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segunda-feira, 16 de março de 2026

THE MISSION E A ESPIRITUALIDADE NO ROCK GÓTICO: MÚSICA, FÉ E TRANSCEDÊNCIA AO LONGO DAS DÉCADAS

 Por Juliana Vannucchi e Neder de Paula

A banda The Mission foi formada em 1986 pelo vocalista e guitarrista Wayne Hussey e pelo baixista Craig Adams, que anteriormente haviam marcado presença no Sisters Of Mercy, mas abandonaram o projeto após surgirem algumas divergências entre eles e o controverso vocalista Andrew Eldritch.

A esse respeito, Hussey declarou uma entrevista: “Eventualmente, ficou óbvio que ele (Andrew) tinha ideias muito diferentes de Craig e eu, então decidimos sair e formar nossa própria banda e, obviamente, eu já tinha um monte de músicas, músicas prontas para ir. Eu só precisava escrever algumas palavras para eles e depois aprender a cantar. Deu tudo certo para todos no final”.

Além de Hussey e Adams, a dupla fundadora, diversos outros músicos passaram pelo Mission que, consequentemente, teve formações variadas ao longo das décadas. A banda possui um catálogo com total de dez  álbuns de estúdio, sendo que suas produções mais aclamadas são as dos anos oitenta, sobretudo, o debut, intitulado “God’s Own Medicine”, grande obra-prima do The Mission no qual encontram-se os singles de maior sucesso de sua trajetória. Conforme o próprio nome indica, o álbum é um “medicamento concedido por Deus”, afinal, esse disco é de fato essencialmente catártico e poético, e capaz de restaurar qualquer alma que precise se reestabelecer.

Na verdade, grande parte das faixas desse álbum tinham sido escritas e projetadas para o Sister’s Of Mercy, até que Craig e Hussey deixaram a banda. Já os dois lançamentos posteriores, “Children”, produzido por John Paul Jones, do Led Zeppelin, e “Carved In Sand” também são primorosos. É neste último que se encontra o aclamado single “Butterfly On A Wheel”, cuja linda letra é um consolo ao sofrimento causado pelo fim de um romance. Vale dizer que a compositora e cantora Julianne Regando participou de diversas gravações vocais que enriqueceram algumas das faixas mais populares do The Mission, sendo uma peça importante, portando, em todo o percurso e sucesso da banda. Essa trilogia que mencionamos representa o ápice criativo do The Mission.  

The Mission (1990).

No decorrer de sua trajetória, o The Mission fez apresentações ao lado de grandes bandas que são mais ou menos do mesmo gênero, como o The Cure e o The Cult, com as quais seus fãs costumam se identificar. Isso contribuiu pra que a banda fosse categorizada como uma representante da cena dark, consolidando-se, assim, como uma das prediletas do público gótico. De fato, nas letras do The Mission encontramos um sentimentalismo intenso, vemos a dor e a paixão como protagonistas líricas, e há uma atmosfera sombria que tange todos os álbuns que assim, parecem terem sido compostos por poetas byronistas. O The Mission, por tais razões, aquece qualquer coração. Suas músicas sempre traduzem nossas emoções, nos entendem, nos decifram e até mesmo nos purificam.

Para além do aspecto emocional e romântico, o The Mission sempre esteve envolto por um forte imaginário místico e espiritual, perceptível tanto nas letras quanto na iconografia da banda. Referências a simbolismos cristãos, pagãos e esotéricos aparecem de forma recorrente, não como doutrina, mas como metáforas de transcendência, redenção e conflito interno. Wayne Hussey constrói imagens que dialogam com fé, culpa, desejo e iluminação, criando uma espiritualidade própria, aberta e sensorial, que se conecta profundamente com ouvintes em busca de significado além do cotidiano.

Esse misticismo também se reflete na estética visual e na postura quase ritualística das performances ao vivo. Concertos do The Mission frequentemente assumem um caráter cerimonial, nos quais o público participa ativamente, cantando como em um coro litúrgico profano. Há uma sensação de comunhão coletiva, como se a música funcionasse como um elo entre o terreno e o transcendental, algo que vai muito além do entretenimento e se aproxima de uma experiência espiritual compartilhada.

