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sábado, 15 de dezembro de 2018

ENTREVISTA COM MARY D'NELLON, DO VIRGEN PRUNES:

Por: Vannucchi e Marinho
Mary D’Nellon é um músico irlandês que se destacou por sua marcante passagem como baterista de uma das bandas mais excêntricas da história, o Virgin Prunes. Ele bateu um papo com o Audiograma e nos contou algumas coisas incríveis de sua trajetória musical.


1. Como você entrou para o Virgin Prunes? O que você estava fazendo antes de entrar para a banda?

Quando eu tinha 16 anos eu vi o Virgin Prunes apoiando o The Clash e achei eles bem legais – especialmente para uma cidade pequena como Dublin. Depois disso, fui em todos os shows da banda e como Dublin era uma cidade pequena, comecei a encontrá-los em cafés e apresentações. Eles eram completamente diferentes de qualquer um que eu tivesse conhecido – alheios, arrogantes e aterrorizantes.

Eu comecei uma banda chamada System X na qual eu era o guitarrista. Nós fizemos uma boa quantidade de apresentações em Dublin e o Virgin Prunes foi nos assistir algumas vezes. Eu fiz amizade com eles, especialmente com o Gavin. Então quando eles demitiram o Bintti do grupo antes do New Form of Beauty, o Gavin me ligou e perguntou se eu poderia entrar na banda como baterista. Eu nunca havia tocado bateria, mas seis semanas depois desse telefonema, já estava nos palcos.

2. Como foram as gravações do álbum …If I Die, I Die?

Algumas músicas como “Caucasian Walk” já eram meio antigas e nós estávamos muito ansiosos por finalmente poder gravá-las. Já outras faixas como “Baby Turns Blue” e “Bau-dachong” eram novas. Nós tivemos a ideia para dois lados diferentes do álbum antes de gravar que refletia em como eram nossas apresentações.

Colin Newman não foi nossa primeira escolha como produtor, mas Nick Launay (que produziu “Pagan Lovesong”) não estava disponível. O Colin Newman não compreendeu muito bem qual era nossa pegada – pense nas camadas múltiplas de som com as quais ele costumava trabalhar em materiais como “Ulakanakulot” e etc. Mas nós não estávamos realmente muito contentes com “Caucasian Walk”, “Walls of Jericho” e todas as músicas do ‘blue side’ do álbum. Houve muito conflito no estúdio… Gostaria que tivéssemos trabalhado com outro produtor.

Quando eu vejo os vídeos da gente tocando “Caucasian Walk” naquela época, penso que uma abordagem mais direta teria sido melhor. Mas fora isso, como uma banda, estávamos muito felizes com o que estávamos criando na época.

"Ninguém no Virgin Prunes tinha qualquer tipo de educação formal em matéria de música ou arte, tudo o que fazíamos era instintivo, não havia regras".
3. A maior parte das pessoas taxa o Virgin Prunes como sendo uma banda gótica. Você concorda com esse rótulo? Você era ou é gótico?

Como eu disse, o Virgin Prunes estava fazendo apresentações em 1978 – muito antes de qualquer um falar sobre música gótica. Havia muitas imagens religiosas em que nos interessávamos, mas também havia interesse pelo dadaísmo e surrealismo e ouvimos todos os tipos de música, sendo que todas essas coisas influenciam a criação, mas nunca quisemos soar como outra banda ou fazer parte de qualquer movimento.

Obviamente, houve um ponto em que muitas pessoas que chegavam aos nossos shows tinham um certo “visual” e gostavam dos elementos mais “góticos” do grupo. Nós tocamos com bandas como Sisters of Mercy, Southern Death Cult … Mas não sentimos que tivéssemos algo de particular em comum com essas bandas. Nunca pensei em mim mesmo como gótico ou qualquer outra coisa.

4. Quais foram as principais influências e inspirações da banda?

Muito variadas. Éramos influenciados tanto pelas pessoas ao nosso redor quanto por filmes que assistíamos e livros que líamos… os sentimentos, as vibrações que usamos para obter essas fontes foram traduzidas para músicas, sons, imagens ou shows. Provavelmente não será uma surpresa para ninguém ouvir que todos amamos Bowie, Iggy, Roxy Music, The Velvets. Eles certamente foram chaves para nós querermos fazer música, mas nunca quisemos “soar” como qualquer outra pessoa. Punk foi o catalisador que fez todos nós sentirmos que poderíamos sair e fazer música.

5. Que tipo de efeito você acha que o Virgin Prunes causa nas pessoas? O que os levou a fazer músicas tão peculiares e artísticas?

Tenho sorte, porque eu vi a banda antes de eu estar na banda, então eu sei exatamente o tipo de efeito que o Virgin Prunes pode ter sobre as pessoas. Eu acho que as pessoas que vieram para nossos shows geralmente sentiram como senti quando vi a banda pela primeira vez. Que tudo é possível, que tudo o que você acha que é “normal” ou “esperado” não precisa ser assim. Que se você tiver coragem e imaginação, você pode criar seu próprio mundo e viver sua vida do jeito que quiser. Nada nos levou a fazer esse tipo particular de música. A combinação de personalidades significava que tinha que ser assim. Ocorreu naturalmente, organicamente.

6. O Virgin Prunes tem uma aura muito peculiar. Por que você acha que a banda conseguiu criar uma atmosfera tão diferente?

