Fanzine Brasil

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

UM PAPO COM STEVE CONTE, UM DOS MAIORES NOMES DA CENA MUSICAL NOVA-IORQUINA

Por Juliana Vannucchi / Abel Marinho / Diego Bagatin


O Fanzine Brasil teve o privilégio de bater um papo com o músico e produtor Steve Conte, que já tocou em bandas como The New York Dolls, com Paul Simon e com a compositora de músicas para TV e filmes japoneses Yoko Kanno. Nesta entrevista, conversamos sobre assuntos como suas influências, o valor da música atual e sobre seus sonhos como guitarrista. 



Steve Conte


1. Durante a sua infância, quais bandas ou músicas te influenciaram a começar a tocar guitarra e bateria? Teve algum álbum, música ou banda, em específico que definiu o seu caminho como músico?

Essa é fácil – “Revolver” dos Beatles! Eu era baterista na época, mas esse disco começou a zumbir na minha cabeça... e as melodias e as notas vieram logo em seguida. Então, tocar bateria já não era mais suficiente. Antes disso, o que eu ouvia era apenas o que tocava na rádio ou o que meus pais tocavam pela casa, como música clássica e jazz. A rádio AM era muito boa nos anos 60, então eu ouvi singles de bandas como The Who, Small Faces, Hollies, Sly & Family Stone, Rolling Stones e, claro, tudo dos Beatles.


2. Você já veio ao Brasil duas vezes. Como foram essas experiências no país? Você gosta de música brasileira?

Eu simplesmente AMO música brasileira! Especialmente os primórdios do samba e da bossanova. Gosto de Jobim, Gilberto, mas também algumas das coisas mais novas e avant garde, tipo Chico Science, Vinicius Cantuaria, Forro In The Dark, Bebel, Djavan, Milton, mas na verdade, quando eu era muito novo meus pais colocavam para tocar todas as coisas mais antigas, como Sérgio Mendes e discos brasileiros de 66.


3. Desde 2010, você está trabalhando com o Michael Monroe. Você já era fã do Hanoi Rocks durante os anos oitenta? E como se sente tocando ao lado de um dos maiores nomes do Glam?

Passei a gostar deles mais tarde, porém, antes de conseguir realizar um show com o Michael, eu não estava familiarizado com Hanoi. Na verdade, nunca tinha escutado uma única nota da música deles até eu começar a aprender suas canções para a primeira turnê que fizemos juntos. Então, tocar com o Michael é meio que tocar com outros cantores “rock stars” com os quais eu toquei ao longo o tempo. Com o Johansen foi a mesma situação - eu não era um fã dos Dolls e não conhecia muito bem o som deles antes de receber um telefonema para tocar com a banda. Na realidade, o único vocalista de quem posso dizer que era um verdadeiro fã antes de tocar com eles era o Willy DeVille, e também o Paul Simon, caso não estejamos falando apenas de “rock”.


4. Você já trabalhou com vários artistas renomados. Qual foi o maior desafio da sua carreira musical?

Foi o Paul Simon. Paul é um mestre e sabe muito. Quando eu trabalhei com ele, minha função era ser seu "cantor de dublê" nos ensaios, o que significa que sempre que ele não queria cantar ou não podia estar no ensaio por causa de uma entrevista ou etc, eu estava lá – me tornei o Paul. Tive que aprender, desde todas as músicas dele com Simon & Garfunkel (que eu conhecia desde a infância) até todas as suas músicas solo: “Rhythm Of The Saints”, “Graceland”, até seu álbum “Surprise” em 2010. Existem coisas complexas em suas produções musicais - principalmente na questão do tempo e do ritmo - e se alguém errase no ensaio, ouvia dele. Mas, felizmente, ele gostou dos meus talentos e, inclusive, me chamou algumas vezes no microfone na frente da banda para falar sobre o bom trabalho que eu estava fazendo.


5. Como você se juntou ao The New York Dolls? E qual é a melhor memória que você tem dos momentos que viveu com a banda? É um dos grupos mais fantásticos e icônicos do rock. Você deve ter tido uma experiência incrível!

Em 2004, o David Johansen recebeu um telefonema de Morrissey pedindo a ele para reunir os Dolls para um show no Royal Festival Hall, em Londres. Então, ele começou a ligar para guitarristas que ele respeitava em Nova York para pedir recomendações. Ele precisava de um guitarrista que pudesse ocupar o lugar de Johnny Thunders, o que significava que buscava um cara que fosse realmente “Rock 'n' Roll”, e fizesse isso de uma maneira certa. Todas as pessoas com as quais ele conversou, disseram a mesma coisa: "Ligue para o Conte”. Disseram a ele que eu era um músico bom, profissional, confiável e que tocava o mesmo modelo de guitarra do Thunders (no caso, uma Gibson). E também lembraram que sou italiano (como o Johnny) e também que tinha o mesmo cabelo e o nariz que ele!


