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sábado, 8 de dezembro de 2018

DEATH IN JUNE - INTERESSANTE, MAS DIFÍCIL DE EXPLICAR:

Por: Vannucchi e Marinho

Não me recordo ao certo quando escutei o Death in June pela primeira vez, mas me lembro muito bem de como as músicas da banda me impressionaram por sua tremenda força mística“. – Juliana Vannucchi.

Descobri o Death in June em 2012, e gostei de imediato. Finalmente havia um grupo que não havia medo de se expressar com sua estética duvidosa e ambígua”. – Gabriel Marinho.

O Death In June é uma banda difícil de ser classificada. Digamos que, de alguma forma, esteticamente é possível enquadrá-los em várias vertentes musicais distintas, tal como Post-punk, Darkwave, Experimentalismo, Pós-industrial, etc. Mas de maneira geral, a categorização não é um aspecto muito relevante e, por isso, não vemos necessidade em nos prendermos nesse tipo de detalhe.
O que realmente é significativo aqui, é compreender que a banda produziu músicas moldadas por componentes bastante diferenciados da maior parte das gravações de sua época e é justamente por isso que não há paralelos, modelos, clichês ou tradicionalismos envolvidos em seus materiais: o DIJ oferece uma sonoridade única, estranha e, para muitos ouvintes, assustadora. O que há neles, portanto, é simplesmente uma singularidade – uma aura arquitetada em torno de músicas vanguardistas e extremamente originais.

As canções que a banda produz são sustentadas por uma aura profundamente sublime, cheia de misticismo e que, de maneira geral, é bem hermética. Há enorme sensibilidade na parte instrumental e nas letras. Enfim, tudo neles é encantadoramente perturbador.  O DIJ te agarra e te leva, quase que de maneira imediata para um outro plano dimensional.

É preciso mencionar que a trajetória da banda também é marcada por algumas polêmicas, em torno das quais há constantes comentários a respeito do nazismo e do ocultismo como inspirações para criação de músicas e álbuns. Aparentemente, há algum fundo de verdade nisso e abaixo iremos abordar esses assuntos.

A banda inglesa deu seus primeiros passos como um trio, no ano de 1981. Porém, apenas quatro anos mais tarde, Douglas Pearce continuou com o projeto e, a partir de então, conta com a participação esporádica de diversos colaboradores musicais. Atualmente possuem uma discografia que conta com 20 álbuns de estúdio. Durante todo o tempo de estrada, o visual sempre foi um dos principais traços do DIJ: geralmente Pearce se veste de maneira bem excêntrica e sombria. Sobre as máscaras e vestimentas que usa desde que deu os primeiros passos no mundo da música, o vocalista declarou em certa ocasião:“Não queríamos fazer parte  de uma coisa normal do Rock n’Roll. Garotos bonitos olhando para a câmera com pênis enormes e QI’s de um milhão… não funciona desse jeito”. As máscaras se tornaram mais evidentes após o lançamento de The World That Summer. Com a formação clássica da banda, contando com Patrick Leagas e Tony Wakeford, as vestimentas incluíam uniformes da SS e da Juventude Hitlerista.

OCULTISMO:

O interesse do vocalista Douglas Pearce por religiões, ocultismo e espiritualidade é um fato por ele próprio admitido e, portanto, os inúmeros comentários sobre a ligação da banda com essa temática, de fato fazem sentido. Ainda que, no entanto, vocalista não tenha feito declarações claras sobre essa ligação, acredito que esse aspecto fica explícito no conjunto das composições musicais do Death In June (tanto em questões instrumentais e sonoras, quanto nas letras).

Em relação a este assunto, Pearce, certa vez, disse numa entrevista: “Eu acho que meu interesse em ocultismo sempre esteve lá. Eu não sinto que tive uma escolha em relação a isso. Quando criança, meus pais me exorcizaram porque eu tinha visões de todos os tipos de horrores e nunca dormia. Isso aconteceu por muito tempo, até eles recorrem a um curador espiritual e as coisas ficaram mais calmas. Mais tarde, quando meu pai faleceu, eu e minha mãe usávamos um tabuleiro Ouija”. Na mesma entrevista ainda fez outros dois comentários interessantes: “O primeiro livro de Crowley que li foi o Livro da Lei, que David Tibet me deu em 1983. Escrevemos She Said Destroy pouco tempo depois”, afirmou o músico. “Eu acredito em deuses, demônios, anjos, sejam eles da psique interior, outra dimensão ou qualquer coisa que seja. Eu os ouvi e vi. Eu até senti eles me tocarem. Eles são um desafio e não devem ser menosprezados”, concluiu.

Nas letras das músicas do Death In June, é possível encontrar indicativos sobre isso, pois há uso constante da palavra “anjo”, além de letras que carregam palavras como “Deus”, “túmulo”. Mas é claro que o misticismo da banda não acontece apenas pelo simples emprego isolado de tais palavras nas músicas, mas conforme citado anteriormente, encontra-se em todo o contexto de suas produções sonoras.

As canções, de maneira geral, possuem uma atmosfera sombria, por vezes, assemelhando-se a rituais religiosos, e assim, mergulham no universo sobrenatural, e abrem as portas para que os ouvintes também se insiram nesse plano dimensional. Alguns encartes também expõe simbologias bastante sugestivas, tal como caveiras, crucifixos e imagens religiosas que demonstram as influências que o ocultismo tem sobre a banda. Enfim, toda a estética do Death In June demonstra o interesse de Pearce pelo paranormal. Por vezes, as canções soam de maneira realmente bizarra e parecem um filme de terror.

