Fanzine Brasil

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

FUTEBOL, ROCK AND ROLL E POP ART: CONHEÇA O UNIVERSO DO ILUSTRADOR THIAGO ROCHA:

 Por Juliana Vannucchi

O artista da vez é Thiago Rocha, que reside na cidade de Santo André e trabalha como Designer Gráfico e professor de Educação Física. Além dessas duas áreas profissionais nas quais atua, uma outra atividade da qual Rocha se ocupa constantemente, é o desenho. E nosso artista, munido de seu lápis grafite e de sua incrível habilidade estilística, faz ilustrações simplesmente fascinantes. Seu capricho técnico se articula em suas ideias criativas e os variados resultados dessa combinação, prendem a atenção de qualquer pessoa, que facilmente se perde em admiração diante dos seus encantadores desenhos... 

A maior parte das ilustrações feitas por Rocha, retrata músicos, atores e personagens do universo cinematográfico e lendas pertencentes ao futebol. Aliás, é válido citar que Thiago faz parte do Fifa Fan Moviment, um grupo seleto criado pela  própria FIFA que visa aproximar os fãs do esporte. O Fanzine Brasil bateu um papo  com esse camisa dez, e você confere abaixo esse golaço que nós marcamos! 


1. Thiago, eu te conheci através do perfil “Arte Palestrina”, no qual você faz um trabalho gráfico impressionante. Me parece que suas produções tem uma atmosfera um pouco vintage mesclada com uma estética de HQ. Essa minha leitura faz sentido? E como surgiu a ideia de criar a página? 

Eu me considero um pouco retrô. Gosto de coisas estilo vintage e você tem razão quanto ao universo dos quadrinhos. Eu desenho desde muito novo, tenho registro guardado de desenho feito com 9 anos de idade. Na verdade eu comprava gibis para copiar os personagens, não era nem para ler, mas eu ampliava as figuras no sulfite, tudo na base do olhar. Não colocava a folha por cima. O desafio era reproduzir a mesma imagem só que de forma maior. E assim fui aprimorando. Muito do que faço se deve bastante aos quadrinhos, mas procuro algo com a cultura da Pop Art também. A ideia de criar a página foi devido a uma demanda. Eu tinha um perfil onde postava de tudo um pouco, mas começou a ficar saturado com muita coisa do Palmeiras. Então resolvi criar mais um outro perfil para publicar somente coisas direcionadas aos torcedores. Tem dado certo.

2. Quanto tempo você costuma levar para fazer desenhos como aquele do Iggy Pop e do Jim Morrison? Ficaram perfeitos... 

Depende muito de cada imagem que busco. O do Jim Morrison foi um dos primeiros, foi mais demorado porque eu estava procurando uma técnica para trabalhar com o realismo. Então tive bastante dificuldade para tentar chegar o mais próximo possível do real. Do Iggy Pop é mais novo, porém, é mais detalhado porque ali eu já tinha a técnica adquirida, então já procurava algo mais complexo para fazer. Na média, um desenho pode levar de 2 a 5 dias, depende do grau de detalhes. Alguns tem até os poros da pessoa, marcas de expressão, barba por fazer, o brilho nos olhos e até reflexos. Eu procuro sempre o mais difícil para fazer.

 

Iggy Pop.
Thiago Rocha fez esse notável registro de um dos maiores gênios do Rock

3. Rock And Roll e futebol são uma bela combinação, e alguns das suas produções gráficas expressam isso. Você faz combinações criativas de bandas e ícones do esporte. Já vi referências ao Joy Division no seu perfil... O Peter Hook e o Bernard Summer torciam para o Manchester United, você sabia disso? E de onde surgiu essa ideia de unir o Unknown Pleasures ao Palmeiras?

Não sabia! Agora acabou me dando mais uma ideia para produzir. Isso que eu acho interessante. Poder juntar dois universos muito parecidos. A adrenalina de uma torcida de futebol é parecida com a de um público fã de uma banda. Aquela histeria. O Unknown Pleasures é referência.  A história por trás daquelas ondas que parecem mais montanhas é bem bacana. Eu já vi gatos sendo desenhados nelas. Então pensei em colocar um porco, mudei um pouco o título também. Mas não é só isso, gosto do Joy Division, assisti o filme Control também. O filme me fez criar curiosidade em conhecer melhor a banda e a história do Ian Curtis. Já transformei capas do Ramones, Raul Seixas, Clash, Pink Floyd, Elvis, Queen e tem vários outros que ainda vou encaixar em alguma temática.

