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SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

terça-feira, 16 de abril de 2024

VIDAS, VOZES E VULTOS: A IMPORTÂNCIA CULTURAL DO HOTEL CHELSEA NA HISTÓRIA DO ROCK

 Por Juliana Vannucchi

“Eu adorei esse lugar, sua elegância miserável e a história que ele guardava de forma tão possessiva... Muitos escreveram, conversaram e tiveram convulsões nessas casas de bonecas vitorianas. Tantas saias haviam balançado naquelas desgastadas escadas de mármore. Tantas almas transitórias se casaram, deixaram uma marca e sucumbiram aqui.”

Patti Smith

Construído entre os anos de 1883 e 1885 e inaugurado em 1884, o imponente Hotel Chelsea, que possui um total de doze andares e localiza-se na 222 West 23rd Street, figura entre os prédios mais antigos de New York, Atualmente, é considerado um importante ponto turístico. Na realidade, desde a época de sua construção, o hotel já despertava a atenção popular por ter sido o primeiro prédio comercial da cidade, por estar entre os mais altos e também por ser, desde os primórdios, visualmente expressivo. O espaço tornou-se especialmente conhecido por ser um dos locais mais emblemáticos da história do rock and roll, sendo palco de incicentes trágicos, zona de inspiração e abrigo para ícones deslocados do mundo da música. Ao longo do tempo, marcaram presença no Chelsea algumas das lendas mais prestigiadas da história do rock, como Iggy Pop, Jim Morrison, Patti Smith, Iggy Pop, John Cale, Patti Smith, Greatful Dead, Alice Cooper, Pink Floyd, Jeff Beck, Dee Dee Ramone, Leonard Cohen, Phil Lynott, Janis Joplin, Sid Vicious, Jimi Hendrix e muitos, muitos outros,  além de ter hospedado alguns dos nomes mais influentes da literatura mundial, como Allen Ginsberg, Mark Twian, Jack Kerouac, Arthur C. Clarke (que, inclusive, escreveu o o clássico “2001: Uma Odisseia no Espaço” num quarto do hotel) o casal de intelectuais Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre & muitos outros célebres escritores.  Ademais, cabe citar, ainda que brevemente, que muitos pintores, cineastas, fotógrafos, atores e atrizes dos mais conceituados tiveram passagem pelo Hotel Chelsea, dentre os quais, destacam-se Stanley Kubrick, Al Pacino e Dennis Hopper – mas a lista é muito mais extensa. Á título de curiosidade, vale dizer também que sobreviventes do Titanic passaram um tempo hospedados lá... 

O hotel em si, histórica e brevemente falando, oscilou entre momentos de ostentação e glória e de enfrentamento de crises. Durante os anos setenta, a maioria de seus ocupantes eram moradores fixos e, nesse período, o ambiente começou a entrar em situação declínio, tendo ocupações muito precárias e uma alarmante infestação de baratas. Isso, no entanto, não impediu, por exemplo, que estrelas do teatro e do cinema vivessem por lá. Foi um momento real de crise, mas que foi insuficiente para afastar a atenção pública. Na verdade, a aura decadente, de certa forma, apenas tornou o espaço mais interessantee charmoso para algumas pessoas, sendo que foi justamente no decorrer dos anos setenta que o ambiente se tornou propício e popular entre músicos e bandas de rock. Na época em questão, o uso indiscriminado de drogas e bebidas passou a imperar descontroladamente no hotel e um bordel operava em suas instalações. Era um ambiente, genuinamente perigoso, repleto de assalto, roubos, suicídios, morte e violência. Enfim... condições que muitos evitam e tantos outros buscam... 

Aliás, nesse ponto de nossa abordagem, é preciso mencionar também que há um lado bastante sombrio em relação à história do hotel, uma vez que várias mortes brutais aconteceram por lá, rendendo ao local a fama de mal-assombrado! A morte mais conhecida do hotel, sem dúvida foi a de Nancy Spungen, companheira de Sid Vicious, mítico baixista dos Sex Pistols, que encontrou o corpo da namorada debaixo de uma pia de banheiro, na manhã do dia 12 de outubro de 1978. Ela havia sido violentamente esfaqueada no abdômen. Sid confessou que eles tiveram uma forte discussão na noite anterior e, em desespero, após encontrar Nancy sem vida, tentou limpar a faca usada para matá-la. Ele foi acusado pelo crime sangrento e chegou a ser preso, mas sua fiança logo foi paga e o músico normalmente negava a autoria do crime, embira algumas fontes aleguem que tenha admitido em certas ocasiões. Vicious veio a óbito poucos meses depois do ocorrido, antes mesmo que acontecesse o julgamento do caso.  Rockets Redglare, um fornecedor de drogas que frequentava o local também foi acusado e aparentemente, assumiu o crime em círculos de amigos. Porém, de modo geral, devido a todos esses aspectos, até hoje, o assassinato de Spungen permanece sendo um evento nebuloso e envolto em mistérios.  Falando nesse lado obscuro, Dee Dee Ramone, famoso baixista do Ramones, chegou a escrever um livro chamado “Chelsea Horror Hotel” no qual relatou como foi a experiência de viver no Chelsea e, em seus registros, fala a respeito da presença de demônios e de energias atípicas. Entretanto, essas pinceladas sobrenaturais, parecem ter sido apenas uma cartada usada por Dee Dee para tornar seu livro mais atrativo.

O Hotel Chelsea foi um espaço cultural de extrema importância. Foi palco de incidentes, zona de inspiração e abrigo para ícones do rock and roll.

