Fanzine Brasil

SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

sábado, 29 de maio de 2021

CONHEÇA O PRIMEIRO EP DA BANDA MADREPEROLA

Por: Juliana Vannucchi

A banda Madreperola, que conta com Sidan Rogozinski, compositor, vocalista e multi-instrumentista; Fabi Bellentani, vocalista, mixagem e composição; e Rafael Santos, responsável pela guitarra e pelo violão, finalmente abriu-se ao mundo com o lançamento de seu EP de estreia intitulado “Prefácio”, que conta com um total de quatro faixas originais e um cover da música “Call Me”, do Blondie. Além dos três membros originais da Madreperola, o debut também contou com a participação do icônico grupo de Rap sorocabno “X da Questão”, composto por Carlo Rappaz, Don Berto, Messias e DJ R. Jay. Outro grande nome que fez uma ponta no EP foi Kuky Sanchez, baixista da banda Pedra Letícia, que toca na faixa “Tirei a TV da Sala”.

O principal elemento que encontramos presente em todo o percurso do “Prefácio”, que cria a sua identidade e assegura sua elegância musical, é o experimentalismo, que a todo instante conduz o ouvinte a rumos sonoros surpreendentes, pois em alguns momentos, quando parece que sabemos o caminho que as faixas seguirão, ocorre uma criativa ruptura instrumental ou melódica. Esse aspecto é definitivamente o ponto mais forte do EP e é construído com maestria pelo talentoso trio que, apesar de ter sido formado tão recentemente, demonstra ter uma enorme harmonia. Além disso, outro ponto digno de menção são as letras que, em partes, consistem em lampejos sentimentais e, por vezes, tornam-se engajadas, esbarrando em problemas de cunho urbano e social. 


Em sua totalidade, o EP soa de maneira singular por sua criatividade inventiva

 A criação do “Prefácio” possui em seu núcleo ideologia “DIY” e, a esse respeito, Sidan comenta: “É um EP sincero, feito apenas com o que a gente tem. Tirando a masterização, todo o processo foi feito por nós mesmos. Inclusive o clipe! Então, o resultado é autêntico e nos representa totalmente. DIY até a medula”. O músico também nos contou a respeito da inspiração para o título e para capa do EP: “Prefácio é bonito e dá ideia de continuidade, de que é apenas um começo. E é exatamente isso que queremos, continuar fazendo música. A capa é uma foto do artista aluminense Adriano Ávila, que faz um trabalho incrível. E o design foi do talentosíssimo Paulo Bova, de Indaiatuba, que também desenvolveu nosso logo”.

Em sua totalidade, o EP soa de maneira singular por sua criatividade inventiva que o torna brilhante e original. Abaixo, você confere uma análise de todas as faixas do álbum.

Mira:

A música de abertura chama-se “Mira”. Até certo ponto, a atmosfera dessa faixa parece surgir de uma mistura ousada de Pós-punk e Indie. Contudo, em certo momento ocorre uma ruptura desse clima e, então, o ouvinte se depara com a participação de dois rappers. Destaque para as excelentes linhas de guitarra que garantem um ritmo incrível à canção.

Quatro:

A sutileza da segunda música, em essência, contrasta com a faixa inaugural do EP. O duo vocal encanta o ouvinte com a harmonia doce de suas vozes que, aqui, insere, na medida, uma dose de melancolia no álbum.

Tirei a TV da Sala:

A música possui uma estrutura diferente das duas primeiras faixas. Percebemos uma guitarra bem acentuada e tocada com maestria que praticamente se torna o guia condutor dos vocalistas que, novamente, fazem um dueto fascinante com suas vozes celestiais.

Espirais:

Até um determinado trecho, a faixa se modifica e retoma a atmosfera mais sutil da segunda música. Porém, em certa parte, ela trilha um caminho um pouco diferente e  remete às bandas clássicas do Krautrock, que se aventuravam em suas inventividades, fazendo de suas produções um verdadeiro laboratório musical!

Acompanhe a banda nas redes sociais:

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Instagram:

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Escute o EP nas plataformas digitais:

https://album.link/msvdmp3d3vbvz



segunda-feira, 24 de maio de 2021

A ICÔNICA LORA LOGIC E SUA COLABORAÇÃO CRIATIVA AO PUNK ROCK

 Por: Juliana Vannucchi

A saxofonista, cantora e compositora britânica Lora Logic ficou em evidência durante os anos setenta, no período de eclosão punk inglês. Sua notoriedade se deu principalmente pela passagem que teve na prestigiada banda X-Ray Spex, na qual permaneceu por pouco tempo, até deixar o grupo devido a algumas desavenças com a vocalista Poly Styrene que, aparentemente, se incomodou com tantos holofotes voltados para Logic. Essa foi certamente uma das rupturas mais decepcionantes do cenário punk da época, pois a dupla era simplesmente fantástica nos palcos e suas apresentações criativas deixavam a plateia fascinada. A conceituada e talentosa baixista Gina Birch, da banda The Raincoats, prestou um breve depoimento para um livro biográfico sobre Poly, lançando em 2021, no qual mostrou seu apreço pelo dinamismo sem paralelos de Lora e Poly nos palcos: “Quando a Lora tocava com ela era incrível. É triste que ela não tenha permanecido”. Birch, nesse mesmo texto, também disse estar ciente da pressão existente quando garotas se unem para formar uma banda, aspecto que, segundo ela, provavelmente pesou de alguma maneira par que Logic deixasse o grupo.

Apesar de ter saído da banda de uma forma tão precoce, sua colaboração musical foi legada no lendário disco “Germfree Adolescents”, que utilizou arranjos criados pela saxofonista. De qualquer forma, mesmo distante do X-Ray Spex, a carreira musical de Lora Logic foi frutífera, seguiu em alta e, ao longo do tempo, além de ter dado vida a um elogiável projeto musical autoral chamado “Essential Logic”, a saxofonista também gravou e contribuiu com grandes bandas como The Stranglers, com a própria The Raincoats e também com Boy George.

 

Lora Logic foi uma das mulheres mais criativas da era punk

Lora foi uma das responsáveis por oferecer novos ares ao universo punk, pois ao inserir o saxofone nas músicas da banda X-Ray Spex, desviou esse gênero musical de seu caminho sonoro embrionário e tipicamente tradicional, garantindo-lhe uma aura inovadora e abrindo as portas para experimentos e possibilidades. Não á toa, Lora se tornou uma das mulheres mais icônicas do punk rock britânico. Felizmente, parece a saxofonista está ativa e trabalhando em material novo. Aguardaremos ansiosamente pelas novidades!


