Fanzine Brasil

SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O GLAM ROCK DO MOTT THE HOOPLE

 Por Juliana Vannucchi

O Mott The Hoople é uma banda originária de Herefordshire, pequeno condado localizado no oeste da Inglaterra. O grupo foi um dos remanescentes do glam rock e seus trabalhos iniciais datam de 1969. A primeira e principal música de sucesso da banda, “All The Young Dudes”, foi escrita por David Bowie, que era grande admirador do Mott The Hoople.

A discografia dos embriões do glam é composta por sete álbuns de estúdio e, apesar de o primeiro trabalho ter sido lançado em 1969, apenas em 1972 a banda conseguiu maior reconhecimento público, sendo que esta explosão comercial aconteceu de forma bem curiosa. A formação mais apreciada e de maior destaque da banda contou com Ian Hunter (vocal, guitarra e piano – Hunter, posteriormente, tocaria com David Bowie durante uma fase da carreira do Camaleão), Pete Watts (contrabaixo), Mick Ralphs (guitarra e vocal), Dale Griffin (bateria) e Verden Allen (órgão). Pete Watts, membro fundador do Mott the Hoople, prevendo uma possível dissolução de seu grupo, certa vez procurou o amigo David Bowie, que lhe fez um imenso favor: sedeu-lhe uma letra que havia escrito, chamada “All The Young Dudes”. Inicialmente, Bowie teria oferecido uma outra composição autoral (que hoje, certamente é bem popular) chamada “Suffragette City”, mas esta música foi recusada pelos membros do Mott The Hoople. De qualquer forma podemos considerar que os dois lados envolvidos nessas "trocas" tiveram vantagem: o camaleão conqusitou grande sucesso com “Suffragette City”, que tornou-se um de seus inúmeros grandes hits, enquanto, por outro lado, seus ídolos de Herefordshire, finalmente obtiveram reconhecimento e conseguiram alavancar a carreira no mercado musical. Conta-se que David Bowie escreveu esta música enquanto estava sentado de pernas cruzadas em seu apartamento de Ian Hunter. A letra seria dedicada para “jovens novos e de vez em quando velhos”. Conforme Hunter recordou em uma entrevista gravada em 2004, a respeito dessa interessante história: “Bowie nos ofereceu ‘Suffragette City’, que eu achava que não era bom o suficiente, então ele se sentou no chão, no escritório da Regent Street, e tocou ‘All os The Young Dudes’ em uma guitarra acústica”.

 

Mott The Hoople: os monstros do glam. Uma das bandas glamourosas e vibrantes do mundo do rock.

O Mott The Hoople foi uma das primeiras bandas a assumir um visual tipicamente glam. Os integrantes vestiam roupas brilhantes e caracterizadas pelo uso de gliter. Talvez, de maneira geral, o principal destaque de suas músicas seja a pincelada de solos e melodias espetaculares de guitarra. Ademais, cabe mencionar aqui as apresentações teatrais e irreverentes do grupo, repletas de dancinhas, paços sincronizados e energia, que se tornaram um aspecto bastante atraente para os fãs.

Em 2009, ano em que a banda completou 40 anos, houve uma reunião especial para a realização de cinco shows no Hammersmith Apollo. Em 2013 o Mott The Hoople  realizou uma turnê especial que rendeu inúmeros materiais, como DVD, CD e  até mesmo um livro com fotografias inéditas de sua trajetória. No site oficial, a banda comentou sobre o livro: “Este livro tem contribuições de todos nós e pensamos que é a homenagem perfeita para agradecer todo mundo pelo apoio que recebemos desde que começamos até os dias de hoje”.

Esperamos que o Mott The Hoople continue ativo. A banda foi historicamente importante e  fundamental para a consolidação do glam e para a construção da carreira de David Bowie. Se quiser um escutar um rock clássico e contagiante, coloque o grupo na sua playlist!

Referências:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mott_the_Hoople

https://www.mottthehoople-74.com/

https://www.theguardian.com/culture/2024/jan/15/bowie-mott-the-hoople-all-the-young-dudes-ziggy-stardust


quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

EU BEBERIA COM ESSA GURIA #01: CYNTHIA ROSS

 Por Juliana Vannucchi

A inauguração desta nova coluna do nosso site, ocorrida em 2023, teve como protagonista o especialíssimo baixista Thiago Halleck. Mas quem ocupa o espaço dessa vez é a baixista canadense Cynthia Ross, que cravou seu nome na história do punk rock norte-americano e canadense através do legado que deixou com a banda The 'B' Girls.

