Fanzine Brasil

SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

sábado, 12 de junho de 2021

ELE TOCOU EM 72% DAS BANDAS QUE VOCÊ GOSTA: UM PAPO COM JAMES STEVENSON

 Por: Juliana Vannucchi e Camilo Nascimento

O próprio James Stevenson brinca que tocou em 72% de todas as bandas do mundo. O número pode não ser tão preciso, mas uma coisa é absolutamente certa: ele já passou, de fato, por algumas das melhores bandas do planeta. Já dividiu o palco, por exemplo, com o The Cult, com o X-Generation, com o Chelsea, com o icônico Tony Visconti, gravou e se apresentou com a banda Gene Loves Jezebel, e fez muita mais do que isso. Mandamos 11 perguntas para ele e agora compartilhamos com vocês o resultado desse super bate-papo!

1. Quando você começou a tocar guitarra? Você sempre quis fazer da música um ofício?

Meu melhor amigo na escola comprou uma guitarra elétrica quando tínhamos 14 anos e insistiu que eu comprasse uma também para que pudéssemos formar uma banda juntos. Desde então eu queria tocar em bandas.

2. Você poderia nos contar como foram os primórdios do punk rock? Você se considerava parte desse movimento?

Com certeza. Eu entrei para o Chelsea em março de 77 - foi quando o punk estava no seu auge.

3. Você já veio ao Brasil? Conhece músicas e/ou bandas brasileiras?


Sim, eu já fui ao Brasil para tocar com as bandas Gene Loves Jezebel e The Cult.

4. Qual é o seu modelo de guitarra favorito hoje em dia? Tem preferência por algum amplificador?

Sempre toquei Les Pauls e provavelmente sempre tocarei, embora recentemente tenha sido feita para mim uma guitarra de alumínio que adoro! Em relação aos amplificadores, eu usei amplificadores Marshall.

5. Você já tocou com grandes bandas como X-Generation, The Cult, Gene Loves Jezebel, etc. Qual foi o maior desafio da sua prolífica carreira musical?

Provavelmente quando eu tive que voar para os EUA para me juntar ao GLJ, quando o guitarrista da banda os deixou repentinamente justo no início da sua primeira turnê que fizeram nos EUA. Eu nunca tinha ouvido a música deles antes disso. 

 

Segundo Stevenson, o mundo não voltará a ser o mesmo após a pandemia

 

6. De todos os álbuns que você já gravou, qual é o seu favorito e por que as pessoas deveriam ouvi-lo?

Bom, estou muito orgulhoso do meu novo álbum solo, o The Other Side Of The World - mas provavelmente Heavenly Bodies do Gene Loves Jezebel. Eu amo esse disco.

7. Qual foi o show mais memorável que você já fez na vida?


Foi quando o Gene Loves Jezebel esteve com o David Bowie no Milton Keynes.

8. Como você descreve o lendário Ian Astbury? Somos muito fãs do The Cult!


O Ian é um personagem e tanto - ele pode ser muito engraçado. Além disso, é um frontman incrível também - e um ótimo cantor.

9. Qual é a melhor memória que você tem dos momentos com a banda Gene Loves Jazebel?

Provavelmente quando gravamos nosso quarto álbum, o The House Of Dolls num estúdio localizado no interior da Inglaterra chamado The manor - foi lindo lá.

 

O que Stevenson faria se encontrasse uma máquina do tempo? Continue lendo para descobrir!

10. No momento o mundo está vivendo um período muito peculiar e esquisito. Como você acha que serão as coisas depois de tudo isso que estamos enfrentando?

Eu acho que o mundo nunca voltará a ser exatamente o mesmo de antes.

11. Se você tivesse uma máquina do tempo e pudesse voltar ao passado, que momento gostaria de reviver?


Eu provavelmente voltaria para a escola e prestaria mais atenção nas aulas para poder aprender alguma coisa!





quinta-feira, 10 de junho de 2021

THE MUMMIES: UMA LENDA... VIDA (?)

 Por: Camilo Alves Nascimento

Existem bandas de rock, e existem lendas. O The Mummies é uma lenda do rock. Eles surgiram em 1988, na cidade de San Bruno, com Larry Winther na guitarra, Maz Kattuah no baixo, Trent Ruane nos teclados e tocando sax e Russell como baterista. A principal marca da banda era o fato de todos os integrantes tocarem vestidos de múmias e, devido a isso, um clima de mistério fez parte do grupo, já que ninguém sabia quem eram os integrantes. O que se sabia, porém, é que eles tocavam em troca de cerveja e gasolina e criaram o slogan “Fuck CDs”. 

Avesso a tudo que é tecnologia e ao sucesso, sumiram dos palcos e do cenário musical desde 1994. Dizem que os integrantes da banda tinham feito um pacto entre eles, segundo o qual assim que uma grande gravadora oferecesse um contrato, eles acabariam com o grupo. E foi o que aconteceu...

 

O The Mummies surgiu em 1988 e lançou apenas um álbum de estúdio.
 

O The Mummies ficou conhecido por gravar vários singles, sempre usando em seus lançamentos o formato de disco de vinil em pleno ápice do CD, demonstrando o quanto a banda odiava o MP3 e qualquer coisa que fosse digital. Seu único álbum ao vivo foi gravado durante uma festa na casa do guitarrista. Assim que fecharam o tão famigerado acordo com a gravadora e devido às pressões da mesma para lançarem um álbum e deixarem os singles do lado, a reação não poderia ser outra: pegaram todos os singles, um gravador e um toca-discos e, num admirável ato de rebeldia, eles próprios gravaram a reprodução dos seus singles e enviaram para a gravadora, dando origem à compilação “The Mummies: Play Their Own Records! (1992)”.

 

O The Mummies é uma daquelas bandas admiradas pelos fanáticos por rock

 

Misturando um som sujo, curto e pesado, criando um mix de pós-punk, garage e cultura trash, eles denominam seu estilo como “budget rock".

Em 2002, a gravadora quis relançar em CD uma coletânea com suas músicas, e a banda aceitou a proposta, mas não digitalizou o som e o deixou pior ainda. Nessa mesma época, no site oficial do grupo, havia um comunicado dizendo, entre outras coisas: "Ok, não iremos mentir pra vocês, nós precisamos de dinheiro...”. 

O The Mummies é uma daquelas bandas admiradas pelos fanáticos por rock, uma das lendas que fazem o rock ter mais sentido.

 

Uma das bandas mais autênticas da história do rock and roll


 

domingo, 6 de junho de 2021

MINHA ALMA, MINHA VIDA É O PUNK ROCK DE CORAÇÃO!

 O punk rock é uma espécie de linguagem universal capaz de engrandecer qualquer indivíduo.

Por: Juliana Vannucchi

Durante meados dos anos setenta, o mundo se deparou com o embrião e o desenvolvimento de uma expressão cultural provinda dos subúrbios de Nova York e de Londres: o punk rock. Essa manifestação iniciou-se na música, mas posteriormente adquiriu um caráter cultural mais amplo, fazendo-se presente também na moda, no cinema, em ideologias de cunho político e social e em outros elementos, tornando-se, com o passar do tempo, uma verdadeira filosofia de vida. Desde que o punk rock surgiu, inúmeras especulações e diversos estudos a seu respeito têm sido desenvolvidos. Ao longo do tempo, também surgiram produções cinematográficas (filmes e documentários) e livros a respeito do assunto que, de certa forma, tornou-se uma inesgotável fonte de reflexões, discussões e críticas.

