Fanzine Brasil

SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

ATÉ O FIM DO MUNDO

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WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

GIRLS POWER: THE SLITS E O EMPODERAMENTO FEMININO

 Por Juliana Vannucchi

The Slits foi uma das inúmeras bandas que surgiram em meio ao caloroso e frutífero movimento punk inglês e, com certeza, foi uma das mais originais dentre todos esses diversos grupos pertencentes a cena.

A história do conjunto começou a ser escrita no ano de 1976 e, em 2010, a banda encerrou suas atividades. Os primeiros passos do The Slits foram dados quando o grupo acompanhou o The Clash em algumas de suas apresentações. O lendário vocalista Joe Strummer logo percebeu o potencial da banda e a incentivou a tocar com mais frequência. Depois disso, aos poucos, a carreira do The Slits simplesmente deslanchou. Durante o referido período em que esteve em evidência, o grupo lançou um total de quatro álbuns de estúdio, sendo que o Cut, de 1979, é o mais famoso deles e é considerado uma das melhores produções da vasta e preciosa história do punk rock. Nessa época, a formação base e clássica da banda era: Viv Albertine, Ari Up e Tessa Pollitt. A título de curiosidade, vale destacar que a bateria desse célebre álbum ficou por conta de Budgie, que logo depois dessa contribuição se juntaria aos Banshees. A impactante capa do Cut, com as três integrantes da banda despidas da cintura para cima, se tornou icônica. A esse respeito, Albertine declarou certa vez ao The Guardian: “Queríamos uma postura guerreira, queríamos ser uma tribo (...) Sabíamos, como não estávamos vestidas, que tínhamos que parecer confrontadoras e duronas. Não queríamos ser convidativas ao olhar masculino”. De fato, a nudez presente na imagem do álbum não possui apelo sexual, e pode-se dizer que tem um viés essencialmente artístico, simbolizando a força e a liberdade femininas. Uma faixa em especial foi explosiva e se tonou o grande hino da banda: “Typical Girls”, cuja letra descreve o comportamento enlatado, fútil e previsível de garotas convencionais, que são as que não se rebelam, não reagem ao que lhes incomoda e gastam seu tempo com futilidades – convenhamos, o nosso mundo atual ainda está cheio de “garotas típicas”. A letra indaga: quem criou esse tipo clichê de garota? E fica a sugestão de que a invenção dessa personalidade vazia é simplesmente um intencional jogo um jogo de marketing.

 

A aclamada Ari Up.

Depois do Cut, dois outros álbuns foram produzidos no início dos anos oitenta e, por fim, o último veio em 2009, mas nenhum foi tão aclamado ou original quanto o disco de estreia.

Em termos estéticos, a banda sempre foi especialmente audaciosa em sua criação musical, pois o The Slits era essencialmente desconstrutivo. O som alternativo que produzia era repleto de experimentalismos ruidosos, atípicos e compostos por pinceladas potentes de reggae e dub. Por isso, musicalmente falando, ainda que tenham despontado durante a eclosão do punk rock, de certa maneira romperam com os paradigmas sonoros pertencentes a esse universo e deram luz a um gênero mais peculiar, enérgico e incomum. Em suma, basicamente usaram o caos e a agitação do punk, misturando-os brilhantemente com ritmos afros. 

 Apesar da formação do grupo ter mudado consideravelmente ao longo do tempo, houve duas peças-chave para o sucesso do The Slits: a vibrante guitarrista Viv Albertine e a alemã Ari Up, que se eternizou com sua afrontosa voz rouca. Aliás, é válido destacar que nenhuma outra banda de Rock da mesma época teve uma presença feminina tão intensa e marcante nos palcos. As mulheres sempre predominaram na banda e comandaram tudo: o processo construtivo das canções criadas, a composição lírica e instrumental, a inventividade visual, dentre outros aspectos que as tornaram influentes para toda a posteridade. Por tais fatores é possível afirmar com segurança que o grupo se destacou por sua relevância e contribuição nas esferas culturais, políticas, sociais e artísticas. Composta pelas mulheres mais rebeldes da era Punk, a The Slits deu um passo a mais do que a maioria de seus contemporâneos e quebrou tabus. Ousaram e com muita justiça, cravaram seu nome na história do Rock And Roll. 