Eu certamente tomaria muitas doses de café com a Cynthia porque, além de eu amar café, essa bebida maravilhosa, que geralmente gera boas e longas prosas, me lembra da série Twin Peaks, que eu a Cynthia adoramos! Isso porque, conforme os fãs do seriado sabem, o agente Cooper é doido por cafeína! Claro que, partindo desse ponto, eu e a Cynthia iríamos conversar bastante sobre os mistérios, excentricidades e demais aspectos desse maluco e surreal universo criado por Lynch. A trilha sonora de Twin Peaks é por si só uma verdadeiro obra de arte, conduzida e criada por Angelo Badalamenti (que, caso os leitores não saibam, cabe dizer a título de curiosidade, trabalhou com Siouxsie Sioux). David Lynch chegou a comentar que essa série consiste num modo de acessar aspectos misteriosos da existência... aí está outro assunto sobre o qual iríamos discorrer: MISTÉRIOS... até porque, falando nisso, a banda The 'B' Girls possui uma música muito especial - que é a minha favorita - chamada "Mystery", escrita justamente pela Cynthia (no ano passado, entre outubro e dezembro, eu a escutei 66 vezes no Spotify, pasmem). Vou disponibilizar a letra abaixo. É interessante observar que trata-se praticamente de um hino à solidão porque, no final das contas, conforme a letra sugere, ainda que estejamos rodeados por outras pessoas e que nos encontremos no meio de grandes multidões, no final das contas estamos sempre sozinhos e um tanto deslocados. E a solidão, como condição existencial, cabe observar, é uma instância especial e necessária da própria vida. Conforme certa vez escreveu Arthur Schopenhauer: "A solidão é a sorte dos espíritos excepecionais". Nietzsche também era adepto da solidão e entendia que o ato de filosofar presuponha tal estado. Ademais, entendia que o ser humano deveria saber conviver com a própria companhia e, nesse âmbito, em "Assim Falou Zaratustra", escreveu: "Não há solução para quem sofre de si mesmo". Sêneca foi outro pensador que, não apenas contemplou a solidão, mas numa carta endereçada a Lucílio, destacou os perigos que a multidão oferece ao tornar vícios cativantes e induzir as pessoas a pensar sempre de uma mesma maneira (isto é, a multidão surge aqui como um verdadeiro convite para a alienação).

MYSTERY

Yeah baby it’s a mystery

The things you do to yourself

Night time it’s a mystery

You’re all by yourself


You cry tears

You call out

Words sound ...

Get paid, your future’s made

But your life it goes on and on


Downtown’s got no bright light shining

Lonely on the street

Downtown’s got no nightlife living

No, not on the street


I watch as you slip away

A little every day

That man downtown keeps calling you

And you decide to stay


I know you’re no ones miracle

I’ve seen how much you pay

Living daily misery

What can I do to make it be okay?


Downtown’s got no bright lights shining

Lonely on the street

Downtown’s got no night life living

No, not on the street. Hey


So alone among the crowd

Still looking for more

So alone among the crowd

Still looking for

Still trying to find

More ... More ... More

more ... more ... more


(C) 1977 Cynthia Ross
For The ‘B’ Girls

Também, com certeza, bateríamos um papo sobre Audrey Hepburn, atriz que nós duas admiramos bastante! E eu sei que a Cynthia flerta com literatura, até porque, ela é uma poetisa notavelmente talentosa, que escreve poemas tocantes, profundos e imensamente poderosos, capazes de entorpecer qualquer alma e emocionar qualquer coração. A experiência de ler suas palavras gera uma espécie de elevação metafísica e êxtase mágico que todos deveriam provar - para conhecer as poesias da Cynthia, basta segui-la no Instagram. Iria querer saber quais são os poetas que mais a influenciaram - mais sei que ela flerta com os grandes nomes da contracultura. E sei que a Cynthia Ross tem algum apreço por Isaac Asimov, um autor que eu, particularmente, admiro bastante. Li dois livros dele recentemente: "O Cair da Noite" & "O Homem Bicentenário". Ambos abordam temas profundos ligados aos limites e perigos das relações existentes entre o ser humano e a tecnologia. A narrativa do primeiro livro mencionado se desenvolve a partir do seguinte problema: teríamos condições de manter nossa sanidade se não existisse mais luz? Raramente nos damos conta do quanto a luminosidade é de fato relevante para a manutenção de uma vida saudável e produtiva. Quais seriam os efeitos colaterais da escuridão total? Essas questões que você, leitor, está lendo agora, seriam também, é claro direcionadas à Cynthia. E eu recomendaria os dois livros acima mencionados a ela.

Eu também teria numerosas perguntas para fazer a respeito de tudo que ela viviu durante a eclosão do punk rock norte-americano e gostaria muito de passar horas a fio escutando suas histórias, reflexões e aventuras relacionadas ao universo punk. Apresentaria a ela algumas bandas e artistas brasileiros começando, aliás, pelo próprioThiago Halleck e a banda "Gangue Morcego". Citaria a Fabi Bellentani como uma grande e exemplar baixista e também falaria para ela adicionar "The Edwoods", She Is Dead", "Mickey Gang", "We Are Pirates", "Rita Lee" e "Harry & The Addicts" na playlist dela. Ou, talvez, eu até criasse uma playlist própria para servir como trilha sonora para o nosso café! Começaríamos escutando "Lycanthopia", da última banda citada aqui. Depois "Silent Telephone" (you will die aloneee) & seguiríamos: "She Is Dead" ("She Is Dead") / "Sobrenatural" ("Gangue Morcego") / "Canyon" ("WAP") / "Running" (WAP) / "I Was Born In The 90's ("Mickey Gangue") / "Perv In The Park" & "Plan 9" ("The Edwoods"), Rita Lee (váriaaas). Eu acho que "Perv In The Park" faria ela se retirar da mesa porque o The Edwoods é muito assustador. Aliás, ifalando em The Edwoods, isso traz a tona um outro ponto interessante que poderia ser abordado: conversaríamos sobre filmes trash, que estão entre os meus favoritos. Acho que ela, no mínimo, gosta de clássicos como "Ben, o Rato Assassino" e "Palhaços Assassinos do Espaço Sideral". Eu amo ambos. Duas produções fabulosas do gênero! Quem não gosta? Se, por acaso, ela dissesse que não aprecia filmes assim, eu simplesmente falaria que fui mal influenciada pelo Andy e pelo Eron. E talvez eu me empolgasse e inventasse um roteiro maluco de filme trash chamado "O Tapete Maldito", cuja trilha sonora teria sido criada pelo The Edwoods.