De maneira geral, podemos dizer que o movimento punk foi arquitetado por jovens inquietos que deram início a um novo gênero musical e que criariam um comportamento que sobreviveria durante décadas, superando tempo e espaço, e que se serviria como inspiração para pessoas nos quatro cantos do mundo. Mas quando formularam as bases do movimento, esses referidos personagens, que em parte, um dia se tornariam nomes mundialmente conhecidos, não se encontravam numa situação de vida muito favorável. Eles viviam situações de vida dramáticas e repletas de desesperança... Não podiam nem ao menos ser sonhadores, pois, de alguma maneira, sentiam-se oprimidos pelo sistema econômico, político e social do período em que viviam. Especificamente em Londres, uma cidade marcante para a história do punk, as taxas de desemprego e de inflação estavam altas na década de setenta e não havia muita esperança de progresso e melhorias futuras. Dessa forma, considerando tal contexto, grande parte das letras que os punks desse período elaboravam eram baseadas em suas perspectivas de realidade social e problemas urbanos, além de certa dose de sentimentalismo, desespero e agressividade, ingredientes que foram somados a uma considerável porção de barulho. O punk rock desde os primórdios foi, em suma, um verdadeiro incentivo à revolta, uma chamada às transformações (sociais, subjetivas, musicais, estilísticas etc.) e uma retrato autêntico de inquietações e espantos para com um mundo exterior defeituoso, incerto e problemático. Eis o punk, em suas profundezas, um verdadeiro grito de coragem e de liberdade!

A seguir, o leitor poderá desfrutar de uma breve análise histórica, ideológica, reflexiva e musical sobre o punk rock. Entretanto, mais do que se deparar com linhas que descrevem esse universo sob tais perspectivas, esperamos que o leitor possa também mergulhar nas essências ideológicas que impulsionaram e guiaram o surgimento do movimento subversivo e que ajudaram a moldar seu espírito.

“CAMINHE DO LADO SELVAGEM” (Lou Reed)

Como tudo começou?

Grande parte dos primeiros músicos que deram vida ao punk rock eram provindos da massa, sendo muitos deles, conforme já antecipamos, residentes dos subúrbios. Geralmente, possuíam influências ideológicas e musicais de grandes e perigosos visionários da época, como David Bowie, Iggy Pop, Lou Reed, New York Dolls, T-Rex, The Velvet Underground, The Stooges e outros músicos e bandas que, por intermédio de seus conteúdos líricos, sonoros e atitudes, estavam dissolvendo normas impostas e propondo inovações. Esses e vários outros artistas compõem o que hoje, se traçarmos uma linha do tempo na história do rock and roll, podemos entender por “protopunk”, isto é, um movimento musical, comportamental e ideológico que antecedeu a manifestação e o surgimento do punk rock. 

O conteúdo das letras desses músicos mencionados proclamava suas paixões, pensamentos e sentimentos através de uma linguagem subversiva que visava ser essencialmente livre e, justamente por isso, muitas vezes tais artistas abordavam personagens e temas tipicamente rejeitados socialmente e moralmente, tais como prostitutas, drogas, vício, viciados, sexo e qualquer outro tipo de temática que pudesse perturbar alguns indivíduos, tirando-os de sua zona de conforto.

O norte-americano Richard Hell, um dos pioneiros do punk rock, em uma de suas letras mais icônicas, dizia fazer parte de uma “geração oca” (“Blank Generation”). A música se tornou um hino que parecia ironizar as críticas feitas à sua geração.  Por outro lado, David Bowie, até o início dos anos 70, continuava ditando suas próprias regras e confundindo críticos e fãs com suas incessantes e criativas metamorfoses. Iggy Pop era um rebelde sangrento capaz de tornar qualquer ambiente harmônico no espaço mais caótico possível. O Velvet Underground lançou um álbum cuja capa possuía uma banana desenhada em um fundo branco e teve o mundo das drogas como protagonista da temática do disco. Algo de estranho estava acontecendo e os futuros punks estavam adorando essa onda de esquisitice, talento e fuga do estabelishment! 

Como embrião e prelúdio do punk, alguns desses artistas do protopunk, no início, eram praticamente outsiders da cena musical, pois se encontravam à margem do que geralmente agradava a grande mídia. Porém, a atenção da imprensa voltou-se a eles (embora com certo desprezo) no momento em que esses artistas começaram a se desvincular de padrões de pensamento e a tomar atitudes tidas como extravagantes, as quais estavam visivelmente distantes de tradicionalismos vigentes. Esse natural afastamento do habitual e o desapego de clichês iriam inspirar fortemente os primeiros artistas e todo o espírito autêntico do punk rock.

REVOLUÇÃO NOS ANOS 70: O PUNK ENTRA EM CENA E SE ETERNIZA

O punk rock, em suma, surgiu nos subúrbios e nos ambientes undergrounds de Nova York (EUA) e de Londres (Inglaterra). Na primeira cidade, seu berço foi especialmente o consagrado C.B.G.B, e na segunda talvez o principal cenário tenha sido o caloroso 100 Club. Em qual dos dois locais houve, de fato, a primeira manifestação? Há bastante controvérsia sobre isso, especialmente pelo fato de que bandas de protopunk dos dois países (como o The Sooges, MC5 e Richard Hell nos EUA, e David Bowie e T-Rex na Inglaterra) já sinalizavam alguns traços que seriam parte essencial do punk rock.

O fato é que houve um momento em que, de certa forma, o protopunk se “deteriorou” e então os punks conquistaram de vez o seu espaço. Assim como esses seus antecessores, eles pareciam recusar as construções sonoras presentes na atmosfera daquela época, especialmente as que vinham do rock progressivo e do hard rock. Estavam cansados de mesmices e complicações desses dois gêneros musicais. As letras do rock progressivo divagavam demais, eram cheias de criaturas míticas, de mensagens simbólicas e idealizações. No documentário “Punk: Attitude”, Legs McNeil, da Punk Magazine, reclama que muita gente já estava exausta dos solos prolongados do Deep Purple. Assim sendo, os novos músicos que estavam surgindo buscavam desvincular-se de tradicionalismos e construir algo diferente, seja lá o que significasse “diferente”. Eles tinham espaço para isso, os locais underground, e então decidiram tentar. Não havia a menor necessidade de ser um gênio musical, pois o rock não era mais elitizado. O importante é que estavam sendo acolhidos e escrevendo suas aventuras de maneira autônoma. Em suas letras, podiam ser engajados social e politicamente ou fazer qualquer tipo de rima e preenchê-la com barulho. Podiam tocar músicas muito curtas ou mais longas (eram permitidos três acordes ou refinamento). Tratava-se, em suma, de ser livre.


Chateados, rejeitados, enganados, manipulados e ignorados – isso é o que sente a juventude britânica (…)”. (SANTOS, p. 20, 1985).

“DO IT YOURSELF”

Quando o punk rock surgiu, não era necessário ser um gênio musical para criar música. Tampouco era preciso ter qualquer tipo de aprovação por parte da imprensa ou do público. E é justamente nessas circunstâncias e nessa ideologia de independência que surgiu a retomada de uma atitude denominada “DO IT YOURSELF”, ou, em português, “faça você mesmo”. É importante esclarecer que tal termo, historicamente, existia desde a década de cinquenta e, conforme dito acima, foi apenas retomado e adaptado pelo punk rock.

 

"Zine DF Caos", produzida por Ulixo
 

No contexto geral, o “DIY” estava diretamente relacionado com uma atitude (individualista e/ou coletiva) pautada na capacidade de se buscar concretizações para quaisquer objetivos. Portanto, sob esse ponto de vista, não é preciso se esperar algo de outrem, deve-se agir por conta própria e, dessa forma, o DIY era uma atitude encorajadora e motivadora, que propunha competência e capacitação. Além do que diz respeito à produção musical, outra expressão do DIY que marcou o cenário do movimento punk foram os fanzines, revistas alternativas e independentes elaboradas por pessoas que acompanhavam o desenvolvimento do punk rock, sendo que uma das principais representantes era a Sniffin’ Glue. As edições dessas revistas eram inteiramente executadas por seus próprios criadores e não contavam com terceirização ou qualquer outra intervenção externa. Eram meios de comunicação de cunho cultural, notavelmente eficientes para os admiradores do movimento. As edições dispunham de informações sobre bandas, shows, além de poesias e outros tipos de artigos: “Os fanzines, especialmente o Sniffin’ Glue, espalhavam ética/estética punk por toda a cidade. Nesses fanzines podiam-se ler coisas como: “Chateados, rejeitados, enganados, manipulados e ignorados – isso é o que sente a juventude britânica (…)”. (SANTOS, p. 20, 1985).

