Fanzine Brasil

SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

UMA VIAGEM DIONISÍACA: II EXPOSIÇÃO ONLINE DE DESENHO E PINTURA DO SITE FANZINE BRASIL

 Organização: Juliana Vannucchi

Caros leitores e visitantes, sejam todos muito bem-vindos, é uma honra recebê-los em nossa casa! A Segunda Exposição Online de Desenho e Pintura do Fanzine Brasil visa atenuar o sofrimento e a falta de perspectiva diante de uma realidade tão complexa e difícil, além de proporcionar uma luz de otimismo, alegria e esperança às pessoas. Incentivamos o visitante a deixar seu comentário na postagem para prestigiar o trabalho dos artistas que estão participando de nossa exposição virtual. E lembre-se de ler e conhecer também outros conteúdos de nosso site.

Proposta:

Em 2018, o grupo australiano Dead Can Dance lançou um álbum intitulado “Dyonisus”. Esse foi o motor musical que nos inspirou a realizar a presente exposição. Nossa proposta foi para que os artistas convidados elaborassem um desenho e/ou pintura inspirados no referido álbum. A partir disso, os incentivamos a mergulhar em suas músicas, sentindo-as de maneira intensa, conectando-se com o seu conceito e elaborando um registro a partir dessa profunda experiência estética. Solicitamos também que cada artista enviasse um pequeno texto reflexivo a respeito da temática e do processo criativo de sua produção e ainda que escolhesse um título para a sua arte.

Além de nutrirmos uma enorme admiração pelo Dead Can Dance, a ideia de uma exposição baseada no álbum da banda foi fortalecida pela filosofia nietzschiana que, dentre tantas outras abordagens, faz referência e enaltece a figura de Dioniso, que surge como símbolo dos mistérios, do caos, do desconhecido, do sofrimento, do excesso e da desmedida, aspectos inerentes e fundamentais para a plenitude existencial.

ERICA IASSUDA:

"ADEUS, DARUMA".





Comentários da artista:

A série "Adeus, Daruma" surgiu a partir de uma memória de tristeza profunda, um desconforto  latente, porém devidamente reprimido  por pendências emocionais  a respeito do luto, propósito  de vida e o perdão. A série surge como uma forma de redenção e um primeiro passo para acessar e me libertar do que ficou pendente por tantos anos. A estética  deste políptico  foi inspirada pela dança japonesa Butoh experimental,  pós-guerra e avant-garde ao som do  álbum “Dyonisus” do Dead Can Dance, como registros  de uma performance de dança. Assim, enquanto a trilha sonora ritmada, ritual (dionísica!)  evoca o distanciamento  da racionalidade, essencial  para acessar emoções de terror, ansiedade e tristeza, o Butoh, por sua vez, traz a formalidade da beleza, da feiura e da verdade mais pura. A peça teatral é uma jornada de dentro para  fora e sobre transcendência  das emoções de sofrimento em liberdade.

Materiais e Técnicas: 

Políptico, registros de desenho, grafite, acrílica e aqualine sobre papel Aquarelle 300g. Diversos tamanhos.

KARLOS JÚNIOR:

"LAS BACANTES" 

Comentários do artista:

Envolto na atmosfera do álbum do Dead Can Dance e nos temas de suas faixas, eu me remeti às memórias que tenho de obras pertencentes à mitologia grega, filmes que vi na tenra idade e algumas leituras para imaginar a dança das bacantes, as consortes do deus do vinho, do amor e da celebração da vida e da alegria para criar a ilustração. A partir dessa experiência, a ideia foi fazer por meio da dança, Baco ou Dionísio ser invocado pelas jovens com sua taça de vinho sedutora.

Materiais e Técnicas:

Arte criada a partir de uma lapiseira Stadtler 2 mm e finalizada em canetas nanquim Micron, UniPin e tinta nanquim a pincel. 

 TUCA CHIVALE GALVAN: 

"PROFUNDEZAS EM COR"

 Comentários da artista:

Todo o processo de criação foi acontecendo ao som do álbum “Dyonisus” do grupo Dead Can Dance. E ao aceitar o convite de Juliana Vannucchi, do site Fanzine Brasil,  mergulhei em cada música, podendo assim me deixar inspirar pela composição de vários tipos de sons advindos de instrumentos musicais não muito convencionais e também de outros já popularmente conhecidos. A cada instrumento identificado, ou mesmo sem saber quais eram, fui construindo uma sequência de movimentos e uma explosão de cores, sentindo que estava em conformidade com o que estava escutando. Ora numa suavidade inebriante, ora sendo provocada por um incômodo desequilíbrio e por um mistério.

Trabalhei com os respingos representando a paixão, a embriaguez e o caos, assim como na definição ao Deus Dionísio, segundo Nietzsche. E como contraponto,  referenciei o Deus Apolo, permitindo-me harmonizar cores para dosar o equilíbrio.

E assim a aquarela foi finalizada. A escolha dessa técnica aconteceu pela possibilidade das transparências das cores, composição em nuances provocativas e o desafio de controlar o movimento da água  combinada com a tinta. O trabalho se tornou tão poético quanto a música.

Materiais e Técnicas: 

Aquarela e respingos.

SORAYA BALERA: 

"TRANSMUTAÇÃO"
 

 
Comentários da artista:
 
Quando dei as primeiras pinceladas na tela vazia, senti que estava mergulhando dentro da minha própria mente. As imagens que visualizei nesse momento inicial foram raios que logo transformaram-se em neurônios, simbolizando ligações interiores profundas conectadas ao medo. Por sua vez, as gotas que caem representam o sofrimento que vai sendo sutilmente levado. Mediante esse cenário, inúmeras bolhas sobem para representar a leveza As rosas surgem com o papel de suavizar essa condição descrita. A pintura feita trata-se, em suma, da captação de um processo no qual  o medo e a insegurança são transmutados em esperança, em cores, no aroma das rosas e no belo. O denso se esvaíra para dar espaço ao que é leve... 
 