Reflitamos: Qual outro lugar no mundo foi capaz de atrair tantos espíritos talentosos e geniais, de áreas tão diferentes? Parece que tudo aconteceu naqueles quartos e corredores, habitados por uma clientela diversificada, pelos quais cambaleavam diariamente personalidades boêmias e transitavam figuras excêntricas, aspirantes a artistas, almas eufóricas, talentosas, depravadas e elegantes, que transformaram o espaço num campo minado decadente de drogas e álcool e ao mesmo tempo, num verdadeiro polo artístico no qual ocorriam experimentos de vanguarda. Desde seus primórdios, o hotel recebeu inquilinos muito variados, de ocupações e classes sociais bem distintas – e na maior parte das vezes, todos “juntos e misturados”. E, o mais importante é que o hotel sobreviveu a todo tipo de mudança. Leiamos e pensemos nas observações feitas pelo jornalista Pete Hamill sobre o público tão variado que passou por lá: "Radicais na década de 1930, marinheiros britânicos na década de 40, Beats na década de 50, hippies na década de 60, poseurs decadentes na década de 70". Ainda, dentro desse âmbito, é válido citar uma menção datada de 1993, publicada pelo The New York Times: "Teimosamente resistente à mudança, o Chelsea está - ainda - na moda." O repórter em questão ainda ilustrou o hotel da seguinte maneira: “É uma Torre de Babel de criatividade e mau comportamento que, no entanto, permaneceu um sucesso”. No contexto específico do rock and roll, enfoque de nosso texto, podemos considerar que o hotel serviu como um verdadeiro abrigo para almas marginalizadas, desajustadas e deslocadas. Foi um espaço quer surgiu de passagem ou mesmo residência para artistas que estavam existencialmente perdidos e/ou que precisavam de um ambiente confortável para poder produzir sua arte com maior liberdade. Nesse sentido, o Chelsea Hotel deixou como legado inúmeras histórias interessantes para os fãs do rock, como, por exemplo, o fatídico encontro entre Leonard Cohen e Janis Joplin, ocorrido num elevador, que acabou tornando-se um breve romance, cuja história foi imortalizada na canção “Chelsea Hotel #2”, na qual Cohen relata momentos íntimos vividos com a amante e expõe seus sentimentos de maneira honesta, eloquente e crua.

Joplin foi uma das tantas personalidades lendárias que marcou presença no Chelsea.

Andy Warhol, brilhante artista norte-americano, grande mestre da pop-art e guru do punk rock, usou o Hotel Chelsea para suas ousadas criações artísticas. Lá, em 1966, ao lado do coprodutor Paul Morrisey, ele gravou parte do filme “Chelsea Girls”, produção que mostra a vida cotidiana de algumas mulheres conhecidas por Andy e que viviam no local. É um longa de cunho experimental, bastante exótico, gravado com pessoas reais que interpretaram a si mesmas, e conduzido de maneira bem peculiar (vemos, por exemplo, imagens sendo mostradas na tela dividida ao meio, sendo um lado da tela em P&B e outro colorido). É um filme um pouco difícil de ser digerido e por isso, foi um tanto mal interpretado, recebendo bastante crítica negativa. Contudo, foi uma produção libertadora e que influenciou muitos cineastas de gerações seguintes. Curiosamente, cabe destacar que o título do filme inspirou o nome do primeiro álbum solo de Nico, ex-Velvet Underground, chamado “Chelsea Girl”.  Aliás, muitas músicas de alguns dos mais renomados mitos do rock foram influenciadas por vivências no local, ou fazem até mesmo alusões diretas ao hotel. É o caso da famosa “Third Week In The Chelsea”, de Jefferson Airplane, “We Will Fall”, clássico soturno do The Stooges, da balada “Midnight In Chelsea”, de Bon Jovi e tantos outros hinos atemporais. Além disso, o clip oficial da espetacular faixa “Edie (Ciao Baby)”, do The Cult, foi gravado nas intermediações do local e, assim, em certa medida, a música e o vídeo são uma verdadeira homenagem ao hotel.

Como pudemos observar, o Hotel Chelsea foi um recanto cultural que rendeu ao mundo incontáveis e brilhantes produções artísticas. Lá, pessoas imensamente talentosas sentiram-se suficientemente acolhidas e encontraram a atmosfera ideal para colocar suas ideias em prática e vivenciar suas liberdades criativas. Ademais, o Hotel Chelsea também foi um ambiente que ajudou particularmente a subcultura punk a se consolidar no cenário norte-americano, uma vez que vários músicos memoráveis que participaram do movimento em questão viveram e/ou se hospedaram no local. Por todos os aspectos listados e mencionados, esse solo consagrado, que também é caracterizado pela magia de sua bela arquitetura, se tornou, de modo geral, um point expressivo para a própria história social, ideológica e estética do rock and roll.

Referências:

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/amp/noticias/vitrine/historia-hotel-chelsea.phtml

https://veja.abril.com.br/comportamento/um-icone-renovado-o-retorno-do-chelsea-hotel-apos-11-anos-de-hiato/mobile

https://en.wikipedia.org/wiki/Hotel_Chelsea

https://www.vanityfair.com/culture/2013/10/chelsea-hotel-oral-history

https://www.kidsofdada.com/blogs/magazine/17972221-inside-the-chelsea-hotel

https://cademeuwhiskey.wordpress.com/2017/05/26/chelsea-historias-e-lendas-do-hotel-favorito-do-rock-nroll/

https://www.vanityfair.com/culture/2013/10/chelsea-hotel-oral-history

domingo, 31 de março de 2024

OS MALTRAPILHOS: 30 ANOS DE ESTRADA E DE LUTAS

 Por Juliana Vannucchi e Neder de Paula

Em 2024, mais precisamente no dia 27 de março, o lendário grupo “Os Maltrapilhos” completou 30 anos de existência. A banda é amplamente reconhecida como uma das principais e mais queridas representantes do punk rock nacional, ainda que sua popularidade esteja muito além das fronteiras de nossas terras. Natural de Ceilândia, conhecida região do Distrito Federal que abrigou vários grupos punks, atualmente a banda conta com Márcio nos vocais e também é composta pelo guitarrista Rafael, pelo brilhante baixista Ismael, pelo baterista Magrão. 

 

Com uma mensagem que atravessa culturas e idiomas, a banda continua a inspirar uma legião de seguidores.
 

Com sua atitude irreverente e comprometimento com causas sociais, Os Maltrapilhos não apenas moldaram o cenário musical, mas também deixaram um legado duradouro que transcende o mundo da música. Suas performances enérgicas e suas letras provocativas continuam a ressoar com uma nova geração de fãs, demonstrando que o punk rock ainda é uma ferramenta poderosa de expressão e resistência. Desde os primórdios, por meio de sua arte, a banda travou uma verdadeira luta pela liberdade, pela democracia, pelo mutualismo, e pela revolta e, em função disso, com letras de cunho crítico e reflexivo, busca denunciar as faces obscuras presentes em nosso país, apresentado pautas sociais e políticas revelantes que arquitetam esse cenário lírico e oferecendo ao mundo aspectos crueis da realidade que nem sempre queremos ver. O grupo, dessa forma, visa utilizar a música como um catalisador capaz de instigar o ouvinte a refutar o mundo ao seu redor para que seja capaz de desvincular-se, assim, de todas as formas de ignorância e opressão que o cercam. Em tempos hostis, nos quais a intolerância e a injustiça imperam, as mensagens dos Maltrapilhos tornam-se mais fundamentais do que nunca. 