O “Do It Yourself” existe até os dias de hoje e pode ser aplicado nas mais diversas situações ou áreas: estudar por conta própria, produzir suas próprias vestimentas, gravar músicas sem depender de agentes externos, arquitetar um ambiente, decorar uma casa, elaborar um festival, enfim, fazer qualquer coisa possível de maneira independente, por si mesmo. Em nosso próprio país, temos um exemplo vivo do DIY: o Woodgothic Festival, que acontece periodicamente em São Tomé das Letras (Minas Gerais), sob planejamento, organização e idealização de Zaf e Karolina, membros da banda Escarlatina Obsessiva. Conforme comentaram os idealizadores: “A principal característica que torna o Woodgothic um evento DIY é que fazemos tudo sozinhos; nessa última edição tivemos inclusive que construir bilheteria, bar e instalar toda a fiação que iluminou a entrada do evento; três dias antes de o festival acontecer, estávamos lá, martelando, serrando e subindo em árvores para passar o fio elétrico. Fora todo o resto, desde falar com as bandas/DJs, contratar a equipe de som, os seguranças, o pessoal da cozinha, defender-nos dos ataques políticos da administração política local, na Câmara Municipal da cidade (risos) que aconteceu nessa última edição, quando nos impediram de realizar o Festival no Centro de Eventos, e tudo mais que você possa imaginar”. Karolina complementou dizendo que outro notável fator que caracteriza o evento com o DIY é que não recebem nenhum apoio financeiro para realizar o festival e ainda pedem ao público que leve, além dos ingressos, 1kg de alimento que é doado à Associação Viva Criança de São Thomé. Perguntei se incentivam outras pessoas a praticarem o DIY, e a resposta dos músicos foi: “Sim, claro, tem muita gente por aí que poderia organizar algo legal, mas não faz achando que seria impossível, e que precisa disso e daquilo…”.

 

A postura ideológica e a estética do punk exploravam a agressividade e transpunham em seus conteúdos uma notável expressão de insatisfação, descrença e cansaço perante a existência (...)
 

A LIBERDADE COMO COMPONENTE ESSENCIAL DO “ESPÍRITO PUNK”

A mensagem dessas novas bandas era, em geral, de raiva, frustração e alienação. Todas imprimiam em suas músicas um sentimento de urgência em transformações”. (SANTOS, p.23, 1985).

E, afinal, o que significa “ser punk”? Se considerarmos que existem divergências ideológicas e estéticas e que não existe um padrão único e fechado que defina o punk rock, podemos, ainda assim, encontrar uma característica essencialmente comum a todas essas diferenças? Provavelmente, sim, muito embora as respostas para essa essência possam ser diversificadas, partindo de subjetivismos. Contudo, se analisarmos a história do punk rock, podemos encontrar um fundamento que sempre, de alguma maneira,  mostrou-se presente em seu núcleo: a liberdade. E essa liberdade dialogou variadamente com diversos artistas, punks e apreciadores do movimento. As mulheres, por exemplo, puderam, mais do que nunca, estar em cima dos palcos e se expressar através da música. Não que antes não houvesse mulheres em meio ao rock and roll, mas certamente o punk rock as acolheu e lhes deu um espaço significativo, afinal, foi em meio a esse cenário que surgiram nomes como Siouxsie Sioux, Lydia Lunch, Poly Styrene, Lora Logic, as garotas do The Slits e Patti Smith, algumas das crias dos primeiros “points undergrounds”, tanto da Europa quanto nos EUA. Perceba: essas grandes lendas – e tantas outras – do rock provavelmente não teriam encontrado seu espaço se não fosse pelo punk rock!

 

Girl poweeerr!

Além da forte presença feminina em bandas punks, houve também a liberdade de se construir a música de maneira mais simplificada, pois, de certa forma, o punk foi a “ressaca” do rock progressivo, uma vez que ao menos em partes entrou em cena como uma resposta ao exagero maçante de construção sonora do progressivo, além de os punks defenderem a ideia do “do it yourself”, o “faça você mesmo”, segundo a qual qualquer um pode ser músico, basta tocar um instrumento, escrever uma letra e então se expressar. Não é necessário solar na guitarra com os olhos vendados e/ou buscar a harmonia ideal em cada uma das notas, mas sim tocar as notas conforme a alma dita, sendo que isso não exige, necessariamente, sofisticação técnica. E ressalte-se que a ausência de sofisticação exacerbada não implica (ao menos não fatidicamente) um empobrecimento musical. O rock progressvio, tão forte e presente na Inglaterra, já estava cansando ouvintes e críticos. Paul Cook, um dos lendários membros do Sex Pistols, certa vez vestiu uma camiseta na qual havia uma frase em inglês cuja tradução é: “Eu odeio o Pink Floyd”, mostrando a insatisfação dele e de muitas outras pessoas em relação a esse gênero que vivia um momento de desgaste. Nesse sentido, é importante estarmos cientes de que uma das características históricas do rock é a reciclagem, isto é, a criação e a inserção de algo novo no mercado. Ora, foi o que esse movimento fez em relação ao progressivo.

O punk rock surgiu diretamente do universo underground que, principalmente em suas raízes, era menosprezado pela imprensa cujos interesses eram essencialmente mercadológicos. Com o passar do tempo, isso mudou, e os meios de comunicação voltaram-se ao punk rock, embora sempre com o claro interesse de apresentá-lo sob uma ótica absolutamente precipitada, que descaracteriza seu pano de fundo cultural e inovador, para, ao invés disso, enaltecer a violência física, como se o punk pudesse ser reduzido a tal aspecto.

A postura ideológica e a estética do punk exploravam a agressividade e transpunham em seus conteúdos uma notável expressão de insatisfação, descrença e cansaço perante a existência, aspectos que fazem com que os primeiros punks possam ser identificados por uma postura um tanto niilista. Consequentemente, considerando tais traços, pode-se perceber que esse gênero musical, em certa medida, retomou a postura rebelde das raízes do rock and roll. Conforme menciona Santos: “O punk-rock era uma retomada do significado e função original do rock and roll. Era a revolta contra a pasteurização da rebeldia e acomodação do rock, que lentamente havia se transformado num “divertimento leve”, super produzido, longe da vida e da rua”. (p.23, 1985).

Conforme citamos, essa aura de rebeldia, presente tanto no punk quanto no rock, sempre possuiu um ingrediente especial: a liberdade. Tal elemento, que tange a história do punk rock, pode ser sintetizado por estas palavras que, certa vez, foram proferidas por Sid Vicious, um dos maiores representantes e ícones do referido movimento cultural: “Eu faço o que gosto e o que importa é isso. Se ninguém neste planeta gosta do que faço, não reclamo (…).” O músico prosseguiu com a reflexão: “(…) o essencial é que fazemos o que queremos (…) “Se você faz alguma coisa, deve fazer porque gosta, e não por dinheiro. (p.40, 1985).

De alguma maneira, portanto, a ideia de liberdade sempre caminhou ao lado do punk, que abriu espaço e incentivou pensamentos e práticas que capacitavam a autenticidade do indivíduo, pois de repente, como vimos, mulheres, por exemplo, podiam cantar, tocar instrumentos e até mesmo liderar uma banda. As pessoas podiam realizar seus próprios feitos a partir de si mesmas, sem necessariamente ter alguma dependência externa (“DIY”) e, claro, houve uma modificação na construção musical, que se tornou relativamente e voluntariamente simplificada e que rompeu com os efeitos musicais e a tradição sonora pertencentes ao rock progressivo. Dessa forma, qualquer um passou a ter capacidade de compor e criar uma banda (esse, aliás, foi um grande incentivo herdado pelo punk rock – não se aflija, pegue sua guitarra, escreva seus pensamentos num papel e tente esboçar e/ou gravar algo). Ademais, havia um estímulo para que as pessoas rompessem com tradições vigentes (morais, culturais, artísticas, profissionais etc.) que não fossem satisfatórias. Podia-se construir a si próprio, ser gestor de si, além de refutar, criticar, reprovar e até mesmo abdicar do sistema e instituições em vigor.

