Fanzine Brasil

sexta-feira, 17 de abril de 2020

BATEMOS UM PAPO COM DIEGO MODE, DA BANDA CÜBUS - CONFIRA:

Por: Juliana Vannucchi


Dessa vez, o protagonista do nosso site é o ilustre e talentosíssimo Diego Mode, da banda Cubüs. Ele é um dos músicos experimentais mais ousados e respeitáveis do Brasil, e nessa entrevista, nos contou sobre a história da banda, suas perspectivas futuras, shows marcantes e outras coisas.

1. Diego, poderia nos contar um pouco sobre como surgiu a banda? Quais foram os membros que já passaram pelo Cubüs e quantos álbuns já foram lançados?

O Cubüs surgiu em dezembro de 2003 e foi formado originalmente por mim e pelo João Pedro Lopes que foi o vocalista original da banda. Eu havia conhecido o João um pouco antes e percebemos que nós tínhamos muitos gostos em comum, além do desejo de criar música. Fizemos uma tentativa frustrada com alguns outros amigos na época, um lance mais rock, mas percebemos que a coisa não ia andar. Então, partimos para esse modelo de duo calcado na música eletrônica, sem nos prender muito as amarras de estilos musicais específicos. Algumas músicas que tocamos ao vivo como “Adore”, “Bukowski” ou “O Construtor” são dessa fase inicial.
Eu acho que esse período, mesmo sendo ainda bem ingênuo, foi importante porque a gente não tinha muita ideia de como as coisas funcionavam (gravação, divulgação), mas esse pastiche do que gostávamos chamou atenção de algumas pessoas e tivemos um pouco de destaque na época em alguns sites e blogs.

Além do João Pedro, o Cubüs teve por um breve período a participação do Raf Guimarães (Amigas de Plástico), Luís Aurélio (ex-Technofactor) e, de 2016 em diante, o Karlos Junior (Quântico Romance) está na estrada comigo sendo o melhor tecladista que a banda já teve.
Em relação aos lançamentos, eu acho bem engraçado que em mais de 15 anos só gravamos dois álbuns completos: “Caridade & Sadismo” de 2016 e “Synths, Distorção, Caos & Bootlegs: Ao Vivo Na Juventude Depressiva (16 Jun 2018)”. Nos primórdios dos anos 2000, o conceito de álbum havia sido quase que enterrado para as novas bandas underground. Era muito mais interessante lançar músicas (em formato mp3) na Trama Virtual ou no Fiberonline do que se enfiar num estúdio durante séculos para gravar um disco. Fora o fato que eu paralisei as atividades da banda duas vezes, voltando definitivamente apenas em 2014. Contudo, mesmo não possuindo uma quantidade enorme de álbuns, já fizemos o lançamento de diversos EPs e singles, além de duas coletâneas que compilam músicas de várias fases.

2. O que significa a palavra “Cubüs”?


Uma coisa que eu sempre tive muita dificuldade foi dar nomes as coisas, principalmente aos projetos que estava envolvido. O nome Cubus (que originalmente não tinha trema) foi uma brincadeira minha com o João de escolher um nome que não tivesse nenhum significado, algo que fosse só nosso. Vários nomes foram ditos, mas o João veio com o Cubus que foi escolhido imediatamente por ambos.
Quando retomei as atividades do Cubüs em 2014, eu descobri na internet que haviam diversos outros artistas da música eletrônica usando o mesmo nome. Então, para poder me diferenciar deles, adotei a trema. Mas vale ressaltar também que depois de um tempo, nós descobrimos que cubus é um tipo de operação matemática, o que casa perfeitamente com a precisão milimétrica associada à música eletrônica.

3. Qual é o seu álbum favorito da discografia da banda? Há algum, que atualmente te desagrada?

Essa com certeza é uma das perguntas mais difíceis que já respondi. É muito difícil escolher um único trabalho, até porque cada um teve o seu mérito ao longo dos anos. Mas eu acho que o “Caridade & Sadismo” foi bem importante. Primeiro porque foi a prova de que eu poderia produzir um álbum (que demanda muito foco e dedicação) praticamente sozinho, mas também porque foi com ele que as coisas começaram a acontecer. Por causa do álbum, conseguimos fazer uma longa tour, passando por festivais legais como o Woodgothic, e começamos a desbravar esse cenário underground.

Por outro lado, eu não tenho nenhum álbum que me desagrada. Eu vivo uma eterna briga com as minhas músicas porque tem momentos que eu as adoro, mas em outros eu acho que elas poderiam ser bem melhores. Na verdade, o que me desagrada mesmo é olhar para as canções mais antigas e pensar que elas poderiam ter sido melhor produzidas, um acabamento melhor.  

"A arte também molda caráter, traz reflexão".

4.  Eu li que você se “arrependeu de usar muitos recursos digitais no passado”. Por quê? Acha que isso pode comprometer a música de alguma maneira?