Posteriormente e para encerrar, eu iria falar mal do Bolsonaro. Muito mal. Esse tópico é fundamental em qualquer conversa, não é mesmo? E para encerrar, antes do último gole da décima xícara, eu faria uma alusão ao agente Cooper. Olharia para o meu recipiente e diria: "Damn fine coffee".

 

Eu beberia com a Cynthia Ross!

 


sábado, 16 de dezembro de 2023

A PODEROSA KIM DEAL

 Por Juliana Vannucchi

Kim Deal é uma das baixistas mais conceituadas da história do rock. Ela foi responsável por ajudar a criar alguns dos hits mais célebres da banda Pixies, aclamado grupo de rock alternativo noventista que viveu seu auge justamente no período em que Kim esteve na banda, sendo inegável que ela foi o ponto forte responsável por alavancar o grupo americano. A baixista participou das gravações dos discos “Come on Pilgrim” (1987), do glorioso e memorável “Surfer Rosa” (1988), do popular (e talvez mais qualificado da banda) “Doolittle” (1989), do primoroso “Bossanova” (1990) e, por fim, do “Trompe le Monde” (1991), sendo esse último, em termos gerais, já bem menos cativante e original do que os outros. Os Pixies se separaram em 1993, devido a uma série de divergências e brigas entre Deal e o vocalista Black Francis. Eles se acusaram e se alfinetaram mutuamente ao longo dos anos, deixando claro que a relação entre ambos na banda era amarga e que sempre houve um certo rancor entre os dois. Numa entrevista mais recente, concedida um tempo atrás ao jornal britânico The Guardian, Francis finalmente assumiu uma postura ligeiramente mais branda ao comentar sobre Kim: “Fizemos muitas turnês juntos, escrevemos juntos e gravamos todos aqueles discos juntos...mas nada é para sempre”. O vocalista, apesar disso, também revelou que os dois não conversam há muito tempo.

Kim tem uma irmã gêmea chamada Kelley Deal, com a qual formou a banda The Breeders, cuja atmosfera musical é elogiável e essencialmente falando, lembra bastante a sonoridade dos Pixies. Certa vez, na adolescência, as irmãs  pediram um teclado Yamaha de aniversário. Quando ganharam o instrumento, usaram o assento sanitário do avô como suporte e, por meio de tal improviso, começaram a frequentar diversos bares pelo distrito de Oregon. Esse fato inusitado foi o ponto de partida que lançaria Deal ao universo do rock. No entanto, fora do campo musical, Kim Deal fez um curso ligado a tecnologia médica e, curiosamente, chegou a atuar profissionalmente como técnica de laboratório na área de biologia celular. Nesse período de sua vida, conheceu John Murphy, com quem iniciou um relacionamento, vindo a se casar em 1985. Ela, então, mudou-se para Boston, onde sua afinidade com a indústria musical e com o rock se estreitou, conforme refletiu certa vez: “Achei a cidade muito vital e muito interessante”. Deal se recordou de folhear o jornal Boston Phoenix e sempre se deparar com anúncios de bandas que precisavam de músicos: “Diziam frases como ‘preciso de um baterista’. Atitude profissional apenas. Costeletas: Obrigatório.’ (...) mas então, certa vez me deparei com um que dizia algo sobre não ter costeletas. Foi tão bom. Foi para quem liguei e eles estavam procurando por ‘baixista’ e foi assim que nós começamos a tocar juntos.”

 

Fora dos palcos, Kim Deal gosta de comer chocolate e se interessa por plantas.

O grupo The Breeders, que obteve bastante reconhecimento ao longo de sua carreira, chegou a contar com a talentosa Kim Gordon na produção do vídeo da faixa “Cannonball”, presente no álbum “The Splash”. Deal, certa vez, lembrou-se do quanto estava nervosa quando perguntou se a baixista do Sonic Youth poderia participar do disco: "Nós simplesmente perguntamos a ela. Eu não a conhecia. Não tínhamos amizade. Fiquei muito nervosa quando perguntei, pensei que ela não iria querer”. É interessante e inspirador pensar que existiu esse breve contato artístico entre Kim Deal e Kim Gordon, duas baixistas consagradas para os amantes do rock alternativo dos anos 90.

Aproveitando o clima natalino que se aproxima, vale citar aqui uma declaração de Kim Deal a respeito das músicas de Natal: "As canções cristãs usam todas essas coisas... se você der a volta na montanha, e se trabalhar duro com o martelo, e encontrar um carpinteiro chamado Jesus Cristo, e viajar quilômetros e quilômetros... todos esses simbolismos estúpidos que o povo cristão usa”. A ex-integrante dos Pixies parece não ser muito religiosa. Ela chegou a refletir sobre o assunto numa ocasião, assumindo uma postura consideravelmente ateísta ao declarar que passou parte da sua vida buscando uma divindade, mas como não encontrou, acha que não há nada do outro lado.