PUNK IS NOT DEAD – AND IT WILL NEVER BE!

Ao longo do tempo de sua existência, o punk, em suas diversas formas de manifestação (sejam elas ideológicas e/ou musicais), significou uma verdadeira ruptura com tradições vigentes, e as consequências desse abandono para com aquilo que era corrente, culminou em transformações estilísticas (musicais, na moda e, enfim, na arte, em geral) e comportamentais (em grupo ou individualmente). A história que foi escrita pelo punk rock permanece viva e é atemporal. Mesmo que os traços dessa cultura e seus aspectos não sejam de interesse dos grandes meios de comunicação, ainda assim, de alguma maneira, o movimento punk encontrará seu espaço e estará sempre vivo para inspirar e influenciar indivíduos de todo o planeta, independentemente de suas divergências sócio-culturais, pois o punk rock foi e ainda é, em essência, um incentivo à capacidade individual ou coletiva e um manifesto pelo fortalecimento da autenticidade, pautada num incentivo à prática da refutação e das rupturas com qualquer tipo de situação vigente.

Certamente haveria muito mais conteúdo para se explorar neste texto. Prova disso é a quantidade de livros, filmes, documentários, pesquisas, palestras e afins, cuja abordagem temática é o punk rock. No entanto, encerraremos nossa abordagem por aqui, lembrando os leitores de que O PUNK ESTÁ VIVO. 


O punk rock é uma espécie de linguagem universal capaz de engrandecer qualquer indivíduo

O QUE O PUNK ROCK NOS ENSINA?

A pergunta acima é instigante e possibilita incontáveis respostas e caminhos reflexivos. O punk rock é uma espécie de linguagem universal capaz de engrandecer qualquer indivíduo. Dentre  tantas lições que podemos extrair do universo punk, vamos mencionar quatro aspectos:

Faça você mesmo: não dependa de terceiros, tente, crie, ouse e arrisque. Não se preocupe tanto com o resultado, mas foque especialmente no processo criativo. Faça sua própria roupa, revista ou música do jeito que quiser e se não der certo, não tem problema. Concretize suas ideias.

Reciprocidade: o punk também nos ensina a apoiar projetos alheios, afastando-nos assim de qualquer forma de egoísmo e mesquinharia. Colabore, respeite, valorize e ajude projetos independentes, fortalecendo assim a cena autoral. Dialogue, troque, una-se a alguém e progridam juntos. Tenha com quem contar, alimente essa reciprocidade.

Segurança: o punk pode nos tornar pessoas mais seguras, mas fortalecidas, corajosas e mais preparadas para sermos aquilo que queremos ser e para termos voz ativa na sociedade.

Senso crítico: também nos incentiva a ter o tão indispensável senso crítico, que nos faz filtrar e questionar as informações recebidas ao invés de simplesmente aceitar tudo o que nos é despejado. Questione sempre, questione tudo, pergunte algo antes de simplesmente absorver aquilo que lhe é transmitido.

Referências bibliográficas:

SANTOS, Hugo. Sid Vicious. São Paulo: Brasiliense, 1985.

BIVAR, Antônio. O que é Punk. São Paulo: Brasiliense, 2001.

*Texto adaptado de publicação feita em: www.acervofilosofico.com.br

 AGRADECIMENTOS:

*O título do texto é uma referência e uma menção honrosa à banda "Os Maltrapilhos", uma das maiores lendas do punk rock brasileiro e um dos grupos que melhor representa o espírito punk. A frase foi retirada da faixa "Punk Rock Nacional".

Instagram: @osmaltrapilhos

Escute a música "Punk Rock Nacional": https://www.youtube.com/watch?v=TbCeHcbqzgA

*Todas as ilustrações utilizadas nesta matéria são criações originais de Ulixo, criador do fanzine "Zine DF Caos", um dos zines mais autênticos e elogiáveis do país.

Instagram: @musicpunk1977


"Do wanna you wanna do and fuck everyone else". - Siouxsie Sioux.






 

sábado, 29 de maio de 2021

CONHEÇA O PRIMEIRO EP DA BANDA MADREPEROLA

Por: Juliana Vannucchi

A banda Madreperola, que conta com Sidan Rogozinski, compositor, vocalista e multi-instrumentista; Fabi Bellentani, vocalista, mixagem e composição; e Rafael Santos, responsável pela guitarra e pelo violão, finalmente abriu-se ao mundo com o lançamento de seu EP de estreia intitulado “Prefácio”, que conta com um total de quatro faixas originais e um cover da música “Call Me”, do Blondie. Além dos três membros originais da Madreperola, o debut também contou com a participação do icônico grupo de Rap sorocabno “X da Questão”, composto por Carlo Rappaz, Don Berto, Messias e DJ R. Jay. Outro grande nome que fez uma ponta no EP foi Kuky Sanchez, baixista da banda Pedra Letícia, que toca na faixa “Tirei a TV da Sala”.

O principal elemento que encontramos presente em todo o percurso do “Prefácio”, que cria a sua identidade e assegura sua elegância musical, é o experimentalismo, que a todo instante conduz o ouvinte a rumos sonoros surpreendentes, pois em alguns momentos, quando parece que sabemos o caminho que as faixas seguirão, ocorre uma criativa ruptura instrumental ou melódica. Esse aspecto é definitivamente o ponto mais forte do EP e é construído com maestria pelo talentoso trio que, apesar de ter sido formado tão recentemente, demonstra ter uma enorme harmonia. Além disso, outro ponto digno de menção são as letras que, em partes, consistem em lampejos sentimentais e, por vezes, tornam-se engajadas, esbarrando em problemas de cunho urbano e social. 


Em sua totalidade, o EP soa de maneira singular por sua criatividade inventiva

 A criação do “Prefácio” possui em seu núcleo ideologia “DIY” e, a esse respeito, Sidan comenta: “É um EP sincero, feito apenas com o que a gente tem. Tirando a masterização, todo o processo foi feito por nós mesmos. Inclusive o clipe! Então, o resultado é autêntico e nos representa totalmente. DIY até a medula”. O músico também nos contou a respeito da inspiração para o título e para capa do EP: “Prefácio é bonito e dá ideia de continuidade, de que é apenas um começo. E é exatamente isso que queremos, continuar fazendo música. A capa é uma foto do artista aluminense Adriano Ávila, que faz um trabalho incrível. E o design foi do talentosíssimo Paulo Bova, de Indaiatuba, que também desenvolveu nosso logo”.

Em sua totalidade, o EP soa de maneira singular por sua criatividade inventiva que o torna brilhante e original. Abaixo, você confere uma análise de todas as faixas do álbum.

Mira:

A música de abertura chama-se “Mira”. Até certo ponto, a atmosfera dessa faixa parece surgir de uma mistura ousada de Pós-punk e Indie. Contudo, em certo momento ocorre uma ruptura desse clima e, então, o ouvinte se depara com a participação de dois rappers. Destaque para as excelentes linhas de guitarra que garantem um ritmo incrível à canção.

Quatro:

A sutileza da segunda música, em essência, contrasta com a faixa inaugural do EP. O duo vocal encanta o ouvinte com a harmonia doce de suas vozes que, aqui, insere, na medida, uma dose de melancolia no álbum.

Tirei a TV da Sala:

A música possui uma estrutura diferente das duas primeiras faixas. Percebemos uma guitarra bem acentuada e tocada com maestria que praticamente se torna o guia condutor dos vocalistas que, novamente, fazem um dueto fascinante com suas vozes celestiais.

Espirais:

Até um determinado trecho, a faixa se modifica e retoma a atmosfera mais sutil da segunda música. Porém, em certa parte, ela trilha um caminho um pouco diferente e  remete às bandas clássicas do Krautrock, que se aventuravam em suas inventividades, fazendo de suas produções um verdadeiro laboratório musical!

