Fanzine Brasil

terça-feira, 28 de maio de 2019

GUYRA PEPO:

 Por: Juliana Vannucchi
Fotos: Evandro Messias

No dia 24/05, na companhia de meu querido amigo Evandro Messias e do atencioso motorista e companheiro de aventuras Levi Marcelo, vivenciei uma experiência magnífica e inspiradora na aldeia Guyra Pepo, localizada na cidade de Tapiraí, no interior de São Paulo. Não foi a primeira vez que tive contato com índios, mas certamente foi ocasião mais especial que já passei ao lado deles. Foi um dia imensamente interessante e enriquecedor do qual colhi conhecimentos muito positivos.

Abaixo, com imensa satisfação, compartilho com os leitores parte desse aprendizado obtido, provindo tanto a partir de diálogos que estabeleci diretamente com os índios (especialmente com William, um dos lugares da aldeia), quanto de uma conversa frutífera que tive Caio Saviolo, um jovem e dedicado jornalista que trabalha voluntariamente para ajudar os índios Guarani Mbya.
Até meados de 2018, a aldeia Guyra Pepo vivia no Pico do Jaraguá, nas proximidades de Jundiaí e São Paulo. Porém, nesse referido ano, foram deslocados dessa localidade porque a Rodoanel desejava aumentar sua área de funcionamento e, desde então, grande parte da aldeia está instalada em Tapiraí. Esse deslocamento foi devidamente legalizado e a cidade foi escolhida pelos próprios índios. Entretanto, note-se que o fato deles deixarem o ambiente em que viviam, não foi uma escolha. Desde que se mudaram para essa nova cidade, passaram a enfrentar certas dificuldades cotidianas no que diz respeito ao processo de adaptação e reestruturação. Caio Saviolo contou que: "Antes eles viviam de assistencialismo e agora não recebem nada". O voluntário que acompanha os índios há quase um ano, também comentou que mesmo diante dessa dificuldade em relação ao novo ambiente que ocupam algo muito importante e positivo ocorreu: Houve um grande interesse da comunidade de Tapiraí e da região em relação á tribo: "Nós percebemos que há um apelo social. Muitas pessoas têm interesse em ajudá-los e conhecê-los". Isso tem sido de grande valia para os índios que não possuem mais uma renda fixa e também, infelizmente, vivem num terreno no qual há muitos eucaliptos, fato este que dificulta muito a prática de plantio e, consequentemente, se torna um empecilho para a reestruturação da aldeia.

“Deve haver um momento pra mente, corpo e espiritualidade”.
Mas mesmo mediante essa rotina nova e um tanto incerta e conturbara, nota-se que os índios preservam sua postura guerreira e otimista. No dia-a-dia, sempre de maneira coletiva e determinada e dentro desse cenário, mantém ativamente seus hábitos culturais ancestrais - varemos alguns deles na sequência. Entre si, comunicam-se na língua Guarani da qual, aliás, muito se orgulham em ter conservado. Mas apesar da imensa valorização de sua própria língua, comentaram que fazem questão de que as crianças aprendam bem a língua portuguesa. Disseram-me que ela faz falta para muitos adultos que não tiveram oportunidade de estudá-la. Atualmente as crianças da aldeia frequentam escolas municipais e estaduais. Entretanto, antes de viveram em Tapiraí estudavam numa escola bilíngue através da qual sua própria cultura era valorizada - é claro que há um esforço e grande desejo por parte dos índios para que esse tipo de ensino seja colocado em prática novamente, mas por hora, não há previsão para que isso aconteça (e aqui está mais um desafio enfrentado pela aldeia).