Há muitos elementos diferentes que entraram no Virgin Prunes. Onde crescemos, nossas frustrações, nossa imaginação. Dublin não era um lugar fácil de se viver se você fosse “diferente” naquela época. Encontramos uma família nas pessoas do Virgin Prunes e nas pessoas ao redor da banda e isso nos permitiu nos expressar. Então, nós tínhamos um vínculo comum, mas nós éramos muito diferentes em muitas maneiras e dessa mistura fez algo único. Não havia formalidade. Ninguém no Virgin Prunes tinha qualquer tipo de educação formal em matéria de música ou arte, tudo o que fazíamos era instintivo, não havia regras.

7. Qual é a melhor memória que você tem de sua participação na banda?

Tocar ao vivo. Houve alguns shows incríveis que fizemos – antes do “…If I die, I die” quase todos os shows eram como um evento especial – preparamos cada show de forma diferente, escrevemos peças especiais, criamos visuais e etc. Tivemos que comprar cabeças de porcos, peixe, todo tipo de coisas. Nós pedimos emprestados móveis e preparamos o palco com sofás e TV’s. Havia folhas, manequins, pedaços de árvores… Quando estávamos em turnê, isso já não era possível, mas, mesmo assim, cada show tinha uma energia diferente, o público reagia de forma diferente e o sentimento entre os músicos era diferente… Não pude escolher um concerto, mas com certeza, havia algo de especial quando Guggi e Dik estavam no Virgin Prunes e eu estava atrás deles.

8. Quais são suas bandas favoritas e o que você gosta de fazer além da música?

Eu não penso mais em termos de ‘bandas’. Eu escuto a música que eu gosto. Eu transito, então eu apenas escuto uma música e, se eu quiser, eu continuo ouvindo. Como eu disse Bowie, Lou Reed, etc. sempre fizeram parte da minha vida. Além da música, gosto de sair em Paris, é um lugar agradável para viver.

9. Como eram as apresentações da banda e de onde vocês tiravam esses elementos e comportamentos teatrais?

Essa parte teatral veio do Gavin e do Guggi, eles foram influenciados por artistas de performance como Nigel Rolfe que fizeram coisas muito estranhas, além de terem sido influenciados por filmes como Nosferatu ou Onibaba, teatro como Bertolt Brecht e pessoas cujos maneirismos e gestos achavam legal. Ambos pintavam e o lado visual do grupo sempre foi importante – eles pensavam muito na maquiagem, roupas, capas de álbuns … A resposta foi às vezes violenta no início. Em Dublin, as roupas que Virgin Prunes usava e a música que tocávamos eram muito provocativas para algumas pessoas. Mais tarde, a violência não era um problema, mas o público poderia reagir de maneiras muito diferentes.

Às vezes, haveria silêncio e as pessoas nos diriam depois do show: “Nós adoramos, mas não achamos apropriado bater palmas”. Outras vezes, haveria tumultos próximos: o público na Itália, por exemplo, era muito emocional! O palco não era muito preto e branco – as pessoas podiam interpretar as coisas de maneiras diferentes. Foi o que fez as pessoas reagirem de forma diferente, acho que as pessoas estavam imaginando sua própria história e achamos que nos comunicávamos pessoalmente com elas – acho que essa é uma das coisas que nos tornaram especiais.

10. Como foi a transição de ser guitarrista e depois baterista?

Como eu disse antes, comecei tocando guitarra, então não foi um problema. Eu adoro tocar e escrever músicas. Agora não toco mais bateria, nunca. Para ser sincero, eu preferi o Virgen Prunes com o Dik na guitarra.

11. Há alguma banda atual que você escute?

Conforme eu disse, na verdade não “sigo bandas”. Só procuro música que eu gosto. Semana passada eu vi uma banda chamada My Great Blue Cadillac, eles eram bem legais.

12. Você poderia nos contar sobre The Prunes, o projeto que você teve com Strongman e Busaras? Você faz parte de alguma outra banda depois desta?

O The Prunes foi uma reação pelo fato de o Gavin ter deixado a banda. Nós passamos por um período muito difícil e estávamos prestes a fazer uma turnê pelos EUA e Japão. Gavin apareceu e simplesmente disse que não queria ir. Estávamos devastados e nos sentimos pessoalmente traídos. Essa é a razão pela qual mantivemos parte do nome. Isso provavelmente não era uma boa ideia porque queríamos fazer algo diferente – obviamente, não podíamos fazer shows ou produzir discos como Virgin Prunes quando havia apenas nós três.

Não estávamos muito concentrados – não havia um líder como o Gavin para guiar o grupo. Não me sinto muito feliz com o que fizemos, acho que há algumas boas músicas, algumas boas ideias, mas nunca encontramos nossa própria identidade. Dito isto, acho que a música que fizemos é melhor do que a música que Gavin fez desde que deixou Virgin Prunes ;-).

Eu nunca quis estar em outra banda. Eu escrevi música para filmes e séries de televisão aqui na França – ainda adoro fazer música.

13.Você ainda tem contato com os membros da banda?

O Strongman esteve em Paris na semana passada. Ele e o Dave-id são como uma família pra mim. Eu troco mensagens com o Gavin, mas não falo com Guggi ou Dik há anos. Eu ainda amo todos eles. Foram anos muito especiais que passamos juntos e o Virgin Prunes sempre serão uma parte de mim. 

* Texto anteriormente publicado em: http://www.audiograma.com.br/2018/05/interrogatorio-mary-dnellon/

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