O ELETRO-PUNK REVOLUCIONÁRIO DO SUICIDE

  Por: Juliana Vannucchi

O Suicide surgiu em meio ao agito da proeminente cena nova-iorquina dos anos setenta e logo se destacou nesse meio por sua incrível singularidade musical. A banda se tornou um dos maiores nomes do Protopunk e, consequentemente, foi fundamental para a solidificação do Punk Rock, uma vez que inspirou algumas das maiores lendas desse gênero musical. Suas músicas sombrias, arquitetadas a partir de atmosferas claustrofóbicas e de brilhantes minimalismos eletrônicos continuam sendo uma grande inspiração e ainda cativam muitas pessoas. O duo obteve sucesso e reconhecimento, especialmente devido à inventividade engenhosa com que utilizavam seus aparatos eletrônicos e pelos efeitos criados em seus sintetizadores, cuja sonoridade incomum casava perfeitamente com a voz única e sublime de Vega. O Suicide esteve presente na eclosão do Protopunk e do Punk, mas não pertence exatamente a nenhum desses dois universos. Suas músicas se rebelaram contra qualquer paradigma e, por isso, podem ser justamente caracterizadas como uma verdadeira vanguarda.

 

O Suicide em ação

 

UM SANDUÍCHE PARA O DUO E UM MARTELO NA CABEÇA DE VEGA...

A história do Suicide começou em 1971 quando Alan Vega, nascido no Brooklyn,  envolveu-se com esculturas e experimentos eletrônicos que o levaram a participar do Project of Living Artists, uma oficina localizada no centro de Nova Iorque. Por acaso, nesse mesmo dia, o jovem Martin Rev entrou nesse mesmo lugar para escapar de uma  chuva torrencial. Esse estranho e ocasional encontro que a Fortuna articulou foi responsável pelo surgimento de um dos projetos musicais mais singulares e inovadores de todos os tempos. Há uma certa lenda em torno da banda, segundo a qual Vega era apaixonado pelo HQ “Ghost Rider” e uma das edições desse comic book chamava-se justamente “Suicide”, sendo essa, portanto, a fonte de inspiração para o nome do projeto musical da dupla. Mas muitos contestam essa história. Enfim, independentemente da origem do nome, o fato é que após o primeiro encontro, o duo logo começou a se apresentar em galerias locais.

Mas quando Vega e Rev começaram a fazer música, eles estavam vivendo uma situação financeira extremamente apertada. Chegaram a passar fome nesse período e houve ocasiões em que passaram o dia à base de um único sanduíche para os dois. Devido a essa circunstância, eram incapazes de comprar os instrumentos que queriam e dos quais precisavam para colocar suas ideias em prática. Dessa forma, começaram a fazer suas músicas no único instrumento que estava disponível naquele momento: um teclado Wurlitzer de 10 dólares de Rev. A esse respeito, Vega comentou numa entrevista concedida ao The Guardian: “Por muito tempo, não tínhamos músicas como tais, então, Marty chutava repetidamente seu teclado e eu batia no suporte do microfone com uma garrafa quebrada ou fazia uns ruídos horríveis saírem de uma trombeta. Então passei a gritar e, eventualmente, isso me levou a escrever letras de verdade”.

Os geniais Rev e Vega

Durante muitos anos, os shows do Suicide foram repletos de selvageria. Intervenção política e uso de gás lacrimogêneo eram coisas corriqueiras, assim como era comum que o público arremessasse objetos na dupla, tais como moedas, sapatos, cinzeiros e copos de cerveja. Mas houve episódios mais sérios, em que jogaram um machado na direção do vocalista, assim como certa vez arremessaram uma chave inglesa. Rev, a respeito dessa habitual brutalidade presente nos shows, certa vez, brincou: “A única reação que não tivemos foi ser atacado por lobos. Mas isso é só porque você não tinha permissão para levar lobos para clubes”. Por sua vez, sobre esse ameaçador caos sempre presente nos shows, Vega contou: “Comecei a carregar uma corrente de bicicleta no palco, pensando, se você não consegue vencê-los, junte-se a eles. Se a violência ficasse muito feia, o que eu poderia fazer era quebrar uma garrafa e começar a cortar o meu rosto. Isso pareceu ter um efeito calmante na multidão. Eu acho que eles raciocinaram que eu estava tão doido que nada que eles fizessem poderia me incomodar. Eu descobri uma maneira de tirar muito sangue, mas sem ficar com cicatrizes pelo resto da vida. Eu era uma bela arte. Outra coisa que fiz foi trancar as portas de saída para que ninguém pudesse escapar!”. 

Estranhamente, no entanto, houve um período em que a atitude do público simplesmente mudou: a plateia começou a dançar embalada pelo peculiar e hipnótico som do Suicide. Rev, ironicamente disse que quando percebeu isso, pensou: “Estamos acabados. Nossa carreira terminou”.

O MÍTICO ÁLBUM DE ESTREIA:

A postura do público se alterou e a banda passou a ter condições de incrementar suas composições e amadurecer suas músicas, pois em 1975, o duo finalmente adquiriu um outro instrumento. Rev investiu uma quantia de dinheiro numa caixa de ritmos dos anos 50. Dois anos mais tarde, assinaram com um discreto selo francês chamado Red Star. O primeiro álbum, chamado “Suicide”, gravado em apenas quatro dias, foi lançado em 1977, o ano mais lendário da história do Punk Rock. O célebre Craig Leon, que já trabalhou com grupos como Blondie e Ramones, foi um dos produtores do debut. De maneira geral, o álbum não foi bem visto nos EUA, mas recebeu inúmeras críticas positivas no território europeu. 

O faixa de maior notoriedade do álbum é a assustadora “Frankie Teartrop”, cuja letra narra a bizarra história de um trabalhador que, certa vez, surta e assassina sua família e depois tira a própria vida. Há um pano de fundo político por trás dessa história: a vida operária de Frankie o pressionou e ele se sentiu impotente para cuidar dignamente da família. A desgastante rotina fabril o devastou física e mentalmente e ele foi mandado embora. No final da letra, há uma possível alfinetada ao sistema:

Todos nós somos Frankies!
Todos nós estamos mentindo no inferno!

Rev afirmou que "Frankie Teardrop", "Johnny" e "Cheree" são músicas sobre pessoas que vivem nas ruas. E, especialmente falando sobre "Frankie", o músico já revelou que a letra foi baseada num caso real sobre o qual ele leu num jornal. 

“Frankie Teardrop” fascinou artistas como Lydia Lunch, Bruce Springsteen e Lou Reed que, inclusive, chegou a declarar que gostaria de ter sido o autor da letra. Além dessa música, todas as outras são igualmente qualificadas. É um álbum absolutamente magnífico. 