Talvez seja exatamente essa dimensão mística que explique a longevidade emocional do The Mission e a devoção quase religiosa de seus fãs. Suas canções não apenas narram histórias de amor e perda, mas evocam arquétipos universais, despertando reflexões sobre existência, fé e transformação. O The Mission, assim, se consolida não só como uma banda da cena dark, mas como um verdadeiro canal simbólico, capaz de tocar camadas profundas da alma e manter viva a chama do sagrado em meio à escuridão.

 

"A MÚSICA CONECTA AS PESSOAS, ELA NOS FAZ SENTIR E PENSAR": CONFIRA NOSSA ENTREVISTA COM NEI BITTAR

 Por Juliana Vannucchi

Nei Bittar é um músico brasileiro que atualmente reside na Alemanha, país no qual atua profissionalmente como professor de música. Sua rota, no entanto, começou a ser traçada há bastante tempo. O primeiro instrumento que estudou foi a guitarra elétrica, que inicialmente aprendeu a tocar com meu pai, quando tinha doze anos. Mais tarde, seguiu seus estudos com um professor, afim de aprimorar seu conhecimento sobre escalas e teoria musical. Assim, durante aproximadamente três anos, fez aulas com Antonio Freire, do grupo sorocabano Banda da Feira. Nei, então, após um determiando período, interrompeu esses estudous e iniciou sua trajetória numa banda de metal chamada Tremor Terror. Um tempo depois, se desligou desse projeto, retomou as aulas e ingressou no conservatorio de Tatuí, no qual permaneceu até concluir os estudos de Violão Clássico. Lá, em seu último ano começou a fazer aulas de alaúde na Emesp, onde na época lecionava Guilherme de Camargo. Nesse espaço, Nei teve oportunidades para crescimento em sua formação e obteve conhecimentos enriquecedores que contribuiram fortemente para sua atual formação. Enquanto estudava na Emesp, lecionava música numa escola pública em Barueri, e após a pandemia, como os exames eram todos online, prestou uma prova afim de estudar na Escola de Música e Artes do Espetáculo do Porto, em Portugal, na qual foi admitido e permaneceu durante por dois anos, período no qual conheceu muitas pessoas da área e participou de diversos festivais. Nei, então, no decorrer dessa rotina, teve contato com a Escola Superior de Artes de Bremen, onde ingressou e atualmente estuda Bacharelado em Música Antiga, em alaúde. Conversamos com o talentoso músico, que nos contou a respeito de sua história musical e compartilhou diversas experiências e conhecimentos. Confira!

1. Qual foi, exatamente, o momento da sua vida em que você decidiu que queria ser um músico profissional? Qual é a sua memória mais antiga envolvendo a música? 

Não me lembro exatamente do momento em que decidi me tornar músico profissional. Quando terminei a escola, pensei em estudar algo como administração ou direito. Cheguei até a estudar direito por conta própria para prestar concursos, porque realmente não tinha ideia de como continuar minha formação. Na época eu tocava guitarra elétrica e não havia muitas opções de formação superior que não fossem voltadas para MPB ou jazz. Então optei por estudar violão clássico. Foi um tiro no escuro, porque eu nunca tinha tido contato com essa linguagem. Meu professor de guitarra elétrica me preparou para a prova de ingresso, consegui passar e, aos poucos, fui pegando cada vez mais gosto pelo violão. Foi assim que decidi que queria seguir a música profissionalmente.

2. Pensando na sua trajetória, quais são os principais desafios enfrentados por quem pretende trilhar esse caminho? Que dicas você daria para aqueles que estão inicialmente esse percurso?

Um grande desafio é encontrar uma direção para o trabalho e estruturar uma forma de ter retorno financeiro com aquilo que você faz - entender o que é preciso fazer para que esse retorno aconteça. Uma dica que foi fundamental para mim é sempre ir atrás das pessoas que fazem o mesmo que você faz ou que você gostaria de fazer. Fazer contatos e perguntar, perguntar, perguntar. O conhecimento é primordial.

3. Em que medida você acha que a vida de um músico no Brasil é mais difícil do que a de um músico que vive na Europa? Considerando sua experiência, como compara esses contextos? 


Em alguns aspectos é bem mais difícil. Na Europa, proporcionalmente, as pessoas têm mais acesso ao ensino de música desde crianças, e estudar música desde cedo faz uma enorme diferença. Além disso, há mais ofertas de formação e mais oportunidades para tocar em festivais. No geral, sinto que há mais espaço para a música.  


"Eu acredito que toda música feita com propósitos comerciais tende a ser um pouco pobre do ponto de vista artístico".