Há quem diga que Kim Deal tem uma personalidade forte e que seu jeito durão foi um dos motivos que causaram problemas com a banda Pixies. Mas esses aspectos são considerações supérfluas. O que vale é nos concentrarmos no legado, nas inesquecíveis melodias de baixo que ela gravou com a referida banda e que são capazes de elevar qualquer ouvinte a um estado de êxtase. Seu talento é fora da curva, seu domínio instrumental e suas ideias são simplesmente extraordinários. 

Referências:

https://www.theguardian.com/music/2022/feb/03/pixies-frontman-black-francis-kim-deal-were-always-friends-but-nothing-is-for-ever

https://www.abc.net.au/listen/doublej/music-reads/features/kim-deal-breeders-pixies-last-splash-cannonball-1993-interview/13370482

https://writebyte.com/pages/art_deal.htm

https://www.pastemagazine.com/music/the-breeders/the-breeders-last-splash-interview


domingo, 10 de dezembro de 2023

MARIANNE FAITHFULL: A INCRÍVEL TRAJETÓRIA DE UMA LENDA DOS ANOS 60

 Por Juliana Vannucchi

Marianne Faithfull é uma prolífica cantora inglesa, que se tornou um verdadeiro ícone cultural dos anos 60, tendo sobrevivido às loucuras e excessos experenciados na referida década. Sua vasta e original discografia é composta por um total de mais de vinte álbuns de estúdio, nos quais encontram-se ritmos e melodias notavelmente diversificados. Além do imenso legado deixado no universo musical, a britânica também se popularizou por seus papéis no cinema e principalmente pelo relacionamento que teve com Mick Jagger, que a levou a se tornar uma musa inspiradora de algumas das faixas mais conhecidas dos Stones. Cabe observar que a carreira artística de Faithfull, embora muito abundante e digna de elogios, foi amplamente encoberta pela fama de Mick Jagger, uma vez que o relacionamento com o astro do rock a colacava, de modo geral, em segundo plano, levando-a, inclusive, a vivenciar ao lado dele alguns escândalos que prejudicaram sua carreira como atriz. Apesar de Jagger ter contribuído para que a imagem dela fosse comprometida, Faithfull, por sua vez, ajudou, ainda que indiretamente, a alavancar a imagem do líder dos Stones, tendo inspirado várias de suas músicas e até mesmo tendo ajudado a escrever ao menos uma letra de sucesso da banda. Mas ainda que um tanto ofuscada por Mick Jagger, ela conquistou seu espaço, principalmente por sua voz fabulosa que é capaz de tirar os ouvintes da dimensão terrestre e também por seu espírito incansável. Infelizmente, quando o namoro entre os dois acabou, a cantora perdeu-se completamente no  uso compulsivo de álcool e drogas...  

 

Faithfull simplesmente sobreviveu através da produção artística que lhe serviu como combustível.

Faithfull sempre portou e propagou uma postura bastante underground e destemida, tendo, inclusive se tornado referência para vários nomes da cena punk de Nova York (como Lydia Lunch, Bush Tetras e vários outros). Ela chegou a viver como andarilha nas ruas londrinas em função de seu vício em heroína e sua vida foi marcada por crises turbulentas e períodos decadentes, que foram sensivelmente transportados para muitas de suas poderosas e sombrias letras, sempre tão carregadas de emoção. Seu jeito melancólico de cantar e as poesias muitas vezes autobiográficas, inspiradas em suas desventuras, em seus medos, desejos, paixões e vícios, a transformaram numa personalidade emblemática, memorável e bastante cativante. Aliás, uma das pessoas que ela conquistou e com a qual até mesmo contribuiu artisticamente foi David Bowie. Podemos dizer que Faithfull simplesmente sobreviveu através da produção artística que lhe serviu como combustível e como um ponto de apoio necessário sem o qual, talvez, ela não tivesse aguentado enfrentar alguns dos duros e perigosos momentos que atravessou em sua vida.

No decorrer de sua história, a elegante Marianne Faithfull já recebeu inúmeras e merecidas honrarias culturais e permanece sendo um nome aclamado ao redor do mundo. Nutre uma forte amizade com grandes nomes da música, tal como Warren Ellis, Nick Cave e Brian Eno, além de ter influenciado significativamente muitos músicos e bandas importantes. Em 2022, foi anunciado que Marianne estava internada numa clínica afim de reabilitar-se de uma série de sequelas deixadas pela Covid-19, doença que a atacou fortemente, fazendo-a ficar internada durante três semanas. Força é algo que não falta a essa mulher: a incrível Marianne Faithfull já superou um câncer de mama, além de também ter enfrando um quadro grave de hepatite C, e sobrevivido a uma queda que a fez quebrar seriamente o quadril. A vigorosa e sempre inspirada fera inglesa também já sobreviveu a uma grande infecção e venceu um sério quadro de anorexia. Faithfull  possui uma história de vida muito impressionante. Ela já foi do glamour ao inferno, dos palcos aos suburbios... mas o fato é que ela sempre se manteve afastada das regras sociais, esteve longe do convencional e, sobretudo, das normas de comportamento esperadas para uma mulher dos anos 60. Essa donzela decadente nos ensina a sermos mais corajosos, a suportarmos dores que parecem insuperáveis e, claro, a transformarmos todos os pesares, aflições e calamidades existenciais em poesia. 

