Por Juliana Vannucchi
Nei Bittar é um músico brasileiro que atualmente reside na Alemanha, país no qual atua profissionalmente como professor de música. Sua rota, no entanto, começou a ser traçada há bastante tempo. O primeiro instrumento que estudou foi a guitarra elétrica, que inicialmente aprendeu a tocar com meu pai, quando tinha doze anos. Mais tarde, seguiu seus estudos com um professor, afim de aprimorar seu conhecimento sobre escalas e teoria musical. Assim, durante aproximadamente três anos, fez aulas com Antonio Freire, do grupo sorocabano Banda da Feira. Nei, então, após um determiando período, interrompeu esses estudous e iniciou sua trajetória numa banda de metal chamada Tremor Terror. Um tempo depois, se desligou desse projeto, retomou as aulas e ingressou no conservatorio de Tatuí, no qual permaneceu até concluir os estudos de Violão Clássico. Lá, em seu último ano começou a fazer aulas de alaúde na Emesp, onde na época lecionava Guilherme de Camargo. Nesse espaço, Nei teve oportunidades para crescimento em sua formação e obteve conhecimentos enriquecedores que contribuiram fortemente para sua atual formação. Enquanto estudava na Emesp, lecionava música numa escola pública em Barueri, e após a pandemia, como os exames eram todos online, prestou uma prova afim de estudar na Escola de Música e Artes do Espetáculo do Porto, em Portugal, na qual foi admitido e permaneceu durante por dois anos, período no qual conheceu muitas pessoas da área e participou de diversos festivais. Nei, então, no decorrer dessa rotina, teve contato com a Escola Superior de Artes de Bremen, onde ingressou e atualmente estuda Bacharelado em Música Antiga, em alaúde. Conversamos com o talentoso músico, que nos contou a respeito de sua história musical e compartilhou diversas experiências e conhecimentos. Confira!
1. Qual foi, exatamente, o momento da sua vida em que você decidiu que queria ser um músico profissional? Qual é a sua memória mais antiga envolvendo a música?
Não me lembro exatamente do momento em que decidi me tornar músico profissional. Quando terminei a escola, pensei em estudar algo como administração ou direito. Cheguei até a estudar direito por conta própria para prestar concursos, porque realmente não tinha ideia de como continuar minha formação. Na época eu tocava guitarra elétrica e não havia muitas opções de formação superior que não fossem voltadas para MPB ou jazz. Então optei por estudar violão clássico. Foi um tiro no escuro, porque eu nunca tinha tido contato com essa linguagem. Meu professor de guitarra elétrica me preparou para a prova de ingresso, consegui passar e, aos poucos, fui pegando cada vez mais gosto pelo violão. Foi assim que decidi que queria seguir a música profissionalmente.
2. Pensando na sua trajetória, quais são os principais desafios enfrentados por quem pretende trilhar esse caminho? Que dicas você daria para aqueles que estão inicialmente esse percurso?
Um grande desafio é encontrar uma direção para o trabalho e estruturar uma forma de ter retorno financeiro com aquilo que você faz - entender o que é preciso fazer para que esse retorno aconteça. Uma dica que foi fundamental para mim é sempre ir atrás das pessoas que fazem o mesmo que você faz ou que você gostaria de fazer. Fazer contatos e perguntar, perguntar, perguntar. O conhecimento é primordial.
3. Em que medida você acha que a vida de um músico no Brasil é mais difícil do que a de um músico que vive na Europa? Considerando sua experiência, como compara esses contextos?
Em alguns aspectos é bem mais difícil. Na Europa, proporcionalmente, as pessoas têm mais acesso ao ensino de música desde crianças, e estudar música desde cedo faz uma enorme diferença. Além disso, há mais ofertas de formação e mais oportunidades para tocar em festivais. No geral, sinto que há mais espaço para a música.
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| "Eu acredito que toda música feita com propósitos comerciais tende a ser um pouco pobre do ponto de vista artístico". |
4. Pra você, qual é a importância da música na vida das pessoas?
A música conecta as pessoas. Ela nos faz sentir e pensar e é justamente o que impede que sejamos planos. Ela nos acompanha desde os primórdios da humanidade.