Materiais e Técnicas: 
 
Óleo sobre tela (70cm × 80cm).

THIAGO ROCHA:

"SILÊNCIO"

Comentários do artista:

Dentro do meu processo criativo, sempre procuro ouvir algo para acompanhar a inspiração durante o desenvolvimento. Muitas vezes me pego em um certo transe. Consequência da concentração e viagem para dentro das músicas. Nessa construção muitas vezes eu não tenho algo nítido do resultado final, tenho apenas a ideia da imagem central. É nesse momento que começo a discutir comigo mesmo o ponto final do processo. A música muitas vezes influencia, seja por sua batida, por sua história e sua letra. A imagem retratada é do filme Psicose, onde a o assassino assume dupla personalidade ouvindo a voz de sua falecida mãe. Eu acredito ser o mesmo silêncio que o meu, só que com finais, motivos e intuitos completamente diferentes.

Materiais e Técnicas:

Photoshop.

Artistas participantes: 

Erica Iassuda
(Instagram: @erica_com_c_de_casa)
 
 Karlos Júnior 
(Instagram: @karlosmjunior)
 
Soraya Balera
(Instagram: @sorayabalera)
 
 Thiago Rocha
(Instagram: @thiagorocha.art)
 
Tuca Galvan
(Instagram: @estefania_tuca)

RELIGIÃO, MODA E PUNK ROCK: UM POUCO MAIS SOBRE SIOUXSIE SIOUX

 Por Juliana Vannucchi

O Fanzine Brasil traz hoje a primeira lista de 2021. E para essa estreia escolhemos um tema que nossos leitores adoram: Siouxsie Sioux. Fizemos uma pesquisa sobre a lendária vocalista inglesa e elencamos alguns fatos bem curiosos sobre ela! Confira, compartilhe e deixe seu comentário!

UM POUCO MAIS SOBRE O GOSTO MUSICAL DE SIOUXSIE SIOUX: 

Uma vez, em outra lista do nosso site, citamos algumas das principais influências musicais de Siouxsie Sioux e mencionamos algumas bandas das quais ela gosta. Hoje, porém, faremos o contrário, e nesse primeiro tópico contaremos aos leitores o nome de um grupo que ela detesta com todas as forças!

Numa entrevista do início da década de noventa, Siouxsie declarou que odeia Genesis, banda à qual já dirigiu as seguintes palavras: “Eu os desprezo. Eu odeio a afabilidade deles, apenas aqueles caras comuns... o ... Eu odeio a música deles. Eu odeio como eles se colocam. Acho que deveriam ser (ela olha em volta em busca de uma punição adequada) ... queimados”.  Na sequência da entrevista em que fez essa observação, também disse que nunca conheceu os membros do Genesis e que não gostaria de conhecê-los.

"Não é que eu tenha qualquer intenção de criar um novo visual que seja memorável. Eu simplesmente me canso das coisas".

SID VICIOUS E OS PISTOLS: 

Sabemos que os Banshees emergiram durante a eclosão do punk rock inglês e que seu destino se cruzou com o dos membros do Sex Pistols. Siouxsie foi uma das tantas pessoas da cena londrina que tiveram o privilégio de conhecer pessoalmente uma das figuras mais caricatas da história do Rock And Roll: Sid Vicious. A esse respeito, numa entrevista concedida a David Cavanagh em 1992, a vocalista e cofundadora dos Banshees disse que havia um Sid antes do Sex Pistols e um depois. Sugeriu que ele mudou muito. Disse que antes de ele se juntar ao grupo punk, tinha um grande senso de humor. Mas na mesma entrevista em que teceu esse elogio, complementou: “Eu provavelmente não seria capaz de continuar com ele (após os Pistols). Pelo que ouvi, ele mudou muito. Eu o vi uma vez e quase não o reconheci. Ele simplesmente se foi. Ele deixou o planeta”.

Na mesma ocasião, Sioux foi questionada a respeito das bandas punks que admirava e respondeu de maneira segura: “De várias da América, como The Cramps. Suicide, Iggy mesmo naquela época. E os primórdios do Wire. Provavelmente há muito mais”.

Na sequência, foi questionada sobre três grandes bandas ingleses: Pistols, The Clash e The Damned. A essa pergunta, respondeu com certo tom de sarcasmo: “Oh, os caricatos. Bem, os Pistols foram muito importantes para mim, mas isso foi antes de eles assinarem e lançarem um disco. Foi o fato de ir aos shows que me afetou. Nunca toquei Pistols desde então. Eu nunca quis”.

MODA:

Siouxsie Sioux é constantemente lembrada pelo seu visual excêntrico e muito original. A cantora, em mais de uma ocasião, já comentou que suas vestimentas eram escolhidas de maneira espontânea. Numa entrevista realizada no início dos anos 90, a vocalista comentou esse fato e também, como de costume, lamentou-se por ter sido associada ao universo gótico, ao qual ela já disse inúmeras vezes que não pertence: “Não é que eu tenha qualquer intenção de criar um novo visual que seja memorável. Eu simplesmente me canso das coisas mais rápido do que a maioria das pessoas e, muitas vezes, sinto vontade de ser contrária, apenas porque alguém tem que ser. É bom que algumas coisas sejam lembradas. Outras vezes, é irritante. A Siouxsie com cabelo espetado e botas de couro preto na coxa tornou-se uma espécie de ícone. Obviamente, esse visual influenciou garotas e garotos que formaram bandas e, infelizmente, se tornou gótico”.

