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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

AS INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS DE SIOUXSIE SIOUX:

Por: Vannucchi
Apoio: Costas Christodoulopoulos e Gabriel Marinho

Sioux, certa vez declarou sua satisfação por viver com uma pilha de livros em sua casa. Aparentemente, esse fato já era suficiente para que ela tivesse um cotidiano feliz em qualquer circunstância! Mas quais seriam esses livros? Quem seriam seus autores favoritos? E suas obras favoritas? Quais foram as mais marcantes de sua vida?

Bem, como eu amo ler e faço isso com frequência, naturalmente um dos inúmeros aspectos que sempre admirei na Sioux, é justamente sua ávida paixão pela leitura. Nossa querida vocalista, pelo que sabemos, é uma grande devoradora de livros, e muitas das obras leu ao longo de sua vida, influenciaram músicas e inspiraram letras, tanto dos Banshees, quanto do The Creatures. 

Há alguns autores que ela aprecia e pelos quais também nutro grande interesse. Assim sendo, decidi investigar melhor sobre essa paixão da Susan, e agora compartilho com vocês os resultados de minhas pesquisas. Começo dizendo que uma vez, fiquei positivamente surpresa quando o Budgie declarou pra mim que gostava de Jean-Paul Sartre. Eu havia comentado com ele algo sobre Albert Camus, ele demonstrou que era um gosto em comum, mas complementou: “Bem, eu sempre retorno para A Náusea”. Esses dois autores são notáveis e suas produções literárias permanecem sendo atemporais. De maneira geral, Camus carrega como pano de fundo de suas obras a questão do absurdo existencial. Já Sartre, foi um notável existencialista. Para quem não sabe, o Existencialismo consiste fenômeno cultural que prevaleceu na Europa após a segunda guerra mundial.

Eu soube que, além do Budgie, a própria Siouxsie também gosta desses dois grandes autores. Em relação a Sartre, seu apreço pode ser percebido numa passagem da música “Pity”, do The Creatures, presente no álbum Boomerang na qual ela canta: “Nausea is all I’m feeling today” (“A Náusea é tudo que estou sentindo hoje”).

O que é a náusea no contexto da filosofia sartriana? Bem, esse é um tópico um tanto difícil de explorar de maneira breve. Poderíamos escrever apenas sobre isso, e certamente o texto já iria se estender bastante. Eu tenho um site sobre Filosofia e lá há um texto no qual explico melhor esse conceito. Mas deixarei aqui algumas palavras sobre a Náusea - essa sensação, digamos, de angústia, de terror, de aflição e admiração diante de uma existência encoberta de incertezas. Vejamos:
(...) 
E aqui está: desde então que a Náusea não me deixa; a Náusea apossou-se de mim. A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede,… em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela.
(...)
http://www.acervofilosofico.com.br/a-nausea-jean-paul-sartre/

E o absurdo, frequentemente citado por Albert Camus? Em que consiste? Consiste na ausência de garantias, ou seja, na consciência que nos surge ao percebermos o quanto nosso cotidiano carece de sentido, o quanto ele é essencialmente absurdo. Mas esse tópico também não merece ser resumido. Abaixo, vou disponibilizar algumas palavras sobre ele, e também deixarei um link aos interessados.
Além do que já mencionados até aqui, é válido citar que em meados de setembro de 2007, numa entrevista feita por Barry Mcllheney para a The WORD magazine, Siouxsie mencionou que havia lido o clássico “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann e “O Labirinto”, do renomado autor argentino Jorge Luis Borges. Na mesma ocasião, declarou que os livros eram seu principal vício. Eu particularmente gostei muito da única obras que li de Thomas Mann, chamada “Cabeças Trocadas” (indico a edição da Companhia das Letras). Esse livro oferece uma reflexão bem provocante! Mas o que a Sioux leu, “A Montanha Mágica” é seu maior e mais renomado clássico. É facilmente encontrado no Brasil, sempre muito elogiado e certamente está entre as mais clássicas obras literárias de todos os tempos. 

Outros autores e seus respectivos livros que a influenciaram e que ela já citou, foram Patrick Süskind (”O Perfume”) e Raymond McNally, professor da Boston College especializado e literatura de terror. Dentre tais, li “O Perfume” no início de 2017 e achei simplesmente apaixonante! O filme também é espetacular e o achei razoavelmente fiel ao livro. Ambos são impactantes, mas como de costume, o livro é mais envolvente. Mostra um protagonista cruel e que se perde dentro de sua maldição natural (ou seria “benção”?). Esse personagem era superior demais para viver na companhia de simples mortais racionais (esses malditos sem olfato)! 