HOMOSEXUALIDADE:

Pierce é assumidamente gay e já declarou que gostaria que o assunto fosse abordado com mais frequência em entrevistas, pois na opinião do músico, sua opção sexual sempre foi um fator de extrema relevância para suas produções das músicas.

Com certa frequência a banda entra no palco com a tradicional bandeira “arco-íris” que representa o público LGBT e a deixa exposta durante a apresentação. Além disso, no site oficial do Death in June, Pearce faz questão de demonstrar apoio ao público LGBT e a bandeira também está presente por lá.

A QUESTÃO DA IUGOSLÁVIA E AS GRAVAÇÕES EM ZAGREB:

Em 1992, o Death In June se envolveu em uma polêmica. Durante a guerra civil na Iugoslávia, Pearce visitou a linha de frente e a HOS (Forças de Defesa da Croácia, um ramo militar fascista). Pearce fez várias gravações ao vivo no país e as lançou em dois CDs chamado Something is Coming: Live And Studio Recordings From Croatia que carregava a bandeira nacional vermelha e branca da Croácia. Todas as vendas foram para os hospitais militares.

Esclarecendo sua posição sobre essas ações, Pearce comentou a respeito para o jornal Rostov-On-Don, em sua primeira entrevista com um jornalista russo, em Novembro de 1999: “A guerra começou dentro de um ano após minhas férias na Iugoslávia. Já que eu estava ciente dos conflitos e tinha amigos nesses lugares, a guerra que eu via na TV era muito mais real para mim. Amigos e fãs meus estavam sendo mortos há duas horas de pegar um voo para Londres. Quando ofereceram ao Death In June um concerto em Zagreb, na Croácia em 1992, quando a guerra estava em seus primeiros passos, pensei que era natural oferecer algum tipo de apoio moral e cultural”, afirmou Pearce.“Quando cheguei, era pior do que eu esperava. Quando vi a quantidade de feridos e mortos e o estado primitivo dos hospitais, sabia que eu devia me envolver de alguma forma. Felizmente, as gravações dos shows vieram a ser úteis, então decidi lançar “Something Is Coming”, que era um disco duplo de gravações ao vivo e de estúdio do Death In June na Croácia. O fundos arrecadados disso foram para essas clínicas que ajudaram a reabilitação de soldados e civis que haviam perdido seus membros durante a guerra”, completou o músico.

NAZISMO E FASCISMO:

Um dos pontos mais abordados e mais controversos sobre o Death in June, é o uso de diversos símbolos e camuflagens usados pela Alemanha Nazista, como Waffen SS Autumnal Erbsenmuster, Totenkopf-6 (Totenkopf representa a morte e 6 referente a Junho), Whip-Hand (de acordo com Pearce, o símbolo é usado após uma expressão inglesa de poder e influência) e Three Bars (utilizada pela 3ª Divisão SS Totenkopf).

A banda já teve diversos protestos em seus shows, já foi banida de tocar em Lausana, na Suíça e teve shows cancelados em outros lugares. Os álbuns Brown Book e Rose Clouds of Holocaust são proibidos na Alemanha; o primeiro por ter um sampler de Horst-Wessel-Lid, o hino usado nas marchas da AS e mais tarde a música oficial do partido Nazista, e o último por sido interpretado como sendo uma negação do Holocausto e, mesmo Pearce tendo recorrido em 2006 para explicar o significado das letras para o governo alemão, o apelo foi negado. Em relação aos primeiros anos do Death in June, Pearce disse que “no início dos anos 80, Tony (baixista da formação original do grupo) e eu estávamos envolvidos em políticas radicais de esquerda. Em busca de uma visão política para o futuro, encontramos o bolchevismo nacional, intimamente ligada à hierarquia Sturmabteilung (milícia paramilitar nazista lideradas por Ernst Röhm)”. Em outra entrevista, quando perguntando sobre seus interesses a respeito do Terceiro Reich, respondeu: “Eu tenho um interesse em todos os aspectos do Terceiro Reich. Teve uma influência tão grande sobre o mundo, quem consegue não ficar intrigado com isso? No entanto, eu ainda li mais páginas do Capital do que Main Kampf!”.

Note-se que no site oficial do Death In June possui uma bandeira de Israel e eles já fizeram um show no país, em 2004, para um público predominantemente judeu. A banda anterior de Pearce, Crisis, filiados a extrema esquerda que fez shows em comícios como Rock Against Racism e Anti-Nazi League, possui uma canção chamada “Holocaust”, que acusa aqueles que negam a existência de Belsen e Auschwitz de tentar “acorrentar a Inglaterra” e deixar “seis milhões de pessoas morrem em vão”. Devido a essa natureza das letras, quase sempre moldadas em tonalidades místicas e ambíguas, e devido á  estética do Death in June, há mais dúvidas do que respostas sobre ele ser um simpatizante neo-nazista ou sobre usar simbolismos apenas para chocar o público (como muitos punks fizeram durante a década de 70). 

Texto anteriormente publicado em: http://www.audiograma.com.br/2018/11/death-in-june-interessante-mas-dificil-de-explicar/




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