DISCOGRAFIA E MÚSICAS PÓSTUMAS: 

A banda se separou em 1980, após ter lançado dois excelentes álbuns de estúdio. Oito anos mais tarde, a dupla se reuniu novamente para a produção do terceiro disco, intitulado “A Way of Life”. Nessa tríade que compõe a fase oitentista, encontramos os melhores trabalhos do Suicide. Em 1992, deram à luz o “Why Be Blues” e, posteriormente, no começou dos anos dois mil, o “American Supreme”, com o qual encerraram suas produções originais. Ao longo de todas essas décadas de atividade, os dois músicos também tiveram carreiras solos bem sucedidas, sendo que Vega chegou, inclusive, a gravar com Andrew Eldrich, do Sisters Of Mercy. Alan Vega faleceu dormindo, em 2016, aos 78 anos de idade. Seu falecimento foi oficialmente comunicado ao público por Henry Rollins. 

Em 2021, o perfil oficial de Alan Vega no Instagram deixou os fãs da banda atônitos e empolgados ao anunciar o lançamento de um álbum perdido da banda que foi resgatado pela viúva do falecido vocalista. As faixas póstumas originais podem ser ouvidas através do perfil da gravadora “Sacred Bones”.

Referências:

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2008/aug/01/popandrock.suicide

https://www.allmusic.com/artist/alan-vega-mn0000932078/biography

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2017/jul/18/suicide-23-minutes-over-brussels-alan-vega-martin-rev-punk-riot-1978

https://web.archive.org/web/20110104193113/http://www.zerecords.com/2010/artists_biography.php?id=29

https://en.wikipedia.org/wiki/Suicide_(1977_album)

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2015/jul/10/suicide-review-veteran-electro-punks-barbican-centre-london

https://www.rollingstone.com/music/music-news/the-story-of-suicides-frankie-teardrop-the-most-terrifying-song-ever-96731/


segunda-feira, 17 de maio de 2021

O THE JESUS AND MARY CHAIN É UMA BANDA INEXPLICÁVEL

Por: Camilo Alves Nascimento

O “inexplicável” do título desse artigo não é de forma alguma uma alegoria dramática. The Jesus and Mary Chain é um daqueles casos da história da música, e principalmente do Rock, em que estavam presentes todas as combinações possíveis para que a banda não desse certo. JAMC é uma banda difícil de se acreditar que existe, as histórias que a cercam, as brigas, a inconstância e o tamanho da influência e respeito que eles conseguiram parecem ser imaginários.

Brigas entre os membros, brigas com os fãs, drogas, álcool, instabilidades emocionais, “banda fundadora do shoegaze”, “a mais influente banda de garagem”, uma banda que ganhou um verbete próprio na Enciclopédia Britânica (considerada até hoje uma das maiores compilações do conhecimento humano), a verdadeira banda indie, “pais do Noise Rock"... o que dizer do Jesus and Mary Chain? 

A banda é originária da Escócia, da cidade de East Kilbride, e surgiu de uma parceria entre os irmãos Jim e William Reid. A ideia de montar uma banda acompanhava os irmãos desde 1977, influenciados pela cena punk inglesa de meados da década de 70, mas somente em 1983 eles formaram o que seria o embrião do JAMC.


A banda em seus primórdios

Após gravarem algumas demos ainda em 1983, em 1984 eles recrutaram o baixista Douglas Hart e o baterista Murray Dalglish, completando o que seria a primeira formação do JAMC. Segundo William: "Era o momento perfeito para montar uma banda, porque não havia nenhuma banda com guitarra. Todo mundo estava fazendo música pop eletrônica”, claramente uma provocação às bandas New Wave e Pós-Punk do começo da década de 80. A cena punk pegou o mundo de surpresa na década de 70, porém no começo dos anos 80 o estilo tinha perdido um pouco da força, muito em virtude das próprias bandas que queriam experimentar novas sonoridades, da saturação do mercado pelas gravadoras e do surgimento de novos efeitos e recursos de estúdio.

A entrada de Hart e do Dalgish acaoua trazendo a influência de bandas como The Velvet Underground, The Stooges, The Shangri-Las e, claro, Ramones (uma referência para todos eles), que, segundo William, foi o motivo pelo qual começaram a usar efeitos e distorções em suas músicas: “Nós queríamos gravar álbuns que soassem diferentes”.

Essas influências, que abrangem desde o som calmo e ensolarado dos Beach Boys às melodias dos Beatles, passando pelo experimentalismo do jazz psicodélico do Velvet Underground e a energia do punk rock, fizeram com que o JAMC criasse uma sonoridade única, não se limitando apenas a reproduzir o que escutavam, mas criando algo novo, inserindo elementos nas músicas que deixavam claro que eles tinham personalidade e malícia suficientes para serem únicos. A banda nasceu com identidade própria, se apropriando dos melhores elementos das suas referências para imediatamente juntá-los a uma receita original de distorções, efeitos, letras e densidade, que são sua marca registrada até hoje. 


É importante ressaltar que o JAMC sempre foi uma banda à frente do seu tempo
 

Em 1984 eles conseguiram seu primeiro contrato com a Creation Records, lançando o single “"Upside Down", em novembro.  A banda ganhou certa visibilidade, muito pela fama dos seus shows, que na maioria das vezes acabava em pancadaria entre os membros da banda e seu público, com histórias de shows durando apenas 10 minutos, brigas motivadas pelos excessos de álcool dos irmãos Reid e suas insatisfações com o próprio som e com a reação do público.  No mesmo mês, novembro, o baterista Dalgish saiu da banda infeliz com a distribuição dos pagamentos que recebia. Enquanto isso, o single "Upside Down" liderava as vendas no Reino Unido, em fevereiro e março de 1985, permanecendo na liderança por 76 semanas e vendendo cerca de 35.000 cópias, sendo um dos singles independentes mais vendidos da década de 1980.

Esse sucesso permitiu que eles gravassem, ainda em 1985, o álbum que mudaria todo o cenário do rock: “Psychocandy”. O lançamento foi recebido com várias críticas positivas, embaladas pela curiosidade que as notícias dos seus shows geravam e pela descrição de um som que unia melodias suaves de guitarra, com uma parede de som extremamente alta e efeitos de distorção e microfonia. Pra mim, até hoje esse é o álbum mais importante da banda e também o melhor de sua discografia. Está presente em todas as listas de melhores da história, álbuns mais influentes, álbuns importantes, álbuns favoritos de vários músicos do rock etc.

A mistura quase esquizofrênica de Psychocandy é pioneira. As melodias das guitarras, aliadas à força melancólica de distorções poéticas, em sintonia com a voz de Jim Reid, que traduz em suas letras a agonia, a fúria da juventude, a insatisfação, o caos do cotidiano e a melancolia inerente da vida, criam um caldeirão musical estranho e confuso no primeiro momento, mas que em pouco tempo hipnotiza, por conseguir transcrever essas sensações e sentimentos pouco explorados, mas que são partes da existência.

Depois desse sucesso inicial, a banda passou por várias formações, problemas com a fama, brigas entre os irmãos, mudança de sonoridade e muitos álbuns considerados inconstantes. Os problemas se intensificaram ao ponto da vida do JAMC se tornar insustentável, especialmente devido às brigas entre Jim e William Reid, que haviam se agravado nos últimos anos, até que, em 1999, eles anunciaram o fim da banda.