5. Muitas pessoas atualmente falam em “música boa” e “música ruim”, geralmente, neste último caso, referindo-se ao mainstream. Você tem algum critério de avaliação em relação a isso?
Eu acredito que toda música feita com propósitos comerciais tende a ser um pouco pobre do ponto de vista artístico, porque não nasce exatamente de uma expressão própria do artista, mas de uma tentativa de satisfazer o desejo do mercado. A música pode até ser boa, mas acaba sendo mais rasa.
6. Uma vez eu assisti um espetáculo regido por uma ótima orquestra que tocou somente clássicos do rock. Lembro que o maestro, ao se apresentar, argumentou que geralmente separamos a “música clássica” de outros gêneros e que, embora isso seja compreensível, às vezes fica parecendo que música clássica é coisa de erudito e que o rock and roll é coisa da plebe. Mas ele explicou que muitas músicas de rock são extremamente qualificadas do ponto de vista estrutural e criativo e que, de certa forma, não seriam inferiores à música clássica. Como você avalia isso?
Isso é uma ideia equivocada, começando pelos próprios nomes usados. Muitas das músicas tocadas por orquestras em salas de concerto não são exatamente ‘clássicas’, nem necessariamente eruditas no sentido que esse termo costuma sugerir. O rock, assim como a música de concerto, tem sua própria retórica. Se olharmos para o rock progressivo, por exemplo, veremos músicas com estruturas tecnicamente e musicalmente tão complexas quanto as de uma obra de concerto.
7. Quais são as principais diferenças da guitarra para o alaúde?
As diferenças são muitas, mas também existem algumas proximidades. O alaúde é um instrumento acústico com cordas duplas, o que exige um trabalho de produção do som bastante específico. A guitarra, por sua vez, geralmente é tocada com palheta, o que pode ser uma limitação para a execução de linhas polifônicas. O alaúde, apesar de ser dedilhado, ainda tem em sua técnica de mão direita uma herança do plectro usado no alaúde medieval. Por isso, a mecânica da mão pode ser um pouco semelhante quando se tocam linhas melódicas: o movimento de palheta para baixo corresponde ao polegar, e o de palheta para cima ao indicador. Um detalhe interessante é que, no alaúde, costuma-se apoiar o dedo mínimo da mão direita no tampo enquanto se toca - algo que muitos guitarristas também fazem.
8. Já me deparei com pessoas que atacam o punk rock pelo fato de que muitas músicas desse gênero são tocadas e compostas de um modo simplista. Por outro lado, isso pode abrir as portas para que as pessoas acreditem que podem tocar. Será que uma música de qualidade pode ser medida somente com base em sua complexidade?
Do ponto de vista de uma análise musical, podemos dizer que é mais simples. Mas chamar algo de simples não significa falta de qualidade. Nesse caso, o impacto do som é muito mais importante do que as relações harmônicas. É uma música explícita.
9. Seu foco de trabalho atualmente é a música renascentista? Poderia nos contar um pouquinho a respeito das características musicais desse período?
Sim, eu toco música renascentista e também barroca, mas me identifico mais com a primeira. No período do Renascimento ainda não existia uma concepção de harmonia baseada em acordes como pensamos hoje. A música era construída principalmente a partir do contraponto - várias melodias independentes soando simultaneamente, seguindo regras específicas de composição. Quando ouvimos isso hoje, muitas vezes temos a impressão de que essas linhas estão apoiadas em acordes, como se fossem a base, mas, na realidade, eram combinações estáveis de notas, pois o pensamento musical era essencialmente linear. Esse resultado ‘harmônico’, para nossos ouvidos modernos, se aproxima mais de certas linguagens do rock do que da música do período clássico. Um exemplo interessante é a introdução de "Stairway to Heaven", que pode ser entendida como uma variação do Passamezzo antico, uma progressão bastante comum no Renascimento.






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