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quarta-feira, 8 de julho de 2026

DOS LIVROS FAVORITOS ÀS MAIORES DIFICULDADES DA CARREIRA: UMA CONVERSA COM ZIA MCCABE, DA BANDA THE DANDY WARHOLS

 Por Juliana Vannucchi

A icônica multi-instrumentista norte-americana Zia McCabe é especialmente conhecida por seu papel na banda The Dandy Warhols, da qual passou a fazer parte dem 1995, tocando teclado e contrabaixo. Com seu talento exuberante e visual descolado, Zia marcou a estética do grupo e participou da produção e gravação de seus álbuns mais importantes. 

Ao conversar com o nosso site, o primeiro tema aborddo foi o frustrante cancelamento do show inédito que a banda faria no Brasil em 2025. Nesse contexto, Zia lamentou-se pela situação, comentou que a banda adoraria vir ao nosso país e falou sobre a possibilidade de uma turnê na América do Sul: “Ainda não conseguimos organizar uma nova turnê. Se - ou quando - conseguirmos ir ao Brasil, nossos fãs podem esperar um repertório bem psicodélico, com algumas músicas de cada um dos nossos álbuns”. Zia, aliás, conhece uma quantidade imensa de músicos e bandas brasileiros e nos contou que dentre os seus favoritos estão Os Mutantes, Sérgio Mendes, João Gilberto, Marcos Valle e, segundo ela “muitos outros que poderiam ser mencionados aqui”. Aliás, vale citar que Zia, em mais de uma ocasião já incluiu músicas da banda Os Mutantes em seu repertório de DJ..

 Zia McCabe: “Quero ser lembrada como alguém que foi uma luz". 

Embora Zia tenha passado grande parte de sua vida dedicando-se ao rock, ela nunca viveu integralmente nesse ambiente, afinal, no decorrer dos anos precisou conciliar a carreira musical com a maternidade e com outras tarefas da sua vida pessoal e admitiu que fazer isso foi muito difícil: “Levar um bebê ou uma criança pequena em turnê sem a presença de uma babá em tempo integral é desafiador e exaustivo. É uma experiência repleta de risadas, lágrimas e momentos adoráveis. Depois, quando minha filha começou a ir para a escola, deixá-la com o pai por semanas a fio era difícil, pois eu sentia saudades dela e acabava perdendo alguns momentos importantes de sua vida”. Ademais, de acordo com a integrante dos The Dandy Warhols, dar conta de todas as suas paixões e responsabilidades parece impossível na maior parte do tempo: “Tenho que criar os filhos, cuidar da casa e da propriedade, lidar com o mercado imobiliário (ramo no qual ela trabalha), com a banda, tocar como DJ e, agora, ainda tenho que cuidar de projetos de instalação e fazer minhas esculturas. Tudo isso fica frequentemente disputando a minha atenção. Mas, geralmente, eu dou conta de tudo -  geralmente”, frisou.

Registro feito porTori McGraw (@afterr.hourrs)

Satisfeita com seu percurso musical e revendo sua vasta história com os Dandy Warhols, McCabe comentou que os melhores e piores momentos em shows são paradoxalmente os mesmos: “Os lendários gigs de abertura são os mais memoráveis. Como, por exemplo, quando abrimos para o David Bowie, os Rolling Stones e Tom Petty... Foi tudo incrível. Porém, ao mesmo tempo não é a coisa mais divertida tocar para tantas cadeiras vazias enquanto o público vai chegando aos poucos como aconteceu nessas ocasiões”.

Fora do universo musical, a carismática Zia admira diversas personalidades, sobretudo, segundo ela “as pessoas que se preocupam em tornar o mundo um lugar melhor", como é o caso, conforme ela mesmo listou, de Willie Nelson, Jane Goodall, Greta Thunberg e Bernie Sanders. A contrabaixista também contou que gosta de ler e revelou seu particular apreço por ficção científica clássica, sendo que dentre os seus escritores favoritos estão Robert Heinlein e Ray Bradbury, além de gostar de livros de realismo mágico, com destaque para os autores Gabriel García Márquez e Haruki Murakami.

Para encerrar nossa conversa, perguntei a Zia como ela gostaria de ser lembrada e que tipo de marca deseja deixar impressa no coração das pessoas que a conhecem: “Quero ser lembrada como alguém que foi uma luz, um guia, um bom exemplo de como viver uma vida espetacular e alguém que deixou um belo legado — incluindo grandes músicas e esculturas — para que gerações futuras o descubram e o apreciem”.

 


POESIA, CAOS E UM ROCK AND ROLL CAPRICHADO: A HISTÓRIA DO THE LIBERTINES

 Por Juliana Vannucchi

No início dos anos dois mil, a banda inglesa The Libertines emergiu como um dos grupos de rock mais promissores da geração desse novo milênio. A banda foi fundada pelo vocalista Pete Doherty e seu amigo, o guitarrista Barât, com quem dividia um apartamento em Londres em meados dos anos noventa. Ao longo do tempo, diversos músicos assumiram os outros instrumentos até que uma formação mais definitiva finalmente se consolidasse, com Gary Power nas baquetas e John Hassall como contrabaixista.