Em 2007, novamente se reuniram, desta vez para para um show no festival Coachella, e desde então vêm trabalhando em alguns álbuns esporádicos e turnês, porém, com a diferença que estão sóbrios e se declaram felizes com a banda e com o que construíram.

 

JAMC é uma banda que não se explica, que não cabe em rótulos
 

Mas é importante ressaltar que o JAMC, apesar dos problemas, sempre foi uma banda à frente do seu tempo, experimentando novos estilos, novas formas de compor, novas sonoridades e tendo álbuns excelentes, que vão desde um “folk escocês” em “Stoned & Dethroned”, quinto álbum de 1992, até álbuns que atualizam a sua sonoridade clássica, como o “Automatic”, de 1989. A banda também faz parte da cultura pop, estando presente em várias trilhas sonoras de filmes.

Talvez o grande trunfo da banda tenha sido conseguir retratar a melancolia como ela é, não calma e contemplativa, mas barulhenta, dolorosa e, por vezes, angustiante.

JAMC é uma banda que não se explica, que não cabe em rótulos, sua música é literalmente uma mistura de efeitos, sentimentos e sons que nos remetem a tudo e ao nada ao mesmo tempo. Uma banda que não é e nem tem intenção de ser comercial, uma banda que mostrou ser possível algo novo, que brigava com seu público e entre si, uma banda que teve tudo para terminar em tragédia e passar despercebida pelo resto da vida.

O JAMC é inexplicável... e talvez por isso todas as bandas que vieram depois apenas concordam e respeitam. É uma daquelas bandas de que você pode não gostar, mas da qual nunca poderá falar mal.

A discografia oficial conta com 13 álbuns, sendo o último de 2017, "The Damage and Joy", que foi muito bem recebido pela crítica, levando a banda a tocar em grandes festivais pelo mundo, muitas vezes como headline.

JAMC é mitologia. É um caso de família.


quarta-feira, 5 de maio de 2021

BANDAS DE MANCHERSTER QUE SE TORNARAM MUNDIALMENTE CONHECIDAS

 Por Juliana Vannucchi

A Inglaterra é um país no qual surgiram alguns dos maiores expoentes de toda a história do Rock And Roll, tal como os lendários The Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, Sex Pistols e inúmeras outras bandas. Em meio a todo esse cenário, a cidade de Manchester, localizada no noroeste da Inglaterra, foi um ambiente muito especial, no qual nasceram artistas de grande importância que alcançaram sucesso mundial e que lançaram materiais atemporais e inesquecíveis. Nossa lista irá apresentar cinco bandas dessa cidade que se tornaram mundialmente conhecida, mas lembre-se: existem várias outras além dessas, e vale a pena aprofundar a pesquisa.


Joy Division

É difícil escutar o Joy Division sem se apaixonar perdidamente pela poesia sonora de suas músicas. Certamente, essa banda configura entre as mais criativas e marcantes de todo o mundo! A singularidade sombria do vocalista Ian Curtis foi impactante e guiou os outros integrantes para caminhos sublimes e diferenciados, que rompiam com as produções musicais tradicionais da época em que surgiram (início dos anos 70). Bastaram dois álbuns de estúdio para que o sucesso explodisse e para que eles se eternizassem! Porém, a trajetória do Joy Division foi curta, e foi selada com o trágico falecimento do vocalista, que tirou a própria vida em 1980. Mas os fins também são começos e, após o período de luto pela morte do músico, o New Order começou a dar seus primeiros passos...

Magazine 

Que prazer imensurável escrever sobre o Magazine! Particularmente os vejo como o maior destaque dentre todas as preciosas bandas nascidas em Manchester e vou justificar meu posicionamento: o Magazine fez um tipo de música esquisita e que os rendeu certo reconhecimento na cena Punk e Pós Punk. Essa “esquisitice sonora” foi a assinatura da banda, sua fórmula mágica e seu grande diferencial, pois eles não produziram algo que se enquadrasse, necessariamente, no Punk, no Pós-Punk, no Dark ou sei lá em quê! O resultado disso é a maravilhosa dificuldade que surge quando tentamos classificá-los, pois eles escapam de qualquer tipo de categorização – soam como um pouco de tudo e muito de nada, entende?

É demasiadamente prazeroso embarcar nessa engenhosidade mística da banda e se perder no timbre assustador e deslumbrante da voz divina de Howard Devoto, que nunca sabemos para onde irá nos conduzir! Embora o Magazine não seja absurdamente popular aqui no Brasil (provavelmente os menos famosos dessa lista), gravaram uma faixa que é bem conhecida, chamada “Shot By Both Side”, que conta com uma guitarra desconcertante tocada pelo gênio John McGeoch.

Oasis

Chegamos aos queridinhos mais doces e enjoativos da Inglaterra!! Ao lado do The Smiths, acredito que, de maneira geral, seja o grupo mais bem sucedido dentre todos os que nasceram em Manchester. 

Embora já tivesse algum tempo de estrada, foi no ano de 1994 que a banda arrebentou e, a partir de então, rapidamente se firmou no cenário musical. Atualmente, possuem uma leva de fãs no mundo inteiro e são os donos de algumas das baladinhas mais famosas, fofas, meigas e chatas que o mundo já conheceu e que virou, mexeu, colam na cabeça, como, por exemplo “Wonderwall” e “Stand By Me”.

 

O Oasis despontou em 1991 e logo conquistou o mundo com seus melodramas

 
A carreira musical do Oasis foi extremamente bem sucedida


The Smiths
 

O The Smiths foi formado em Manchester no ano de 1982, e é um dos grupos mais brilhantes que já existiu. Morrissey, embora seja um grande babaca, sempre foi o principal símbolo da banda e, com certeza, foi um dos artistas mais criativos do mundo da música. O timbre de sua voz possui uma sutileza tocante e envolvente, que se complementa ideal e harmoniosamente com as refinadas notas de guitarra tocadas pelo talentoso Johnny Marr, que é, assim como o vocalista, um mito à parte e pode ser considerado o grande maestro do The Smiths.

O período de atividade da banda foi curto, durando apenas cinco anos, ao longo do qual foram lançados quatro álbuns. Porém, esse tempo foi o suficiente para que se eternizassem. O The Smiths a é especial e tem uma estética empolgante, única e inalcançável. Muitos corações seguem dançando e se emocionando no embalo das melancólicas músicas da banda.


The Stone Roses 

E foi também na gloriosa e fértil cidade de Manchester que uma das mais influentes bandas do Rock And Roll começou sua jornada. Trata-se do The Stone Roses, um dos maiores clássicos do gênero Indie.

Eles gravaram somente dois álbuns de estúdio, mas essas produções já foram suficientes para que se imortalizassem e cravassem sua marca na história do Rock alternativo. Suas músicas, em geral, provocam um clima onírico que é preenchido com longas e glamourosas distorções de guitarra!