6. Como você conheceu o David Johansen? Qual foi sua primeira impressão a respeito dele?

O Johansen me ligou e me contou o que estava acontecendo (o que eu já sabia porque um dos guitarristas a quem ele pediu uma recomendação, disse que deu meu nome para ele) e, então, nos encontramos para almoçar num restaurante na Broadway, em Nova York. Depois que conversamos e terminamos o almoço, ele me entregou um envelope com CDs e letras e disse: "Então, o que acha, você quer fazer isso?", e eu disse "CLARO QUE SIM!". Ele pareceu ser um cara muito inteligente, criativo e engraçado, e ele realmente era assim.


7. Nos últimos anos, os serviços de streaming se tornaram muito importantes para bandas independentes que sempre lutaram muito para promover seus trabalhos. Qual é a opinião sobre essa maneira de divulgar música? Você acha que as pessoas que cresceram escutando música através de objetos físicos (LPs, CDs, K7S...) continuam dando o mesmo valor quando escutam gravações de bandas novas que lançam materiais no formato virtual?

Não, eu não acho que as crianças de hoje têm o mesmo apreço pela música que as gerações anteriores tinham. Hoje é como se as coisas estivessem sempre lá, onipresentes, então não é algo especial. Eles não precisam esperar que sua música favorita toque no rádio e não precisam entrar na fila do lado de fora de uma loja de discos para comprar o novo álbum de um artista do qual gostem. A música se desvalorizou, as pessoas não sabem o que é gastar 5, 10 ou 20 dólares por um novo álbum. Eles baixam gratuitamente de sites piratas ou se juntam a serviços de streaming para ter acesso a quase todas as músicas do mundo pagando um preço único. A coisa boa é que a internet permitiu que todos tivessem vantagem, então agora a música de artistas independentes pode ser ouvida / tocada / comprada / vendida nos mesmos sites que os grandes músicos usam. Mas isso também é justamente o lado ruim da história, porque agora qualquer pessoa, independentemente do seu nível de talento, pode lançar um disco. Então isso não é mais tão especial. Antes tudo era como mágica, o que os músicos faziam. Era como se eles fossem deuses. The Beatles, Stones, Zeppelin... tanta mística ao redor deles e suas músicas mudaram o mundo. Não há muito disso acontecendo agora. São apenas muitos artistas pop soando iguais e apertando botões em computadores em vez de tocar seus próprios instrumentos. Os produtores estão fazendo a maior parte do trabalho e as músicas são escritas por um comitê de 5 a 10 pessoas, ao invés de serem feitas pelo próprio artista, com sua visão própria. Claro que existem alguns novos artistas fazendo coisas criativas, mas esse tipo de mentalidade pop sempre existiu com os artistas de um sucesso só nos anos 60/70/80, porém, no que diz respeito ao rock e música com guitarras, não é mais o som que a maioria do mundo ouve. Hoje em dia, certamente a preferência são gêneros e coisas como o Hip Hop, DJs, Rap e Pop adolescente. Isso é o que a maioria dos jovens compra - e é isso que a indústria da música ainda busca: crianças.


8. Steve, atualmente estamos vivendo uma experiência global muito difícil e é um tempo diferente para artistas independentes – e para outras pessoas também, é claro. Esses artistas tem sido afetados de várias maneiras por essa situação. Como você acha que músicos e bandas podem sobreviver a esse período? Quais são os seus conselhos? No Brasil, até em épocas “normais” é complicado ganhar dinheiro se você faz parte da cena underground.

Eu me pergunto isso todos os dias! Haha. Mas, falando sério, para mim, a melhor coisa que já fiz foi estudar para que eu não me limitasse apenas a tocar um estilo de música e para que eu soubesse o que estava fazendo e, assim, pudesse me comunicar com diferentes músicos em outras situações além do Rock. Daí é que veio minha experiência com o Paul Simon. Se você não tiver a sorte de se tornar famoso, pelo menos ainda pode ganhar a vida com a música de alguma forma: no estúdio, por exemplo, tocando e/ou cantando em discos de outras pessoas, participando de trilhas sonoras de filmes e TV, escrevendo canções para outros artistas, produzindo, ensinando - tudo isso é coisas que eu faço quando não estou na estrada em turnê ou fazendo discos com minha própria banda ou com Monroe.


Conte já tocou em bandas renomadas da cena nova-iorquina


9. Já que eu falei sobre artistas independentes na pergunta anterior, eu gostaria de saber se você acha que é possível para um músico, criar seu próprio som e ainda assim fazer parte da indústria mainstream. Quer dizer: underground e mainstream são, de fato, coisas opostas? Porque eu penso que a primeira cena se relaciona mais com a liberdade, com a arte em si mesma, enquanto que a segunda, por sua vez, está mais conectada com a indústria, com o dinheiro e com o marketing.