Naquele momento inicial da banda, a gente se valia muito de programas de computador para compor as músicas, o que foi legal porque não tínhamos recursos para ficar enfiados em estúdio ou comprar sintetizadores bacanas.
Mas com o passar do tempo, eu me tornei um adepto do hardware, do uso de baterias eletrônicas e synths. O que eu vejo em muitas produções eletrônicas é uma perfeição milimétrica que não é humana, são apenas pessoas sentadas com seus computadores escolhendo onde vão colocar um acorde ou um beat. E sei lá, a imperfeição de você tocar um teclado para uma gravação, mesmo não tendo essa precisão digital, é o que dá alma aos trabalhos.
Claro, isso é a minha opinião e sei que o Karlos Junior vai discordar de mim totalmente.

5. Quais são as principais mudanças entre os primeiros álbuns e músicas lançados, e os materiais produzidos mais recentemente?

Além da parte técnica que eu já comentei, onde eu acho que as músicas hoje são mais bem produzidas, eu acredito que as mudanças estão ligadas ao amadurecimento e ao que foi me influenciando ao longo dos anos.  Dificilmente eu faria hoje uma música como Adore, sobre uma mulher dançando em uma boate, mas sei lá, é difícil enxergar as mudanças quando você faz parte do processo. Na verdade, o conceito nunca foi se prender em um único estilo, então nunca pensei muito sobre isso. Mas uma mudança que eu venho percebendo é o fato de que, atualmente, eu tenho escrito mais letras sobre o que observo, ao contrário das letras mais introspectivas que fiz em 2016. O “Caridade & Sadismo” foi gravado numa fase meio “dark” da minha vida e isso se refletiu nas músicas.

6. Que tipo de efeito você acredita que suas músicas causam nos ouvintes?

Sinceramente, eu não faço ideia. Até porque eu recebo respostas diferentes dependendo de onde vem esse feedback. As críticas e comentários na internet mencionam essa coisa mais introspectiva, mais reflexiva de algumas das faixas. Por outro lado, nos palcos onde a coisa é bem mais física, naqueles momentos mágicos onde banda e público estão em sintonia, a vibração é bem mais explosiva, de celebração. Eu espero apenas que o nosso trabalho tenha algum significado pessoal, que falem sobre as suas vidas, assim como essas músicas falam sobre a minha.

7. Poderia comentar sobre a“Paranoia Musique”? Em que, exatamente, consiste esse projeto? 

A Paranoia Musique surgiu de uma inquietação que eu sentia em 2017. Eu via a dificuldade de muitos artistas underground em divulgar a sua música e mesmo para arranjar novos locais e públicos para seus shows. A idéia é bem simples: um canal que fosse um selo musical, organizasse eventos com bandas e DJs e divulgasse tudo isso para aqueles que se identificassem.
Já realizamos shows de bandas fantásticas como Poëtka, Gangue Morcego, Arte no Escuro, The Knutz, 1983, Ocaso, Poetisa Dissecada, Masquerade & Virgin in Veil, além dos diversos lançamentos na nossa página do Bandcamp e em outras plataformas online. Em tempos de covid-19, vou pegar emprestado a ideia do Fanzine Brasil e abrir espaço para lives de bandas, além de conversas e entrevistas na nossa página do Youtube. Essa foi a forma que eu achei de criar uma comunidade, um grupo de pessoas que tem algo em comum e trabalham para que esse movimento aconteça.

8. Percebi que há um certo engajamento político e social em algumas letras da banda. Esse tema prevalece em toda a discografia? Que outras inspirações temáticas vocês têm?

Uma piada interna que eu tinha com o João é que a banda nunca fez uma letra romântica... e isso se mantém até hoje. Se o artista for honesto com seu trabalho, e não tentar escrever algo pensando em agradar A ou B, é inevitável que ele olhe para si mesmo e em tudo ao seu redor para buscar inspiração.  Eu já vi alguns artistas que processam demais as suas influências, onde tudo é feito para lembrar certas sonoridades ou abordar temas específicos. Eu nunca fui assim, a coisa toda funciona de forma mais onírica, mais inconsciente. E com certeza isso se reflete nas letras... e fica meio difícil ser apolítico nesse momento que vivemos enquanto raça humana. Mas as experiências pessoais e certamente algumas coisas que leio ou ouço devem influenciar o trabalho do Cubüs.

9. Essas letras de cunho político parecem bem importantes para o atual momento em que vivemos. Acha que elas podem levar os ouvintes a reflexões que, posteriormente, sirvam como motivação para fins práticos?

O Frank Zappa uma vez disse que se as músicas influenciassem as pessoas, todos nos amaríamos por causa da avalanche de canções românticas que tocam nas rádios. Eu concordo com ele em parte, você não faz uma revolução no comportamento com apenas 3 acordes. Ou faz? O Punk foi uma onda transformadora por onde passou. Pessoalmente, escrever uma letra mais política é uma forma de catarse, um jeito de expurgar essa revolta, essa impotência que sentimos perante esse sistema imutável. Mas a arte também molda caráter, traz reflexão. Se conseguir mudar a cabeça de uma pessoa, já é o primeiro passo para mudar o mundo.