Acompanhe a banda nas redes sociais:

Facebook:

https://www.facebook.com/madreperolamusica/?hc_ref=ARR5p0sHoOMDbPA7kRHBQgpJWWkT0GxvwEVKVe0R7xViBQSdoDGuRZENS6DpphQxMRE&fref=nf&__tn__=kC-R


Instagram:

@madreperolamusica

Escute o EP nas plataformas digitais:

https://album.link/msvdmp3d3vbvz



segunda-feira, 24 de maio de 2021

A ICÔNICA LORA LOGIC E SUA COLABORAÇÃO CRIATIVA AO PUNK ROCK

 Por: Juliana Vannucchi

A saxofonista, cantora e compositora britânica Lora Logic ficou em evidência durante os anos setenta, no período de eclosão punk inglês. Sua notoriedade se deu principalmente pela passagem que teve na prestigiada banda X-Ray Spex, na qual permaneceu por pouco tempo, até deixar o grupo devido a algumas desavenças com a vocalista Poly Styrene que, aparentemente, se incomodou com tantos holofotes voltados para Logic. Essa foi certamente uma das rupturas mais decepcionantes do cenário punk da época, pois a dupla era simplesmente fantástica nos palcos e suas apresentações criativas deixavam a plateia fascinada. A conceituada e talentosa baixista Gina Birch, da banda The Raincoats, prestou um breve depoimento para um livro biográfico sobre Poly, lançando em 2021, no qual mostrou seu apreço pelo dinamismo sem paralelos de Lora e Poly nos palcos: “Quando a Lora tocava com ela era incrível. É triste que ela não tenha permanecido”. Birch, nesse mesmo texto, também disse estar ciente da pressão existente quando garotas se unem para formar uma banda, aspecto que, segundo ela, provavelmente pesou de alguma maneira par que Logic deixasse o grupo.

Apesar de ter saído da banda de uma forma tão precoce, sua colaboração musical foi legada no lendário disco “Germfree Adolescents”, que utilizou arranjos criados pela saxofonista. De qualquer forma, mesmo distante do X-Ray Spex, a carreira musical de Lora Logic foi frutífera, seguiu em alta e, ao longo do tempo, além de ter dado vida a um elogiável projeto musical autoral chamado “Essential Logic”, a saxofonista também gravou e contribuiu com grandes bandas como The Stranglers, com a própria The Raincoats e também com Boy George.

 

Lora Logic foi uma das mulheres mais criativas da era punk

Lora foi uma das responsáveis por oferecer novos ares ao universo punk, pois ao inserir o saxofone nas músicas da banda X-Ray Spex, desviou esse gênero musical de seu caminho sonoro embrionário e tipicamente tradicional, garantindo-lhe uma aura inovadora e abrindo as portas para experimentos e possibilidades. Não á toa, Lora se tornou uma das mulheres mais icônicas do punk rock britânico. Felizmente, parece a saxofonista está ativa e trabalhando em material novo. Aguardaremos ansiosamente pelas novidades!


O ELETRO-PUNK REVOLUCIONÁRIO DO SUICIDE

  Por: Juliana Vannucchi

O Suicide surgiu em meio ao agito da proeminente cena nova-iorquina dos anos setenta e logo se destacou nesse meio por sua incrível singularidade musical. A banda se tornou um dos maiores nomes do Protopunk e, consequentemente, foi fundamental para a solidificação do Punk Rock, uma vez que inspirou algumas das maiores lendas desse gênero musical. Suas músicas sombrias, arquitetadas a partir de atmosferas claustrofóbicas e de brilhantes minimalismos eletrônicos continuam sendo uma grande inspiração e ainda cativam muitas pessoas. O duo obteve sucesso e reconhecimento, especialmente devido à inventividade engenhosa com que utilizavam seus aparatos eletrônicos e pelos efeitos criados em seus sintetizadores, cuja sonoridade incomum casava perfeitamente com a voz única e sublime de Vega. O Suicide esteve presente na eclosão do Protopunk e do Punk, mas não pertence exatamente a nenhum desses dois universos. Suas músicas se rebelaram contra qualquer paradigma e, por isso, podem ser justamente caracterizadas como uma verdadeira vanguarda.

 

O Suicide em ação

 

UM SANDUÍCHE PARA O DUO E UM MARTELO NA CABEÇA DE VEGA...

A história do Suicide começou em 1971 quando Alan Vega, nascido no Brooklyn,  envolveu-se com esculturas e experimentos eletrônicos que o levaram a participar do Project of Living Artists, uma oficina localizada no centro de Nova Iorque. Por acaso, nesse mesmo dia, o jovem Martin Rev entrou nesse mesmo lugar para escapar de uma  chuva torrencial. Esse estranho e ocasional encontro que a Fortuna articulou foi responsável pelo surgimento de um dos projetos musicais mais singulares e inovadores de todos os tempos. Há uma certa lenda em torno da banda, segundo a qual Vega era apaixonado pelo HQ “Ghost Rider” e uma das edições desse comic book chamava-se justamente “Suicide”, sendo essa, portanto, a fonte de inspiração para o nome do projeto musical da dupla. Mas muitos contestam essa história. Enfim, independentemente da origem do nome, o fato é que após o primeiro encontro, o duo logo começou a se apresentar em galerias locais.

Mas quando Vega e Rev começaram a fazer música, eles estavam vivendo uma situação financeira extremamente apertada. Chegaram a passar fome nesse período e houve ocasiões em que passaram o dia à base de um único sanduíche para os dois. Devido a essa circunstância, eram incapazes de comprar os instrumentos que queriam e dos quais precisavam para colocar suas ideias em prática. Dessa forma, começaram a fazer suas músicas no único instrumento que estava disponível naquele momento: um teclado Wurlitzer de 10 dólares de Rev. A esse respeito, Vega comentou numa entrevista concedida ao The Guardian: “Por muito tempo, não tínhamos músicas como tais, então, Marty chutava repetidamente seu teclado e eu batia no suporte do microfone com uma garrafa quebrada ou fazia uns ruídos horríveis saírem de uma trombeta. Então passei a gritar e, eventualmente, isso me levou a escrever letras de verdade”.

Os geniais Rev e Vega

Durante muitos anos, os shows do Suicide foram repletos de selvageria. Intervenção política e uso de gás lacrimogêneo eram coisas corriqueiras, assim como era comum que o público arremessasse objetos na dupla, tais como moedas, sapatos, cinzeiros e copos de cerveja. Mas houve episódios mais sérios, em que jogaram um machado na direção do vocalista, assim como certa vez arremessaram uma chave inglesa. Rev, a respeito dessa habitual brutalidade presente nos shows, certa vez, brincou: “A única reação que não tivemos foi ser atacado por lobos. Mas isso é só porque você não tinha permissão para levar lobos para clubes”. Por sua vez, sobre esse ameaçador caos sempre presente nos shows, Vega contou: “Comecei a carregar uma corrente de bicicleta no palco, pensando, se você não consegue vencê-los, junte-se a eles. Se a violência ficasse muito feia, o que eu poderia fazer era quebrar uma garrafa e começar a cortar o meu rosto. Isso pareceu ter um efeito calmante na multidão. Eu acho que eles raciocinaram que eu estava tão doido que nada que eles fizessem poderia me incomodar. Eu descobri uma maneira de tirar muito sangue, mas sem ficar com cicatrizes pelo resto da vida. Eu era uma bela arte. Outra coisa que fiz foi trancar as portas de saída para que ninguém pudesse escapar!”. 

Estranhamente, no entanto, houve um período em que a atitude do público simplesmente mudou: a plateia começou a dançar embalada pelo peculiar e hipnótico som do Suicide. Rev, ironicamente disse que quando percebeu isso, pensou: “Estamos acabados. Nossa carreira terminou”.

O MÍTICO ÁLBUM DE ESTREIA:

A postura do público se alterou e a banda passou a ter condições de incrementar suas composições e amadurecer suas músicas, pois em 1975, o duo finalmente adquiriu um outro instrumento. Rev investiu uma quantia de dinheiro numa caixa de ritmos dos anos 50. Dois anos mais tarde, assinaram com um discreto selo francês chamado Red Star. O primeiro álbum, chamado “Suicide”, gravado em apenas quatro dias, foi lançado em 1977, o ano mais lendário da história do Punk Rock. O célebre Craig Leon, que já trabalhou com grupos como Blondie e Ramones, foi um dos produtores do debut. De maneira geral, o álbum não foi bem visto nos EUA, mas recebeu inúmeras críticas positivas no território europeu. 

