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quarta-feira, 1 de maio de 2024

FEMINISMO, ARTE E SONIC YOUTH: A VIDA REVOLUCIONÁRIA DE KIM GORDON

Por Juliana Vannucchi

Acho que é possível dizer que o Sonic Youth sempre tentou desafiar as expectativas das pessoas”. (p. 151, 2015).

Após um casamento de quase 30 anos, em 2011, Kim Gordon e Thurston Moore anunciaram o divórcio e decretaram com isso o fim do Sonic Youth. Alguns anos mais tarde, a baixista da banda alternativa mais importante dos anos oitenta publicou um livro biográfico que em português foi intitulado “A Garota da Banda”, no qual Gordon compartilha com os leitores alguns dos momentos mais marcantes e decisivos de sua vida. Ela aborda em detalhes o fim trágico de seu casamento, marcado por uma traumática traição do marido, além de tecer comentários sobre bastidores de álbuns, músicas e videoclipes da banda norte-americana.

Sabemos que ao longo de sua trajetória, Kim destacou-se especialmente como baixista do Sonic Youth, e geralmente a conhecemos somente sob tal rótulo. Contudo, acabamos por nos limitar se a considerarmos apenas por essa perspectiva, pois ela também merece ser lembrada pela sua carreira como artista visual. Aliás, cabe dizer que numa entrevista concedida em 2022, Gordon chegou a dizer que sempre se reconheceu mais como artista do que musicista. E em sua biografia, fala que se sentia limitada como cantora, sendo que justamente por isso optou por fazer uso de uma abordagem vocal falada e rítmica. Embora nunca tenha se visto como uma boa cantora ou musicista, lembra aos leitores que (...) desde o início, o rock and roll nunca teve base em formação musical ou técnica, assim como o punk rock nunca teve a ver com ser um bom músico”. (p. 137, 2015). Ainda nesse contexto, explica: “O melhor tipo de música vem quando você é intuitivo, inconsciente de seu corpo, perdendo a cabeça, de certo modo (...)”. 

"O detalhe é importante, pois ele praticamente se torna a própria obra quando se trata de arte conceitual”. - Kim Gordon

   
Desde a juventude, Gordon sempre nutriu um forte interesse pela arte e decidiu que esse era o caminho profissional que desejava trilhar. Nesse período de sua vida, o irmão de um amigo chegou a confrontá-la a respeito de sua escolha: “Artista? Como vai virar artista? E se você falhar? Você tem um plano B?”. Mas Kim estava convicta a respeito de seu destino e de seu desejo: “Nunca me ocorreu que eu poderia falhar”. Em sua biografia, ela releva que no universo das artes, seu primeiro mentor (conforme ela mesma define) foi um artista conceituado chamado John Knight. Segundo Gordon (p.83, 2015), ele a ensinou “que qualquer coisa - um carro, uma casa, um gramado - poderia ser vista e analisada em termos estéticos”. Ele também lhe mostrou que “toda arte deriva de uma ideia”.  “Discutíamos em detalhes qualquer coisa que aparecesse ou estivesse ali por acaso - que tipo de fonte uma máquina de escrever usava, por exemplo. Uma mais previsível ou mais rebuscada?”. E completa Kim: “Isso pode parecer trivial, mas mostra que o detalhe é importante, pois ele praticamente se torna a própria obra quando se trata de arte conceitual”. Vale observar que esse referido contexto artístico certamente influenciou de alguma forma a estética e a sonoridade do Sonic Youth, banda que abusou de experimentalismos melódicos, de ruídos e de dissonâncias.  

 

"As mulheres são anarquistas e revolucionárias naturais". -  Kim Gordon
  

No final dos anos setenta, Kim Gordon estudou no Otis Art Institute. Sua primeira exposição foi realizada poucos anos depois, em 1981. Cabe dizer que ela contribuiu com inúmeros campos culturais diferentes, como moda, design, cinema, pintura, etc. A título de curiosidade, vale dizer que antes de seguir sua carreira artística, trabalhou como ajudante de garçom e assistente de escritório.
    