"No geral, eu acredito que a tecnologia ajuda os artistas, principalmente os menos conhecidos". 



10. Qual foi o show mais marcante já feito pela banda? E como foi participar do Live Isolation Festival, organizado pelo site Fanzine Brasil?

Citar um único show seria bem injusto, mas tem alguns que me marcaram. O nosso debut na Baratos da Ribeiro foi mágico porque além dos nossos amigos, conseguimos atrair também a galera do boteco ao lado que jamais havia entrado na livraria antes. Aquele mix de pessoas totalmente diferentes foi bem caótico e legal. Fizemos alguns shows que foram incríveis também na festa Rio After Midnight (na Lapa), no Espírito Santo ao lado da galera do Fake Dreams... com certeza um dos melhores foi o de Juiz de Fora com a galera do Cova de Laços. Algumas pessoas estavam cantando “Os Gritos Não Se Calam” comigo e aquilo foi bem emocionante. Houve vários outros fantásticos também (sempre me divirto quando vou a São Paulo), mas não vou me estender numa lista gigante.

O Live Isolation Festival foi uma experiência ímpar! Estando todos nós isolados, foi muito legal poder se reconectar através da live. Fora que foi muito gratificante poder ler depois os comentários e ver a interação da galera com a performance. Esse modelo é importante para lembrar que não estamos sozinhos.

11. A tecnologia, no geral, tende a atrapalhar ou ajudar um artista?

No geral, eu acredito que a tecnologia ajuda os artistas, principalmente os menos conhecidos. Os avanços tecnológicos nos permitem gravar em casa, produzir músicas e vídeos de forma barata (ou mesmo grátis) e distribuir nosso material para pessoas do mundo inteiro. Outro dia eu vi um documentário da BBC sobre os desbravadores da música eletrônica dentro da rádio e, preciso dizer, eles foram heróis. Conseguiram produzir material de excelente qualidade com quase nada porque tudo era muito rudimentar. Imagina o que essas pessoas fariam nos dias de hoje? O que seria do Aphex Twin sem sua percepção fantástica de como “distorcer” a tecnologia para produzir seus sons esquisitos? Como eu disse anteriormente, eu sou apenas contra a tecnologia quando ela captura a percepção do artista, quando deixa de ser uma ferramenta e se transforma na própria arte.

10. Se pudesse dividir o palco com algum músico e/ou banda, quem escolheria?
Essa é bem fácil! Quem me conhece bem, sabe que sou super fã do Depeche Mode e seria um enorme prazer abrir o show dos caras. Mas não posso reclamar, eu já dividi os palcos com muita gente legal e que gosto bastante, pessoas que se tornaram meus amigos por causa da música.

11.  Quais são os planos para o futuro? Vocês estão trabalhando em algum material novo recentemente?

Já faz um tempo que eu tenho como meta gravar o novo álbum da banda, mas acho que isso ainda não aconteceu porque preciso dividir minha atenção com trabalho e com a Paranoia Musique. Mas se tudo der certo, esse álbum vai sair em 2020. Eu fiz alguns esboços de músicas, já fiz algumas gravações, mas nada que tenha me agradado muito para entrar no álbum. Vou trocar umas figurinhas com o Karlos Junior, mandar alguns esboços para ele... vamos ver como será gravar em época de isolamento social. Contudo, desde que entramos nessa pandemia, eu já não tenho tanta pressa para finalizar esse novo trabalho. Eu me pergunto se vale à pena lançar um disco e não poder sair em turnê para divulgar. Eu acho que no caso do Cubüs, as músicas ganham vida mesmo no palco, é ali onde elas mais brilham. Por hora, talvez eu lance alguns EPs ou singles antes do novo álbum... vamos ver o que o futuro nos reserva.

12. Vocês têm uma sonoridade bem experimental. Em algum momento isso já rendeu críticas negativas? 

Não, pelo contrário. Muitas pessoas já vieram me falar que preferem as músicas mais estranhas, os b-sides dos nossos singles. Eu acho que a sonoridade do Cubüs passeia entre as melodias da música pop e esse lado mais estranho, mais experimental.

Outro dia eu me peguei pensando sobre isso, a nossa sonoridade nunca foi muito “clean”, sempre metida em distorções ou reverberações estranhas. Mas não estou sozinho nessa corrida porque muitos dos novos artistas tem as mesmas referências que eu tinha quando comecei. É lógico que o tipo de música que criamos dificilmente vai nos levar as rádios ou vai estampar nossos rostos nos grandes sites sobre música, mas sucesso para os artistas underground vem de outras formas. A banda já me levou a locais que jamais imaginei tocar, conhecer pessoas legais e receber elogios de gente fora do meu círculo de amizades. Esse tipo de moeda vale muito para mim.
Resumindo, eu não sei fazer música de outra forma e essa é a nossa marca.

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