EXCÊNTRICO:

Em termos visuais e sonoros, os membros da banda sempre foram notavelmente autênticos. O vocalista David Vanian parecia sair diretamente de um caixão antes de subir aos palcos. Ele era uma espécie de Nosferatu punk barulhento! Porém, Vanian já declarou que não havia intenção de parecer um sugador de sangue e parece não apreciar muito esse tipo de comparação: “Não se tratava de parecer um vampiro. Eu (desde os 14 anos) gostava da arquitetura vitoriana e de rituais de luto. O film noir foi uma grande influência e o rock'n'roll também. Eu adorava o Gene Vincent, gostava de Elvis, mas sempre achei que o Roy Orbison tinha a melhor voz de todas. Estranhamente, eles eram todos pálidos e com cabelos pretos. Também havia as imagens daqueles filmes mudos alemães, nos quais o homem está completamente maquiado e tem os olhos escurecidos”. Por sua vez, Captain Sensible, o icônico guitarrista (por vezes, baixista) - e maestro - da banda contrastava esse visual fúnebre e preferia trajes coloridos, muitas vezes listrados ou xadrezes, alegres e descontraídos. Era uma dupla estranha e absolutamente perfeita, que serviu como fio condutor para toda a vasta história do The Damned, fazendo com que a banda sobrevivesse desde seus primórdios até os dias de hoje. Além desse duo, ao longo do tempo houve bastante mudança na formação da banda e aqui é válido sublinhar que até Lemmy Kilmister, líder do Motörhead , chegou a colaborar com o grupo!

 

"De uma forma ou de outra, o The Damned lança em seus ouvintes uma espécie de feitiço místico que os aprisiona prazerosamente".

O CONTEÚDO LÍRICO DO THE DAMNED: UM APERTO DE MÃOS ENTRE AS SOMBRAS E O SURREALISMO:

As letras de Dave Vanian sempre foram uma das referências mais valiosas da banda. Ele escreve versos com temáticas surreais, oníricas e um tanto soturnas, sendo que este último aspecto sobressai. O vocalista já assumiu publicamente numa entrevista que seu lirismo permeia por assuntos sombrios, mas sente que isso é importante porque estamos constantemente cercados por isso: “A arte sempre é influenciada pelo que está ao seu redor”. Além disso, já confessou que a morte não o assusta, está longe de ser seu maior medo e declarou que nunca a desejou.

A fantasia, conforme já citado, também sempre esteve presente não apenas nas letras, mas também em toda inconfundível aura da banda que, de certa maneira, talvez tenha encontrado sua singularidade justamente nessa mescla do universo dark com o universo fantástico que, na discografia do The Damned, sempre dialogaram. Porém, os temas não se esgotam nesses dois âmbitos e também são inspirados em outros assuntos, como filmes, livros e política.

NEW ROSE, O SINGLE HISTÓRICO DA BANDA:

O lançamento do aclamado single “New Rose”, ocorrido em outubro de 1976, antes mesmo da eclosão do Sex Pistols, foi simplesmente revolucionário. Gravado por um valor de 50£, a música é cheia de fúria e energia e foi um verdadeiro marco para o punk rock, uma vez que foi o primeiro single do gênero a ser lançado na Inglaterra. Segundo o guitarrista Brian James, autor da letra, a faixa era um prelúdio para uma nova era e, diferente do que muitos imaginavam, não descreve nenhum tipo de relacionamento amoroso. Ele explicou: “Para ser sincero, nunca pensava nas letras que escrevia. Eu apenas as anotava. Elas certamente não eram sobre uma garota, pois eu não tinha uma na época e o amor não estava em minha mente. Suponho que as palavras se encaixam perfeitamente. Depois, percebi que as letras eram sobre essa nova era, essa nova cena punk emergente”. Certa vez, numa entrevista concedida à revista Mojo, ao comentar sobre a música ser um anúncio da revolução punk, declarou que ela falava sobre: “Esse adorável zumbido que você nunca sonhou que pudesse acontecer”.

Vanian descreveu a gravação como uma “experiência fantástica” e disse que, de certa maneira, a maneira pela qual a música foi produzia apreendeu a atmosfera da banda em suas apresentações ao vivo. Ou seja, em seu resultado, “New Rose” era crua, simples e essencialmente perfeita. O vocalista do Damned revelou também que precisou gravar os vocais num corredor, e não dentro do estúdio: “Tive que cantar lá com a porta fechada, e ainda estava muito alto porque estava tudo no volume máximo. Quase não havia espaço suficiente para a banda quando o gravamos (...)”.

Ao longo dos anos, bandas como Guns N’ Roses e Depeche Mode já gravaram covers da música.