Referências:

http://www.mariannefaithfull.org.uk/biography/

https://www.nytimes.com/2021/04/22/arts/music/marianne-faithfull-she-walks-in-beauty.html

https://www.theguardian.com/music/2021/jan/15/marianne-faithfull-i-was-in-a-dark-place-presumably-it-was-death


domingo, 3 de dezembro de 2023

ALÉM DO THE CURE: A TRAJETÓRIA DE ROBERT SMITH

 Por Juliana Vannucchi

Robert Smith, aclamado vocalista do The Cure, é imensamente conhecido por sua voz ímpar, por seus cabelos desgrenhados, seu borrado batom vermelho e pelos hits icônicos e históricos de sua banda. Contudo, o que nem todos conhecem é a sua trajetória de vida, até porque, convenhamos, o músico sempre foi muito discreto em relação a isso. Felizmente, porém, apesar de sua discrição, pesquisas mais acuradas e entrevistas nos revelam aspectos bem interessantes da vida do vocalista do The Cure. A história de Robert começou em 21 de abril (data lembrada pelos brasileiros por causa de Tiradentes) de 1959, em Blackpool, pacata cidade litorânea inglesa, localizada no norte do país. Ele foi o terceiro filho (vale citar a título de curiosidade que Janet, irmã de Robert, é casada com Porl Thompson, lendário guitarrista do The Cure) do casal Rita Mary e James Alexander Smith. Sua família mudou duas vezes de cidade e, consequentemente, Robert estudou em várias escolas diferentes ao longo da infância e da adolescência. Smith cresceu cercado por uma atmosfera familiar católica que fez sentido para ele durante um período de sua vida, embora posteriormente, tenha assumido uma postura mais cética em relação à existência de Deus: “Venho de uma família religiosa e por isso houve momentos em que senti a unidade das coisas, mas elas nunca duraram, e passei a crer que é apenas o medo que leva as pessoas à religião”. Robert Smith teve afinidade com a música desde tenra idade, aprendendo inicialmente a tocar piano e, logo depois, ainda na infância, familiarizando-se com a guitarra, após aprender alguns acordes com seu irmão. Posteriormente, buscou aperfeiçoar-se no instrumento através de aulas feitas com um guitarrista profissional.

A formação embrionária do The Cure data de 1976, quando Smith juntou-se aos colegas de escola. Lol Tolhurst assumiu a bateria, Michael Dempsey tocava baixo e o guitarrista era Porl Thompson. O grupo, nessa fase inicial, chamava-se “Easy Cure”. Nessa época, o movimento punk inglês estava vigorosamente em ascensão. O jovem Robert acompanhou de perto a eclosão e o auge desse novo fenômeno. Admirava principalmente bandas como Stranglers, Buzzcocks e Siouxsie And The Banshees, tendo, inclusive, tocado no último grupo durante um tempo e estreitado laços com Steven Severin, ao lado do qual formou uma banda chamada The Glove. Entretanto, o The Cure nunca esteve musicalmente limitado a influências provenientes do punk rock e foi assumindo, ao longo de sua história, uma tonalidade mais sombria ou, por vezes, bastante pop. Até porque Smith cresceu escutando outras bandas como Beatles e Pink Floyd e, portanto, carregava inúmeras outras referências musicais quando formou o The Cure. Ademais, sua alma portava uma enorme paixão pela literatura e uma sensibilidade que certamente se distanciava da agressividade característica do punk. Durante a adolescência, por exemplo, apreciava Edgar Allan Poe e Rimbaud. Posteriormente, mais maduro, passou a interessar-se fortemente por filósofos como Albert Camus e Jean-Paul Sartre, sendo grande admirador de ambos e tendo grande interesse pelo modo como Sartre discorre a respeito da condição humana. Smith também já citou Charles Baudelaire, John Milton, Nick Hornby e Franz Kafka como alguns de seus escritores favoritos. A respeito desse último, chegou a declarar: "“Pela primeira vez, a voz do narrador era minha. Eu era o narrador. Eu estava me misturando com suas palavras. Li e reli todos os seus livros: O Processo, A Metamorfose, O Castelo… Sua influência na minha escrita é enorme, como em ‘Uma carta para Elise’, inspirada diretamente em suas Cartas para Felice". Penelope Farmer é outra autora que o marcou e um de seus livros inspirou a letra "Charlotte Sometimes", nome de um dos livros da escritora. 

 

O The Cure segue firme e criativo, atraindo diversas gerações, conquistando novos fãs e aquecendo o coração dos admiradores mais antigos. É uma banda que sobreviveu por méritos.

Por tais aspectos, podemos observar que enquanto inúmeras bandas punks voltaram-se, por exemplo, para letras de cunho político e social, Smith, que já alegou preferir manter-se distante de tais conteúdos, possui letras fortemente sentimentais cujas ideias muitas vezes foram provenientes de estados alterados de consciência por ele experimentados. 