Voltemos a McNally. É de sua autoria o livro “Drácula Foi Uma Mulher: In Search Of The Blood Coutness Of Transylvania”, que investiga a intrigante e assustadora história da Condessa Elizabeth Bathory, nascida numa cidade da Transilvânia (atual Hungria) e que assassinou mais de 600 vítimas. Conta-se que a cruel condessa, que era bissexual, atraia camponesas para seu castelo e, além de torturar suas vítimas, após matá-las, banhava-se em seus sangues e também os bebia, sendo tais atos realizados como rituais para preservar sua juventude. Atualmente é possível conhecer as ruínas do castelo em que viveu. Não restou muita coisa do local, que sofreu bastante alteração com a passagem do tempo, mas ainda há parte da estrutura do castelo que foi palco de grande parte de seus crimes. A letra “An Execution” foi inspirada nessa história e na obra de McNally, acima citada.

          (...)

Isto é o que ela viu...
O cavalo desavisado foi-se rapidamente para o chão
Enquanto alguns soldados abrem uma fenda em sua barriga
...
Com o animal de putrefação, gritando.
A jovem condessa olhava, apenas restringindo uma risadinha.

(...)
 
A Condessa Elizabeth Bathory assassinou mais de 600 pessoas.

Outro livro que marcou muito a trajetória da Sioux foi “Alice No País das Maravilhas”. Desde a infância ela sempre foi fascinada pela história da garotinha que, subitamente, abandona seu cotidiano ordinário para se lançar num universo traçado pelo absurdo e por aspectos surpreendentemente atípicos. O autor desse livro, Lewis Carroll, é considerado um gênio literário, além de ser reconhecido pela maior parte dos críticos e estudiosos como precursor da literatura nonsense. Particularmente sempre amei “Alice No País das Maravilhas”. Certamente, até os dias de hoje, é um dos livros que mais aprecio. Eu encontro muitos traços filosóficos e instigantes ao longo da história, que é incrivelmente recheada de questionamentos arrebatadores, como, por exemplo, a clássica e já tão antiga pergunta: “Quem é você”? Tenho um artigo publicado no Acervo Filosófico no qual exponho minhas reflexões sobre essa marcante e profunda história. Há muito o que se extrair sobre a obra. 

 A dúvida surgida por intermédio do espanto moveu Alice, tal como fez com os primeiros filósofos ocidentais da Grécia Antiga (pré-socráticos) e também com pensadores de períodos posteriores.
Caso te interesse observar a história de Alice sob uma perspectiva de cunho filosófico, acesse: http://www.acervofilosofico.com.br/pela-toca-do-coelho/

Em 2015, Siouxsie inclusive participou de um programa especial de rádio da BCC cujo enfoque foi justamente a obra “Alice No País das Maravilhas”, que na época estava completando 150 anos de sua primeira publicação. Você pode escutar a gravação na íntegra através do link abaixo. A cantora admite que, tanto o filme quanto o livro, foram uma inspiração significativa para ela. 


Outro autor que ela aprecia bastante é J. G. Ballard, que infelizmente não é tão popular em nosso país. Conforme ela própria já comentou em relação ao seu gosto literário, disse que gosta de qualquer livro dele: “Mas Crash é o seu melhor”. Foi o primeiro livro apropriadamente erótico que eu li, mas também foi patético, realmente resumindo essa obsessão americana por carros, com velocidade e com tamanho - esses símbolos vazios de poder. Ballard pegou nesse ponto sobre o que a vida moderna pode fazer com você, sobre como você pode ficar obcecado em entrar nesse estado semelhante a um casulo. Ele questiona, mas ele também reconhece o quão sedutor é, e quão atraentes são esses símbolos. O filme também foi bom, muito sexy. Era diferente de filmes pornográficos que são maçantes como água ensanguentada. Pelo menos isso te fez pensar.” (http://www.untiedundone.com/). Crash foi inspiração para a letra “Miss The Girl”, do The Creatures, pois no livro: “O personagem principal sente-se uma gratificação sexual por acidentes de carro.”
 

(...)
 
