Fanzine Brasil

SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

ISTO NÃO É UM CONCEITO, É UM ENIGMA: EXPLORANDO O UNKNOWN PLEAURES

Por: Juliana Vannucchi
 
Se você é um amante do Rock And Roll (seja lá qual for sua vertente preferida), deve estar ciente de que o Unknown Pleasures é um dos álbuns mais icônicos de todos os tempos. Há várias razões para isso: o talento musical dos integrantes da banda, as singularidades instrumentais e líricas que fazem parte dessa produção, o comportamento sinistro de Ian Curtis, o conceito do álbum, e enfim, uma série de outros elementos que fazem com que o Unknown Pleasures seja verdadeiramente lendário.
 
Vamos tentar aprofundar um pouco a análise desses tantos aspectos. Para tentarmos entender e explorar um pouco mais desse grande álbum, comecemos a destrinchá-lo por sua ilustre e simbólica capa, que creio eu, traduz sua condição musical tão inquietante e intensa. A imagem, na qual vemos ondas brancas pairando sob um fundo negro, foi feita por Peter Saville. Trata-se do gráfico de um sinal de rádio captado por um radiotelescópio do pulsar PSR B1919+21, a primeira estrela de nêutrons descoberta. Em outras palavras, a figura consiste numa visualização monocromática das ondas eletromagnéticas emitidas por uma estrela enquanto ela morria. Além desse interessante detalhe sobre a capa do disco, outro fato deveras curioso e certamente bastante peculiar, é que o nome de nenhuma música consta no encarte e na versão original em vinil, não há informação alguma de qual é o lado A e qual é o lado B. Contudo, na contracapa encontra-se uma única frase: "Isto não é um conceito, é um enigma". É uma inscrição instigante que pode ser interpretada de maneiras bem variadas, mas vou arriscar uma reflexão: é possível que o álbum não precise - ou possa - ser interpretado ou desvendado de alguma forma. Ele deve somente ser sentido, ter seus poderosos efeitos absorvidos, atuar no ouvinte. Lembremos que, afinal, vivemos numa existência mais rodeada de mistérios do que permeada por explicações. Há, definitivamente, ao longo de nossas trajetórias nesse mundo, mais enigmas do que respostas concretas e também podemos dizer com certa segurança que, de modo geral, as dúvidas e as perguntas imperam. Em última instância, a vida toda pode ser considerada mais um enigma do que um conceito... Talvez o álbum seja tão atemporal e encantador porque, de alguma forma, nos revela essas fatos.
 
O Joy Division deu seus primeiros passos na cidade de Manchester, depois que Peter Hook, Bernard Summer e Terry Mason assistiram a um show do Sex Pistols e, inspirados pela ocasião, decidiram formar uma banda própria (fato esse que, convenhamos, já faz valer a carreira inteira dos Pistols). Posteriormente, o talentoso vocalista e compositor Ian Curtis juntou-se ao grupo e deu ao JD uma assinatura artística fúnebre e absolutamente diferenciada. O grande salto de sucesso da banda ocorreu quando entrarem para a Factory Records, uma gravadora independente que foi muito importante em suas produções e promoções. O Unknown Pleasures foi lançado em 1979 e aos poucos, a banda obtendo sucesso por parte do público e reconhecimento por parte da mídia e dos críticos. Contudo, enquanto a fama aumentava exponencialmente, Ian Curtis sofria de epilepsia e suas crises se tornavam cada vez mais graves. Ademais, nesse mesmo período, as desavenças entre ele e sua esposa estavam se tornando muito frequentes. Infelizmente, o jovem vocalista suicidou-se em maio de 1980, fato que gerou o fim da meteórica, eterna e arrebatadora trajetória do grupo de Manchester. É válido citar que, no geral, há bastante controvérsia a respeito dos fatos que realmente o levaram a tirar a própria vida. 


Ingresso do show dos Pistols, pertencente a Peter Hook. Foi esse show que o inspirou para criar o Joy Division 
 
 
Para entender melhor a importância e a unicidade desse álbum tão espetacular, conversamos com Ricardo Santos, músico de destaque no cenário Pós-punk nacional (com projetos autorais notáveis como The Downward Path, Stella Tacita, In Auroram, dentre outras bandas), que refletiu a respeito de sua experiência e conhecimento em relação ao Unknown Pleasures: "A princípio, o disco me soou estranho, embora viciante. O baixo de Peter Hook mais alto que a guitarra, a bateria de Stephen Morris comprimida e filtrada para parecer uma máquina, a guitarra de Bernard Sumner mantendo o minimalismo e frieza e juntos preparando o ouvinte para o vocal grave e as letras perturbadoras de Ian Curtis... o disco é um divisor de águas, inaugurando um estilo copiado à exaustão por muitos que vieram depois. O UP derrubou barreiras estéticas e estilísticas fundindo o Punk ao Krautrock, David Bowie e Suicide, Jean-Paul Sartre e Franz Kafka numa poesia única e profundamente pessoal que externava seus medos, paranoias e toda sorte de sentimentos que poderiam afligir um jovem inglês na década de 70 e ensinar as gerações futuras ao redor do mundo como se expressar a respeito de suas próprias mazelas". 
 