No decorrer de todo esse tempo de estrada, o grupo construiu uma imagem sólida e influente no contexto do rock nacional, tornando-se uma verdadeira lenda brasileira de punk rock. Mas é evidente que sua influência vai muito além do sucesso nacional. Com uma base de fãs global e uma mensagem que atravessa culturas e idiomas, a banda continua a inspirar uma legião de seguidores dedicados, provando que, mesmo em um mundo em constante mudança, a essência do punk rock - a rebelião, a autenticidade e a luta por justiça social - permanece tão relevante como sempre.


terça-feira, 26 de março de 2024

MUSA DO CAOS E DA DESORDEM: COMO PAM HOGG ENGRANDECE O MUNDO POR MEIO DA IMPERFEIÇÃO

 Por Gregory Ferraz

Embora, de modo geral, em seu trabalho artístico, a fashion designer Pam Hogg busque de alguma forma a perfeição, ela prefere sempre encontrar no mundo a beleza da imperfeição. Em suas memórias afetivas, Hogg fala que quando não se tem nada, é possivel enriquecer-se com contos e invenções... nesse caso, sugere que se sintonize num rádio, mistérios e suspenses para tocar, e que sempre sobrevivamos e floresçamos com o poder da imaginação, que diante de qualquer carência, é capaz de nos prencheer e nos enriquecer.

Original, inventiva, criativa, provocativa, audaciosa, dentre outras diversas outras qualidades, Pam Hogg é uma designer de moda/musicista/cineasta que porta uma força caleidoscópica e possui uma exuberância caótica que dificilmente se consegue observar em uma única pessoa, devido à intensidade e obstinação que são requeridas para ter esse raro perfil. Por isso, sempre vi a Pam como uma das poucas pessoas capazes de se fazer de recetáculo para suas próprias criações. Ela consegue capturar as ideias que flutuam em sua alma, o caos das suas colisões mentais e os fragmentos que daí partem. É capaz de capturá-los e juntá-los, fazendo com eles uma espécie de quebra-cabeça mágico. Esse processo criativo tão único faz com que Pam ocupe um local de abordagem não ortodoxo e muito específico dentro da moda, um local permeado pelo caos, que surge dessas colisões e capturas das suas experiências mentais.

Contadora de histórias, romântica, ousada, feroz, frágil, forte, com um background pós-punk londrino típico dos anos 80, ela consegue com seu design, tecer, costurar e conduzir sua imaginação em representações imagéticas de forma muita íntegra. Pam cria, dirige, produz e estiliza sozinha suas coleções, sempre tendo a autoconsciência da sua prosperidade na perturbação e na desordem, e é com esse pensamento que ela nunca se esquiva da política, sendo por isso, uma grande defensora dos oprimidos e renegados, carregando em si a missão ética pela qual vive, fomentando a crença na força das mulheres, na defesa dos direitos homossexuais e militando contra o imperativo do individualismo face à pressão para um conformismo medíocre.

Assim, extravagante, contraditória, não convencional e dona de um profundo subconsciente, Pam leva seu coração e nas mangas a sua honra; em suas taxinhas, no seu látex e no seu pvc, sua justiça e creio que entre suas fitas, tesouras, agulhas, botões, colorblock e upcycling, nos resta o agradecer a Pam por nos mostrar que de uma punk bem atípica, de uma intransigente praticante do DIY e de uma autoditada, é possível saber que a desordem divina que convive dentro de cada um de nós, pode ser validada no mundo em que vivemos e estar associada a sucesso e construções positivas. 

 

Um momento divino é quando uma pessoa me retira do estado de ignorância.

Pessoalmente, acho que um momento divino é quando uma pessoa me retira do estado de ignorância, e essa é a Pam, uma pessoa sempre disposta a dar ao mundo o que o mundo não sabe o que quer, por isso, penso não haver possibilidade de se deparar com a obra de Pam Hogg sem ser arrebatado. Se ela se dirige na entrega do não óbvio, de remover barreiras do normativo e quebrar as regras que podem nos sufocar e nos enrijecer como sociedade, realmente, não há outra forma de abordar Pam a não ser pelo senso de agradecimento. Qualquer um que busque viver nessa vida de forma intensa, real e que queira acordar para a densa realidade, sabe o quanto são custosos os incômodos do caminho e, em tal sentido, nos depararmos com o ritmo alucinante da Pam equivale a nos depararmos com uma grande guerreira que tem uma jornada de muita reclusão autoimposta e que tem como caminho um percurso que migra através da escravidão e da restrição, até a aquisição de uma iluminação espiritual individual e coletiva.  Um grande salve para a querida Pam Hogg.

sábado, 16 de março de 2024

COMO O DEVO E VOLTAIRE NOS AJUDAM A PENSAR SOBRE O MUNDO ATUAL

 Por Juliana Vannucchi

O Devo foi uma das bandas mais inovadoras dos anos setenta. Seus primeiros passos foram dados precisamente em 1974, e os embriões do grupo foram Gerald Casale e Mark Mothersbaugh, dois estudantes do curso de Arte da Universidade de Kent, em Ohio.

A grande chance do Devo engrenar veio com a trilha do curta-metragem no qual estrelaram, chamado “The Truth About De-Evolution”, que ganhou um prêmio no Festival de Cinema de Ann Arbor, em 1976. Quando o filme foi visto por David Bowie e Iggy Pop, os dois ficaram impressionados com o Devo e asseguraram para a banda um contrato com a gravadora Warner Bros. Foi assim que, com o produtor Brian Eno, o disco de estreia “Q: Are We Not Men? R: Qe Are Devo” ganhou vida. A partir disso, o grupo deslanchou numa carreira que foi feita mais de acertos do que de erros. De maneira geral, toda a trajetória do Devo foi brilhante e inspiradora.