4. Pra você, qual é a importância da música na vida das pessoas? 

A música conecta as pessoas. Ela nos faz sentir e pensar e é justamente o que impede que sejamos planos. Ela nos acompanha desde os primórdios da humanidade. 

5. Muitas pessoas atualmente falam em “música boa” e “música ruim”, geralmente, neste último caso, referindo-se ao mainstream. Você tem algum critério de avaliação em relação a isso?

Eu acredito que toda música feita com propósitos comerciais tende a ser um pouco pobre do ponto de vista artístico, porque não nasce exatamente de uma expressão própria do artista, mas de uma tentativa de satisfazer o desejo do mercado. A música pode até ser boa, mas acaba sendo mais rasa.

6. Uma vez eu assisti um espetáculo regido por uma ótima orquestra que tocou somente clássicos do rock. Lembro que o maestro, ao se apresentar, argumentou que geralmente separamos a “música clássica” de outros gêneros e que, embora isso seja compreensível, às vezes fica parecendo que música clássica é coisa de erudito e que o rock and roll é coisa da plebe. Mas ele explicou que muitas músicas de rock são extremamente qualificadas do ponto de vista estrutural e criativo e que, de certa forma, não seriam inferiores à música clássica. Como você avalia isso?

Isso é uma ideia equivocada, começando pelos próprios nomes usados. Muitas das músicas tocadas por orquestras em salas de concerto não são exatamente ‘clássicas’, nem necessariamente eruditas no sentido que esse termo costuma sugerir. O rock, assim como a música de concerto, tem sua própria retórica. Se olharmos para o rock progressivo, por exemplo, veremos músicas com estruturas tecnicamente e musicalmente tão complexas quanto as de uma obra de concerto.

7. Quais são as principais diferenças da guitarra para o alaúde?

As diferenças são muitas, mas também existem algumas proximidades. O alaúde é um instrumento acústico com cordas duplas, o que exige um trabalho de produção do som bastante específico. A guitarra, por sua vez, geralmente é tocada com palheta, o que pode ser uma limitação para a execução de linhas polifônicas. O alaúde, apesar de ser dedilhado, ainda tem em sua técnica de mão direita uma herança do plectro usado no alaúde medieval. Por isso, a mecânica da mão pode ser um pouco semelhante quando se tocam linhas melódicas: o movimento de palheta para baixo corresponde ao polegar, e o de palheta para cima ao indicador. Um detalhe interessante é que, no alaúde, costuma-se apoiar o dedo mínimo da mão direita no tampo enquanto se toca - algo que muitos guitarristas também fazem.

"O rock, assim como a música de concerto, tem sua própria retórica. Se olharmos para o rock progressivo, por exemplo, veremos músicas com estruturas tecnicamente e musicalmente tão complexas quanto as de uma obra de concerto".


8. Já me deparei com pessoas que atacam o punk rock pelo fato de que muitas músicas desse gênero são tocadas e compostas de um modo simplista. Por outro lado, isso pode abrir as portas para que as pessoas acreditem que podem tocar. Será que uma música de qualidade pode ser medida somente com base em sua complexidade?

Do ponto de vista de uma análise musical, podemos dizer que é mais simples. Mas chamar algo de simples não significa falta de qualidade. Nesse caso, o impacto do som é muito mais importante do que as relações harmônicas. É uma música explícita.

9. Seu foco de trabalho atualmente é a música renascentista? Poderia nos contar um pouquinho a respeito das características musicais desse período?

Sim, eu toco música renascentista e também barroca, mas me identifico mais com a primeira. No período do Renascimento ainda não existia uma concepção de harmonia baseada em acordes como pensamos hoje. A música era construída principalmente a partir do contraponto - várias melodias independentes soando simultaneamente, seguindo regras específicas de composição. Quando ouvimos isso hoje, muitas vezes temos a impressão de que essas linhas estão apoiadas em acordes, como se fossem a base, mas, na realidade, eram combinações estáveis de notas, pois o pensamento musical era essencialmente linear.  Esse resultado ‘harmônico’, para nossos ouvidos modernos, se aproxima mais de certas linguagens do rock do que da música do período clássico. Um exemplo interessante é a introdução de "Stairway to Heaven", que pode ser entendida como uma variação do Passamezzo antico, uma progressão bastante comum no Renascimento.


 

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