Texto anteriormente publicado em: https://www.audiograma.com.br/2018/02/dica5-bandas-de-manchester-que-se-tornaram-mundialmente-conhecidas/



segunda-feira, 26 de abril de 2021

SUBSTÂNCIA ESCURA: UMA DAS MELHORES NOVIDADES DO PÓS-PUNK NACIONAL

Por: Juliana Vannucchi

A banda autoral Substância Escura, formada em 2018, na capital paranaense, vem conquistando cada vez mais espaço no cenário da música independente brasileira. Os primeiros passos profissionais da jornada do grupo tiveram início quando Wagner Carvalho e Fábio Cunha, amigos de longa data que esporadicamente reuniam-se para tocar covers, decidiram criar uma banda. A dupla, então, convidou Mau Mau para assumir o baixo e, somente após um ano, encontraram o baterista ideal para o grupo, Mateus Theodoro, que tomou conta das baquetas. Há um diferencial em relação à estrutura de formação do grupo: com exceção do baterista, o vocal é, em suma, dividido entre os três outros membros. 

De maneira geral, suas influências musicais navegam por estilos variados, como o Pós-punk e o Indie Rock, e as letras transitam por experiências de viagens, relacionamentos e situações diversas de um cotidiano alternativo e lírico. Em março de 2020, a banda lançou seu trabalho de estreia, o EP homônimo chamado “Substância Escura”, que totaliza cinco músicas. O período pandêmico interferiu na trajetória do grupo e gerou obstáculos. A esse respeito, Wagner comenta: “Havia cerca de seis shows programados na época do lançamento da nossa primeira produção, mas, infelizmente, o país todo entrou em lockdown e, pois isso, não houve promoção física do Substância Escura. Os estúdios também fecharam e os ensaios foram cancelados”. Apesar dessa dificuldade, a banda, assim como tantas outras, se reinventou e passou a participar do mundo digital, participando de festivais online e fazendo uso de plataformas virtuais para a divulgação de seu trabalho. 

 

É um EP que soa bem do início ao fim e que mostra que estamos diante de um grupo de enorme potencial
 

Liricamente, as faixas do EP Substância Escura, em geral, parecem carregar conteúdos niilistas e desabafos existenciais diversos, que são evidenciados pelas vozes fúnebres dos vocalistas da banda. Instrumentalmente, encontramos um conjunto melódico e rítmico que percorre o característico estilo sombrio da darkwave oitentista, mas que em alguns momentos se afasta dessa fórmula para abusar agradavelmente de solos mais extensos de guitarra, aspecto bem relevante por assegurar uma notável originalidade nas músicas. É um EP que soa bem do início ao fim e que mostra que estamos diante de um grupo de enorme potencial que, definitivamente, se firmará cada vez mais no cenário underground nacional.

Em abril de 2021, lançaram o primeiro vídeo oficial e há previsão para que no final deste ano lancem mais um EP. Sobre isso, Wagner diz: “Produzimos bastante desde a produção de estreia. Muitas dessas novas músicas foram compostas ao longo desse período difícil pelo qual estamos passando. Em decorrência disso, essas novas músicas terão uma atmosfera um pouco mais melancólica e triste, com letras que exploram temas como a solidão”.

Aguardaremos ansiosamente pelas novidades e, enquanto isso, podemos desfrutar o fascinante EP Substância Escura, que pode ser escutado na íntegra através do link abaixo:

https://www.youtube.com/channel/UC_CtU_fSNBW3BQRIYbyy36Q 

Siga a banda no Instagram:

https://www.instagram.com/substanc1aescura/




quinta-feira, 22 de abril de 2021

EXPLOSÃO DE PURPURINA: A CULTURA E A ESTÉTICA DO GLAM

 Por: Juliana Vannucchi

Na transição dos anos 60 para os anos 70, a Inglaterra, capital mundial do rock and roll, foi o palco do surgimento de uma nova tendência estética que ficou conhecida como “glam” e que consistiu num dos mais célebres movimentos de vanguarda de toda a história do rock. Um dos embriões dessa  corrente foi o provocativo David Bowie, cujo visual nesse período parecia ter sido inspirado em contos e filmes de ficção científica e abusava do uso de purpurina, lantejoulas, cores e brilhos, que se faziam presentes em sua maquiagem, roupas e calçados, vestimentas sempre excêntricas e que, na maior parte das vezes, eram peças tipicamente femininas. Essa característica ousada o levou a assumir uma aparência andrógina extremamente polêmica já que, através desse visual, afastou-se das normas de gênero de sua época, desafiando todo o tradicionalismo e conservadorismo vigentes e deixando muitos críticos musicais estarrecidos. Marc Bolan também é recorrentemente apontado como pioneiro do movimento, pois em 1971, já se apresentava publicamente com seu visual andrógeno.

David Bowie: o lendário andrógeno do Rock

O impacto que esse comportamento inaugurado por Bowie causou foi imenso e, embora o Camaleão tenha sido precursor do glam, muitos foram os representantes que deram vida e popularizaram a vertente mais glamourosa do rock,  como é o caso de Lou Reed, das bandas Mott The Hoople, The Sweet, The New York Dolls, Mud, Roxy Music, Slade e tantas outras. De maneira geral, todos esses grupos foram tão primorosos em suas produções e tão fundamentais para a história do rock que, seguramente, podemos acreditar que o glam foi o estimulante ideal e preciso do qual necessitavam para eclodirem e conquistarem seus respectivos terrenos, se consolidando como bandas lendárias. Além desses grupos citados, vale dizer que com o passar do tempo, certos subgêneros do rock apresentaram influência direta do glam, tal como foi o caso de bandas de hard rock e heavy metal - especialmente dos anos oitenta - dentre as quais podemos mencionar nomes como Def Leppard, Hanoi Rocks, Poison, Mötley Crüe e várias outros.

Mas não foram apenas bandas e músicos que foram afetados pelo glam. Esse movimento ultrapassou a barreira musical e foi socialmente relevante - na verdade, convenhamos, o rock nunca se esgota na música em si mesma. O conceituado escritor e crítico musical Simon Reynolds lembra que o experimentalismo sexual que marcou o glam estava, no fundo, atrelado a um determinado contexto histórico de sua época, no qual o ativismo homossexual crescia e uma “educação infantil mais liberal mudava o conceito de masculinidade”. Assim sendo, podemos dizer que essa corrente questionadora do status vigente não foi apenas estética, mas simbolizou também uma verdadeira mudança cultural que foi percebida em duas esferas: refletiu-se em aspectos sociais, como já citamos acima, e também políticos, já que serviu como motor para lutas de grupos sociais de seu tempo, além de afetar também as gerações seguintes, ao influenciar a construção da identidade de muitas pessoas. Esse conjunto de fatores, é claro, transformou e alterou para sempre os rumos do rock. Certa vez, a respeito do legado do glam, o icônico Marc Bolan comentou durante entrevista concedida à BBC: “Acho que [meu uso de purpurina] causou uma mudança... especialmente com cosméticos (...) Os caras podiam subir no palco... não sendo afeminados, mas não necessariamente precisando de loção pós-barba Brut - você sabe, sendo tipo super-masculino. Você poderia usar maquiagem e outras coisas para iluminar o ato”. Essa declaração de Bolan evidencia a possibilidade de desconstrução normativa que fazia parte do glam e a proposta de liberdade sexual que compunha o movimento.