 

“A arte sempre é influenciada pelo que está ao seu redor”.
  

ENTRE O AGITO DO PUNK E A INTROSPECÇÃO DA ONDA DARK: UM GIRO PELA DISCOGRAFIA DA BANDA:

A discografia do The Damned é composta por um total de onze álbuns de estúdio, dentre os quais, alguns são absolutamente míticos e outros, por sua vez, são pouco inspiradores.

Os três primeiros, isto é, o “Damned, Damned, Damned”, o “Music For Pleasure” e o “Machine Gun Etiquette”, essencialmente flertam com a fórmula tradicional setentista do punk rock inglês, sendo que o primeiro e o segundo foram lançados justamente em 1977, ano mais memorável da história desse gênero musical. Contudo, é válido citar que o segundo e o terceiro não carregam a mesma magia do disco de estreia, que foi imensamente aclamado. Ambos pecam ligeiramente em originalidade e soam de uma maneira um tanto repetitiva, algo que talvez tenha sido inesperado para uma banda que começou a carreira de forma tão notória. Mas também é preciso admitir que seria um grande desafio atingir a mesma qualidade do “Damned, Damned, Damned”, que foi impecável em todos os seus pormenores. A começar pela memorável capa, na qual vemos os integrantes da banda com seus rostos cobertos por bolo. De acordo com Brian James: “Acharam que seria uma alegria nos surpreenderem com alguns bolos de creme, mas não sabiam que iríamos saborear, entrar na onda e desfrutar de toda a experiência”. Para alguns críticos, esse foi o melhor álbum da história da banda.

A partir de 1980, o The Damned começa a ressignificar seu estilo musical e passa a incorporar em suas canções um clima obscuro, non-sense e psicodélico, que permeia pelos quatro álbuns lançados nessa década. A fase em questão bastou para que alguns os associassem diretamente com a cena gótica. É preciso levar em conta que no início dos anos oitenta, o pós-punk estava sendo consolidado no Reino Unido e, aos poucos, tomava para si o estrelato que anos antes pertenceu ao punk rock. A mudança de rumo do The Damned foi natural e aconteceu com outros grupos. O maior expoente dessa fase sombria é o “Phantasmagoria”, que para muitos consiste na principal obra-prima da carreira da banda. Antes dele, o “The Black Album” e o “Strawberries” sutilmente já anunciavam que o Damned alteraria a rota de sua trajetória embrionária. O “Phantasmagoria” é o álbum mais poético e valioso de todos e é nele que encontramos as mais conhecidas baladas do grupo. O protagonismo do disco se concentra especialmente na voz encantadora de Vanian. A guitarra passa e experimentar efeitos diferentes e perde a velocidade e brutalidade dos três primeiros álbuns. O saxofone é um instrumento diferente que também aparece no álbum, e o teclados são usados de uma maneira magnífica e proeminente. 

Depois dessa produção, o Damned lançou o “Anything”, que é agradável e possui uma ou outra música cativante. Foi um bom trabalho, mas nada excepcional. Após essa produção, o grupo passou nove anos sem gravar, até que em meados dos anos noventa voltaram à tona com o “Not On This Earth”, um álbum confuso e fraco que, provavelmente, é o mais desanimador de toda a discografia do The Damned. Isso não aconteceu apenas com a eclosão do grunge, e lendas como Siouxsie And The Banshees, The Cure e Echo And The Bunnymen também perderam forças e ficaram em segundo plano ao longo desse período. Posteriormente, permaneceram em silêncio durante o restante da década até que, em 2001, tentaram se reinventar com o lançamento do “Grave Disorder”. Anos mais tarde, mais precisamente em 2008, veio o “Who’s Paranoid?” e, uma década depois, o The Damned nos presenteou com o “Evils Spirits”. Esses três álbuns são definitivamente bons e muito nostálgicos, pois resgatam um pouco do brilhantismo e da criatividade do início da carreira do grupo. O último deles é empolgante e soa bem do início ao fim.

De uma forma ou de outra, o The Damned lança em seus ouvintes uma espécie de feitiço místico que os aprisiona prazerosamente para sempre. Hits como “Grimly Fiendish”, “Love Song”, “Eloise”, “Neat, Neat, Neat”, “Fan Club”, Alone Again Or” são simplesmente fascinantes. A oscilação de qualidade ao longo do tempo não significa nada perto da genialidade de faixas como essas e também como tantas outras.