O grupo, que estava na ativa desde 1997, portava uma eficiente fórmula musical que mesclava o estilo alternativo dos rock noventista com resquícios do punk setentista e uma pitada de garage rock. Esses traços contruíram para o surgimento de um estilo musical singular, e garantiram ao The Libertines, logo no início de sua carreira, um êxito comercial favorável que, no entanto, foi parcialmente abalado pelo consumo de drogas descompensado de Doherty, viciado em heroína e crack. Essa dependência causou uma série de tensões entre os integrantes e abalou fortemente a dinâmica da banda, gerando uma atmosfera interna e musical totalmente caóticas, marcadas por episódios de desentendimento e apreensão entre os músicos. Certa vez, por exemplo, enfurecido e completamente fora de controle, Doherty foi preso por assaltar o apartamento de Barât após uma briga calorosa que tiveram. Na prisão, o vocalista chegou a formar uma banda com outros detentos. Posteriormente, Doherty foi solto, mas seguiu tendo um comportamento subversivo e controverso. No entanto, apesar dos incontáveis escândalos que Doherty protagonizou e dos inúmeros  desentendimentos internos da banda, o The Libertines lançou três excelentes álbuns de estúdio. O debut foi o Up The Bracket,  de 2002. O segundo, que é o mais popular e consagrado, The Libertines, é de 2004 e, por fim, uma década depois, em 2015, para surpresa geral dos fãs, o grupo produziu o inesperado Anthems For Doomed Youth que, definitivamente não emplacou como os primeiros.

Pete Doherty é um compositor talentoso que soube usar a música para dialogar e exorcizar seus próprios demônios.
 

As músicas da banda, em geral portam uma agressividade característica do punk rock que é coroada por uma dose de niilismo. As letras, que são um ponto forte do Libertines, basicamente consistem em lampejos poéticos angustiados da mente agitada e deprimida do rebelde Pete Doherty, que parece ser uma versão pós-moderna do Rimbaud. Certa vez, o frontman refletiu: “Muito do caos, confusão e extremos que vieram do uso de drogas alimentaram não a minha capacidade de criar algo, mas minha necessidade de criar. Eu fazia uma turnê ou gravava álbuns simplesmente porque eu precisava, ou eu ia ficar sentado e morrer. E de qualquer forma, eu precisava do dinheiro”. Além disso, sua alma, conforme declarou numa ocasião, é curada através da música, que é algo indispensável na sua vida cotidiana. Filho de um militar, na infância o pequeno Pete sentia-se um tanto intimidado pelo pai. Ainda novo, divertia-se na escola e gostava de ler poesia. Mas foi somente durante sua adolescência, quando morava com a avó em Londres, que se sentiu seguro e inspirado e começou a escrever poemas autorais, sendo que em tal período também era um ávido leitor. Nessa fase intelectualmente produtiva, Doherty trabalhava num cemitério e esse ambiente muitas vezes serviu como cenário para composição e leitura. Tamanho foi o impacto da leitura em sua vida, que Peter chegou, ainda que por pouco tempo, a cursar Literatura Inglesa na Universidade de Londres. Sua inclinação artística também o levou a fotografar, pintar e desenhar. Certa vez, uma série de ilustrações de sua autoria foi exposta na capital inglesa, mas a exposição foi imensamente polêmica porque as pinturas tinham sido feitas com seu próprio sangue. Aliás, Doherty chegou a fazer um desenho com o sangue da icônica Amy Winehouse, com quem viveu um breve romance, bastante conturbado e marcado pelo mútuo abuso de drogas. A pintura em questão acabou sendo vendida por apenas trinta e cinco libras...

Porém, todo esse passado questionável e fortemente marcado por excessos, parece ter fico pra trás. Atualmente, o frontman do The Libertines reside na França, é casado e leva uma vida pacata e equilibrada, tendo, segundo ele declarou, "trocado as drogas pelo consumo de queijo e torradas". Na verdade, Doherty teve uma série de problemas de saúde que fizeram com que ele precissasse se cuidar melhor.

O The Libertines sempre será uma das bandas de rock mais fascinantes dos anos dois mil. No palco, entregavam tudo, fazendo shows energéticos e contagiantes. No estúdio, também obtiveram êxito e deixaram como herança três produções valiosas, dentre as quais o segundo álbum é o mais aclamado. A banda, que é praticamente um diário da realidade tumultoada e problemática de Doherty, costuma agradar tanto os fãs de indie e de rock alternativo dos anos noventa, como também costuma ser notavelmente atrativa para os amantes do punk rock. Pete é um compositor talentoso que soube usar a música para dialogar e exorcizar seus próprios demônios e com isso, é claro, faz também com que suas canções sejam uma espécie de oração que segue exorcizando demônios de muitas outras pessoas e, assim, salvando vidas.

Esse texto è dedicado ao amigo Pedrinho Sangrento, eterno sonhador do caos e da liberdade. 

 Referências:

https://www.noize.com.br/entrevista-exclusiva-com-pete-doherty-por-nina-antonia-from-albion-to-shangri-la

https://www.nme.com/features/music-interviews/pete-doherty-interview-libertines-babyshambles-solo-new-music-future-2025-3823748

https://www.bigissue.com/culture/music/pete-doherty-interview-music-drugs-libertines/

https://revistamonet.globo.com/amp/Celebridades/noticia/2022/03/pete-doherty-da-banda-libertines-revela-que-quase-perdeu-o-pe-por-causa-das-drogas.html

https://rollingstone.com.br/musica/de-volta-ao-eixo-pete-doherty-fala-sobre-vida-longe-dos-vicios/

https://www.theguardian.com/music/2012/may/14/amy-winehouse-pete-doherty-painting

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