 

Em relação especificamente aos aspectos musicais, Reynolds esclarece que o Glam era estruturalmente reativo, isto é, percebia traços de decadência na música de seu tempo e se propunha a alterar esse cenário, característica esta que também lhe assegura um caráter de contracultura: “O que define o glam musicalmente é uma reação contra o rock ácido e a volta às estruturas mais simples dos anos 50... esse tipo de vigor e foco”. O escritor complementa sua reflexão: “Mas, por outro lado, o glam também detém todos os avanços da gravação do final dos anos 1960, quando os discos de rock 'n' roll soam muito maiores, mais fortes, mais altos e mais grossos do que nos anos cinquenta”. 

Por meio do glam, o rock estava, portanto, demolindo paradigmas, sendo libertador e fazendo aquilo que sempre fez ao longo de sua história: se reinventando para se perpetuar. Justamente por isso, podemos entender que o glam foi simultaneamente uma revolução e uma evolução, uma vez que ao mesmo tempo em que causou rupturas também proporcionou diversos progressos construtivos cujos ecos perduram até os dias de hoje. O glam, enfim, literalmente nos mostrou que todos podem brilhar...

Referências:

https://www.theguardian.com/fashion/2020/jun/22/glitter-and-curls-marc-bolan-and-the-birth-of-glam-rock-style

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Glam_rock

https://www.google.com.br/amp/s/www.udiscovermusic.com/in-depth-features/how-glam-rock-changed-world/amp/

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2010/sep/23/sweet-strange-history

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/books/2016/oct/07/shock-awe-glam-rock-legacy-simon-reynolds-review

http://fordhamenglish.com/news1/2016/10/25/simon-reynolds-speaks-on-glam-rock



sábado, 10 de abril de 2021

DEVO: OS NERDS DO PUNK ROCK

 Por Juliana Vannucchi

O Devo foi uma das bandas mais inovadoras dos anos setenta. Seus primeiros passos foram dados precisamente em 1974, e os embriões do grupo foram Gerald Casale e Mark Mothersbaugh, dois estudantes do curso de Arte da Universidade de Kent, em Ohio.

A grande chance do Devo engrenar veio com a trilha do curta-metragem no qual estrelaram, chamado “The Truth About De-Evolution”, que ganhou um prêmio no Festival de Cinema de Ann Arbor em 1976. Quando o filme foi visto por David Bowie e Iggy Pop, os dois ficaram impressionados com o Devo e asseguraram para a banda um contrato com a gravadora Warner Bros. Foi assim que, com o produtor Brian Eno, o disco de estreia “Q: Are We Not Men? R: Qe Are Devo” ganhou vida. A partir disso, o grupo deslanchou numa carreira que foi feita mais de acertos do que de erros. De maneira geral, toda a trajetória do Devo foi brilhante e inspiradora.

“(...) são 7 bilhões de pessoas no planeta e o caos reinando como o principal fator de como as pessoas tomam decisões - o caos e o medo”.
 

No pano de fundo das origens do Devo, encontrava-se o conceito de “de-volução”, segundo o qual a humanidade havia chegado em seu nível mais alto de evolução e, então, iniciou um processo de declínio. Através de suas produções musicais, o Devo mostra que, de acordo com essa concepção, o ser humano, conforme vai se tornando mais decadente, apresenta um comportamento mecânico e pensamentos uniformes. Semelhantes a robôs, os homens da “devolução” são revestidos por uma alienação comprometedora. Trata-se de um regresso preocupante. Numa entrevista concedida em 2019, Mark Mothersbaugh disse que na época em que essa ideia foi desenvolvida, ele pensava que a dupla estava paranoica. Contudo, lamenta perceber que tal concepção se concretizou e, na mesma entrevista, Gerald Casale comenta que as previsões que tiveram não apenas se efetivaram, mas também simplesmente superaram os seus medos. O baixista ainda reflete a respeito de nossos tempos: “(...) são 7 bilhões de pessoas no planeta e o caos reinando como o principal fator de como as pessoas tomam decisões - o caos e o medo”. Mark complementa a consideração filosófica de seu colega de banda e emenda: “E está se multiplicando rapidamente. São 7 bilhões de pessoas, indo cada vez mais rápido, e não estamos aprendendo nada. Não estamos aprendendo as coisas importantes que são a sobrevivência em longo prazo”.

Mestres incontestáveis do gênero art rock, criaram uma prestigiosa fusão entre a atmosfera da ficção científica e um clima futurista, que contou com pinceladas surrealistas e experimentalismos sonoros. Essas combinações tão singulares confrontavam a essência da maior parte das bandas da mesma época, que seguiam a trilha do punk rock e, por isso, podemos considerar que o Devo foi uma verdadeira vanguarda musical. Ainda que  tenha surgido mediante a eclosão do punk norte-americano e, certamente tenha herdado alguns elementos desse movimento,  a banda era excêntrica e outsider, aspectos que a levaram para outro caminho. E se tem uma coisa que acredito que ficou clara neste texto, é que a banda, além de toda a primazia estética digna de admiração, postulou um alerta e fez um diagnóstico preciso de nossos tempos que, definitivamente, merece ser levado em conta.

Referências:

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2009/apr/30/devo-art-punk-80s-revival 

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/music/2010/jun/17/devo-something-for-everybody-cd-review

https://web.archive.org/web/20071011183248/http://clubdevo.com/mp/bio.html

https://kcpr.org/2019/10/21/gut-feeling-an-interview-with-devo-the-band-that-predicted-the-future/


terça-feira, 6 de abril de 2021

O PODER SOCIAL DO ROCK, OS SEGREDOS PARA UMA BANDA AUTORAL DESLANCHAR E OUTRAS REFLEXÕES: UM PAPO COM BRUNO COSTA

 Por Juliana Vannucchi

Hoje, o protagonista do Fanzine Brasil é o Bruno Costa, criador da BandNest, uma plataforma que pretende revolucionar o Rock'n'Roll brasileiro. Se você tem uma banda e/ou é um músico solo independente, então, com certeza, precisa conferir essa entrevista e acompanhar o BandNest nas redes sociais, pois lá você encontrará inúmeras dicas e estratégias que poderão ajudá-lo a deslanchar sua carreira musical. Quer saber quais são as barreiras que impedem a decolagem do seu projeto musical? Você sabe o que significa sucesso? Quer entender como funciona a indústria contemporânea? Esses e outros assuntos foram abordados neste bate-papo especial com o Bruno! Confira!