 

É possível afirmar com segurança que o grupo se destacou por sua relevância e contribuição nas esferas culturais, políticas, sociais e artísticas.

 Referências:


https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2013/jun/24/how-we-made-cut-the-slits

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Slits

https://www.loudandquiet.com/interview/the-slits/

https://www.youtube.com/watch?v=rmscNdSQFzY



RICARDO SANTOS FALA SOBRE A CENA GÓTICA, POLÍTICA E SEUS PROJETOS MUSICAIS

 Por Juliana Vannucchi 

Hoje, o protagonista do nosso site é Ricardo Santos, um dos instrumentistas e produtores mais prolíferos e conhecidos da história da cena dark nacional. Mas seu sucesso não se restringe apenas às nossas terras: seu talento já atravessou as fronteiras do nosso país, fazendo com que seus trabalhos musicais obtivessem um merecido reconhecimento também no exterior. No intuito de entrevistá-lo, fui encontrar o Ricardo nas covas funestas do fim do mundo – e ele me recebeu muito bem em seu universo sombrio!

1. Ricardo, seja muito bem-vindo ao Fanzine Brasil. É uma grande honra conversar com você! Estamos vivendo um momento muito atípico, então, inicialmente, gostaria que você comentasse como tem sido esse período pra você no que âmbito das produções musicais.

A honra é minha em colaborar com esse trabalho fantástico que você tem feito em prol da cena! Nesse período de quarentena/pandemia eu tenho composto algumas coisas, e trabalhado em umas ideias novas...

2. Você é um artista muito ativo e já participou de vários projetos musicais. Poderia citá-los para os leitores?

Além do Downward Path e In Auroram que são provavelmente os que vem à mente quando meu nome é citado, eu fui tecladista do H.A.R.R.Y. And The Addict (spin off eletrônico da banda Harry) até o falecimento do Hansen. Sou tecladista/baterista do Klaustrophobik, responsável pela parte eletrônica do Clube da Miragem, responsável pela eletrônica também da banda de grind/noise Derrame, participei por algum tempo do Dead Roses Garden, Tears Of Blood e também do Sintético Ministério. Também tenho um projeto pessoal de neofolk chamado A Lifetime Of Trials e um de black/doom metal chamado Excisio, além de tocar baixo em uma banda de thrash/black chamada Evil’s Attack e teclado em uma de occult metal chamada Mávra. Toco guitarra em uma banda punk chamada Raids e faço parte de um projeto recente chamado Stella Tacita. Além disso, ao longo dos anos colaborei com bandas como Individual Industry, Pecadores, Wintry, Dawnfine, Florence Foster Fan Club, Dominion e, esporadicamente, colaboro com bandas de alguns amigos...

3. Qual das bandas mencionadas acima é a mais marcante para você? E com qual delas você realizou a apresentação mais memorável da sua trajetória?

O Downward Path é o meu orgulho, é onde eu consigo desenvolver ideias que não consigo trabalhar em outros projetos. Acho que as apresentações mais marcantes foram do In Auroram, no Inferno e no Sesc.

In Auroram.

4. Em contrapartida, qual foi o pior show que você já fez na vida?

Putz… difícil dizer. Ao longo dos anos foram muitos eventos que não foram legais por um ou outro motivo, mas nenhum especialmente marcante. 

Ricardo e Hansen.

5. Como foi a experiência de tocar com a aclamada banda H.A.R.R.Y. & THE ADDICT? Qual é a melhor memória que você tem dos momentos que viveu com o Hansen?