O faixa de maior notoriedade do álbum é a assustadora “Frankie Teartrop”, cuja letra narra a bizarra história de um trabalhador que, certa vez, surta e assassina sua família e depois tira a própria vida. Há um pano de fundo político por trás dessa história: a vida operária de Frankie o pressionou e ele se sentiu impotente para cuidar dignamente da família. A desgastante rotina fabril o devastou física e mentalmente e ele foi mandado embora. No final da letra, há uma possível alfinetada ao sistema:

Todos nós somos Frankies!
Todos nós estamos mentindo no inferno!

Rev afirmou que "Frankie Teardrop", "Johnny" e "Cheree" são músicas sobre pessoas que vivem nas ruas. E, especialmente falando sobre "Frankie", o músico já revelou que a letra foi baseada num caso real sobre o qual ele leu num jornal. 

“Frankie Teardrop” fascinou artistas como Lydia Lunch, Bruce Springsteen e Lou Reed que, inclusive, chegou a declarar que gostaria de ter sido o autor da letra. Além dessa música, todas as outras são igualmente qualificadas. É um álbum absolutamente magnífico. 

DISCOGRAFIA E MÚSICAS PÓSTUMAS: 

A banda se separou em 1980, após ter lançado dois excelentes álbuns de estúdio. Oito anos mais tarde, a dupla se reuniu novamente para a produção do terceiro disco, intitulado “A Way of Life”. Nessa tríade que compõe a fase oitentista, encontramos os melhores trabalhos do Suicide. Em 1992, deram à luz o “Why Be Blues” e, posteriormente, no começou dos anos dois mil, o “American Supreme”, com o qual encerraram suas produções originais. Ao longo de todas essas décadas de atividade, os dois músicos também tiveram carreiras solos bem sucedidas, sendo que Vega chegou, inclusive, a gravar com Andrew Eldrich, do Sisters Of Mercy. Alan Vega faleceu dormindo, em 2016, aos 78 anos de idade. Seu falecimento foi oficialmente comunicado ao público por Henry Rollins. 

Em 2021, o perfil oficial de Alan Vega no Instagram deixou os fãs da banda atônitos e empolgados ao anunciar o lançamento de um álbum perdido da banda que foi resgatado pela viúva do falecido vocalista. As faixas póstumas originais podem ser ouvidas através do perfil da gravadora “Sacred Bones”.

Referências:

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2008/aug/01/popandrock.suicide

https://www.allmusic.com/artist/alan-vega-mn0000932078/biography

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2017/jul/18/suicide-23-minutes-over-brussels-alan-vega-martin-rev-punk-riot-1978

https://web.archive.org/web/20110104193113/http://www.zerecords.com/2010/artists_biography.php?id=29

https://en.wikipedia.org/wiki/Suicide_(1977_album)

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2015/jul/10/suicide-review-veteran-electro-punks-barbican-centre-london

https://www.rollingstone.com/music/music-news/the-story-of-suicides-frankie-teardrop-the-most-terrifying-song-ever-96731/


segunda-feira, 17 de maio de 2021

O THE JESUS AND MARY CHAIN É UMA BANDA INEXPLICÁVEL

Por: Camilo Alves Nascimento

O “inexplicável” do título desse artigo não é de forma alguma uma alegoria dramática. The Jesus and Mary Chain é um daqueles casos da história da música, e principalmente do Rock, em que estavam presentes todas as combinações possíveis para que a banda não desse certo. JAMC é uma banda difícil de se acreditar que existe, as histórias que a cercam, as brigas, a inconstância e o tamanho da influência e respeito que eles conseguiram parecem ser imaginários.

Brigas entre os membros, brigas com os fãs, drogas, álcool, instabilidades emocionais, “banda fundadora do shoegaze”, “a mais influente banda de garagem”, uma banda que ganhou um verbete próprio na Enciclopédia Britânica (considerada até hoje uma das maiores compilações do conhecimento humano), a verdadeira banda indie, “pais do Noise Rock"... o que dizer do Jesus and Mary Chain? 

A banda é originária da Escócia, da cidade de East Kilbride, e surgiu de uma parceria entre os irmãos Jim e William Reid. A ideia de montar uma banda acompanhava os irmãos desde 1977, influenciados pela cena punk inglesa de meados da década de 70, mas somente em 1983 eles formaram o que seria o embrião do JAMC.


A banda em seus primórdios

Após gravarem algumas demos ainda em 1983, em 1984 eles recrutaram o baixista Douglas Hart e o baterista Murray Dalglish, completando o que seria a primeira formação do JAMC. Segundo William: "Era o momento perfeito para montar uma banda, porque não havia nenhuma banda com guitarra. Todo mundo estava fazendo música pop eletrônica”, claramente uma provocação às bandas New Wave e Pós-Punk do começo da década de 80. A cena punk pegou o mundo de surpresa na década de 70, porém no começo dos anos 80 o estilo tinha perdido um pouco da força, muito em virtude das próprias bandas que queriam experimentar novas sonoridades, da saturação do mercado pelas gravadoras e do surgimento de novos efeitos e recursos de estúdio.

A entrada de Hart e do Dalgish acaoua trazendo a influência de bandas como The Velvet Underground, The Stooges, The Shangri-Las e, claro, Ramones (uma referência para todos eles), que, segundo William, foi o motivo pelo qual começaram a usar efeitos e distorções em suas músicas: “Nós queríamos gravar álbuns que soassem diferentes”.

Essas influências, que abrangem desde o som calmo e ensolarado dos Beach Boys às melodias dos Beatles, passando pelo experimentalismo do jazz psicodélico do Velvet Underground e a energia do punk rock, fizeram com que o JAMC criasse uma sonoridade única, não se limitando apenas a reproduzir o que escutavam, mas criando algo novo, inserindo elementos nas músicas que deixavam claro que eles tinham personalidade e malícia suficientes para serem únicos. A banda nasceu com identidade própria, se apropriando dos melhores elementos das suas referências para imediatamente juntá-los a uma receita original de distorções, efeitos, letras e densidade, que são sua marca registrada até hoje. 


É importante ressaltar que o JAMC sempre foi uma banda à frente do seu tempo
 

Em 1984 eles conseguiram seu primeiro contrato com a Creation Records, lançando o single “"Upside Down", em novembro.  A banda ganhou certa visibilidade, muito pela fama dos seus shows, que na maioria das vezes acabava em pancadaria entre os membros da banda e seu público, com histórias de shows durando apenas 10 minutos, brigas motivadas pelos excessos de álcool dos irmãos Reid e suas insatisfações com o próprio som e com a reação do público.  No mesmo mês, novembro, o baterista Dalgish saiu da banda infeliz com a distribuição dos pagamentos que recebia. Enquanto isso, o single "Upside Down" liderava as vendas no Reino Unido, em fevereiro e março de 1985, permanecendo na liderança por 76 semanas e vendendo cerca de 35.000 cópias, sendo um dos singles independentes mais vendidos da década de 1980.

Esse sucesso permitiu que eles gravassem, ainda em 1985, o álbum que mudaria todo o cenário do rock: “Psychocandy”. O lançamento foi recebido com várias críticas positivas, embaladas pela curiosidade que as notícias dos seus shows geravam e pela descrição de um som que unia melodias suaves de guitarra, com uma parede de som extremamente alta e efeitos de distorção e microfonia. Pra mim, até hoje esse é o álbum mais importante da banda e também o melhor de sua discografia. Está presente em todas as listas de melhores da história, álbuns mais influentes, álbuns importantes, álbuns favoritos de vários músicos do rock etc.