Durante experiência, conforme mencionado anteriormente, conversei com William, que é um dos líderes da aldeia. É um indivíduo doce e comunicativo, uma espécie de "porta voz" dos índios. William, gentilmente contou-me bastante sobre sua cultura, e pacientemente respondeu as perguntas que fiz. Compartilhou, por exemplo fatos curiosos em relação aos hábitos alimentícios dos membros da aldeia Guyra Pepo: alguns dos animais dos quais se alimentam são a anta, o tatu, o porco do mato e alguns outros. Também disse que se comem nambu de vez em quando. Além disso, a tribo tem o peixe como um de seus principais alimentos, porém, nas circunstâncias atuais, eles não têm condição de comprar e também não encontram rios propícios para pesca. Da sua culinária, também fazem parte os alimentos não perecíveis tal como arroz, feijão, macarrão e alguns outros. Costumam comprar ingredientes como farinha de trigo, da qual fazem um pão tradicional que é diferente do que costumamos comprar em padarias. E William também contou que estão plantando milho e mandioca, muito embora, infelizmente, o primeiro alimento citado não tenha se desenvolvido adequadamente u no solo local. Além disso, ele fez questão de explicar que a caça não é uma atividade que ocorre com tanta frequência, pois eles tem uma enorme preocupação com a natureza que, atualmente, se encontra ameaçada.
Há muitos outros aspectos culturais aldeia Tekoa Guyra Pepo que merecem ser explorados
Em certo momento, perguntei ao William a respeito de sua religião. Prontamente, ele respondeu que a palavra "religião" não faz parte do vocabulário deles e que aquilo que existe e faz sentido para a aldeia é a "espiritualidade". Eles possuem uma divindade suprema chamada Nhanderu que, de acordo com ele, de certa forma corresponde ao que chamamos de Deus. Contou que na tribo há sempre um período do ano (que dura seis meses) dedicado ao recolhimento e, nessa época, os índios descansam, meditam e trabalham suas espiritualidades. Disse ainda que a sociedade civilizada não costuma fazer isso e, como consequência da ausência desse tipo de prática, muitas pessoas se deprimem e sofrem de ansiedade. Conforme ele declarou: "Deve haver um momento pra mente, corpo e espiritualidade". Esse "recolhimento" anual consiste num momento dedicado para a própria pessoa, para cuidados com o corpo e com a mente. Ao longo desses seis meses, eles utilizam os alimentos providos do plantio, que são anteriormente colhidos e estocados. Ainda em relação a esse assunto, William também contou que há um local específico na aldeia no qual uma espécie de "curandeiro" local prática uma limpeza espiritual nos índios da aldeia. Quando conversei com Caio Saviolo, ele disse que a espiritualidade é de suma importância para aldeia e: “Eles não a encaram como algo diferente do dia-a-dia. Ela está presente e é sentida em todos os momentos, é parte intrínseca de todos os momentos que vivemos .”

Outro ponto que considero muito interessante citar é a questão do "intercâmbio de conhecimento", que corresponde a um deslocamento feito entre os índios brasileiros, no qual uns visitam as aldeias dos outros para se conscientizar sobre suas respectivas situações - caso haja algum tipo de problema (seja geográfico, social ou, enfim, qualquer outro) eles procuram se unir e se fortalecer. William me contou orgulhosamente sobre isso e nesse momento da conversa, acrescentou ainda que acompanha o atual cenário político e está bastante preocupado com os cortes na educação, que estão sendo propostos por Jair Bolsonaro. Disse que é contra esse ato e que se precisar, participará de manifestações em nome da aldeia.

Embora esses índios recebam apoio constante, tanto por parte dos moradores de Tapiraí, quanto de pessoas de outras regiões, o choque cultural entre os indígenas e o "homem branco" é uma realidade. A esse respeito, Saviolo comentou: "O estilo de vida deles é muito diferente do nosso. Quando as mulheres estão menstruadas, por exemplo, elas tocam em jejum. Praticamente só tomam água e não ingerem açúcar. Na escola, isso gera certo problema, pois os funcionários observam que as meninas se alimentam de maneira diferente e, aparentemente, estranham esse hábito". Além disso, durante minha visita na aldeia, escutei um índio comentar que acha muito importante que haja um contato entre o homem branco e a aldeia, pois essa é uma oportunidade em que os índios podem compartilhar seus conhecimentos e cultura e desmistificar muitas coisas inverídicas que dizem a respeito deles.

Há muitos outros aspectos culturais aldeia Guyra Pepo que merecem ser explorados. Espero que futuramente eu tenha mais experiências valiosas e únicas como essa que me proporcionou tanto conhecimento e profundas reflexões.

Abaixo seguem alguns registros fotográficos da visita feita à aldeia. Todas as imagens foram feitas pelo fotógrafo Evandro Messias.







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