No pano de fundo das origens do Devo, encontrava-se o conceito de “de-volução”, segundo o qual a humanidade, após chegar ao seu nível mais alto de evolução, iniciou um processo de declínio. Através de suas produções musicais, o Devo mostra que, de acordo com essa concepção, o ser humano, conforme vai se tornando mais decadente, apresenta um comportamento mecânico e pensamentos uniformes. Semelhantes a robôs, os homens da “de-volução” são revestidos por uma alienação comprometedora. Não mais pensam por si mesmos e não escolhem nada de maneira autônoma, sendo sempre condicionados por terceiros, além de estarem sempre imersos num estado de profunda alienação. Trata-se de um regresso preocupante. Numa entrevista concedida em 2019, Mark Mothersbaugh disse que na época em que essa ideia foi desenvolvida, ele pensava que a dupla estava paranoica. Contudo, lamenta perceber que tal concepção se concretizou e, na mesma entrevista, Gerald Casale comenta que as previsões que fizeram não apenas se efetivaram, mas também simplesmente superaram os seus medos. O baixista ainda reflete a respeito de nossos tempos: “(...) são 7 bilhões de pessoas no planeta e o caos reinando como o principal fator de como as pessoas tomam decisões - o caos e o medo”. Mark complementa a consideração filosófica de seu colega de banda e emenda: “E está se multiplicando rapidamente. São 7 bilhões de pessoas, indo cada vez mais rápido, e não estamos aprendendo nada."

 

O conceito de de-volução trabalhado pelo Devo parece ter canalizado com maestria o temor de Voltaire, ao mostrar que o ser humano está perdendo sua capacidade de reflexão autônoma.
 

Voltaire, um dos maiores nomes do Iluminismo, viveu muito antes de os meninos do Devo. Em suas obras, o espirituoso pensador francês não abordou a “de-volução”, no entanto, ele sempre se mostrou preocupado com a incapacidade que alguns de seus contemporâneos tinham de pensar por si mesmos, sem serem instrumentalizados por instituições como o Estado e a Igreja. Voltaire prezava pela liberdade de pensamento e pelo fortalecimento do senso crítico, que poderiam ser alcançados se as pessoas fizessem bom uso da razão. Não à toa, certa vez escreveu: “Ouse pensar, amigo” – frase simples, curta, mas arrebatadora! Por meio de seus livros, tinha como um de seus principais objetivos fazer com que as pessoas despertassem e, dessa forma, rompessem as amarras que escravizavam suas mentes. Voltaire ensina que para exercitar o racionalismo crítico seria preciso vencer a superstição, que ele caracteriza como sendo uma “doença do espírito”, e o fanatismo, definido como uma espécie de seita que torna o homem firmemente convicto sobre algo, deixando-o tolo, horrível e beirando a irracionalidade. Além disso, prega que devemos sempre exercitar a tolerância, definida por ele como o “apanágio da humanidade” e cuja prática, em suma, consiste em não ser impiedoso, não perseguir nem transformar o diferente em inimigo. Tolerar é apaziguar discórdias e perdoar a própria tolice, pois segundo o iluminista francês, todo ser humano está sujeito ao erro, a fraquezas e à mutabilidade. É neste ponto que o célebre iluminista e a banda se encontram: o conceito de de-volução trabalhado pelo Devo parece ter canalizado com maestria o temor de Voltaire, ao mostrar que o ser humano está perdendo sua capacidade de reflexão autônoma, sendo cada vez mais controlado pelo sistema tradicional vigente que existe ao seu redor e mostrando-se cada vez mais cego em seu fanatismo, alienado em sua superstição e mais intolerante. 

O que Voltaire não imaginava era que o ser humano não seria unicamente dirigido por instituições como Igreja e Estado, mas também por novos “ídolos”, como consumismo e tecnologia. Isso porque em nossos tempos, além das instituições tradicionais que nos prendem, também somos asfixiados pelas mídias sociais e pelo sistema capitalista. De acordo com o conceito de “de-volução”, estamos cada vez menos civilizados e sentindo o efeito desumanizador da tecnologia. O homem carece cada vez mais de autenticidade, e vemos as pessoas cada vez mais “enlatadas”, isto é, mais parecidas umas com as outras, mais “robóticas” - não à toa o Devo utilizava uma estética futurista em suas apresentações, justamente para mostrar o quanto os homens seriam todos iguais futuramente. Acertaram em cheio: os padrões de beleza, as intervenções estéticas, as roupas e a internet tendem a padronizar não apenas a aparência das pessoas, mas seus comportamentos e pensamentos. Elas parecem sair programadas de fábricas. 

Aqui, vale citar que Voltaire também atribuía um valor imenso à dúvida e ao espírito questionador. Pode-se dizer que, para ele, duvidar era mais revolucionário do que responder. Hoje, entretanto, as massas fazem cada vez menos perguntas e reproduzem cada vez mais aquilo que lhes é despejado como certeza (vide as assombrosas fake news que, aliás, serviram para consolidação da extrema-direita... Bolsonaro, numa tentativa de normalizá-las chegou, inclusive, a declarar que elas “são parte da vida”). 

A crença cega e irracional em tantas “supostas verdades” é um marco de nosso mundo. A maior parte das pessoas não está ousando pensar, não está sendo assolada pelo páthos, não confronta a realidade, não filtra e não refuta informações.  Simplesmente “copia” e “compartilha” informações sem consultar sua razão. É, Voltaire, lamento dizer, mas a realidade atual é assombrosa. 

Mestres incontestáveis do gênero art rock, o Devo criou uma prestigiosa fusão entre a atmosfera da ficção científica e um clima futurista, que contou com pinceladas surrealistas e experimentalismos sonoros. Essas combinações tão singulares confrontavam a essência da maior parte das bandas da mesma época, que seguiam a trilha do punk rock e, por isso, podemos considerar que o Devo foi uma verdadeira vanguarda musical. Ainda que tenha surgido mediante a eclosão do punk norte-americano e certamente tenha herdado alguns elementos desse movimento, a banda era excêntrica e outsider, aspectos que a levaram para outro caminho. E se tem uma coisa que acredito que ficou clara neste texto é que a banda, além de toda a primazia estética digna de admiração, postulou um alerta e fez um diagnóstico preciso de nossos tempos que, definitivamente, merece ser levado em conta. Por outro lado, temos a obra de Voltaire. Ela está aí, à nossa disposição há séculos para alertar sobre os problemas oriundos da falta da liberdade de pensamento.  É simples: “Ouse pensar, amigo”. Desconstrua, questione, ao menos tente sair da caverna! 