 

Arte gráfica baseada na capa do icônico Unknown Pleasures


4. E aliás, qual seria a trilha sonora perfeita para a final do Paulistão de 2020? E também queria saber qual seria a trilha perfeita daquele doloroso 7x1... Desafios lançados!

Fiquei eufórico com a final e com o título. Foi difícil. Acho que para abaixar a frequência cardíaca ouviria um Johnny Cash. E para aquela partida melancólica dos 7 x 1, um Cazuza. Só pra deixar claro que não é porque cada um é a síntese de cada partida. Talvez algumas letras até tenham a ver com cada momento.


5. Essas artes relacionadas ao esporte são feitas à mão, ou diretamente no computador? Quanto tempo você costuma levar para produzi-las, considerando todo o processo de criação? 

No começo eu fazia tudo na mão, lápis e papel. Depois, devido a falta de tempo e demora para poder fazer, resolvi adentrar no digital. Hoje faço tudo no computador. Eu tinha um certo receio de deixar os lápis e partir para o digital porque poderia perder minha identidade. Mas não, acabei encontrando mais outra. O processo de criação não é tão complicado. Basicamente vou atrás de referências vindas da música, artes, cultura e claro, futebol. Depois de encontrar uma referência ideal para o que pretendo fazer, e isso pode ser um atleta, um fato, um momento do jogo, a história do clube, vou para o processo de criação. Mas isso depende muito. Se for uma ilustração, levo cerca de 4 horas de acordo com a complexidade do trabalho. Agora, se for uma manipulação de imagem (quando pego uma imagem e modifico ela inserindo outros conteúdos, detalhes) aí é mais rápido, umas 2 horas. Mas o processo de criação dos dois é basicamente  mesmo.
 

"Infelizmente estamos sendo governados por alguém despreparado, e não foi falta de aviso".

 

6. Você já entregou desenhos para alguns jogadores, certo? Como eles reagiram?

Sim, entreguei para alguns. Tonhão, Edu Dracena, Fernando Prass, Willian, Jailson, todos do Palmeiras. Houve também para o Tiago, goleiro da seleção brasileira de futsal, o Arhtur Zanetti que é ginasta campeão olímpico. Por todos fui bem recebido e gostaram bastante. Mas tem um em especial que achei algo fantástico pela simplicidade e atenção que foi o César Sampaio. Ele ficou  assustado olhando os detalhes, perguntando como eu fazia. Deu uma atenção enorme. É bem gratificante quando isso acontece. E é melhor ainda dessa forma porque pelas redes sociais nem sempre é o atleta quem te responde, as vezes é um assessor que gerencia o perfil.

7. Achei interessante uma postagem sua em que você escreveu “design ativista”, e na qual usou a arte para manifestação de cunho social e político. Você acha que o engajamento artístico pode levar as pessoas à refletirem? Quando você divulga algo assim, quer que as pessoas pensem sobre o assunto ali apresentado, ou está apenas se expressando? E vale dizer: temos um presidente babaca que está desmoronando o país em todos os aspectos possíveis... gostei das suas críticas ao infeliz.

Eu não tenho uma posição política definida. Claro que procuro votar em quem acredito ser uma melhor opção. Então fico muito tranquilo na hora de criticar qualquer que seja o político porque não me prendo a ele. Não preciso defender que não nos defende. Ali foi apenas uma forma de me expressar. É muita negligência, desrespeito com a população e até com quem votou nele. As pessoas ficaram cegas com a política, sendo de esquerda, direita, centro, enfim. Infelizmente estamos sendo governados por alguém despreparado, e não foi falta de aviso. Hoje temos as redes sociais que ajudam a propagar informação para o bem ou para o mal, mas muita coisa sai do contexto. O artista ele tem uma ferramenta poderosa nas mãos e vejo muitos sabendo como usar.