Para mim foi uma realização pessoal, já que eu já era fã do Harry e eles eram uma referência fortíssima para mim. Minha melhor memória com o Hansen é de muito antes de eu realmente conhecê-lo. No início dos anos 90 ele era dono de uma loja de discos localizada em uma galeria ao lado da famosa Galeria do Rock, que se chamava Blood (loja que teve como balconista por um tempo o Rodrigo Cyber que, há alguns anos, é DJ residente do adame e um dos organizadores do projeto Ferrovelho). E em algumas ocasiões em que fui comprar discos na loja, fui abordado por alguns skins que levaram toda a grana que eu tinha além tomaram os meus discos. O Hansen viu o que aconteceu, me chamou na loja e pediu que eu esperasse lá. Ele saiu e alguns minutos depois voltou com os discos e com o meu dinheiro. Acho que foi o momento em que eu passei a respeitá-lo como pessoa além de artista.

6. Como você imagina que o mundo vai ser após a vacinação? Quais serão as sequelas que essa pandemia deixará na humanidade?

Eu gostaria que as coisas mudassem, mas não tenho essa esperança. Infelizmente, conforme temos acompanhado pela mídia, uma grande parcela da população está ignorando as recomendações de segurança e demonstrando quão pouco importa o bem-estar coletivo. Para a arte, essa  situação vai acabar virando uma referência assim como a gripe espanhola ou a peste negra, e é possível que tudo isso leve uma pequena parcela da população a um novo nível de conscientização, mas, no geral, não acho que vai mudar muita coisa.

7. O que podemos tirar de lição desse momento que estamos vivendo?

A voz da maioria é burra (vide a escolha do atual presidente). Mantenha as mãos limpas, viva o melhor possível, pois estamos todos sujeitos a ser vítimas a qualquer momento.

8. Eu assisti a live da qual você participou no ano passado... Foi bem legal! Há alguma apresentação programada para 2021? E além dessas possíveis apresentações online? Que novidades podemos esperar?

No momento, não há nada programado, nem mesmo online. Planejo lançar algumas coisas ainda esse ano e assim que a situação se normalizar (se é que isso vai realmente acontecer), pretendo retomar os shows.

"Eu acredito que a indústria musical é escrava do gosto popular".

9. Ricardo, desde quando você acompanha a cena gótica brasileira? E quais são as maiores diferenças ocorridas entre essa época e a cena atual?

Acompanho a cena desde 1992. O que vejo como maior diferença entre aquela época e hoje é o comodismo das pessoas. Hoje em dia, com alguns cliques consegue-se informação, música, referência, livros, contatos e tudo mais que se desejar para sentir-se parte de algo e, em contrapartida, naquela época tínhamos de realmente ir atrás, negociar, ter paciência e travar contato real com pessoas para conseguirmos adquirir cultura.

10. Se você for comparar o início da sua carreira musical com as suas produções atuais, em que aspectos acha que progrediu?

Eu aprendi muito sobre tecnologia, equipamento, improvisação e desenvolvi um pouco mais de desenvoltura com os instrumentos que toco e, hoje, apesar de ainda não gostar, já consigo cantar.

11. Acha que é possível um músico manter sua autonomia criativa e, ao mesmo tempo, fazer parte da grande indústria musical? Ou são coisas incompatíveis?

Eu acredito que a indústria musical é escrava do gosto popular e isso torna praticamente impossível manter a autonomia criativa intacta.

12. Algumas bandas de Rock (das mais variadas vertentes) conseguem ter sucesso no Brasil. Mas esse não é o destino da maioria. Por que isso acontece? Por que você acha que algumas “engrenam” e outras nem tanto?

É uma conjunção de fatores complexos que geralmente envolve momento (bandas como os Mamonas Assassinas ou Raimundos não funcionariam hoje em dia, dadas as suas respectivas temáticas e o viés politicamente incorreto), oportunidade (estar no evento certo, com o público certo e agradar alguém que tenha poder de influenciar), publicidade e muito trabalho.