 

1. Bruno, muitas bandas autorais do nosso país reclamam constantemente da dificuldade que elas têm em expandir seus projetos, e como já entrevistei inúmeros músicos desse meio, percebi que a maior parte deles, definitivamente, não acredita ser possível viver de música aqui no Brasil. No seu perfil do Instagram, você afirma que é possível viver de rock no Brasil. Poderia nos explicar de que maneira isso é possível?

Eu costumo explicar sempre em meus discursos que viver de rock não é, necessariamente, viver de uma banda. É importante entender que, hoje em dia, para viver de música é necessário ter uma composição de renda. Então, quando você entra no mercado musical, além de ter sua banda, você pode ser produtor musical, engenheiro de som, designer, agente, empresário, etc., ou seja, há várias funções dentro do mercado que podem gerar renda e até mesmo ser carreiras que podem ser sinérgicas. E estando de cabeça nesse meio mercadológico, você consegue gerar oportunidades para a sua banda, e sua banda, por outro lado, pode gerar oportunidades para essas outras carreiras que você está desenvolvendo paralelamente. Eu sei que muitas pessoas no Brasil vivem de música desse modo.

2. Na sua opinião, quais são os três principais erros que um músico independente comete ao tentar emplacar sua carreira?
 

Não investir na própria carreira. Ou seja, investe-se geralmente apenas na gravação e instrumentos, mas não na divulgação, quando, na verdade, é necessário que haja estratégia de divulgação, como mentoria e assessoria, por exemplo. No mínimo, você precisa investir tempo em suas redes sociais.

Não fazer um planejamento de lançamento. Geralmente, sobe-se uma música numa plataforma e só então se divulga essa faixa. Esse é um grande erro. Se a música já está lá, o Spotify, por exemplo, já está analisando a performance dela e não vai recompensá-la se ela não estiver gerando um resultado desde o início.

O terceiro erro seria o investimento incorreto em divulgação. Como fazer automatização, por exemplo, visando conseguir números nas plataformas musicais. Isso não adianta, e ainda pode atrapalhar a performance nas plataformas musicais. Esses números servem apenas para aumentar a vaidade em tais meios.

3. Há algumas semanas, você fez uma postagem muito interessante a respeito dos motivos pelos quais o rock está morrendo. Gostaria que você comentasse um pouco, especificamente a respeito dos rótulos, pois você mencionou esse aspecto como um dos fatores que estão prejudicando o rock. Achei esse ponto interessante porque já notei que grupos de sucesso como Siouxsie And The Banshees e The Cure, por exemplo, abominam as categorizações!!

Creio que o rock seja o estilo mais segmentado que existe, e dentro desses seus segmentos há muitas diferenças e até mesmo rixas entre si. O rock clássico, o indie, o punk vão para caminhos distintos e eles próprios também se dividem em outros gêneros – há, por exemplo, inúmeros estilos diferentes de heavy metal, ele se ramifica. Isso gera rivalidade e muitas vezes afasta e segmenta as pessoas e isso, infelizmente, não ajuda em nada. O rock deveria ser rock de qualquer modo, deveria haver, por exemplo, uma banda de grunge ajudando uma de folk e, de repente, gêneros diversos poderiam até mesmo se juntar com outros estilos musicais de alguma maneira. Essa segmentação só tira a liberdade de composição dos artistas.

4. Como você define o rock and roll? É só música ou ideologia?

O rock para mim é um movimento cultural. Isso significa que ele é mais do que simplesmente um estilo musical. Ele é extremamente rico porque envolve ideologia, estilo musical, e até mesmo outros elementos, como arte e moda, por exemplo, que são aspectos que se fazem presentes na construção geral do rock. Por ter todos esses componentes, ao longo do tempo, o rock inspirou outros estilos musicais, tais como o hip-hop, o MPB e outros gêneros, que até usam um pouco de recursos provenientes dele. De certa forma, podemos ver seus reflexos até mesmo no sertanejo, pois, atualmente, muitos músicos pertencentes a esse universo estão se aproximando de algumas vestimentas mais “despojadas” - calças rasgadas, por exemplo. É um movimento cultural com alcance em todos os outros estilos musicais. 

 

"penso que a música é capaz de ajudar em inúmeros momentos e circunstâncias, inclusive contra distúrbios emocionais" (...)    

 

5. De que maneira o rock and roll pode afetar beneficamente uma sociedade? 

Não apenas o rock and roll, mas a música em geral tem um poder muito grande e significativo para o ser humano. O homem, digamos, é um “animal musical”, pois assimila músicas em momentos marcantes de sua vida, além de algumas vezes ter, por exemplo, ideias e atitudes que são diretamente inspiradas e influenciadas por letras de músicas. 

Desse modo, penso que a música é capaz de ajudar em inúmeros momentos e circunstâncias, inclusive contra distúrbios emocionais – ela pode ser útil para que uma pessoa vença, por exemplo, uma crise emocional ou um conflito que está enfrentando. Pode ajudar uma pessoa a se recuperar de uma determinada situação, até mesmo de uma doença. E a música pode até mesmo mover sociedades para certos caminhos, podendo fazê-las progredir - ou não.


6. Para você, o que significa sucesso?

 Essa é uma pergunta bem interessante. De maneira geral, creio que seja algo subjetivo. Contudo, para mim, sucesso significa bater metas. Uma vez que você estabelece metas na sua vida e as alcança ou até mesmo supera, você teve sucesso. Então, você deve se perguntar: “qual é a meta da sua vida?” / “Qual é o propósito?” / “Onde você quer chegar?” O Bandsnet, por exemplo, tem como objetivo criar uma nova era do rock, revitalizar o rock and roll no Brasil e no mundo, criando um novo movimento do rock que seja forte em todos os quatro cantos do planeta, para assim, fazer com que ele volte para as massas. Mas, enfim, é preciso deixar claro que qualquer coisa que você estabelecer, pode desencadear sucesso. Se, por exemplo, uma determinada banda se propõe a fazer um show que renda dinheiro para que ela possa simplesmente comer uma pizza numa esquina qualquer e, de fato, esse grupo toca em algum lugar e consegue esse dinheiro, sendo capaz de colocar seu plano em prática, então a banda teve sucesso, pois alcançou uma meta traçada por ela. Essa é a questão do sucesso, pois sucesso é determinar para a sua vida algo que vá te fazer feliz.

7. Muitas pessoas costumam dizer que nos anos oitenta, o rock nacional era forte e criativo e que, em contraponto, nos dias de hoje, está enfraquecido. De fato, inúmeros grupos famosos eclodiram nessa referida década. Porém, atualmente, existem muitas bandas qualificadas pelo país, embora a maioria não esteja debaixo de holofotes. Como você compara a indústria musical brasileira dos anos oitenta e dos dias de hoje?