 

"A Siouxsie com cabelo espetado e botas de couro preto na coxa tornou-se uma espécie de ícone. Obviamente, esse visual influenciou garotas e garotos que formaram bandas e, infelizmente, se tornou gótico".

SIOUX TOCA GUITARRA?

Siouxsie confessou, numa entrevista concedida no ano de 1992, que começou a se sentir uma cantora de verdade somente na época em que o álbum Kaleidoscope foi lançado – isto é, em 1980. Foi um momento especial e que representou um notável amadurecimento para ela. Nesse mesmo período, Sioux aprendeu a tocar guitarra. A vocalista dos  Banshees comentou sobre essa experiência: “Eu aprendi o básico de guitarra e comecei a compor na guitarra. Não sou uma guitarrista solo e nem nada do tipo, mas eu aprendi como uma música deve soar. Às vezes, ainda fico frustrada com a minha falta de habilidade, mas é muito rápido quando você compõe algo na guitarra - há um certo imediatismo que você não percebe quando compõe algo no teclado”.

UMA VISÃO CRÍTICA SOBRE A IGREJA E SOBRE A RELIGIÃO:

Vejamos agora, para encerrar nossa lista, algumas palavras e reflexões de Siouxsie Sioux a respeito das religiões “Quando estou numa igreja, sinto-me muito religiosa, mas acho que a religião foi desgraçada através dos tempos. Eu vou mais pelo lado do simbolismo dela do que por sua realidade. A religião se tornou tão politizada que atualmente ela parece ser uma intenção do homem em assustar as pessoas para que elas se comportem. A religião é sempre usada como uma ameaça ou um poder - eu conheço muitas pessoas que tiveram uma educação católica que ainda têm um medo ao invés de um amor a Deus”. Mas apesar dessa perspectiva mais crítica, Sioux declarou: “Mas ainda tenho uma crença provinda da infância nas igrejas, devido a sua beleza e tranquilidade. Num dia de calor, você pode ir à igreja, ela é um ambiente maravilhosamente fresco. Tem janelas lindas e às vezes cascatas de flores e é lindo."

 

"A religião é sempre usada como uma ameaça ou um poder (...)"


Referências:

http://www.thebansheesandothercreatures.co.uk

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

THE DAMNED: QUANDO UM VAMPIRO PUNK E UM GUITARRISTA PSICODÉLICO DECIDEM FAZER MÚSICA

 Por Juliana Vannucchi

Não há como pensar na história do punk rock sem levar em conta a trajetória do The Damned, uma das bandas pioneiras do gênero e um dos maiores expoentes da cena inglesa dos anos setenta (ou, talvez, mais adequadamente falando, da OAP: Old Age Punk). Aliás, neste ponto é importante frisar que a banda foi um dos primeiros grupos punks do Reino Unido a lançar um compacto ("New Rose", lançado em outubro de 1976) e também um álbum. São feitos simplesmente históricos. Porém, o The Damned não estacionou seu estilo nos limites impostos pelo mundo punk e incorporou em sua estética um toque exótico de fantasia misturado com uma aura cinematográfica de terror e uma pincelada extra de psicodelia. A soma desses elementos fez surgir uma das bandas mais peculiares, queridas e aclamadas da cena punk e pós-punk e que despertou a paixão de muitas pessoas, incluindo ninguém mais ninguém menos do que Jimmy Page, que chegou a declarar que “sempre amou o The Damned”.

UM DUO EXCÊNTRICO:

Em termos visuais e sonoros, os membros da banda sempre foram notavelmente autênticos. O vocalista David Vanian parecia sair diretamente de um caixão antes de subir aos palcos. Ele era uma espécie de Nosferatu punk barulhento! Porém, Vanian já declarou que não havia intenção de parecer um sugador de sangue e parece não apreciar muito esse tipo de comparação: “Não se tratava de parecer um vampiro. Eu (desde os 14 anos) gostava da arquitetura vitoriana e de rituais de luto. O film noir foi uma grande influência e o rock'n'roll também. Eu adorava o Gene Vincent, gostava de Elvis, mas sempre achei que o Roy Orbison tinha a melhor voz de todas. Estranhamente, eles eram todos pálidos e com cabelos pretos. Também havia as imagens daqueles filmes mudos alemães, nos quais o homem está completamente maquiado e tem os olhos escurecidos”. Por sua vez, Captain Sensible, o icônico guitarrista (por vezes, baixista) - e maestro - da banda contrastava esse visual fúnebre e preferia trajes coloridos, muitas vezes listrados ou xadrezes, alegres e descontraídos. Era uma dupla estranha e absolutamente perfeita, que serviu como fio condutor para toda a vasta história do The Damned, fazendo com que a banda sobrevivesse desde seus primórdios até os dias de hoje. Além desse duo, ao longo do tempo houve bastante mudança na formação da banda e aqui é válido sublinhar que até Lemmy Kilmister, líder do Motörhead , chegou a colaborar com o grupo!

 

"De uma forma ou de outra, o The Damned lança em seus ouvintes uma espécie de feitiço místico que os aprisiona prazerosamente".

O CONTEÚDO LÍRICO DO THE DAMNED: UM APERTO DE MÃOS ENTRE AS SOMBRAS E O SURREALISMO:

As letras de Dave Vanian sempre foram uma das referências mais valiosas da banda. Ele escreve versos com temáticas surreais, oníricas e um tanto soturnas, sendo que este último aspecto sobressai. O vocalista já assumiu publicamente numa entrevista que seu lirismo permeia por assuntos sombrios, mas sente que isso é importante porque estamos constantemente cercados por isso: “A arte sempre é influenciada pelo que está ao seu redor”. Além disso, já confessou que a morte não o assusta, está longe de ser seu maior medo e declarou que nunca a desejou.