Referências:

DURANT, Will. A Filosofia de Voltaire. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

PIMENTA, Jussara Santos. Voltaire: O Versejador, o Literato, o Comunicador. PUC – Rio. Revista Eletrônica UFSJ, 2002.

RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.

VOLTAIRE. O Filósofo Ignorante. Porto Alegre: L&PM Editores, 2013.

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. São Paulo: Editora Escala, 2008. 

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2009/apr/30/devo-art-punk-80s-revival

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2010/jun/17/devo-something-for-everybody-cd-review

https://web.archive.org/web/20071011183248/http://clubdevo.com/mp/bio.html

https://kcpr.org/2019/10/21/gut-feeling-an-interview-with-devo-the-band-that-predicted-the-future/
https://www.britannica.com/topic/Devo


sexta-feira, 8 de março de 2024

BILINDA BUTCHER TRANSFORMOU DOR EM POESIA E REVOLUCIONOU O ROCK

 Por Pedrinho Sangrento

Pouco se sabe sobre a vida pessoal da discreta Bilinda Butcher, mas o pouco que sei me prova que ela é alguém que você também deveria conhecer. Bilinda viveu  teve um filho em sua adolescência, de quem ela cuidava sozinha, sem contar com a ajuda de um pai. Isso acorreu antes mesmo de ela se juntar ao My Bloody Valentine. As letras de "No More Sorry", escritas por Butcher são como uma carta muito pessoal de Bilinda ao seu filho Toby, e parecem relatar experiências um tanto traumáticas de seu passado. Numa entrevista, certa vez Bilinda disse: "A terapia da hipnose me fez lembrar de coisas da minha infância que me explicaram o porquê de eu estar vivendo com um parceiro tão abusivo, e eu percebi que muito do que aconteceu na minha infância não deveria ter acontecido nunca. Muito disso aparece nas minhas letras. Muito desse desconforto". 

 

Bilinda foi o ingrediente final na receita que criou uma banda praticamente mitólogica.

A jovem Bilinda foi capaz de transformar memórias dolorosas que ela queria esquecer numa poesia surreal, caracterizada por um toque de mistério e melancolia que enriqueceram o som do MBV e que, em conjunto, formaram a cara da banda. Aliás, não é a toa que o rosto de Bilinda é capa do EP "Feed Me With Your Kiss", de 1988. E essa seria a única (até então) vez em que a banda usaria uma capa com o rosto de um membro aparecendo com tanta nitidez. O My Bloody Valentine conta também com outra mulher incrível, a Debbie Googe, uma baixista à altura de Kim Gordon, cujos movimentos frenéticos que lembram os pioneiros do punk rock, como o MC5 e, além disso, ela tem um look de rockstar dos anos 90 completamente icônico. 

O MBV é uma banda muito importante, pois foi praticamente responsável por criar o que veio ser a segunda onda de shoegaze do começo dos anos 90, e o toque feminino mágico de Debbie e Bilinda com os elementos sonoros brutais como a bateria selvagem com viradas de metralhadora de Colm e a guitarra de serra elétrica melódica de Kevin, em conjuto deram luz a uma das bandas mais autênticas e influentes da década de 80. E o mais importante, vale ressaltar, é uma banda com um rosto feminino. 

Bilinda Butcher é tão importante para o MBV, quanto Debbie Harry para o Blondie, e sua influência continua sendo enorme nos dias de hoje. Ela foi o ingrediente final na receita que criou uma banda praticamente mitólogica. Bilinda, seja lá quem ela é for por trás da sua obra, é uma verdadeira heroína. Definitivamente, uma estrela que brilha no rock and roll.

domingo, 3 de março de 2024

THE STONE ROSES: UM TEMPLO SAGRADO CAPAZ DE ELEVAR QUALQUER CORAÇÃO

 Por Juliana Vannucchi

No final dos anos 80 e início da década seguinte, quando o punk rock já não era mais uma novidade, a cidade de Manchester abrigou uma efervescente onda de bandas de rock que despontavam numa fascinante maré de criatividade. Esse período histórico e as características sonoras dessa geração de grupos emergentes ficou conhecido como “Madchester”. Foi justamente nesse contexto que surgiu o The Stones Roses, grupo formado em 1983, que contava com o talentoso Ian Brown nos vocais, John Squire na guitarra, Mani no contrabaixo e tinha Reni como baterista. 

O primeiro álbum da banda, intitulado “The Stone Roses” foi lançado somente em 1989. Alguns anos mais tarde, em 1994, o quarteto de Manchester presenteou o mundo com o segundo e último disco de estúdio, chamado “Second Coming”. Os integrantes ficaram juntos até meados da década de noventa, quando, por fim, se separaram. Posteriormente, em 2011, anunciaram uma turnê e chegaram até mesmo a produzir novos materiais. No entanto, a carreira da banda nesse retorno não emplacou tanto como quando o debut que chamou a atenção do mundo todo foi lançado. Esse memorável álbum de estreia carrega um total de 11 faixas e possui uma aura imensamente original, cuja musicalidade desvinculava-se tanto do punk rock, quanto do pós-punk, gêneros mais populares do período em que foi gravado. Em função desses diferenciados aspectos criativos e de sua peculiaridade estética, a banda é considerada representante do “alternative rock”, uma vez que foi essencialmente transgressora, escapando dos padrões de sua época e conseguindo aventurar-se em novos terrenos sonoros.

 

Escutar essa banda é uma viagem fantástica, um deleite libertador
 

O “The Stone Roses” é album que possui um carisma atemporal e cativante. Suas melodias grudam na cabeça e fisgam o coração, enquanto os sentimentos melancólicos despejados por Ian Brown soam como um sagrado templo acolhedor. É um disco extremamente qualificado em todos os sentidos possíveis, com variadas influências estilísticas e, em função desse conjunto de elementos, é improvável encontrar alguém que não se encante quando o ouve. Escutar essa obra-prima é uma viagem fantástica, um deleite libertador e repleto de mágica! O ouvinte simplesmente se perde por completo na  experiência sonora profunda das faixas desse apaixonante disco.