Robert Smith casou-se em 1988. O vocalista do The Cure conheceu Mary Poole, sua atual esposa, na época da escola. Eles se aproximaram depois que ele a convidou para ser sua dupla numa atividade. Estão juntos desde os 14 anos. Nunca tiveram filhos e Smith certa vez declarou não se arrepender disso. No entanto, há diversas fontes que mencionam que os dois tem 25 sobrinhos e sobrinhas. Robert se inspirou numa viagem com Mary para escrever “Just Like Heaven” e, aliás, é ela que aparece dançando com o vocalista no vídeo oficial da música. Parece ser uma das canções das quais ele mais se orgulha. Smith chegou a declarar que quando terminou de escrevê-la, pensou que nunca mais seria capaz de escrever algo tão bom. No estúdio, os integrantes do The Cure chegaram a brincar, dizendo que poderiam até fazer as malas e parar de criar mais: “Felizmente, não fizemos isso”, brincou Smith ao contar esse episódio. Cabe dizer que “Love Song” foi um presente de casamento de Smith para Mary!

Atualmente, Smith continua sua performance de maneira impecável. Certa vez, quando completou 60 anos, disse que não sentia a idade. Nos palcos, essa declaração parece absolutamente confirmada, pois Smith parece estar sempre em transe, convidando a plateia a mergulhar num estado catártico. A esse respeito, numa entrevista, o vocalista do The Cure refletiu: “Quando estou cantando e tocando, sou meio que transportado (...) Parece algo meio hippie, mas sempre foi assim comigo. Eu simplesmente sinto que se estou me perdendo nas músicas, acho que há uma boa chance de que todos os outros também estejam”. O The Cure segue firme e criativo, atraindo diversas gerações, conquistando novos fãs e aquecendo o coração dos admiradores mais antigos. É uma banda que sobreviveu por méritos e uma das poucas do remanescente punk que ainda continua poderosa, estável e qualificada.


Referências:

https://amp.theguardian.com/music/2018/jun/07/the-cures-robert-smith-i-was-very-optimistic-when-i-was-young-now-im-the-opposite

https://post-punk.com/six-different-ways-the-cures-robert-smith-won-our-hearts/amp/

https://www.irishtimes.com/culture/music/the-cure-s-robert-smith-i-survived-a-lot-of-people-in-london-didn-t-1.3538003

https://faroutmagazine.co.uk/how-punk-changed-the-cure-singer-robert-smiths-life/

https://www.rollingstone.com/music/music-features/cure-band-robert-smith-interview-40-live-893005/

https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwj1he6l7_GCAxWyppUCHc7EAMkQFnoECBcQAQ&url=https%3A%2F%2Ffaroutmagazine.co.uk%2Fthe-cure-robert-smith-12-favourite-books-list%2F&usg=AOvVaw0-vBt23iYKGh7FmRJYA_WQ&opi=89978449

https://amp.theguardian.com/music/2018/jun/07/the-cures-robert-smith-i-was-very-optimistic-when-i-was-young-now-im-the-opposite

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

THE EDWOODS EM PAUTA: CAOS, LOUCURA E ROCK AND ROLL

 Por Juliana Vannucchi

No mês mais macabro do ano, época de Halloween, não poderia faltar material sobre a banda underground mais bizarra do país, o The Edwoods, duo paulistano formado por Andy e Eron. Acompanhei a movimentação da dupla ao longo dos últimos meses e decidi bater um papo com os meninos para que me contassem melhor sobre o sucesso e sobre os próximos passos de suas produções musicais. Andy contou que 2023 foi um período particularmente dinâmico para o The Edwoods: "Tocamos pela segunda vez no PsychoCarnival em Curitiba, dividindo o palco com os Sick Sick Sinners, Frenetic Trio, com os Flicts e lá ainda vimos de pertinho os Replicantes, que é uma banda que nos influenciou muito. Gravamos também dois singles novos com a produção massa do Jairo dos Autoramas e de quebra ainda tocamos em uma cena de spanking no Dominatrix Bar, durante uma performance da Ramona e Kinky Alien".

A dupla faz parte de um vasto grupo de artistas do país que luta pela música independente e, com resistência, faz com que a cena autoral brasileira permaneça sólida. A esse respeito, Andy comentou que tanto o punk quanto o rock permanecem fortes e longe de qualquer tipo de crise, ainda que tais gêneros culturais estejam distantes da grande indústria musical: "O rock e o punk estão por aí e sempre estarão. Eles não estão nas grandes mídias, pois não há o devido e merecido espaço, mas estão muito vivos nos bares, pubs e garagens Brasil afora". Sobre esse tema, Eron refletiu: "Acho difícil conciliar interesse comercial com arte. Não é uma equação fácil. Creio que um pouco da liberdade criativa é perdido neste processo, mas vai de cada um também. Olha, se uma grande gravadora nos oferecesse um contrato, nós mudaríamos tudo! Investiríamos no visual para melhorar esta aparência deplorável que temos, aprenderíamos a tocar e faríamos músicas melhores que passassem alguma mensagem positiva".