A fantasia, conforme já citado, também sempre esteve presente não apenas nas letras, mas também em toda inconfundível aura da banda que, de certa maneira, talvez tenha encontrado sua singularidade justamente nessa mescla do universo dark com o universo fantástico que, na discografia do The Damned, sempre dialogaram. Porém, os temas não se esgotam nesses dois âmbitos e também são inspirados em outros assuntos, como filmes, livros e política.

NEW ROSE, O SINGLE HISTÓRICO DA BANDA:

O lançamento do aclamado single “New Rose”, ocorrido em outubro de 1976, antes mesmo da eclosão do Sex Pistols, foi simplesmente revolucionário. Gravado por um valor de 50£, a música é cheia de fúria e energia e foi um verdadeiro marco para o punk rock, uma vez que foi o primeiro single do gênero a ser lançado na Inglaterra. Segundo o guitarrista Brian James, autor da letra, a faixa era um prelúdio para uma nova era e, diferente do que muitos imaginavam, não descreve nenhum tipo de relacionamento amoroso. Ele explicou: “Para ser sincero, nunca pensava nas letras que escrevia. Eu apenas as anotava. Elas certamente não eram sobre uma garota, pois eu não tinha uma na época e o amor não estava em minha mente. Suponho que as palavras se encaixam perfeitamente. Depois, percebi que as letras eram sobre essa nova era, essa nova cena punk emergente”. Certa vez, numa entrevista concedida à revista Mojo, ao comentar sobre a música ser um anúncio da revolução punk, declarou que ela falava sobre: “Esse adorável zumbido que você nunca sonhou que pudesse acontecer”.

Vanian descreveu a gravação como uma “experiência fantástica” e disse que, de certa maneira, a maneira pela qual a música foi produzia apreendeu a atmosfera da banda em suas apresentações ao vivo. Ou seja, em seu resultado, “New Rose” era crua, simples e essencialmente perfeita. O vocalista do Damned revelou também que precisou gravar os vocais num corredor, e não dentro do estúdio: “Tive que cantar lá com a porta fechada, e ainda estava muito alto porque estava tudo no volume máximo. Quase não havia espaço suficiente para a banda quando o gravamos (...)”.

Ao longo dos anos, bandas como Guns N’ Roses e Depeche Mode já gravaram covers da música.

 

“A arte sempre é influenciada pelo que está ao seu redor”.
  

ENTRE O AGITO DO PUNK E A INTROSPECÇÃO DA ONDA DARK: UM GIRO PELA DISCOGRAFIA DA BANDA:

A discografia do The Damned é composta por um total de onze álbuns de estúdio, dentre os quais, alguns são absolutamente míticos e outros, por sua vez, são pouco inspiradores.

Os três primeiros, isto é, o “Damned, Damned, Damned”, o “Music For Pleasure” e o “Machine Gun Etiquette”, essencialmente flertam com a fórmula tradicional setentista do punk rock inglês, sendo que o primeiro e o segundo foram lançados justamente em 1977, ano mais memorável da história desse gênero musical. Contudo, é válido citar que o segundo e o terceiro não carregam a mesma magia do disco de estreia, que foi imensamente aclamado. Ambos pecam ligeiramente em originalidade e soam de uma maneira um tanto repetitiva, algo que talvez tenha sido inesperado para uma banda que começou a carreira de forma tão notória. Mas também é preciso admitir que seria um grande desafio atingir a mesma qualidade do “Damned, Damned, Damned”, que foi impecável em todos os seus pormenores. A começar pela memorável capa, na qual vemos os integrantes da banda com seus rostos cobertos por bolo. De acordo com Brian James: “Acharam que seria uma alegria nos surpreenderem com alguns bolos de creme, mas não sabiam que iríamos saborear, entrar na onda e desfrutar de toda a experiência”. Para alguns críticos, esse foi o melhor álbum da história da banda.

A partir de 1980, o The Damned começa a ressignificar seu estilo musical e passa a incorporar em suas canções um clima obscuro, non-sense e psicodélico, que permeia pelos quatro álbuns lançados nessa década. A fase em questão bastou para que alguns os associassem diretamente com a cena gótica. É preciso levar em conta que no início dos anos oitenta, o pós-punk estava sendo consolidado no Reino Unido e, aos poucos, tomava para si o estrelato que anos antes pertenceu ao punk rock. A mudança de rumo do The Damned foi natural e aconteceu com outros grupos. O maior expoente dessa fase sombria é o “Phantasmagoria”, que para muitos consiste na principal obra-prima da carreira da banda. Antes dele, o “The Black Album” e o “Strawberries” sutilmente já anunciavam que o Damned alteraria a rota de sua trajetória embrionária. O “Phantasmagoria” é o álbum mais poético e valioso de todos e é nele que encontramos as mais conhecidas baladas do grupo. O protagonismo do disco se concentra especialmente na voz encantadora de Vanian. A guitarra passa e experimentar efeitos diferentes e perde a velocidade e brutalidade dos três primeiros álbuns. O saxofone é um instrumento diferente que também aparece no álbum, e o teclados são usados de uma maneira magnífica e proeminente. 

Depois dessa produção, o Damned lançou o “Anything”, que é agradável e possui uma ou outra música cativante. Foi um bom trabalho, mas nada excepcional. Após essa produção, o grupo passou nove anos sem gravar, até que em meados dos anos noventa voltaram à tona com o “Not On This Earth”, um álbum confuso e fraco que, provavelmente, é o mais desanimador de toda a discografia do The Damned. Isso não aconteceu apenas com a eclosão do grunge, e lendas como Siouxsie And The Banshees, The Cure e Echo And The Bunnymen também perderam forças e ficaram em segundo plano ao longo desse período. Posteriormente, permaneceram em silêncio durante o restante da década até que, em 2001, tentaram se reinventar com o lançamento do “Grave Disorder”. Anos mais tarde, mais precisamente em 2008, veio o “Who’s Paranoid?” e, uma década depois, o The Damned nos presenteou com o “Evils Spirits”. Esses três álbuns são definitivamente bons e muito nostálgicos, pois resgatam um pouco do brilhantismo e da criatividade do início da carreira do grupo. O último deles é empolgante e soa bem do início ao fim.