De fato, conforme precisamente observou Ricardo Santos, o Unknown Pleasures, no geral, possui uma aura sombria e pessimista, permeando por uma enorme onda de sensibilidade e emoção, e foi construído em cima da instigante vastidão obscura do intelecto e dos sentimentos de Ian Curtis. É um álbum atemporal, um presente musical catártico cujo significado sempre será imenso e cuja essência, independentemente do tempo e do espaço, será eternamente atual e capaz de fazer sentido para qualquer um que o escute. Sua estética foi inovadora e até os dias de hoje as faixas que o compõe são fontes de inspiração para inúmeros artistas ao redor do mundo. Minhas músicas favoritas são “Insight” e “Shadowplay”, ambas profundas e maravilhosamente perturbadoras. Ian Curtis foi um verdadeiro poeta que conseguiu expor em suas letras o estado de alma de indivíduos niilistas, caóticos e deslocados. Aliás, certa vez, a respeito de suas composições, Curtis declarou: “Escrevo sobre as diferentes formas que diferentes pessoas lidam com certos problemas, e como essas pessoas podem se adaptar e conviver com eles". O Unknown Pleasures é sempre bem-vindo, sempre cativante em qualquer ocasião e sempre capaz de gerar em nossas almas uma série de prazeres desconhecidos. 

Para finalizar esse breve texto, deixo abaixo uma reflexão que escrevi para o meu site, o Acervo Filosófico. Mas, lembre-se que ainda há muito o que se desvendar...

“(...) Certamente sua retração e sensibilidade emocional fizeram de Curtis um artística enigmático e um tanto complexo de ser compreendido. Sua dança no palco era feita com singularidade, repleta de movimentos espalhafatosos e um tanto quanto desengonçados. Era uma forma de ironizar seu pior inimigo: o ataque epilético. Isso é bem nietzschiano (...) Na contracapa do álbum, consta a seguinte sentença: “Isto não é um conceito, é um enigma“. É uma frase que possibilita nossa mente a viajar por inúmeras possibilidades. Talvez seja uma alusão à nossa própria jornada de pensamento. Será que é possível conceituar o mundo ou a tentativa de formular respostas sempre nos levará, inevitavelmente a problematizar algo novo, nos prendendo a dúvidas circulares? É filosófico e bastante intrigante. Para o filósofo Hegel, o mundo poderia ser sistematizado racionalmente. Schopenhauer o criticou colocando em destaque um aspecto que não pode ficar de fora de quaisquer afirmativas quanto ao mundo: a emoção. Portanto, para este último pensador, não podemos simplesmente tentar enquadrar a natureza em um sistema lógico deixando de lado as nossas próprias sensações particulares e experiências sensíveis.Ou talvez, Ian não tenha tentativo dizer absolutamente nada do que foi mencionado acima. Pode ser sido apenas uma frase… algo relacionado com o cosmos ou com a morte de uma estrela.” (Fonte: http://www.acervofilosofico.com/ian-curtis-e-seus-prazeres-desconhecidos/)
 

Certamente sua retração e sensibilidade emocional fizeram de Curtis mais um artística enigmático e um tanto complexo de ser compreendido.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

KRAUTROCK: A VANGUARDA MUSICAL ALEMÃ

 Por Juliana Vannucchi

A palavra “krautrock” - ou “repolho azedo” - foi uma invenção bastante desdenhosa cravada pelo famoso DJ britânico John Peel para se referir a um gênero musical de cunho experimental surgido na Alemanha, no final dos anos 60 e início da década de 70, período este em que essa categoria eclodiu mundialmente.