13. Se você encontrasse uma máquina do tempo que permitisse que você voltasse para o passado, para qual momento desejaria ir?

Aquele show dos Pistols! 


14. Gostaria de deixar alguma mensagem aos leitores e fãs?

Conheçam o trabalho de bandas locais, apoiem bandas independentes indo aos shows, compartilhando o trabalho e sempre que possível, adquirindo CD, camisetas e etc...

BATE-BOLA:

Ricardo, o Fanzine Brasil está com um quadro novo esse ano, chamado “Bate-bola”, no qual todos os entrevistados são convidados para responder as mesmas perguntas que, são bem objetivas e, talvez, um tanto desafiadoras!  Então, pega camisa 10 aí, meu craque, e vamos lá!

a) Uma banda de Rock que todo mundo gosta e eu não...

Misfits.

b) Uma música/banda/álbum que eu adoro, mas tenho vergonha de admitir que escuto...

Skid Row! (mentira, eu não tenho vergonha disso hehe)

c) Afinal, entre os Sex Pistols e os Ramones, o melhor é...
 
Pistols!

d) Uma música que faz você chorar...

New Model Army – Vagabonds

e) Uma música cuja letra te emocione...

Anathema – Fragile Dreams

P.S.: odeio futebol! :p

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

ISTO NÃO É UM CONCEITO, É UM ENIGMA: EXPLORANDO O UNKNOWN PLEAURES

Por: Juliana Vannucchi
 
Se você é um amante do Rock And Roll (seja lá qual for sua vertente preferida), deve estar ciente de que o Unknown Pleasures é um dos álbuns mais icônicos de todos os tempos. Há várias razões para isso: o talento musical dos integrantes da banda, as singularidades instrumentais e líricas que fazem parte dessa produção, o comportamento sinistro de Ian Curtis, o conceito do álbum, e enfim, uma série de outros elementos que fazem com que o Unknown Pleasures seja verdadeiramente lendário.
 
Vamos tentar aprofundar um pouco a análise desses tantos aspectos. Para tentarmos entender e explorar um pouco mais desse grande álbum, comecemos a destrinchá-lo por sua ilustre e simbólica capa, que creio eu, traduz sua condição musical tão inquietante e intensa. A imagem, na qual vemos ondas brancas pairando sob um fundo negro, foi feita por Peter Saville. Trata-se do gráfico de um sinal de rádio captado por um radiotelescópio do pulsar PSR B1919+21, a primeira estrela de nêutrons descoberta. Em outras palavras, a figura consiste numa visualização monocromática das ondas eletromagnéticas emitidas por uma estrela enquanto ela morria. Além desse interessante detalhe sobre a capa do disco, outro fato deveras curioso e certamente bastante peculiar, é que o nome de nenhuma música consta no encarte e na versão original em vinil, não há informação alguma de qual é o lado A e qual é o lado B. Contudo, na contracapa encontra-se uma única frase: "Isto não é um conceito, é um enigma". É uma inscrição instigante que pode ser interpretada de maneiras bem variadas, mas vou arriscar uma reflexão: é possível que o álbum não precise - ou possa - ser interpretado ou desvendado de alguma forma. Ele deve somente ser sentido, ter seus poderosos efeitos absorvidos, atuar no ouvinte. Lembremos que, afinal, vivemos numa existência mais rodeada de mistérios do que permeada por explicações. Há, definitivamente, ao longo de nossas trajetórias nesse mundo, mais enigmas do que respostas concretas e também podemos dizer com certa segurança que, de modo geral, as dúvidas e as perguntas imperam. Em última instância, a vida toda pode ser considerada mais um enigma do que um conceito... Talvez o álbum seja tão atemporal e encantador porque, de alguma forma, nos revela essas fatos.
 