De uma forma ou de outra, o The Damned lança em seus ouvintes uma espécie de feitiço místico que os aprisiona prazerosamente para sempre. Hits como “Grimly Fiendish”, “Love Song”, “Eloise”, “Neat, Neat, Neat”, “Fan Club”, Alone Again Or” são simplesmente fascinantes. A oscilação de qualidade ao longo do tempo não significa nada perto da genialidade de faixas como essas e também como tantas outras.

Referências:

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2020/feb/22/damned-new-rose-brian-james-punk-oscar

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2018/mar/19/how-we-made-the-damned-new-rose

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2014/apr/25/the-damned-review-captain-sensible-60th-birthday-forum-london

https://www.google.com.br/amp/s/www.gq-magazine.co.uk/culture/article/the-damned-dave-vanian-interview%3famp

https://www.google.com.br/amp/s/www.independent.co.uk/arts-entertainment/music/features/damned-interview-dave-vanian-evil-spirits-album-stream-tour-dates-a8302596.html%3famp

https://www.songfacts.com/facts/the-damned/new-rose

https://diffuser.fm/damned-anything/

https://www.phoenixnewtimes.com/music/damned-interview-dave-vanian-captain-sensible-phoenix-may-21-9340452


TUDO SOBRE O PANDEMIA ZINE

 Por Juliana Vannucchi

No final do ano mais estranho e apocalíptico de nossas vidas, os estudantes do curso de Pós-graduação do curso de Comunicação e Cultura da Universidade Positivo, Diego Bagatin, Lucas Pelegrini e Carlos González, lançaram a edição inaugural do “Pandemia Zine”, uma revista independente com conteúdos que navegam pelas melhores zonas da vasta cena underground brasileira. O conceito do fanzine possui inspiração no psicodelismo dos anos 60 e também, é claro, no universo ideológico e estético do Punk Rock. Além de conter ótimas matérias, a primorosa edição de estreia oferece também críticas políticas e sociais que se manifestam em diversas ilustrações espalhadas pela página da revista. Como resultado de tudo isso, o leitor encontra no Pandemia Zine, um enriquecedor material cultural que valoriza ao máximo diversas produções independentes do nosso país. Conversamos com Diego Bagatin, um dos responsáveis pela revista autoral e trouxemos esse papo em primeira mão para o nosso site. Confira essa super entrevista, curta e compartilhe o link.

1. Diego, primeiramente gostaríamos de entender melhor a relação conceitual entre o Pandemia Zine a psicodelia dos anos sessenta. Esse é um ponto muito interessante...

Durante a década de 60, as comunidades que surgiram no meio da contracultura foram importantíssimas para criar uma identidade visual que falasse por eles e que compartilhasse as mesmas ideias daquele tempo. Disso surgiram, muito antes do período punk dos anos 70, os fanzines, que dialogavam por meio da arte com essas comunidades. Claro que hoje aquela visão que nós temos da juventude dos anos 60 é totalmente moldada de acordo com o que o mercado quis mostrar, jogando até mesmo certo tipo de “moda” hippie, entre outras coisas, num cenário mais comercial. Mesmo assim, criamos o Pandemia Zine com o intuito de resgatar mais da essência dos anos 70 a 90 do que os anos 60, principalmente pelo punk, mas acredito eu que a verdadeira essência de um fanzine como o nosso veio de uma antítese do Rock ‘n’ Roll “paz e amor”, como eram mostradas em bandas tipo Velvet Underground que possuíam uma atitude mais punk e underground do que o flower power.

2. Poderia nos contar um pouco sobre como surgiram os fanzines?

Desde o começo, nos anos 40, os fanzines se apresentavam como uma mídia alternativa para vários admiradores de uma cultura que por vezes não possuía um espaço na mídia convencional. Fãs de ficção científica, música, cultura em geral, todos consumiam esse tipo de trabalho alternativo como uma forma de valorizar o trabalho feito de fãs para fãs, que muitas vezes não visavam lucro, e quando visavam, era um lucro pequeno apenas para que os autores dos zines conseguissem continuar com a produção de novas edições. A partir disso, vieram muitos outros tipos de comunidades artísticas durante as décadas posteriores, e os fanzines sempre estiveram no meio como uma forma de divulgar cenas locais ou bandas que estavam no começo, mas que não possuíam nenhum tipo de espaço em uma mídia tradicional. 

 

A banda autoral She Is Dead foi um dos destaques da edição piloto

3. Gostaria que você falasse especificamente sobre a relação entre os fanzines e o Punk Rock.

Os fanzines surgiram no meio do Punk Rock principalmente a partir da fase denominada proto punk, lá no começo dos anos 70, em que bandas como Stooges, MC5, Blondie, Talking Heads e Television dominavam a cena nova iorquina e influenciaria todas as bandas punks que vieram depois na Inglaterra. Ou seja, o punk não começou na Inglaterra, e sim nessa cena underground de NY. A partir desse contexto, nós podemos dizer que os fanzines e o punk possuem características totalmente idênticas, sejam em abordagens políticas ou até no “faça você mesmo”, que é uma regra em bandas dessa época. O punk possui uma liberdade que muitos outros estilos não possuem, como o fato das bandas serem independentes e fazerem o que der na telha, e os fanzines são totalmente iguais nesse sentido, mostrando suas posições políticas e valorizando artistas de um meio que não vem do mainstream.