Vale citar que a icônica capa desse aclamado álbum chegou, com justiça, a ser eleita pela revista “Q” como uma das "100 melhores capas de discos de todos os tempos". No artigo da “Q” a respeito da arte da capa, o guitarrista Squire, que a criou, revelou: “Ian certa vez conheceu um artista francês quando ele estava viajando pela Europa. Esse cara estava presente em tumultos e contou a Ian como limões foram usados ​​​​como antídoto para gás lacrimogêneo. Havia um documentário com uma ótima cena no início, de um cara jogando pedras na polícia. Gostei muito da atitude dele”. Essa história contada por Squire, não apenas serviu como pano de fundo para a criação da capa do álbum, mas também inspirou uma letra da música "Made Of Stone". 

Essa banda tão inovadora nos deixou como herança um álbum catártico que é capaz de transformar qualquer momento da vida numa experiência atípica e verdadeiramente cinematográfica. O The Stones Roses oferece a trilha sonora ideal para dar sabor a essa existência estranha, que por vezes é tão amarga e indigesta.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

PIXIES: ENTRE O INDIE E O INEXPLORADO

 Por Neder de Paula

O mundo do rock independente foi profundamente marcado nos anos 80 e 90 por uma banda que, mesmo não conquistando inicialmente os holofotes comerciais, moldou o cenário musical com sua abordagem única e visceral. Estamos falando dos Pixies, uma banda que deixou sua marca indelével na história do rock alternativo.

Formada em 1986 em Boston, Massachusetts, os Pixies eram compostos por Black Francis (vocal e guitarra), Joey Santiago (guitarra), Kim Deal (baixo e vocal) e David Lovering (bateria). Desde o início, eles desafiaram as convenções, misturando elementos de punk, surf rock e indie em um som cru e inovador. 

Os Pixies atingiram seu auge com os álbuns "Surfer Rosa" (1988) e "Doolittle" (1989). Faixas como "Where Is My Mind?", "Debaser" e "Monkey Gone to Heaven" tornaram-se hinos do movimento alternativo. A voz intensa de Black Francis, as letras surreais e as mudanças bruscas de dinâmica contribuíram para a singularidade da banda.

 

Os Pixies continuam a influenciar gerações de artistas, com suas contribuições ao rock alternativo reverberando em bandas contemporâneas.

No início dos anos 90, conflitos internos e pressões comerciais começaram a surgir. Após o lançamento de "Trompe le Monde" (1991), a banda entrou em hiato. Kim Deal deixou o grupo, e os membros seguiram caminhos separados.

Houve, no entanto, um retorno triunfal: os Pixies surpreenderam os fãs em 2004, anunciando seu retorno com uma turnê mundial. Em 2014, lançaram "Indie Cindy", o primeiro álbum de estúdio em 23 anos. Embora tenha recebido críticas mistas, mostrou que a chama criativa ainda queimava.

Os Pixies continuam a influenciar gerações de artistas, com suas contribuições ao rock alternativo reverberando em bandas contemporâneas. A fusão de elementos barulhentos, melódicos e poéticos permanece uma referência inegável.

A jornada dos Pixies é um conto de resiliência e reinvenção. Do cenário independente aos grandes palcos e de volta ao estúdio, eles deixaram uma marca indelével. A discografia diversificada e o impacto duradouro atestam que os Pixies não são apenas uma banda, mas um ícone do rock independente que transcendeu gerações. Seu legado, agora entrelaçado com os altos e baixos da vida musical, continua a inspirar e influenciar, perpetuando o espírito inovador que os colocou no mapa musical há décadas.

Audição sugerida (leia-se indispensável)

1. Surfer Rosa (1988)

2. Doolittle (1989)

3. Bossanova (1990)

4. Trompe le Monde (1991) 

5. Indie Cindy (2014)

6. Head Carrier (2016)

7. Beneath the Eyrie (2019) 8. Doggerel (2022)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

METAL: UMA JORNADA PELO MUNDO DO HEAVY METAL

 Por Juliana Vannucchi

Jaquetas de couro, camisas pretas, cabelos longos… esses são alguns dos aspectos visuais que compõe a aparência clássica de uma das tribos urbanas mais presentes e cultuadas do mundo: os metaleiros, ou mais apropriadamente dizendo, os “headbangers”. É comum nos depararmos com eles andando pelas ruas, mas geralmente não conhecemos a cultura que se esconde por trás dessa aparência e, tampouco, costumamos conhecer suas reais influências sonoras e raízes históricas. Em 2005, um antropólogo canadense chamado Sam Dunn, que faz parte dessa tribo urbana, e decidiu realizar um documentário que mostrasse ao mundo a verdadeira face do heavy metal e de seus admiradores e representantes. Dunn se apaixonou pelo gênero musical aos 12 anos e conta que chegou a escutar o disco "The Number Of The Best", 25 vezes num único dia! Desde seu esse contato com o mundo do heavy metal, tornou-se um verdadeiro fã. O documentário de Dunn, de forma geral, foi muito bem recebido em todo o mundo. O antropólogo procurou realizar uma produção que desvendasse as origens históricas desse tipo de música, a ideologia, a cultura, seus efeitos sociais, e também as controvérsas existentes ao redor desse gênero.

O documentário de Dunn desenvolveu-se a partir da seguinte questão:“Por que o heavy metal até hoje é um gênero musical tão descriminado e estereotipado?” Para responder a essa pergunta, o canadense frequentou vários países diferentes e realizou filmagens em shows de bandas clássicas de metal, além de entrevistar seguidores do gênero e aclamadas figuras que formam esse universo. Ronnie James Dio, vocalista das bandas "Dio" e "Heaven And Hell", Tony Iommi, considerado um dos maiores guitarristas da história do rock, Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, e outros grandes nomes do metal, como Tom Araya, Dee Snider e Vince Neil são alguns dos personagens que cederam depoimentos para o produtor. Afim de relacionar esses artistas e bandas dentro de um amplo contexto, Dunn apresenta uma árvore genealógica que explora as vertentes do heavy metal e, assim, a partir desse aspecto vai desenvolvendo e organizando sua pesquisa, enquanto ele próprio narra seu roteiro que é mesclado com depoimentos desses músicos e de fãs do gênero.