O Joy Division deu seus primeiros passos na cidade de Manchester, depois que Peter Hook, Bernard Summer e Terry Mason assistiram a um show do Sex Pistols e, inspirados pela ocasião, decidiram formar uma banda própria (fato esse que, convenhamos, já faz valer a carreira inteira dos Pistols). Posteriormente, o talentoso vocalista e compositor Ian Curtis juntou-se ao grupo e deu ao JD uma assinatura artística fúnebre e absolutamente diferenciada. O grande salto de sucesso da banda ocorreu quando entrarem para a Factory Records, uma gravadora independente que foi muito importante em suas produções e promoções. O Unknown Pleasures foi lançado em 1979 e aos poucos, a banda obtendo sucesso por parte do público e reconhecimento por parte da mídia e dos críticos. Contudo, enquanto a fama aumentava exponencialmente, Ian Curtis sofria de epilepsia e suas crises se tornavam cada vez mais graves. Ademais, nesse mesmo período, as desavenças entre ele e sua esposa estavam se tornando muito frequentes. Infelizmente, o jovem vocalista suicidou-se em maio de 1980, fato que gerou o fim da meteórica, eterna e arrebatadora trajetória do grupo de Manchester. É válido citar que, no geral, há bastante controvérsia a respeito dos fatos que realmente o levaram a tirar a própria vida. 


Ingresso do show dos Pistols, pertencente a Peter Hook. Foi esse show que o inspirou para criar o Joy Division 
 
 
Para entender melhor a importância e a unicidade desse álbum tão espetacular, conversamos com Ricardo Santos, músico de destaque no cenário Pós-punk nacional (com projetos autorais notáveis como The Downward Path, Stella Tacita, In Auroram, dentre outras bandas), que refletiu a respeito de sua experiência e conhecimento em relação ao Unknown Pleasures: "A princípio, o disco me soou estranho, embora viciante. O baixo de Peter Hook mais alto que a guitarra, a bateria de Stephen Morris comprimida e filtrada para parecer uma máquina, a guitarra de Bernard Sumner mantendo o minimalismo e frieza e juntos preparando o ouvinte para o vocal grave e as letras perturbadoras de Ian Curtis... o disco é um divisor de águas, inaugurando um estilo copiado à exaustão por muitos que vieram depois. O UP derrubou barreiras estéticas e estilísticas fundindo o Punk ao Krautrock, David Bowie e Suicide, Jean-Paul Sartre e Franz Kafka numa poesia única e profundamente pessoal que externava seus medos, paranoias e toda sorte de sentimentos que poderiam afligir um jovem inglês na década de 70 e ensinar as gerações futuras ao redor do mundo como se expressar a respeito de suas próprias mazelas". 
 
De fato, conforme precisamente observou Ricardo Santos, o Unknown Pleasures, no geral, possui uma aura sombria e pessimista, permeando por uma enorme onda de sensibilidade e emoção, e foi construído em cima da instigante vastidão obscura do intelecto e dos sentimentos de Ian Curtis. É um álbum atemporal, um presente musical catártico cujo significado sempre será imenso e cuja essência, independentemente do tempo e do espaço, será eternamente atual e capaz de fazer sentido para qualquer um que o escute. Sua estética foi inovadora e até os dias de hoje as faixas que o compõe são fontes de inspiração para inúmeros artistas ao redor do mundo. Minhas músicas favoritas são “Insight” e “Shadowplay”, ambas profundas e maravilhosamente perturbadoras. Ian Curtis foi um verdadeiro poeta que conseguiu expor em suas letras o estado de alma de indivíduos niilistas, caóticos e deslocados. Aliás, certa vez, a respeito de suas composições, Curtis declarou: “Escrevo sobre as diferentes formas que diferentes pessoas lidam com certos problemas, e como essas pessoas podem se adaptar e conviver com eles". O Unknown Pleasures é sempre bem-vindo, sempre cativante em qualquer ocasião e sempre capaz de gerar em nossas almas uma série de prazeres desconhecidos. 