4. Como foi o processo de criação do Pandemia Zine?

Nós não queríamos deixar nosso fanzine totalmente idêntico aos fanzines antigos, mas fomos procurar referências para termos uma base de começo. Visitamos a Gibiteca de Curitiba, onde possui um acervo enorme de fanzines de São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente do começo dos anos 90. A garotada naquela época estava a todo vapor divulgando o som alternativo, e ver todo o processo de criação desses fanzines brasileiros antigos foi um pontapé para que fizéssemos o nosso do nosso jeito. Nós fizemos o Pandemia Zine com uma estética que faz referência ao antigo e novo, com um design que não fosse gourmetizado, mas que também trouxesse algo de atual para a criação do nosso produto. Utilizando mídias atuais, conseguimos criar um e-book e versões para download em PDF no site do zine, com uma estética um pouco diferente, sobre tema escuro, o que é algo comum em aplicativos de celular como Instagram. Mas, fora essa questão virtual, nossa ideia é espalhar o fanzine no underground curitibano assim que pudermos todos sair de casa com segurança.

5. Qual é a importância social, cultural e artística dos fanzines? 

Os fanzines possuem uma importância enorme dentro da sociedade. A partir do momento que fãs de arte em geral veem uma necessidade de expor ideias e posicionamentos contra qualquer tipo de onda conservadorista, entre outras, eles possuem essa arma artística no melhor e mais antigo formato de mídia: a mídia física. Quando vemos posicionamentos em redes sociais, elas são reais e são feitas para que as pessoas tenham a noção do quanto é importante estar de um lado que vai contra a maré atual de governos, grupos e instituições que propagam ódio e retrocesso. Mas, do mesmo modo, há tanta informação aleatória em mídias sociais que, às vezes, fazem com que essas vozes sumam. No caso da mídia física, isso fica pra sempre, e isso que é o mais interessante em fanzines: reunir grupos que têm a cabeça aberta, colecionar os zines, trocar edições com as pessoas, dar voz e palco para bandas e artistas que não têm tanto espaço no mainstream. Isso tudo é a magia do fanzine.  


"Ao lado da música, a abordagem política é um ponto importantíssimo em zines".

6. Qual foi a maior dificuldade que vocês encontram para dar elaborar essa edição?

Na edição piloto não houve tantas dificuldades em questões de ideias e confecção. Nós do grupo começamos esse projeto antes mesmo da pandemia se alastrar, mas acreditamos que a maior dificuldade foi não podermos distribuir os zines físicos em bares e lugares onde o underground curitibano é forte, e então, mantivemos o site com a versão em e-book para que as pessoas pudessem ter esse conteúdo na íntegra.

7. Notei que há um viés político no material. Os fanzines geralmente possuem esse tipo de abordagem? 

Totalmente. Ao lado da música, a abordagem política é um ponto importantíssimo em zines. Possuir ideias e apoiar movimentos contra qualquer tipo de extremismo são o que fazem os fanzines serem materiais alternativos entre tanto tipo de material tendencioso.

 

"Valorize artistas e movimentos do underground para dar voz a essas pessoas".
 

8. Que dicas você dá para quem quer começar a criar um fanzine? Qual seria o primeiro passo?

Valorize artistas e movimentos do underground para dar voz a essas pessoas. Há tantos grupos que pensam em começar algo mas acabam desistindo porque não há retorno, seja musicalmente ou qualquer outro tipo de movimento artístico. Estude o local, seja na cidade onde o fanzine será confeccionado ou em lugares próximos, mas procure esses artistas, pois há muita coisa que fica de fora da grande mídia. Kurt Cobain, quando veio ao Brasil, deu uma entrevista para um fanzine local ao invés da grande mídia. Esse é o começo, valorizar esse trabalho.

9. O projeto continuará ativo? Os leitores podem esperar por novas edições? Por favor, passe os links para que possamos acessar a edição número da “Pandemia Zine”.

A ideia é continuar fazendo outras edições assim que possível, num mundo pós vacina onde as pessoas poderão frequentar shows e conhecer novos sons. Por enquanto, tivemos um retorno muito bom, de bandas e todos que leram e acharam o material nostálgico e adoraram o modo de como os temas foram abordados, e ter um projeto de TCC sendo visto por muitas pessoas que dão valor a arte é uma alegria imensa.  

A edição piloto do Pandemia Zine está disponível aqui neste link: https://zinepandemia.wixsite.com/zine/download


 


terça-feira, 26 de janeiro de 2021

GIRLS POWER: THE SLITS E O EMPODERAMENTO FEMININO

 Por Juliana Vannucchi

The Slits foi uma das inúmeras bandas que surgiram em meio ao caloroso e frutífero movimento punk inglês e, com certeza, foi uma das mais originais dentre todos esses diversos grupos pertencentes a cena.

A história do conjunto começou a ser escrita no ano de 1976 e, em 2010, a banda encerrou suas atividades. Os primeiros passos do The Slits foram dados quando o grupo acompanhou o The Clash em algumas de suas apresentações. O lendário vocalista Joe Strummer logo percebeu o potencial da banda e a incentivou a tocar com mais frequência. Depois disso, aos poucos, a carreira do The Slits simplesmente deslanchou. Durante o referido período em que esteve em evidência, o grupo lançou um total de quatro álbuns de estúdio, sendo que o Cut, de 1979, é o mais famoso deles e é considerado uma das melhores produções da vasta e preciosa história do punk rock. Nessa época, a formação base e clássica da banda era: Viv Albertine, Ari Up e Tessa Pollitt. A título de curiosidade, vale destacar que a bateria desse célebre álbum ficou por conta de Budgie, que logo depois dessa contribuição se juntaria aos Banshees. A impactante capa do Cut, com as três integrantes da banda despidas da cintura para cima, se tornou icônica. A esse respeito, Albertine declarou certa vez ao The Guardian: “Queríamos uma postura guerreira, queríamos ser uma tribo (...) Sabíamos, como não estávamos vestidas, que tínhamos que parecer confrontadoras e duronas. Não queríamos ser convidativas ao olhar masculino”. De fato, a nudez presente na imagem do álbum não possui apelo sexual, e pode-se dizer que tem um viés essencialmente artístico, simbolizando a força e a liberdade femininas. Uma faixa em especial foi explosiva e se tonou o grande hino da banda: “Typical Girls”, cuja letra descreve o comportamento enlatado, fútil e previsível de garotas convencionais, que são as que não se rebelam, não reagem ao que lhes incomoda e gastam seu tempo com futilidades – convenhamos, o nosso mundo atual ainda está cheio de “garotas típicas”. A letra indaga: quem criou esse tipo clichê de garota? E fica a sugestão de que a invenção dessa personalidade vazia é simplesmente um intencional jogo um jogo de marketing.