O talentoso Florian Fricke

O krautrock, contudo, não consiste somente num “estilo sonoro”, mas sim num verdadeiro movimento revolucionário de contracultura, uma vez que existia uma ideologia de motivações políticas e sociais por trás de sua origem. Não à toa, certa vez o escritor e jornalista David Stubss declarou que o krautrock se desenvolveu num “espírito de combatividade e resistência”, pois os músicos que fizeram parte desse movimento buscavam justamente arriscar e inovar em suas produções, já que estavam insatisfeitos com as músicas tocadas na Alemanha durante aquela época. Tudo isso era feito enquanto os alemães buscavam construir uma identidade própria e terminavam de colher os cacos das atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. Berlim estava dividida em dois blocos, e isso simbolizava uma divisão dos próprios alemães e da nação. Para se ter uma ideia, o Amon Düül, por exemplo, foi composto por artistas e ativistas políticos. De maneira geral, insegurança, incerteza e insatisfação permeavam o país. Foi justamente esse desgosto inquietante que levou os músicos desse movimento a entender que era necessário dar um passo adiante e criar uma proposta musical nova e distinta do que era vigente, sendo que para isso não havia limites. Esses artistas simplesmente pretendiam expandir suas criações e ver o quão longe podiam ir e, nesse contexto, surgiram improvisos melódicos, ruídos dissonantes, combinações atípicas e uma atmosfera que mesclava o psicodelismo com dosagens de música eletrônica. Nesse âmbito, os sintetizadores foram os grandes maestros que guiavam o experimentalismo musical e as engenhosidades sonoras, enquanto as guitarras, instrumento indispensável ao rock tradicional, normalmente eram evitadas ao máximo e, em suma, ficaram basicamente ausentes do krautrock. Além desses aspectos, vale citar que alguns grupos se inspiraram em percussão africana, flautas, uso de sons da natureza (como o barulho da água, por exemplo), instrumentos exóticos e em elementos provindos do jazz clássico e do blues. Por vezes, vocais eram dispensados ou ficavam em segundo plano, como ocorreu no caso do Tangerine Dream. Uma atmosfera parcialmente sombria, mística, climas apocalípticos e fantásticos também marcam o krautrock. Dessa forma, a partir das últimas considerações que foram aqui tecidas, é importante reparar que a palavra “rock” empregada junto ao “kraut” talvez seja bem equivocada - ou, no mínimo, questionável. Conceitualmente falando, os temas variam e há referências ao cosmos, ao homem moderno e seus desafios mundanos, ao futurismo, à espiritualidade, ao caos, além de outras abordagens. Isso varia bastante de uma banda para outra. Os álbuns do Faust, por exemplo, aludem ao absurdo existencial, ao surrealismo e às distorções expressionistas. Já as produções sonoras do Popol Vuh, por sua vez, são fundamentalmente solidificadas no universo da spiritual music e em suas produções sonoras, encontramos climas diversos, por vezes, sombrios, por vezes, tribais. O Kraftwerk, a mais famosa de todas as bandas da cena, nutria enorme interesse pela sociedade industrial movida pela grandiosa presença da velocidade, das máquinas e da crescente tecnologia.


O magnífico Klaus Schulze

Não à toa, na Alemanha, esse tipo de música foi categorizado como “kosmische musik”, que significa “música cósmica”, uma alusão pertinente ao estilo sonoro espacial e incomum que era produzido. Neste ponto, também é válido citar que com o passar do tempo o krautrock também passou a ser chamado de krautwave ou simplesmente kraut.

As bandas que compuseram esse movimento realizaram uma verdadeira reciclagem musical que se desdobrou num resultado notavelmente singular. Por essa razão, o krautrock foi uma verdadeira vanguarda no cenário da música, durante a qual eclodiram os principais representantes do universo underground alemão. Suas produções eram autênticas, ousadas, desafiadoras, incomuns e, sobretudo, moldadas numa linguagem absolutamente original. Desde o seu surgimento, inúmeras bandas e músicos importantes ao redor do mundo foram fortemente influenciados por esse icônico movimento, tal como é o caso do Camaleão do Rock, do conceituado grupo inglês Roxy Music e também do Radiohead.

Guia musical:

Abaixo, a fim de guiar o leitor para um conhecimento mais aprofundando do assunto, selecionamos as principais bandas do krautrock. Aumente o volume e deixe esses monstros do rock alemão o inspirarem!

Ash Ra Tempel

Amon Düül II

Can

Cluster

Guru Guru

Eloy*

*Banda controversa no sentido de que, para muitos, não faz parte do Krautrock, uma vez que seus elementos sonoros, por vezes, flertam com o hard rock e se aproximaram do rock progressivo tradicional.

Embryo

Faust

Kraftwerk

Kraan

Jane

Neu!

Novalis

Tangerine Dream

The Cosmic Jokers

Triumvirat

Popol Vuh

Referências:

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/musicblog/2010/mar/30/elektronische-musik-krautrock

https://www.collinsdictionary.com/pt/dictionary/english/krautrock
https://www.lexico.com/en/definition/krautrock

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/books/2014/aug/17/future-days-krautrock-review-david-stubbs-kraftwerk-can

https://www.telegraph.co.uk/culture/music/rockandpopfeatures/9837423/Kraftwerk-the-most-influential-group-in-pop-history.html

https://www.google.com.br/amp/s/amp.dw.com/pt-br/krautrock-a-contribui%25C3%25A7%25C3%25A3o-alem%25C3%25A3-%25C3%25A0-vanguarda-pop-dos-anos-1960/a-4087165

https://www.scaruffi.com/history/cpt26.html



TwitterFacebookRSS FeedEmail