A mistura quase esquizofrênica de Psychocandy é pioneira. As melodias das guitarras, aliadas à força melancólica de distorções poéticas, em sintonia com a voz de Jim Reid, que traduz em suas letras a agonia, a fúria da juventude, a insatisfação, o caos do cotidiano e a melancolia inerente da vida, criam um caldeirão musical estranho e confuso no primeiro momento, mas que em pouco tempo hipnotiza, por conseguir transcrever essas sensações e sentimentos pouco explorados, mas que são partes da existência.

Depois desse sucesso inicial, a banda passou por várias formações, problemas com a fama, brigas entre os irmãos, mudança de sonoridade e muitos álbuns considerados inconstantes. Os problemas se intensificaram ao ponto da vida do JAMC se tornar insustentável, especialmente devido às brigas entre Jim e William Reid, que haviam se agravado nos últimos anos, até que, em 1999, eles anunciaram o fim da banda.

Em 2007, novamente se reuniram, desta vez para para um show no festival Coachella, e desde então vêm trabalhando em alguns álbuns esporádicos e turnês, porém, com a diferença que estão sóbrios e se declaram felizes com a banda e com o que construíram.

 

JAMC é uma banda que não se explica, que não cabe em rótulos
 

Mas é importante ressaltar que o JAMC, apesar dos problemas, sempre foi uma banda à frente do seu tempo, experimentando novos estilos, novas formas de compor, novas sonoridades e tendo álbuns excelentes, que vão desde um “folk escocês” em “Stoned & Dethroned”, quinto álbum de 1992, até álbuns que atualizam a sua sonoridade clássica, como o “Automatic”, de 1989. A banda também faz parte da cultura pop, estando presente em várias trilhas sonoras de filmes.

Talvez o grande trunfo da banda tenha sido conseguir retratar a melancolia como ela é, não calma e contemplativa, mas barulhenta, dolorosa e, por vezes, angustiante.

JAMC é uma banda que não se explica, que não cabe em rótulos, sua música é literalmente uma mistura de efeitos, sentimentos e sons que nos remetem a tudo e ao nada ao mesmo tempo. Uma banda que não é e nem tem intenção de ser comercial, uma banda que mostrou ser possível algo novo, que brigava com seu público e entre si, uma banda que teve tudo para terminar em tragédia e passar despercebida pelo resto da vida.

O JAMC é inexplicável... e talvez por isso todas as bandas que vieram depois apenas concordam e respeitam. É uma daquelas bandas de que você pode não gostar, mas da qual nunca poderá falar mal.

A discografia oficial conta com 13 álbuns, sendo o último de 2017, "The Damage and Joy", que foi muito bem recebido pela crítica, levando a banda a tocar em grandes festivais pelo mundo, muitas vezes como headline.

JAMC é mitologia. É um caso de família.


quarta-feira, 5 de maio de 2021

BANDAS DE MANCHERSTER QUE SE TORNARAM MUNDIALMENTE CONHECIDAS

 Por: Juliana Vannucchi

A Inglaterra é um país no qual surgiram alguns dos maiores expoentes de toda a história do Rock And Roll, tal como os lendários The Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, Sex Pistols e inúmeras outras bandas. Em meio a todo esse cenário, a cidade de Manchester, localizada no noroeste da Inglaterra, foi um ambiente muito especial, no qual nasceram artistas de grande importância que alcançaram sucesso mundial e que lançaram materiais atemporais e inesquecíveis. Nossa lista irá apresentar cinco bandas dessa cidade que se tornaram mundialmente conhecida, mas lembre-se: existem várias outras além dessas, e vale a pena aprofundar a pesquisa.


Joy Division

É difícil escutar o Joy Division sem se apaixonar perdidamente pela poesia sonora de suas músicas. Certamente, essa banda configura entre as mais criativas e marcantes de todo o mundo! A singularidade sombria do vocalista Ian Curtis foi impactante e guiou os outros integrantes para caminhos sublimes e diferenciados, que rompiam com as produções musicais tradicionais da época em que surgiram (início dos anos 70). Bastaram dois álbuns de estúdio para que o sucesso explodisse e para que eles se eternizassem! Porém, a trajetória do Joy Division foi curta, e foi selada com o trágico falecimento do vocalista, que tirou a própria vida em 1980. Mas os fins também são começos e, após o período de luto pela morte do músico, o New Order começou a dar seus primeiros passos...

Magazine 

Que prazer imensurável escrever sobre o Magazine! Particularmente os vejo como o maior destaque dentre todas as preciosas bandas nascidas em Manchester e vou justificar meu posicionamento: o Magazine fez um tipo de música esquisita e que os rendeu certo reconhecimento na cena Punk e Pós Punk. Essa “esquisitice sonora” foi a assinatura da banda, sua fórmula mágica e seu grande diferencial, pois eles não produziram algo que se enquadrasse, necessariamente, no Punk, no Pós-Punk, no Dark ou sei lá em quê! O resultado disso é a maravilhosa dificuldade que surge quando tentamos classificá-los, pois eles escapam de qualquer tipo de categorização – soam como um pouco de tudo e muito de nada, entende?

É demasiadamente prazeroso embarcar nessa engenhosidade mística da banda e se perder no timbre assustador e deslumbrante da voz divina de Howard Devoto, que nunca sabemos para onde irá nos conduzir! Embora o Magazine não seja absurdamente popular aqui no Brasil (provavelmente os menos famosos dessa lista), gravaram uma faixa que é bem conhecida, chamada “Shot By Both Side”, que conta com uma guitarra desconcertante tocada pelo gênio John McGeoch.

Oasis

Chegamos aos queridinhos mais doces e enjoativos da Inglaterra!! Ao lado do The Smiths, acredito que, de maneira geral, seja o grupo mais bem sucedido dentre todos os que nasceram em Manchester. 

Embora já tivesse algum tempo de estrada, foi no ano de 1994 que a banda arrebentou e, a partir de então, rapidamente se firmou no cenário musical. Atualmente, possuem uma leva de fãs no mundo inteiro e são os donos de algumas das baladinhas mais famosas, fofas, meigas e chatas que o mundo já conheceu e que virou, mexeu, colam na cabeça, como, por exemplo “Wonderwall” e “Stand By Me”.

 

O Oasis despontou em 1991 e logo conquistou o mundo com seus melodramas

 
A carreira musical do Oasis foi extremamente bem sucedida


The Smiths
 

O The Smiths foi formado em Manchester no ano de 1982, e é um dos grupos mais brilhantes que já existiu. Morrissey, embora seja um grande babaca, sempre foi o principal símbolo da banda e, com certeza, foi um dos artistas mais criativos do mundo da música. O timbre de sua voz possui uma sutileza tocante e envolvente, que se complementa ideal e harmoniosamente com as refinadas notas de guitarra tocadas pelo talentoso Johnny Marr, que é, assim como o vocalista, um mito à parte e pode ser considerado o grande maestro do The Smiths.

O período de atividade da banda foi curto, durando apenas cinco anos, ao longo do qual foram lançados quatro álbuns. Porém, esse tempo foi o suficiente para que se eternizassem. O The Smiths a é especial e tem uma estética empolgante, única e inalcançável. Muitos corações seguem dançando e se emocionando no embalo das melancólicas músicas da banda.


The Stone Roses 

E foi também na gloriosa e fértil cidade de Manchester que uma das mais influentes bandas do Rock And Roll começou sua jornada. Trata-se do The Stone Roses, um dos maiores clássicos do gênero Indie.

Eles gravaram somente dois álbuns de estúdio, mas essas produções já foram suficientes para que se imortalizassem e cravassem sua marca na história do Rock alternativo. Suas músicas, em geral, provocam um clima onírico que é preenchido com longas e glamourosas distorções de guitarra!