 

Outro belíssimo desenhado de autoria de Thiago Rocha
 
 

8. Aliás, você acha que as autoridades políticas do nosso país valorizam a arte? Poderiam valorizar mais? Caso sim, de que maneira?

De forma alguma. Nesse governo tivemos três trocas de secretários da cultura. Isso já mostra que não estão preocupados. É só ver o que cada um falou de absurdos de forma pública sem ter a menor responsabilidade. Eu entendo que os recursos financeiros da pasta não sejam adequados, mas o problema está em quem utiliza eles. São pessoas despreparadas, que sentam na cadeira e não produzem, não criam, não tem ideia do que, como e onde fazer. E isso ocorre em diversas áreas. É difícil andar para frente com gente que não entende do assunto.

9. Você também se manifestou em relação ao movimento “Black Lives Matter”. Apesar de tantas pessoas terem se juntado a essa luta, o racismo ainda existe. Como podemos vencer o racismo? Quais são os caminhos para isso? 

Bom, sou educador físico, já trabalhei com crianças  e já vi muito o que eles trazem de bagagem de dentro de casa. Hoje quem é racista não vai deixar de ser. Está incorporado na cultura desse tipo de pessoa. Então eu vejo que a situação começa lá na infância. As crianças precisam saber o que é racismo, em todos os seus tipos. Uma criança tendo orientação, pode até ser um comunicador com os próprios amigos. Pode levar a palavra correta para o próximo. E isso tem que ocorrer em qualquer nível social, desde o mais rico até os mais pobres, que é quem mais sofre com isso. Mas o negro é forte. É persistente. Ele nunca irá se calar. E ninguém deve.

10. Poderia nos contar um pouco sobre o Fifa Fan Moviment?

Foi algo inusitado. Em 2018, antes da Copa, recebi uma mensagem no meu Instagram vindo do perfil oficial da FIFA. Achei estranho, suspeitei de hacker, mas fui adiante. Me passaram um contato de uma empresa de Londres e logo depois entraram em contato comigo para explicar o que seria. É um movimento de fãs do futebol de várias partes do mundo. Interagimos criando conteúdo para debater sobre o futebol e acabamos conhecendo a cultura do esporte em cada país. É algo divertido e prazeroso. Temos contato através das redes sociais e algumas histórias são postadas no site oficial da FIFA.


11. Como costuma ser a recepção do público em relação ao seu trabalho artístico divulgado no Instagram?

É bacana. O formato que é hoje, de misturar o futebol com música, arte, e cultura, se deve muito a interação e compreensão que o público teve. A gente não sabe exatamente com quem está se comunicando. Não sei se conhecem uma determinada capa de disco, um obra de arte e até um jogador antigo quando retrato ele. Mas eu acredito que acaba aguçando a curiosidade de muitos. As vezes surgem as dúvidas, mas quando explico o que se trata logo fazem a relação entre a imagem original e a que foi criada por mim. Recebo sugestões também. Mas o bacana é quando surgem compartilhamentos, elogios. Muito se deve a isso também. Quando o clube que você torce pede uma arte para você e publica no seu perfil oficial na semana de final contra o maior rival, é algo fantástico! E aconteceu comigo. Isso é combustível para continuar criando.

12. Como você define sua arte?

Um liquidificador de ideias. Hahaha. Não sei, o que você diria? Me ajuda nessa, hahaha.

13. De que maneira a arte pode ser positiva na vida de uma pessoa?

Acredito que a arte pode salvar vidas. E temos diversos exemplos de pessoas que saíram de situação de risco ou se livraram de problemas de saúde e hoje são bem sucedidas devido a arte. No meu caso é fuga da rotina, das preocupações, mesmo que por um instante. É uma zona de conforto. Quando eu estou na frente de um processo de criação acabo esquecendo do mundo. Quando termino volto para a realidade. Mas já com olhos para uma nova criação. Esse comprometimento com a arte acaba nos livrando de pensamentos ruins. 

Conheça outras ilustrações de Thiago Rocha e siga o artista nas redes sociais:

INSTAGRAM 

@thiagorocha.art

@artepalestrina


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