Para finalizar esse breve texto, deixo abaixo uma reflexão que escrevi para o meu site, o Acervo Filosófico. Mas, lembre-se que ainda há muito o que se desvendar...

“(...) Certamente sua retração e sensibilidade emocional fizeram de Curtis um artística enigmático e um tanto complexo de ser compreendido. Sua dança no palco era feita com singularidade, repleta de movimentos espalhafatosos e um tanto quanto desengonçados. Era uma forma de ironizar seu pior inimigo: o ataque epilético. Isso é bem nietzschiano (...) Na contracapa do álbum, consta a seguinte sentença: “Isto não é um conceito, é um enigma“. É uma frase que possibilita nossa mente a viajar por inúmeras possibilidades. Talvez seja uma alusão à nossa própria jornada de pensamento. Será que é possível conceituar o mundo ou a tentativa de formular respostas sempre nos levará, inevitavelmente a problematizar algo novo, nos prendendo a dúvidas circulares? É filosófico e bastante intrigante. Para o filósofo Hegel, o mundo poderia ser sistematizado racionalmente. Schopenhauer o criticou colocando em destaque um aspecto que não pode ficar de fora de quaisquer afirmativas quanto ao mundo: a emoção. Portanto, para este último pensador, não podemos simplesmente tentar enquadrar a natureza em um sistema lógico deixando de lado as nossas próprias sensações particulares e experiências sensíveis.Ou talvez, Ian não tenha tentativo dizer absolutamente nada do que foi mencionado acima. Pode ser sido apenas uma frase… algo relacionado com o cosmos ou com a morte de uma estrela.” (Fonte: http://www.acervofilosofico.com/ian-curtis-e-seus-prazeres-desconhecidos/)
 

Certamente sua retração e sensibilidade emocional fizeram de Curtis mais um artística enigmático e um tanto complexo de ser compreendido.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

KRAUTROCK: A VANGUARDA MUSICAL ALEMÃ

 Por Juliana Vannucchi

A palavra “krautrock” - ou “repolho azedo” - foi uma invenção bastante desdenhosa cravada pelo famoso DJ britânico John Peel para se referir a um gênero musical de cunho experimental surgido na Alemanha, no final dos anos 60 e início da década de 70, período este em que essa categoria eclodiu mundialmente.

O talentoso Florian Fricke

O krautrock, contudo, não consiste somente num “estilo sonoro”, mas sim num verdadeiro movimento revolucionário de contracultura, uma vez que existia uma ideologia de motivações políticas e sociais por trás de sua origem. Não à toa, certa vez o escritor e jornalista David Stubss declarou que o krautrock se desenvolveu num “espírito de combatividade e resistência”, pois os músicos que fizeram parte desse movimento buscavam justamente arriscar e inovar em suas produções, já que estavam insatisfeitos com as músicas tocadas na Alemanha durante aquela época. Tudo isso era feito enquanto os alemães buscavam construir uma identidade própria e terminavam de colher os cacos das atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. Berlim estava dividida em dois blocos, e isso simbolizava uma divisão dos próprios alemães e da nação. Para se ter uma ideia, o Amon Düül, por exemplo, foi composto por artistas e ativistas políticos. De maneira geral, insegurança, incerteza e insatisfação permeavam o país. Foi justamente esse desgosto inquietante que levou os músicos desse movimento a entender que era necessário dar um passo adiante e criar uma proposta musical nova e distinta do que era vigente, sendo que para isso não havia limites. Esses artistas simplesmente pretendiam expandir suas criações e ver o quão longe podiam ir e, nesse contexto, surgiram improvisos melódicos, ruídos dissonantes, combinações atípicas e uma atmosfera que mesclava o psicodelismo com dosagens de música eletrônica. Nesse âmbito, os sintetizadores foram os grandes maestros que guiavam o experimentalismo musical e as engenhosidades sonoras, enquanto as guitarras, instrumento indispensável ao rock tradicional, normalmente eram evitadas ao máximo e, em suma, ficaram basicamente ausentes do krautrock. Além desses aspectos, vale citar que alguns grupos se inspiraram em percussão africana, flautas, uso de sons da natureza (como o barulho da água, por exemplo), instrumentos exóticos e em elementos provindos do jazz clássico e do blues. Por vezes, vocais eram dispensados ou ficavam em segundo plano, como ocorreu no caso do Tangerine Dream. Uma atmosfera parcialmente sombria, mística, climas apocalípticos e fantásticos também marcam o krautrock. Dessa forma, a partir das últimas considerações que foram aqui tecidas, é importante reparar que a palavra “rock” empregada junto ao “kraut” talvez seja bem equivocada - ou, no mínimo, questionável. Conceitualmente falando, os temas variam e há referências ao cosmos, ao homem moderno e seus desafios mundanos, ao futurismo, à espiritualidade, ao caos, além de outras abordagens. Isso varia bastante de uma banda para outra. Os álbuns do Faust, por exemplo, aludem ao absurdo existencial, ao surrealismo e às distorções expressionistas. Já as produções sonoras do Popol Vuh, por sua vez, são fundamentalmente solidificadas no universo da spiritual music e em suas produções sonoras, encontramos climas diversos, por vezes, sombrios, por vezes, tribais. O Kraftwerk, a mais famosa de todas as bandas da cena, nutria enorme interesse pela sociedade industrial movida pela grandiosa presença da velocidade, das máquinas e da crescente tecnologia.