Você não perdeu a garota - você bateu na garota,
você bateu nela com uma força de aço
ela está envolvida em torno de suas rodas em chamas
  
(...)

Abaixo, segue uma lista de vários outros livros que, além de todos os outros que foram anteriormente citados, são do gosto da Sioux.
  • The Collector  (John Fowles)
  • Something Wicked This Way Comes  (Ray Bradbury)
  • In the Eyes of Mr Fury (Philip Ridley)
  • The Koran (Anonymous)
  • Lolita (Vladimir Nabokov)
  • Punish Me with Kisses (William Bayer)
  • The Eighth Pan Book of Horror Stories (Herbert van Thal – editor)
  • The Green Brain (Frank Herbert )
  • The Stepford Wives (Ira Levin)
  • Where the Wild Things Are (Maurice Sendak)
  • The Three Faces Of Eve (Corbett H. Thigpen)
  • I’m Eve (Chris Costner Sizemore)
  • The Premature Burial (Edgar Allan Poe)
  • The Complete Works of Edgar Allan Poe (Edgar Allan Poe)
  • On Wine And Hashish (Charles Baudelaire)
  • The Painted Bird (Jerzy Kosiński)
Das obras e respectivos autores acima mencionados, destacaremos especialmente Edgar Allan Poe, pois lembremos que o próprio nome da banda é inspirado num título de uma história escrita pelo mestre do horror: “Cry Of The Banshee”. Além disso, a música “Premature Burial” (presente no álbum Join Hands) é inspirada na narrativa “The Premature Burial” (que consta na lista acima), que em português é conhecida sob o título de “O Enterro Prematuro”, um dos inúmeros e aclamados clássicos de Poe, e pode ser encontrado em língua portuguesa - certamente vale a pena ler, Poe sempre oferece-nos boas histórias! Nessa música, Siouxsie, de maneira cativante, pronuncia palavras que aludem bastante ao próprio estilo literário de Poe, no qual encontramos vários elementos sobrenaturais. Vejamos:

                                                                              (...)


Esta catacumba me compele
Corrompido e inerte
Ele pesa e tenta me puxar
Eu devo resistir ou reafirmar?
O inalterado e o imutável
 
(...) 

Na lista apresentada também vemos o título "In the Eyes of Mr Fury", e aqui torna-se válido dizermos que essa obra inspirou um clássico do The Creatures, que é "The Fury Eyes", faixa presente no Boomerang. Infelizmente o autor desse livro não é muito popular em nosso país. Carece de obras traduzidas para o Português e quase não há comentários sobre suas produções. Mas vejamos um trechinho da letra escrita por Sioux em relação ao livro de Ridley.


(...)
Não há sono para olhos de fúria
São tão profundos são os olhos da fúria

Assistindo rostos trocando de lugar
Anéis correndo ao redor da lua
Trocando olhares, tomando chances
Nós rimos e cantamos cedo demais

(...)

Siouxsie e Budgie no divertido clip oficial da música "Fury Eyes".
 
Outra música cujo título é mesmo de uma das obras de nossa lista é “The Painted Bird”. No Brasil, o livro é conhecido como Pássaro Pintado, e não muito fácil de ser encontrado, tal como não é muito popular, mas ainda assim, caso queira arriscar a leitura, é possível adquirir um exemplar.

Vejamos um trecho da letra que ilustra um pouco da narrativa presente no livro em questão:


                                                                               (...)



Pássaro pintado, é absurdo
Apenas um pássaro contaminado machucando seus nervos torcidos
Pássaro pintado, é absurdo
Apenas um pássaro contaminado machucando seus nervos torcidos

 (...)



É claro que Sioux deve ter muitas outras influências literárias além das que apresentamos aqui. Fizemos uma longa pesquisa, e trouxemos aos fãs aquilo que encontramos. Porém, se você, caríssimo leitor, sabe de algo que possa complementar o texto, nos informe, por favor. Complementos são sempre bem-vindos! E deixe seu comentário nos contando quais dos livros acima mencionados você já leu e quais desses autores conhece. Esperamos um dia aprimorar esse conteúdo com novas informações.

Referências:
                                                                     

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.


CARROLL, Lewis. Alice No País Das Maravilhas e Através Do Espelho e o Que Alice Encontrou Por lá, 2013. Editora: Zahar.


https://www.goodreads.com/list/show/128758.Siouxsie_Sioux_s_Influences


http://www.thebansheesandothercreatures.co.uk/


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