 

A aclamada Ari Up.

Depois do Cut, dois outros álbuns foram produzidos no início dos anos oitenta e, por fim, o último veio em 2009, mas nenhum foi tão aclamado ou original quanto o disco de estreia.

Em termos estéticos, a banda sempre foi especialmente audaciosa em sua criação musical, pois o The Slits era essencialmente desconstrutivo. O som alternativo que produzia era repleto de experimentalismos ruidosos, atípicos e compostos por pinceladas potentes de reggae e dub. Por isso, musicalmente falando, ainda que tenham despontado durante a eclosão do punk rock, de certa maneira romperam com os paradigmas sonoros pertencentes a esse universo e deram luz a um gênero mais peculiar, enérgico e incomum. Em suma, basicamente usaram o caos e a agitação do punk, misturando-os brilhantemente com ritmos afros. 

 Apesar da formação do grupo ter mudado consideravelmente ao longo do tempo, houve duas peças-chave para o sucesso do The Slits: a vibrante guitarrista Viv Albertine e a alemã Ari Up, que se eternizou com sua afrontosa voz rouca. Aliás, é válido destacar que nenhuma outra banda de Rock da mesma época teve uma presença feminina tão intensa e marcante nos palcos. As mulheres sempre predominaram na banda e comandaram tudo: o processo construtivo das canções criadas, a composição lírica e instrumental, a inventividade visual, dentre outros aspectos que as tornaram influentes para toda a posteridade. Por tais fatores é possível afirmar com segurança que o grupo se destacou por sua relevância e contribuição nas esferas culturais, políticas, sociais e artísticas. Composta pelas mulheres mais rebeldes da era Punk, a The Slits deu um passo a mais do que a maioria de seus contemporâneos e quebrou tabus. Ousaram e com muita justiça, cravaram seu nome na história do Rock And Roll. 

 

É possível afirmar com segurança que o grupo se destacou por sua relevância e contribuição nas esferas culturais, políticas, sociais e artísticas.

 Referências:


https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2013/jun/24/how-we-made-cut-the-slits

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Slits

https://www.loudandquiet.com/interview/the-slits/

https://www.youtube.com/watch?v=rmscNdSQFzY



RICARDO SANTOS FALA SOBRE A CENA GÓTICA, POLÍTICA E SEUS PROJETOS MUSICAIS

 Por Juliana Vannucchi 

Hoje, o protagonista do nosso site é Ricardo Santos, um dos instrumentistas e produtores mais prolíferos e conhecidos da história da cena dark nacional. Mas seu sucesso não se restringe apenas às nossas terras: seu talento já atravessou as fronteiras do nosso país, fazendo com que seus trabalhos musicais obtivessem um merecido reconhecimento também no exterior. No intuito de entrevistá-lo, fui encontrar o Ricardo nas covas funestas do fim do mundo – e ele me recebeu muito bem em seu universo sombrio!

1. Ricardo, seja muito bem-vindo ao Fanzine Brasil. É uma grande honra conversar com você! Estamos vivendo um momento muito atípico, então, inicialmente, gostaria que você comentasse como tem sido esse período pra você no que âmbito das produções musicais.

A honra é minha em colaborar com esse trabalho fantástico que você tem feito em prol da cena! Nesse período de quarentena/pandemia eu tenho composto algumas coisas, e trabalhado em umas ideias novas...

2. Você é um artista muito ativo e já participou de vários projetos musicais. Poderia citá-los para os leitores?

Além do Downward Path e In Auroram que são provavelmente os que vem à mente quando meu nome é citado, eu fui tecladista do H.A.R.R.Y. And The Addict (spin off eletrônico da banda Harry) até o falecimento do Hansen. Sou tecladista/baterista do Klaustrophobik, responsável pela parte eletrônica do Clube da Miragem, responsável pela eletrônica também da banda de grind/noise Derrame, participei por algum tempo do Dead Roses Garden, Tears Of Blood e também do Sintético Ministério. Também tenho um projeto pessoal de neofolk chamado A Lifetime Of Trials e um de black/doom metal chamado Excisio, além de tocar baixo em uma banda de thrash/black chamada Evil’s Attack e teclado em uma de occult metal chamada Mávra. Toco guitarra em uma banda punk chamada Raids e faço parte de um projeto recente chamado Stella Tacita. Além disso, ao longo dos anos colaborei com bandas como Individual Industry, Pecadores, Wintry, Dawnfine, Florence Foster Fan Club, Dominion e, esporadicamente, colaboro com bandas de alguns amigos...

3. Qual das bandas mencionadas acima é a mais marcante para você? E com qual delas você realizou a apresentação mais memorável da sua trajetória?

O Downward Path é o meu orgulho, é onde eu consigo desenvolver ideias que não consigo trabalhar em outros projetos. Acho que as apresentações mais marcantes foram do In Auroram, no Inferno e no Sesc.