O magnífico Klaus Schulze

Não à toa, na Alemanha, esse tipo de música foi categorizado como “kosmische musik”, que significa “música cósmica”, uma alusão pertinente ao estilo sonoro espacial e incomum que era produzido. Neste ponto, também é válido citar que com o passar do tempo o krautrock também passou a ser chamado de krautwave ou simplesmente kraut.

As bandas que compuseram esse movimento realizaram uma verdadeira reciclagem musical que se desdobrou num resultado notavelmente singular. Por essa razão, o krautrock foi uma verdadeira vanguarda no cenário da música, durante a qual eclodiram os principais representantes do universo underground alemão. Suas produções eram autênticas, ousadas, desafiadoras, incomuns e, sobretudo, moldadas numa linguagem absolutamente original. Desde o seu surgimento, inúmeras bandas e músicos importantes ao redor do mundo foram fortemente influenciados por esse icônico movimento, tal como é o caso do Camaleão do Rock, do conceituado grupo inglês Roxy Music e também do Radiohead.

Guia musical:

Abaixo, a fim de guiar o leitor para um conhecimento mais aprofundando do assunto, selecionamos as principais bandas do krautrock. Aumente o volume e deixe esses monstros do rock alemão o inspirarem!

Ash Ra Tempel

Amon Düül II

Can

Cluster

Guru Guru

Eloy*

*Banda controversa no sentido de que, para muitos, não faz parte do Krautrock, uma vez que seus elementos sonoros, por vezes, flertam com o hard rock e se aproximaram do rock progressivo tradicional.

Embryo

Faust

Kraftwerk

Kraan

Jane

Neu!

Novalis

Tangerine Dream

The Cosmic Jokers

Triumvirat

Popol Vuh

Referências:

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/musicblog/2010/mar/30/elektronische-musik-krautrock

https://www.collinsdictionary.com/pt/dictionary/english/krautrock
https://www.lexico.com/en/definition/krautrock

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/books/2014/aug/17/future-days-krautrock-review-david-stubbs-kraftwerk-can

https://www.telegraph.co.uk/culture/music/rockandpopfeatures/9837423/Kraftwerk-the-most-influential-group-in-pop-history.html

https://www.google.com.br/amp/s/amp.dw.com/pt-br/krautrock-a-contribui%25C3%25A7%25C3%25A3o-alem%25C3%25A3-%25C3%25A0-vanguarda-pop-dos-anos-1960/a-4087165

https://www.scaruffi.com/history/cpt26.html



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