 

"Se uma pessoa gosta de música ruim, mal tocada e que não fala nada e útil, somos a banda certa". (Eron)

Durante nossa conversa, perguntei aos meninos do que mais se orgulham na trajetória do The Edwoods. Seus rostos foram imediatamente tomados por sorrisos macabros e risadas diabólicas. Então a dupla mais trash do Brasil simplesmente respondeu que se orgulha, sobretudo, de estar “cada vez mais feia, insana e descarada". Aliás, é praticamente impossível manter um diálogo sério com os dois, porém, temos que entender que essa é justamente a essência e a proposta de suas criações musicais: a grande qualidade do The Edwoods encontra-se no barulho, no espírito do rock and roll que encarna em suas vozes e instrumentos e agita o público, fazendo-o perder-se em melodias que afastam, ainda que momentaneamente, qualquer problema ou desassossego. O duo não pretende disponibilizar mensagens profundas ou reflexões complexas (chupa, Pink Floyd!), pois, no final das contas, nem sempre são esses os elementos da vida que mais nos encantam ou dos quais mais precisamos. A realidade cotidiana é penosa e, nesse sentido, a fantasia e o humor são recursos necessários para nossa sobrevivência e para que possamos manter o gosto de continuar encarando a vida da melhor maneira possível. Nossas paixões se encontram, por vezes, no que há de mais simples e banal, e é justamente isso que o The Edwoods revela. Nesse sentido, Eron explicou o papel da dupla e por que alguém deve escutá-los: "Se uma pessoa gosta de música ruim, mal tocada e que não fala nada e útil, somos a banda certa! Se você é assim, procure um psiquiatra e ouça The Edwoods".

Para encerrar a conversa, perguntei a eles com quem gostariam de subir ao palco (valia citar artistas vivos ou que já morreram). Com prontidão e entusiasmo, responderam que escolheriam o "The Cramps"... A única coisa que pude pensar, sinceramente, foi: "Coitados dos integrantes do Cramps, seria bagunça demais para eles... o Lux não aguentaria".

 

 

CONHEÇA O "ALL THE MONSTERS", NOVO ÁLBUM DA SHE IS DEAD

 Por Juliana Vannucchi

A She Is Dead, que há anos figura entre as bandas brasileiras mais consagradas, continua firme e ativa no cenário do rock nacional. No último dia 28, o trio curitibano lançou o álbum “All The Monsters”, gravado e produzido por Luís Orta, que também atuou nos outros materiais do grupo. O disco possui um total de 13 faixas e conta com Mau Carlakoski nos vocais e na guitarra, Kim Tonietto no baixo e nos vocais e, como novidade em relação ao último lançamento de estúdio, as baquetas foram assumidas por Alessandro Santiago, que já havia feito parte da banda no passado e agora retornou no momento certo, se encaixando magicamente na She Is Dead. Santiago nos contou sobre a importância e a satisfação de estar de volta: “Estou feliz com esse momento, tanto pela amizade que tenho com os outros integrantes, quanto pela honra de estar numa das bandas mais viscerais da atualidade. A She Is Dead evoluiu muito ao longo desse tempo em que fiquei fora do grupo. É uma banda que vai ficar marcada na história do rock e, por isso, com certeza estar de volta é algo muito especial pra mim”.

De modo geral, o “All The Monsters”, que pode ser considerado o mais maduro da carreira da banda, possui uma pitada criativa de experimentalismos e carrega uma atmosfera mais próxima do pós-punk, embora mantenha, tal como ocorre nas produções anteriores, bastante afinidade com o rock noventista. Carlakoski nos contou que atualmente a She Is Dead está vivendo seu auge: “Esse novo trabalho apresenta nossas melhores composições e certamente reflete meu momento mais criativo como músico”. Tonietto também comentou sobre o atual momento que vive como músico: “Tivemos um amadurecimento não apenas nas composições, mas também na parte da produção musical. Com mais tempo e calma, pudemos criar melhores faixas para esse álbum. Devemos também agradecer muito ao excelente trabalho do Luiz Orta, que faz mágica com nossas músicas”.


(...) não é exagero algum dizer que o “All The Mosters” é uma produção histórica do rock brasileiro.

 

“All The Monsters” é o disco mais profundo da banda e o que mais cativa o ouvinte. Mau Carlakoski refletiu sobre a simbologia por trás do título escolhido para o álbum: “Nessa nova produção estão reunidos todos os meus monstros, meus fantasmas existenciais, tal como a saudade, as frustrações, a angústia, a esperança e outros monstros. Consegui colocar muitos dos meus sentimentos nesse trabalho”. Nesse novo disco, repleto de emoções e capaz de provocar efeitos poderosos nos ouvintes, o trio se mostra mais confiante, mais solto, mais talentoso em relação aos trabalhos anteriores e definitivamente se supera em termos de criatividade, especialmente ao explorar diversas camadas, nuances vocais e linhas de guitarra muito variadas. Escutar o álbum é uma verdadeira volta ao melhor que os anos noventa pode oferecer em termos de rock and roll. De certa maneira, é como se integrantes do Pixies, Sonic Youth e The Cult tivessem se unido e feito experimentos e gravações conjuntas.

A faixa de abertura, “That´s Ok” começa com bastante barulho, distorções e com um efervescente espírito anárquico que seguirá presente em praticamente todo o restante do álbum, embora na oitava música surja uma leve transição estilística em que os ruídos migram para um clima ligeiramente mais introspectivo. Por fim, cabe dizer que quem não é tocado pela maravilha que esse poderoso álbum oferece, certamente já deve estar morto por dentro, pois não é exagero algum dizer que o “All The Mosters” é uma produção histórica do rock brasileiro. Ao compartilhar seus monstros pessoais no álbum, Carlakoski leva aos ouvintes a exorcizarem os seus num processo catártico hipnotizante.