Dentro dessa estrutura e em busca de respostas para e questão proposta, o filme é dividido em capítulos que dão uma pincelada por vários aspectos importantes do heavy metal, explorando desde seus primórdios, até o preconceito que existe contra esse universo. Dessa forma, o documentário vai tornando-se cada vez mais completo ao apresentar o amplo repertório de bandas desse meio, além de  assumir um caminho nitidamente bilateral na medida em que aborda de forma imparcial não apenas questões técnicas  e processos de criação sonora de músicas do gênero, mas assuntos mais sombrios e delicados, como, por exemplo, a linha de pensamento e ideologia de bandas de metal que tem afinidade com o satanismo e que, de certa forma, foram responsáveis por firmar um estereótipo já antigo que esse estilo musical e seus seguidores carregam. São discutidos também, assuntos como o machismo presente dentro do gênero, e como se deu, ao longo dos tempos, a inserção das mulheres dentro desse meio. Dunn também questiona ídolos do metal quanto a assuntos gerais, como religião, figurino, e retoma também como uma de suas temáticas, um dos momentos mais memoráveis da história do rock and roll, que foi quando Dee Snider, vocalista da banda Twisted Sister, depôs no Conselho de Pais, que foi criado pelo Senado norte-americano sob comando da reacionária Tipper Gore (esposa do ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore), com a grotesca finalidade de fazer diversas acusasões contra o heavy metal e outros gêneros (Prince e Madonna, por exemplo, também foram considerados imorais e acabaram envolvidos no caso). Nessa ocasião, Snider deixou a mídia, Gore, e todo o Senado boquiabertos com a qualidade e fundamentos de seus argumentos. Foi um dos momentos mais expressivos  e emocionantes da história do rock and roll. Em função desse acontecimento, até hoje, podemos ver o músico como um grande mito do rock e verdadeiro símbolo de resistência. Vale dizer também que esse cenário nos leva a reconhecer a rebeldia que o heavy metal carrega em seu DNA agressivo.


O heavy metal e seus fiéis seguidores sobrevivem e com certeza, sobreviverão com, ou sem esse julgamento.

Apesar de toda a qualidade da produção e da visão ampla que Dunn busca expor, considero que talvez ele pudesse ter valorizado e examinado um pouco mais a fundo a faceta histórica do metal, explorando melhor as bandas que formam o primórdio e as raízes estilísticas desse tipo de música. Possivelmente, a meu ver, isso fortaleceria ainda mais o trabalho do jovem antropólogo. Mesmo assim, o resultado final é incrível, emocionante e apresenta ao espectador o heavy metal como algo apaixonante, como uma espécie mundo paralelo acolhedor que está sempre de portas abertas para que qualquer um possa entrar nele. Independente de qualquer crítica por parte da sociedade ou até mesmo do Senado, o heavy metal e seus fiéis seguidores atualmente sobrevivem e, com certeza, sobreviverão sempre, apesar do constamente julgamento que sofrem, pois, afinal, a paixão musical que nutrem se sobrepõe a qualquer possível obstáculo que esse tipo de música e os headbangers possam enfrentar.

EU BEBERIA COM ESSES CARAS #02 - ANDY & ERON

 Por Juliana Vannucchi

E cá estamos nós, para mais um texto dessa coluna tão importante do Fanzine Brasil, através da qual homenageamos determinados artistas. E dessa vez… eu beberia com Andy e Eron, a fantástica dupla que dá vida ao The Edwoods, duo paulistano de macabrerock. Com certeza, nesse encontro tão especial, eu e os meninos teríamos muitos assuntos sobre os quais conversar e, certamente, daríamos muita risada juntos!! Eu tomaria somente uma água nessa ocasião, mas ofereceria, sem dúvida, boas doses de cachaça para os queridos amigos…

A princípio, iria homenagear a loucura descabida que estrutura a imagem do duo. Esse seria o pontapé inicial do nosso papo, pois, afinal, sempre me questionei: “Como será que Andy e Eron ficaram esquisitos assim? Bem, penso que, ou eles leram muitos livros do Nietzsche ou, então, escutaram muito The Cramps. Caramba! Provavelmente foi a segunda opção porque, acabo de me lembrar que, embora Eron seja um estimado professor de Filosofia, Andy é um péssimo leitor, incapaz até mesmo de assimilar uma simples receita de bolo (ele fica com dor de cabeça quando lê). Por outro lado, sei que o professor Eron, no entanto, nutre uma admiração especial por duas obras brilhantes, escritas por seus escritores favoritos: “O Amor é Um Cão dos Diabos” de Charles Bukowski e “As Intermitências da Morte”, de José Saramago. Aposto que você desconhecia essas referências culturais e literárias de Eron!

Enfim… Considero que certas fusões de referências bizarras deram luz a esse duo incrível que parece ter saído de dentro de um filme de terror trash dos anos oitenta, daqueles gosmentos, sanguinários e que contam com efeitos especiais de segunda mão. Na verdade, seria magnífico se algum cineasta roteirizasse um longa trash e convidasse os meninos para compor a trilha sonora. E aí? Alguém se habilita? 

Isso posto, em nosso encontro eu diria aos rapazes que ambos são muito talentosos. Ressaltaria que eles tocam bem demais e criam músicas perfeitamente alucinantes! Não à toa, os meninos, é válido citar, farão uma turnê internacional em 2024 (o homem genial por trás dessa conquista é o Neri, do Mullet Monster Mafia, Frenetic Trio, Escalpo & etc, que é grande amigo dos meninos). Esse feito, convenhamos, é digno de elogio! Sabemos, afinal, que poucas bandas do universo underground brasileiro conseguem voar tão longe e ter esse privilégio.  


Andy (esq.) e Eron (dir.): A dupla The Edwoods fará uma turnê internacional este ano.
 