Há muita diferença dos anos oitenta para hoje. Acredito que qualidade musical não é uma delas, pois, atualmente, há recursos tecnológicos muito maiores e as bandas têm acesso a técnicas muito mais avançadas para compor música, sendo que esse conjunto de fatores permite a produção de músicas mais qualificadas e mais bem compostas do que antigamente. Porém, há vários contextos em relação aos anos oitenta. Naquele período, havia uma atitude muito atrelada à rebeldia, afinal, estávamos vivendo sob uma ditadura e o rock contrapôs esse cenário. Lá nasceu um movimento musical de união para que as bandas, juntas, pudessem gerar uma atitude social contra aquele regime militar. Também havia um movimento forte do rock em todo o mundo. Era o seu auge e o hard e o punk estavam fortíssimos. Posteriormente, o Rock In Rio surge e fortalece o rock nacional. Também teve a eclosão da MTV nos anos noventa, o que cooperou para esse fortalecimento e influenciou a música no país.  Hoje em dia, essas bandas são muito boas, mas além da oferta musical ser muito grande, pois há muita gente produzindo e lançando música, existe uma questão de que o rock possui algumas deficiências pelo fato de ser, digamos, despojado, espontâneo. Ele perdeu um pouco de seu profissionalismo, no sentido de se divulgar e fazer marketing. Por sua vez, outros movimentos culturais que são mais voltados para as massas e conversam melhor com elas acabaram tomando espaços que o rock não tinha. E há a segmentação do rock que faz com que, por vezes, pessoas que curtem um certo estilo acabem atacando outros gêneros e isso, no geral, enfraquece o rock. Mas, enfim, trata-se mais de uma questão de postura do que de qualidade musical.


8. Quando um músico e/ou banda se envolve diretamente com a grande indústria musical, ele perde, necessariamente, sua autonomia ao atender metas e imposições que são exigidas por essa indústria? A fama aniquila a criatividade? 

Não vejo dessa forma. Não acho que ela perde a liberdade musical. Quando você está criando música, você está fazendo um produto como qualquer outro. Não adianta, por exemplo, você criar um chocolate e ninguém mais gostar. Se você faz um produto para ser comercializado, as pessoas precisam gostar disso. Assim sendo, se você entra numa indústria musical forte, é preciso entender qual é o seu público-alvo e o que ele espera de você, pois esse tipo de conhecimento ajuda a crescer e se firmar, uma vez que te permitirá criará algo para esse público. Isso, porém, não significa que você tenha, necessariamente, que se prender a certas criações. Todas as bandas possuem seus lados Bs, sua face mais “cult”, por assim dizer. Pensemos na banda Legião Urbana: eles tinham hits que agradavam todo mundo e outros que não eram os favoritos das grandes massas e eram mais restritos aos ouvintes que cultuavam a banda. 


9. O que te motivou a criar o projeto BandNest?

O que me motivou foi uma conversa que certa vez tive com um amigo músico. Também sou músico e já tive banda, mas por volta do final dos anos noventa e começo dos anos dois mil, parei de tocar profissionalmente.  m 2017 comecei a voltar para o mercado musical por intermédio do BandNest.  Nessa conversa com esse amigo, comentei que deveria ser mais fácil de se promover hoje em dia devido aos aparatos tecnológicos. Porém, ele discordou de mim e falou que, na verdade, hoje os lançamentos musicais são como “agulhas no palheiro”, pois milhares outras músicas são lançadas simultaneamente nas redes. Então, torna-se difícil colocar uma música em evidência. Na hora, pensei: “Poxa, seria legal se houvesse uma plataforma capaz de ajudar as pessoas a colocarem suas músicas em evidência. Seria uma forma de resgatar esse novo rock and roll que está surgindo”. Essa foi a principal motivação dos BandNest.


10. A que, exatamente, se refere a Nova era do Rock”? Quais seriam suas principais características? 

O nome “A Nova Era do Rock” foi inspirado num documentário do canal VH1, chamado “Seven Ages of Rock”, que mostrava desde os primórdios do rock até sua evolução, suas diversas vertentes e eras que, apesar das divergências, sempre fizeram com que o rock, de maneira geral, se renovasse e permanecesse vivo, uma vez que esses movimentos variados sempre se sobrepunham um ao outro através de criações novas e de resgates de elementos mais antigos do rock. O documentário se encerra na chamada “sétima onda do Rock” - conforme o seu título original indica. Depois de assisti-lo, eu refleti: qual seria a oitava onda? Creio que ela seja, em suma, uma superação das rivalidades entre os gêneros. As bandas deveriam se ajudar e fortalecer o estilo como um todo. A partir dessa consideração, criei alguns pilares que formam a sigla SHURE: solidariedade - humildade - união - respeito - ecleticismo.

Solidariedade:

As bandas devem se ajudar, cooperar e apoiar as bandas menores, por exemplo.

Humildade:

Deve-se aceitar opiniões, críticas, sugestões e feedbacks e tentar crescer e melhorar a partir disso, usando esses aspectos de maneira construtiva.

União:

As bandas devem se ajudar em movimentos e gerar oportunidades umas para as outras.

Respeito:

Eu posso não gostar do seu estilo, da sua música, da sonoridade. Mas é preciso respeitar o movimento que está sendo criado e dar apoio, pois estamos inseridos na mesma dificuldade, no mesmo universo. Acima de tudo, somos pessoas e o Rock é Rock.

Ecleticismo:

Respeitar todas as vertentes não apenas do rock, mas em geral. Portanto, respeite, apoie e até mesmo participe de outros movimentos. É importante ter o ecleticismo no sangue para que seja possível, até mesmo, originar algo inovador.

 

Os cinco pilares que formam o SHURE

11. Qual é a principal dica que você dá para um artista que quer viver de música?

A principal dica que dou é: não se veja apenas como um artista, mas também como um empreendedor, pois tudo que se aplica a um empreendedor também se aplica a um artista – estudo de mercado, networking, marketing, investimento, publicidade, finanças, etc. Geralmente, no início de uma carreira, as bandas precisam fazer tudo isso sozinhas, por isso enfatizo esse conselho:  veja-se como uma empresa.

12. Para encerrar, nos diga quais são os principais benefícios que um músico ou uma banda podem ter ao seguirem o seu projeto.

A principal vantagem é aprender o modus operante do mercado musical, ou seja, o que realmente faz com que uma banda cresça, tenha destaque, diferencie-se e consiga público. O maior benefício é que as bandas aprendem a se divulgar, a lançar seu próprio som e a criar um público engajado por meio das suas redes sociais, para que esse público as siga em shows, compre seus produtos e, enfim, a sustente. Em suma, são esses os benefícios que eu busco proporcionar através das minhas ações.




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