Acontece. Olhe para Billie Ellish. Ela começou sua trajetória sendo totalmente Indie, fazendo seu disco em seu próprio quarto com o irmão, mas, então, alguém do mundo dos negócios pensou "Ei, ela é boa e jovem, nós podemos vendê-la”. Tento não pensar muito sobre quem é promovido e qual é a razão disso, porque eu não me encaixo em nenhuma das categorias de agora que são "vendáveis" - não sou uma criança, não faço Hip Hop/música de computador. Eu toco guitarra, escrevo e canto canções de Rock, etc. Eu simplesmente continuo fazendo o que sinto que faço melhor, coloco isso para o mundo e espero o melhor. Mesmo que eu nunca tenha um álbum de sucesso, ninguém pode me impedir de fazer o que amo. Talvez muito tempo depois de eu partir, alguém eventualmente descubra uma das minhas músicas e faça um grande sucesso com ela e, então, meus filhos ganharão dinheiro com isso.


10. Como você compara a aceitação do público e da crítica em relação a álbuns e músicas dos anos setenta e dos anos dois mil em diante?

É o mesmo que comparar maçãs com laranja. São coisas muito diferentes em todos os níveis. Tudo o que já escrevi aqui deve resumir as diferenças entre o antes e o agora. Acho que a música tinha mais significado na vida das pessoas naquela época. Agora, existem muitas distrações. A tecnologia reina: smartphones, computadores, aplicativos, e vemos que as crianças querem ser estrelas do Youtube, influenciadores do Instagram e dançarinos de TikTok.


11. Se você pudesse escolher tocar com qualquer músico ou banda do mundo, quem você escolheria? Você pode escolher até mesmo um artista que já faleceu, quem você quiser.

Eu adoraria tocar com o Hendrix e Keef e escrever uma música com Lennon e McCartney, ou tocar guitarra com Bonham na bateria, talvez me juntar aos Stones, ser um músico de sessão da Motown ou fazer parte da banda de Robert Plant.


12. Quais são os seus planos para o futuro? O que podemos esperar do Steve Conte para os próximos meses? Aliás, espero que possamos vê-lo por aqui qualquer hora, quando toda essa loucura passar!

No final de agosto, voltei da Holanda para a minha casa em NY. Eu fiquei 5 meses lá com minha família, esperando o coronavírus passar. Enquanto estava lá, escrevi e gravei uma tonelada de novas músicas para vários projetos, como, o Monroe, minha própria banda e uma nova situação da qual não posso falar ainda, mas trata-se de um projeto super criativo com um bando de veteranos do Hard Rock. Porém, o principal mesmo é o novo álbum da minha banda solo que mixei durante todo o verão - e está finalmente pronto! Assim que a arte for finalizada, vou começar a me preparar para o lançamento dele. Fora isso, farei mais do mesmo em casa nesse período de lockdown em Nova York. Vou continuar escrevendo, gravando - e pretendo fazer muito mais online com sessões de gravação para outros, além de coisas no meu canal no Youtube e aulas ao vivo pelo Skype.


13. Por favor, nos conte como foram seus trabalhos com a Yoko Kanno. Você já gostava de anime quando a conheceu?

Eu não era fã de anime antes de conhecer Yoko, até então eu ainda não conhecia o gênero. Tudo começou quando ela veio para NYC para gravar com alguns cantores americanos para seu álbum solo, intitulado “Song To Fly”. Ela pediu a um grupo de músicos de Nova York recomendações para um cantor de Rock. Meu nome foi indicado e, então, ela entrou em contato e me pediu para enviar uma fita demo da minha voz (isso foi em 1998, antes que todos tivessem todas as suas músicas online), e quando ela recebeu e escutou, gostou do que ouviu e me contratou para entrar e cantar “Nowhere And Everywhere”. Eu acho que ela realmente gostou do que eu fiz porque alguns meses depois ela retornou para NYC para gravar a música de um novo anime chamado “Cowboy Bebop”, e o resto é história. Tive uma ótima experiência e passei um período maravilhoso trabalhando com a Yoko. Nos comunicamos com poucas palavras, pois o inglês dela não é tão extenso, embora seja muito melhor do que o meu japonês! Depois que eu canto algo no estúdio, ela me diz coisas como, “mais frio, por favor”, o que eu percebi que significava “cante de um jeito mais distante, de uma forma menos emocional”. Foram 22 anos agradáveis juntos, desde seu álbum solo de 1998 e por toda a série de animes, como“Brainpowerd”, “Bebop”, “Ghost In The Shell”, “Wolf’s Rain”, os 2 shows ao vivo no Japão e, mais recentemente, seu show Live Home, no qual cantei um dueto de Rain com Mai Yamane. Estou ansioso para fazer mais trabalhos com ela algum dia, em breve.

Obrigado pelo chat e cuidem-se! Mantenham-se seguros, saudáveis e sãos. Espero vê-los no Brasil algum dia. Obrigado!

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