Referências:

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2020/feb/22/damned-new-rose-brian-james-punk-oscar

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2018/mar/19/how-we-made-the-damned-new-rose

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2014/apr/25/the-damned-review-captain-sensible-60th-birthday-forum-london

https://www.google.com.br/amp/s/www.gq-magazine.co.uk/culture/article/the-damned-dave-vanian-interview%3famp

https://www.google.com.br/amp/s/www.independent.co.uk/arts-entertainment/music/features/damned-interview-dave-vanian-evil-spirits-album-stream-tour-dates-a8302596.html%3famp

https://www.songfacts.com/facts/the-damned/new-rose

https://diffuser.fm/damned-anything/

https://www.phoenixnewtimes.com/music/damned-interview-dave-vanian-captain-sensible-phoenix-may-21-9340452


TUDO SOBRE O PANDEMIA ZINE

 Por Juliana Vannucchi

No final do ano mais estranho e apocalíptico de nossas vidas, os estudantes do curso de Pós-graduação do curso de Comunicação e Cultura da Universidade Positivo, Diego Bagatin, Lucas Pelegrini e Carlos González, lançaram a edição inaugural do “Pandemia Zine”, uma revista independente com conteúdos que navegam pelas melhores zonas da vasta cena underground brasileira. O conceito do fanzine possui inspiração no psicodelismo dos anos 60 e também, é claro, no universo ideológico e estético do Punk Rock. Além de conter ótimas matérias, a primorosa edição de estreia oferece também críticas políticas e sociais que se manifestam em diversas ilustrações espalhadas pela página da revista. Como resultado de tudo isso, o leitor encontra no Pandemia Zine, um enriquecedor material cultural que valoriza ao máximo diversas produções independentes do nosso país. Conversamos com Diego Bagatin, um dos responsáveis pela revista autoral e trouxemos esse papo em primeira mão para o nosso site. Confira essa super entrevista, curta e compartilhe o link.

1. Diego, primeiramente gostaríamos de entender melhor a relação conceitual entre o Pandemia Zine a psicodelia dos anos sessenta. Esse é um ponto muito interessante...

Durante a década de 60, as comunidades que surgiram no meio da contracultura foram importantíssimas para criar uma identidade visual que falasse por eles e que compartilhasse as mesmas ideias daquele tempo. Disso surgiram, muito antes do período punk dos anos 70, os fanzines, que dialogavam por meio da arte com essas comunidades. Claro que hoje aquela visão que nós temos da juventude dos anos 60 é totalmente moldada de acordo com o que o mercado quis mostrar, jogando até mesmo certo tipo de “moda” hippie, entre outras coisas, num cenário mais comercial. Mesmo assim, criamos o Pandemia Zine com o intuito de resgatar mais da essência dos anos 70 a 90 do que os anos 60, principalmente pelo punk, mas acredito eu que a verdadeira essência de um fanzine como o nosso veio de uma antítese do Rock ‘n’ Roll “paz e amor”, como eram mostradas em bandas tipo Velvet Underground que possuíam uma atitude mais punk e underground do que o flower power.

2. Poderia nos contar um pouco sobre como surgiram os fanzines?

Desde o começo, nos anos 40, os fanzines se apresentavam como uma mídia alternativa para vários admiradores de uma cultura que por vezes não possuía um espaço na mídia convencional. Fãs de ficção científica, música, cultura em geral, todos consumiam esse tipo de trabalho alternativo como uma forma de valorizar o trabalho feito de fãs para fãs, que muitas vezes não visavam lucro, e quando visavam, era um lucro pequeno apenas para que os autores dos zines conseguissem continuar com a produção de novas edições. A partir disso, vieram muitos outros tipos de comunidades artísticas durante as décadas posteriores, e os fanzines sempre estiveram no meio como uma forma de divulgar cenas locais ou bandas que estavam no começo, mas que não possuíam nenhum tipo de espaço em uma mídia tradicional. 

 

A banda autoral She Is Dead foi um dos destaques da edição piloto

3. Gostaria que você falasse especificamente sobre a relação entre os fanzines e o Punk Rock.

Os fanzines surgiram no meio do Punk Rock principalmente a partir da fase denominada proto punk, lá no começo dos anos 70, em que bandas como Stooges, MC5, Blondie, Talking Heads e Television dominavam a cena nova iorquina e influenciaria todas as bandas punks que vieram depois na Inglaterra. Ou seja, o punk não começou na Inglaterra, e sim nessa cena underground de NY. A partir desse contexto, nós podemos dizer que os fanzines e o punk possuem características totalmente idênticas, sejam em abordagens políticas ou até no “faça você mesmo”, que é uma regra em bandas dessa época. O punk possui uma liberdade que muitos outros estilos não possuem, como o fato das bandas serem independentes e fazerem o que der na telha, e os fanzines são totalmente iguais nesse sentido, mostrando suas posições políticas e valorizando artistas de um meio que não vem do mainstream.