Texto anteriormente publicado em: https://www.audiograma.com.br/2018/02/dica5-bandas-de-manchester-que-se-tornaram-mundialmente-conhecidas/



segunda-feira, 26 de abril de 2021

SUBSTÂNCIA ESCURA: UMA DAS MELHORES NOVIDADES DO PÓS-PUNK NACIONAL

Por: Juliana Vannucchi

A banda autoral Substância Escura, formada em 2018, na capital paranaense, vem conquistando cada vez mais espaço no cenário da música independente brasileira. Os primeiros passos profissionais da jornada do grupo tiveram início quando Wagner Carvalho e Fábio Cunha, amigos de longa data que esporadicamente reuniam-se para tocar covers, decidiram criar uma banda. A dupla, então, convidou Mau Mau para assumir o baixo e, somente após um ano, encontraram o baterista ideal para o grupo, Mateus Theodoro, que tomou conta das baquetas. Há um diferencial em relação à estrutura de formação do grupo: com exceção do baterista, o vocal é, em suma, dividido entre os três outros membros. 

De maneira geral, suas influências musicais navegam por estilos variados, como o Pós-punk e o Indie Rock, e as letras transitam por experiências de viagens, relacionamentos e situações diversas de um cotidiano alternativo e lírico. Em março de 2020, a banda lançou seu trabalho de estreia, o EP homônimo chamado “Substância Escura”, que totaliza cinco músicas. O período pandêmico interferiu na trajetória do grupo e gerou obstáculos. A esse respeito, Wagner comenta: “Havia cerca de seis shows programados na época do lançamento da nossa primeira produção, mas, infelizmente, o país todo entrou em lockdown e, pois isso, não houve promoção física do Substância Escura. Os estúdios também fecharam e os ensaios foram cancelados”. Apesar dessa dificuldade, a banda, assim como tantas outras, se reinventou e passou a participar do mundo digital, participando de festivais online e fazendo uso de plataformas virtuais para a divulgação de seu trabalho. 

 

É um EP que soa bem do início ao fim e que mostra que estamos diante de um grupo de enorme potencial
 

Liricamente, as faixas do EP Substância Escura, em geral, parecem carregar conteúdos niilistas e desabafos existenciais diversos, que são evidenciados pelas vozes fúnebres dos vocalistas da banda. Instrumentalmente, encontramos um conjunto melódico e rítmico que percorre o característico estilo sombrio da darkwave oitentista, mas que em alguns momentos se afasta dessa fórmula para abusar agradavelmente de solos mais extensos de guitarra, aspecto bem relevante por assegurar uma notável originalidade nas músicas. É um EP que soa bem do início ao fim e que mostra que estamos diante de um grupo de enorme potencial que, definitivamente, se firmará cada vez mais no cenário underground nacional.

Em abril de 2021, lançaram o primeiro vídeo oficial e há previsão para que no final deste ano lancem mais um EP. Sobre isso, Wagner diz: “Produzimos bastante desde a produção de estreia. Muitas dessas novas músicas foram compostas ao longo desse período difícil pelo qual estamos passando. Em decorrência disso, essas novas músicas terão uma atmosfera um pouco mais melancólica e triste, com letras que exploram temas como a solidão”.

Aguardaremos ansiosamente pelas novidades e, enquanto isso, podemos desfrutar o fascinante EP Substância Escura, que pode ser escutado na íntegra através do link abaixo:

https://www.youtube.com/channel/UC_CtU_fSNBW3BQRIYbyy36Q 

Siga a banda no Instagram:

https://www.instagram.com/substanc1aescura/




quinta-feira, 22 de abril de 2021

EXPLOSÃO DE PURPURINA: A CULTURA E A ESTÉTICA DO GLAM

 Por: Juliana Vannucchi

Na transição dos anos 60 para os anos 70, a Inglaterra, capital mundial do Rock And Roll, foi o palco do surgimento de uma nova tendência estética que ficou conhecida como “Glam” e que consistiu num dos mais célebres movimentos de vanguarda de toda a história do Rock. O embrião dessa corrente foi o provocativo David Bowie, cujo visual nesse período abusava de purpurina, lantejoulas, cores e brilhos, que se faziam presentes em sua maquiagem, roupas e calçados, vestimentas sempre excêntricas e que, na maior parte das vezes, eram peças tipicamente femininas. Essa característica o levou a assumir uma aparência andrógina extremamente polêmica já que, através desse visual, afastou-se das normas de gênero de sua época, desafiando todo o tradicionalismo vigente e deixando muitos críticos musicais estarrecidos.

David Bowie: o lendário andrógeno do Rock

O impacto que esse comportamento inaugurado por Bowie causou foi imenso e, embora o Camaleão tenha sido precursor do Glam, muitos foram os representantes que deram vida e popularizaram a vertente mais glamourosa do Rock,  como é o caso de Marc Bolan, Lou Reed, das bandas Mott The Hoople, The Sweet, The New York Dolls, Mud, Roxy Music, Slade e tantas outras. De maneira geral, todos esses grupos foram tão primorosos em suas produções e tão fundamentais para a história do Rock que, seguramente, podemos acreditar que o Glam foi o estimulante ideal e preciso do qual necessitavam para eclodirem e conquistarem seus respectivos terrenos. Além dessas bandas citadas, com o passar do tempo, certos subgêneros do Rock apresentaram influência direta do Glam, tal como foi o caso de bandas de Hard Rock e Heavy Metal - especialmente dos anos oitenta - dentre as quais podemos seguramente mencionar nomes como Def Leppard, Hanoi Rocks, Poison, Mötley Crüe e várias outras.

Mas não foram apenas bandas e músicos que foram afetados pelo Glam. Esse movimento foi socialmente relevante - na verdade, convenhamos, o Rock nunca se esgota na música em si mesma. O conceituado escritor e crítico musical Simon Reynolds lembra que o experimentalismo sexual que marcou o Glam estava, no fundo, atrelado a um determinado contexto histórico de sua época, no qual o ativismo homossexual crescia e uma “educação infantil mais liberal mudava o conceito de masculinidade”. Assim sendo, podemos dizer que essa corrente questionadora do status vigente não foi apenas estética, mas simbolizou também uma verdadeira mudança cultural que foi percebida em duas esferas: refletiu aspectos sociais e políticos de seu tempo e, simultaneamente, afetou sua própria época e também as gerações seguintes, ao influenciar a construção da identidade de muitas pessoas. Esse conjunto de fatores, é claro, transformou e alterou para sempre os rumos do Rock. Certa vez, a respeito do legado do Glam, Marc Bolan comentou durante entrevista concedida à BBC: “Acho que [meu uso de purpurina] causou uma mudança... especialmente com cosméticos (...) Os caras podiam subir no palco... não sendo afeminados, mas não necessariamente precisando de loção pós-barba Brut - você sabe, sendo tipo super-masculino. Você poderia usar maquiagem e outras coisas para iluminar o ato”. 

 

 

Em relação especificamente aos aspectos musicais, Reynolds esclarece que o Glam era estruturalmente reativo, isto é, percebia traços de decadência na música de seu tempo e se propunha a alterar esse cenário, característica esta que também lhe assegura um caráter de contracultura: “O que define o glam musicalmente é uma reação contra o rock ácido e a volta às estruturas mais simples dos anos 50... esse tipo de vigor e foco”, disse ele. O autor complementa sua reflexão: “Mas, por outro lado, o glam também detém todos os avanços da gravação do final dos anos 1960, quando os discos de rock 'n' roll soam muito maiores, mais fortes, mais altos e mais grossos do que nos anos cinquenta”. 

Por meio do Glam, o Rock estava, portanto, demolindo paradigmas, sendo libertador e fazendo aquilo que sempre fez ao longo de sua história: se reinventando para se perpetuar. Justamente por isso, podemos entender que o Glam foi simultaneamente uma revolução e uma evolução, uma vez que ao mesmo tempo em que causou rupturas também proporcionou diversos progressos cujos ecos perduram até os dias de hoje.


Referências:

https://www.theguardian.com/fashion/2020/jun/22/glitter-and-curls-marc-bolan-and-the-birth-of-glam-rock-style

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Glam_rock

https://www.google.com.br/amp/s/www.udiscovermusic.com/in-depth-features/how-glam-rock-changed-world/amp/

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2010/sep/23/sweet-strange-history

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/books/2016/oct/07/shock-awe-glam-rock-legacy-simon-reynolds-review

http://fordhamenglish.com/news1/2016/10/25/simon-reynolds-speaks-on-glam-rock



TwitterFacebookRSS FeedEmail