No livro, Kim também conta o quanto a convivência com Keller, seu irmão esquizofrênico, foi dramática e deixou marcas na artista, embora ela também assuma sua consideração e carinho por ele. Keller sempre foi inteligente e apresentou autores importantes para Kim (como Nietzsche, Balzac e Sartre, por exemplo), porém, também fazia brincadeiras agressivas e um tanto perturbadoras. Uma vez, por exemplo, pulou nu na cama da irmã. Keller se formou na Universidade da Califórnia e fez mestrado em clássicos na Universidade de Berkeley , sendo que foi nessa época que teve seu primeiro surto psicótico completo. Depois desse episódio, piorou bastante e precisou ser internado numa casa de repouso. Keller faleceu no início de 2023.
    
Em uma de suas fotos mais icônicas, vemos Kim vestindo uma camiseta verde na qual está escrito em letras pretas discretas: "Girls invented punk rock, not England". De fato, o punk não nasceu na Inglaterra, ele apenas amadureceu, desenvolveu-se e teve seu auge no país. E as mulheres, em sua própria natureza, talvez tenham, de fato, inventado o punk rock. Certa vez, Kim fez a seguinte declaração: “As mulheres são anarquistas e revolucionárias naturais, porque elas sempre foram cidadãs de segunda classe e tiveram que fazer o seu próprio caminho”. Na biografia, a baixista, que sempre mostrou envolvimento com o feminismo, comenta que em geral as mulheres não têm realmente permissão para “mandar ver”, para agir como gostariam e ser o que desejam. A esse respeito, escreve: “(...) Culturalmente nós não permitimos que as mulheres sejam tão livres quanto elas gostariam e isso é assustador. Nós ou rejeitamos essas mulheres ou as consideramos loucas (...) No final do dia é esperado que as mulheres sustentem o mundo, não que o aniquilem”. (p. 137, 2015). Kim também alfinetou Lana Del Rey, ao expressar sua indignação com a banalização do feminismo e das lutas das mulheres: “Hoje temos pessoas como Lana Del Rey que nem sabem o que é feminismo, que acreditam que as mulheres podem fazer tudo o que quiserem, o que, em seu mundo, é flertar com a autodestruição, seja dormindo com homens mais velhos nojentos ou sendo estuprada por um grupo de motociclistas". A crítica se refere a um polêmico videoclipe em que Del Rey aparece sendo violentada sexualmente e também serve, sobretudo, como resposta a uma entrevista concedida certa vez pela cantora pop, na qual disse: “Não estou interessada em feminismo. Minha ideia de uma verdadeira feminista é uma mulher que se sinta livre o bastante para fazer o que quiser”. Kim ainda indagou nesse trecho do livro: “Se ela realmente acredita que é bonito quando os músicos desaparecem numa espiral de drogas e depressão, por que ela não se mata?”. No mesmo ano, Gordon disse também que Lana Del Rey “não sabe nada sobre feminismo” e que é popular porque faz música fácil, convencional e que “apela para bases genéricas”, razões pelas quais a cantora conseguiu tornar-se popular. O eixo das críticas de Kim consiste na ideia de que há uma indústria machista por trás de imagens e lutas banais do feminismo e, portanto, é preciso que haja cautela e atenção para que ações aparentemente de cunho feminista no universo musical não estejam, na verdade, alimentando fantasias masculinas e discursos machistas. Ela está certíssima em relação a isso. Às vezes, afinal, conceitos ilusórios de liberdade e de luta apenas nos escravizam ainda mais e alimentam os detentores do poder.
    
Kim Gordon é muito mais que uma baixista. Ela é um verdadeiro ícone cultural e provavelmente é a artista mais intelectual surgida do universo punk. É fundamental que a vejamos sob essa perspectiva que não se limita aos palcos. Precisamos de músicos militantes, pensantes, ousados e criativos como Kim. As tais bases genéricas que fomentam a indústrias musical saturam e são fracas. Nossas mentes prezam por um alimento mais profundo, por um estímulo sonoro mais desafiador, capaz de dialogar com a nossa alma e fazer nosso corpo responder automaticamente a isso. Precisamos muito do Sonic Youth! 

Referências:

GORDON, Kim. A garota da banda. Rio de Janeiro: Fábrica231, 2015.

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