In Auroram.

4. Em contrapartida, qual foi o pior show que você já fez na vida?

Putz… difícil dizer. Ao longo dos anos foram muitos eventos que não foram legais por um ou outro motivo, mas nenhum especialmente marcante. 

Ricardo e Hansen.

5. Como foi a experiência de tocar com a aclamada banda H.A.R.R.Y. & THE ADDICT? Qual é a melhor memória que você tem dos momentos que viveu com o Hansen?

Para mim foi uma realização pessoal, já que eu já era fã do Harry e eles eram uma referência fortíssima para mim. Minha melhor memória com o Hansen é de muito antes de eu realmente conhecê-lo. No início dos anos 90 ele era dono de uma loja de discos localizada em uma galeria ao lado da famosa Galeria do Rock, que se chamava Blood (loja que teve como balconista por um tempo o Rodrigo Cyber que, há alguns anos, é DJ residente do adame e um dos organizadores do projeto Ferrovelho). E em algumas ocasiões em que fui comprar discos na loja, fui abordado por alguns skins que levaram toda a grana que eu tinha além tomaram os meus discos. O Hansen viu o que aconteceu, me chamou na loja e pediu que eu esperasse lá. Ele saiu e alguns minutos depois voltou com os discos e com o meu dinheiro. Acho que foi o momento em que eu passei a respeitá-lo como pessoa além de artista.

6. Como você imagina que o mundo vai ser após a vacinação? Quais serão as sequelas que essa pandemia deixará na humanidade?

Eu gostaria que as coisas mudassem, mas não tenho essa esperança. Infelizmente, conforme temos acompanhado pela mídia, uma grande parcela da população está ignorando as recomendações de segurança e demonstrando quão pouco importa o bem-estar coletivo. Para a arte, essa  situação vai acabar virando uma referência assim como a gripe espanhola ou a peste negra, e é possível que tudo isso leve uma pequena parcela da população a um novo nível de conscientização, mas, no geral, não acho que vai mudar muita coisa.

7. O que podemos tirar de lição desse momento que estamos vivendo?

A voz da maioria é burra (vide a escolha do atual presidente). Mantenha as mãos limpas, viva o melhor possível, pois estamos todos sujeitos a ser vítimas a qualquer momento.

8. Eu assisti a live da qual você participou no ano passado... Foi bem legal! Há alguma apresentação programada para 2021? E além dessas possíveis apresentações online? Que novidades podemos esperar?

No momento, não há nada programado, nem mesmo online. Planejo lançar algumas coisas ainda esse ano e assim que a situação se normalizar (se é que isso vai realmente acontecer), pretendo retomar os shows.

"Eu acredito que a indústria musical é escrava do gosto popular".

9. Ricardo, desde quando você acompanha a cena gótica brasileira? E quais são as maiores diferenças ocorridas entre essa época e a cena atual?

Acompanho a cena desde 1992. O que vejo como maior diferença entre aquela época e hoje é o comodismo das pessoas. Hoje em dia, com alguns cliques consegue-se informação, música, referência, livros, contatos e tudo mais que se desejar para sentir-se parte de algo e, em contrapartida, naquela época tínhamos de realmente ir atrás, negociar, ter paciência e travar contato real com pessoas para conseguirmos adquirir cultura.

10. Se você for comparar o início da sua carreira musical com as suas produções atuais, em que aspectos acha que progrediu?

Eu aprendi muito sobre tecnologia, equipamento, improvisação e desenvolvi um pouco mais de desenvoltura com os instrumentos que toco e, hoje, apesar de ainda não gostar, já consigo cantar.

11. Acha que é possível um músico manter sua autonomia criativa e, ao mesmo tempo, fazer parte da grande indústria musical? Ou são coisas incompatíveis?

Eu acredito que a indústria musical é escrava do gosto popular e isso torna praticamente impossível manter a autonomia criativa intacta.

12. Algumas bandas de Rock (das mais variadas vertentes) conseguem ter sucesso no Brasil. Mas esse não é o destino da maioria. Por que isso acontece? Por que você acha que algumas “engrenam” e outras nem tanto?

É uma conjunção de fatores complexos que geralmente envolve momento (bandas como os Mamonas Assassinas ou Raimundos não funcionariam hoje em dia, dadas as suas respectivas temáticas e o viés politicamente incorreto), oportunidade (estar no evento certo, com o público certo e agradar alguém que tenha poder de influenciar), publicidade e muito trabalho.

13. Se você encontrasse uma máquina do tempo que permitisse que você voltasse para o passado, para qual momento desejaria ir?

Aquele show dos Pistols! 


14. Gostaria de deixar alguma mensagem aos leitores e fãs?

Conheçam o trabalho de bandas locais, apoiem bandas independentes indo aos shows, compartilhando o trabalho e sempre que possível, adquirindo CD, camisetas e etc...

BATE-BOLA:

Ricardo, o Fanzine Brasil está com um quadro novo esse ano, chamado “Bate-bola”, no qual todos os entrevistados são convidados para responder as mesmas perguntas que, são bem objetivas e, talvez, um tanto desafiadoras!  Então, pega camisa 10 aí, meu craque, e vamos lá!

a) Uma banda de Rock que todo mundo gosta e eu não...

Misfits.

b) Uma música/banda/álbum que eu adoro, mas tenho vergonha de admitir que escuto...

Skid Row! (mentira, eu não tenho vergonha disso hehe)

c) Afinal, entre os Sex Pistols e os Ramones, o melhor é...
 
Pistols!

d) Uma música que faz você chorar...

New Model Army – Vagabonds

e) Uma música cuja letra te emocione...

Anathema – Fragile Dreams

P.S.: odeio futebol! :p

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