4. Como foi o processo de criação do Pandemia Zine?

Nós não queríamos deixar nosso fanzine totalmente idêntico aos fanzines antigos, mas fomos procurar referências para termos uma base de começo. Visitamos a Gibiteca de Curitiba, onde possui um acervo enorme de fanzines de São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente do começo dos anos 90. A garotada naquela época estava a todo vapor divulgando o som alternativo, e ver todo o processo de criação desses fanzines brasileiros antigos foi um pontapé para que fizéssemos o nosso do nosso jeito. Nós fizemos o Pandemia Zine com uma estética que faz referência ao antigo e novo, com um design que não fosse gourmetizado, mas que também trouxesse algo de atual para a criação do nosso produto. Utilizando mídias atuais, conseguimos criar um e-book e versões para download em PDF no site do zine, com uma estética um pouco diferente, sobre tema escuro, o que é algo comum em aplicativos de celular como Instagram. Mas, fora essa questão virtual, nossa ideia é espalhar o fanzine no underground curitibano assim que pudermos todos sair de casa com segurança.

5. Qual é a importância social, cultural e artística dos fanzines? 

Os fanzines possuem uma importância enorme dentro da sociedade. A partir do momento que fãs de arte em geral veem uma necessidade de expor ideias e posicionamentos contra qualquer tipo de onda conservadorista, entre outras, eles possuem essa arma artística no melhor e mais antigo formato de mídia: a mídia física. Quando vemos posicionamentos em redes sociais, elas são reais e são feitas para que as pessoas tenham a noção do quanto é importante estar de um lado que vai contra a maré atual de governos, grupos e instituições que propagam ódio e retrocesso. Mas, do mesmo modo, há tanta informação aleatória em mídias sociais que, às vezes, fazem com que essas vozes sumam. No caso da mídia física, isso fica pra sempre, e isso que é o mais interessante em fanzines: reunir grupos que têm a cabeça aberta, colecionar os zines, trocar edições com as pessoas, dar voz e palco para bandas e artistas que não têm tanto espaço no mainstream. Isso tudo é a magia do fanzine.  


"Ao lado da música, a abordagem política é um ponto importantíssimo em zines".

6. Qual foi a maior dificuldade que vocês encontram para dar elaborar essa edição?

Na edição piloto não houve tantas dificuldades em questões de ideias e confecção. Nós do grupo começamos esse projeto antes mesmo da pandemia se alastrar, mas acreditamos que a maior dificuldade foi não podermos distribuir os zines físicos em bares e lugares onde o underground curitibano é forte, e então, mantivemos o site com a versão em e-book para que as pessoas pudessem ter esse conteúdo na íntegra.

7. Notei que há um viés político no material. Os fanzines geralmente possuem esse tipo de abordagem? 

Totalmente. Ao lado da música, a abordagem política é um ponto importantíssimo em zines. Possuir ideias e apoiar movimentos contra qualquer tipo de extremismo são o que fazem os fanzines serem materiais alternativos entre tanto tipo de material tendencioso.

 

"Valorize artistas e movimentos do underground para dar voz a essas pessoas".
 

8. Que dicas você dá para quem quer começar a criar um fanzine? Qual seria o primeiro passo?

Valorize artistas e movimentos do underground para dar voz a essas pessoas. Há tantos grupos que pensam em começar algo mas acabam desistindo porque não há retorno, seja musicalmente ou qualquer outro tipo de movimento artístico. Estude o local, seja na cidade onde o fanzine será confeccionado ou em lugares próximos, mas procure esses artistas, pois há muita coisa que fica de fora da grande mídia. Kurt Cobain, quando veio ao Brasil, deu uma entrevista para um fanzine local ao invés da grande mídia. Esse é o começo, valorizar esse trabalho.

9. O projeto continuará ativo? Os leitores podem esperar por novas edições? Por favor, passe os links para que possamos acessar a edição número da “Pandemia Zine”.

A ideia é continuar fazendo outras edições assim que possível, num mundo pós vacina onde as pessoas poderão frequentar shows e conhecer novos sons. Por enquanto, tivemos um retorno muito bom, de bandas e todos que leram e acharam o material nostálgico e adoraram o modo de como os temas foram abordados, e ter um projeto de TCC sendo visto por muitas pessoas que dão valor a arte é uma alegria imensa.  

A edição piloto do Pandemia Zine está disponível aqui neste link: https://zinepandemia.wixsite.com/zine/download


 


TwitterFacebookRSS FeedEmail