Na sequência, iria querer saber um pouco mais sobre a história de vida de cada um dos Ed boys. Sei que eles nasceram na capital paulista e se conheceram durante os anos noventa, de uma maneira bastante inusitada: nesse período, tocavam em bandas rivais. Andy, sempre vestido com uma jaqueta de couro legítimo, surrado numa calça jeans justa e com cabelos longos na altura dos ombros, tocava numa banda de heavy metal e Eron, por sua vez, vestido em trajes discretos, era guitarrista de uma banda de rock nacional, daquelas com letras engajadas e ritmos fáceis (mas não era o Jota Quest rs). As bandas competiam em diversos festivais e, de acordo com Andy, depois de Eron perder tantas competições, o pobre guitarrista rendeu-se pediu pra tocar com ex-rival. Eu sei que essa história é verdadeira, mas iria querer mais detalhes a respeito de tais circunstâncias… 

Além desses assuntos, conversaria muito com o Andy sobre futebol. Na verdade, isso seria somente uma extensão de um papo que, com certa frequência, já faz parte das mensagens que trocados de vez em quando. Nós dois somos palestrinos e carregamos conosco, além da paixão pelo rock, esse outro gosto em comum. Somos fãs de Ademir da Guia e Edmundo, sendo este último, um jogador que, conforme costumamos dizer é “uma versão futebolística esdrúxula do Sid Vicious”. Justamente por isso, é nosso ídolo esportivo. 

Também perguntaria aos rapazes algo que sempre me intrigou: Como será que o Andy consegue tocar bateria e cantar daquele jeito? Na verdade, recentemente ele me revelou que está pensando em comprar um desfibrilador para levar aos shows porque anda meio sem fôlego.

Essa bebedeira com Andy e Eron seria uma celebração verdadeiramente dionisíaca, ou seja, seria repleta de caos, loucura e irracionalidade, tal como é a própria banda! O The Edwoods merece ser honrado por sua valiosa contribuição para a perpetuação do bom e velho rock and roll, que eles tocam com maestria! Vida longa a esse duo expecional!



TOP 5: LENDAS DO ROCK QUE SE ENVOLVERAM COM O CINEMA

Por Juliana Vannucchi

Ao longo do tempo, alguns dos maiores expoentes do rock se aventuraram, e outros vêm se aventurando na onda de escrever roteiros, produzir filmes e atuar. Será que esses músicos, realmente mandam bem além dos palcos? Você confere agora uma listinha caprichada na qual mostramos alguns dos maiores destaques do rock and roll que deixaram sua marca também no universo da Sétima Arte… Convenhamos que essa lista está bem simples porque, para nossa felicidade, a história do cinema está recheada de muitas outras participações além das que estamos menciomnando aqui. O lendário Lemmy Kilmister, por exemplo, marcou presença no filme "Os Cabeças de Vento". Dave Grohl, líder do Foo Fighters, interpretou um demônio no longa "Tenacious D". Já o Flea, virtuoso baixista do Red Hot Chili Peppers, apareceu no filme "Psicose", do aclamado Gus Van Sant. Prince, participou de "Purple Rain" e David Bowie, é claro, merece uma menção honrosa e uma atenção especial aqui por ter estrelado vários filmes e ter encarnado personagens memoráveis em produções como "Labirinto", "O Homem Que aCaiu na Terra" e muityas outras. Feitas essas considerações, vamos lá...  

1- Bruce Dickinson (Iron Maiden) –  CASAMENTO QUÍMICO

O mais aclamado dos vocalistas do Iron Maiden escreveu o roteiro e produziu a trilha sonora de "The Chemical Wedding" (em português “Casamento Químico”), que tem sua história centrada na vida de Aleister Crowley, famoso ocultista britânico. Aliás, muitos músicos do rock and roll já prestigiaram Crowley em algumas canções. O filme tem seus méritos pena trilha sonora e ajuda a compreender um pouco melhor a vida dessa misteriosa lenda que foi Aleister Crowley. Mas vale dizer que apesar de toda a fama de Bruce e do Iron Maiden, infelizmente, a produção não foi muito popular no Brasil…

 2- Bret Michaels (Poison) – CORREDOR DA MORTE

Lançado em 1998, o filme narra a história do personagem Michael, que escreve sua versão sobre o assassinato de sua namorada, crime do qual se jura inocente e pelo qual foi condenado à morte. A trama evolui dentro dessa tensão e conta com uma boa pitada de suspense! Esse agradável longa foi dirigido e roteirizado por ninguém mais, ninguém menos, do que um dos mais renomados vocalistas do rock and roll, Bret Michaels, que cantou na glamourosa banda Poison. Além de ter sido diretor do filme, o músico, em outras ocasiões, também já deixou sua marca no cinema como ator.


 3- Pete Townshend (The Who) – TOMMY 

Pete Townshend, o aclamado guitarrista do The Who, ajudou o diretor Ken Russell a produzir "Tommy", baseado na Ópera Rock que a banda lançou em 1969. O trabalho de Townshend foi muito bem feito, e o filme chegou a receber premiações no Globo de Ouro, e receber indicações ao Oscar. Com certeza o músico poderia ter seguido carreira de roteirista, pois antes mesmo de trabalhar nessa produção, já criou um álbum ("Tommy") que equivale genuinamente por uma obra literária! Vale a pena conferir o musical de Pete Townshend, que consiste numa obra psicodélica e totalmente fantástica.

 

Cena do filme "Tommy".
 

4- Nick Cave (Nick Cave And The Bad Seeds) – OS INFRATORES

O músico australiano é conhecido por compor canções sombrias e melancólicas. Para quem gosta de seu estilo sonoro, "Os Infratores" é um prato cheio. O longa reflete muito bem o espírito musical do cantor. Cave obteve enorme reconhecimento por seu trabalho em "Os Infratores". Se você é fã do músico, não deixe de conferir esse filme!

 5- Slash – Guns n’ Roses - BOCA DO INFERNO

O envolvimento do guitarrista Slash com o cinema é tão grande, que o roqueiro possui até uma empresa de filmes chamada “Slasher Films”. Sua primeira participação como produtor foi na obra de horror "Nothing Left To Fear" (“Boca do Inferno” em português), lançada em 2013. Em entrevista ao " Pulse Of  Radio", o lendário guitarrista comentou: “Produzir um filme é definitivamente mais complexo… Isso é um processo demorado, conseguir o dinheiro necessário é muito difícil, porém, eu realmente gostei disso, já que eu tenho uma grande paixão por aquilo que quero fazer dentro do longa e, ademais, eu adoro estar envolvido no processo de desenvolvimento, encontrando as pessoas certas, conseguindo e reunindo todos os componentes necessários para almejar fazer um grande filme, sabe?"

"Nothing Left To Fear" é um terror que, infelizmente, está longe de ser uma obra-prima, apesar de poder dar um ou outro susto. Mas… tendo as mãos de Slash na produção, com certeza vale a pena conferir!

 

Slash é um grande fã da Sétima Arte.

 

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