A banda curitibana tem shows agendados na capital paulista e em Santo André, além de estar confirmada no icônico festival “Punktober”. Para acompanhar a programação e os lançamentos da She Is Dead, acesse os links abaixo e siga o grupo nas redes:

Facebook: https://m.facebook.com/sheisdeadrock/

Instagram: https://www.instagram.com/sheisdeadrock/

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC5rr9E5T52fy6i3mc40-urA

Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/artist/2X18P5qiLWbpeWbcHaCIZb



domingo, 22 de outubro de 2023

GENESIS: PARA SOBREVIVER NO MUNDO REAL

 Por Juliana Vannucchi

No início de outubro, o multi-instrumentista Thiago Halleck, especialmente conhecido por sua carreira como baixista da banda Gangue Morcego, lançou, por meio seu projeto musical solo intitulado HallecӃ, seu primeiro álbum, o “genesis”, mixado e masterizado por Leandro Souza e que certamente consiste na produção mais madura, poderosa e qualificada do músico carioca, que nesse disco, pareceu mais livre e seguro ao aventurar-se em seus experimentalismos. 

Com um total de dez faixas, o consistente álbum caracteriza-se especialmente por sua atmosfera sombria que se mescla harmoniosamente com camadas sonoras eletrônicas e dançantes, resultando num clima essencialmente oitentista. Em meio a esse cenário, Halleck articula seus pensamentos e emoções por meio de sua voz, embalando os ouvintes em suas poesias, repletas de reflexões e lampejos sentimentais. Vale destacar, em particular, alguns excelentes solos e arranjos ferozes de guitarra que talvez sejam, no aspecto instrumental, o ponto mais forte e original deste elegante álbum. As pancadas tribais da bateria são outro ponto precioso que é digno de menção e remetem aos bons tempos em que Thiago era baterista e tocava tal instrumento com mais frequência. Em algumas passagens, cabe dizer também que, propositalmente ou não, Halleck resgata sutilmente a aura musical da banda Gangue Morcego e em tais trechos, o disco faz o ouvinte lembrar nostalgicamente de seu antigo grupo. 

 

Genesis: um dos álbuns independentes mais poderosos de 2023.
 

Embora Thiago Halleck tenha sido responsável pela gravação de todos os instrumentos principais do "genesis", a produção contou também com a participação enriquecedora de convidados especiais e influentes, como o brilhante Dennis Sinned, Edu Krumen, Ricardo Martins, Rafaela Mathias, Priscila Branco, Thiago Castilho e Leo Saitou, que figuram entre os principais nomes do pós-punk nacional e que fortaleceram a qualidade do álbum.  

Nosso site recomenda o “genesis” para todos aqueles que buscam inspiração e forças para sobreviver neste Mundo Real. É um álbum visceral, verdadeiramente impecável e figura entre os lançamentos independentes mais interessantes de 2023. Ficaremos na torcida para que Thiago continue tão inspirado, uma vez que sua inspiração é capaz de abastecer muitas almas e animar muitos corações!

Escute o álbum na íntegra acessando o link abaixo: 

https://www.youtube.com/watch?v=K4QgL3q-w_o


domingo, 1 de outubro de 2023

MOMENTOS MARCANTES, BANDAS QUE INSPIRAM E DICA DE MÚSICA: UM PAPO COM DAVE EVANS, PRIMEIRO VOCALISTA DO AC/DC

 Por Claudio Júnior & Juliana Vannucchi

O AC/DC é uma das bandas de rock mais populares e mais importantes de todos os tempos. É raro encontrar um fã desse gênero musical que ao menos não simpatize com alguns dos mais famosos singles e riffs da banda. Geralmente, corpos e espíritos se rendem facilmente ao som cativante do AC/DC. Essa icônica banda australiana deu seus primeiros passos em 1973. Os primeiros capítulos da jornada do grupo começaram a ser escritos pelos irmãos mais queridos do rock and roll, Malcolm e Angus Young. Assim que decidiram formar uma banda, logo encontraram o baterista Colin Burgess e o vocalista Dave Evans, que juntou-se a eles após ver um anúncio de jornal, mas que deixou o AC/DC precocemente, tendo feito parte da banda apenas ente os anos de 1973 e 1974. Segundo o cantor, a banda passava por momentos complicados e turbulentos na época e a questão financeira era bastante incômoda. De qualquer forma, esse curto período de tempo foi suficiente para que Evans vivesse experiências fantásticas e cravasse sua marca na história no rock, afinal, certamente o AC/DC, ao menos em partes, solidificou seu estilo e sua carreira a partir do legado passageiro de Dave Evans e carrega em sua assinatura as fagulhas deixadas por sua passagem relâmpago. O vocalista original do AC/DC, continua ativo até hoje e sobe em palcos do mundo todo, e em meio a sua atribulada agenda de rock star, ele encontrou um tempinho para conversar com o Fanzine Brasil.
 
A princípio, queríamos entender um pouco da experiência que ele teve com a banda. Dave nos contou que viveu momentos ótimos e memoráveis, como as primeiras gravações, o primeiro clipe, o primeiro show nacional com ingressos esgotados, um hit gravado e já logo de cara tocando nas estações de hora em hora, entre outras tantas coisas que foram muito boas. Contudo, por outro lado, enfrentou dificuldades na época embrionária do ACD/C, enfrentando uma série de precariedades: “As piores experiências foram algumas más condições em turnês e não sermos pagos em alguns shows”. 

 

Dave Evans (primeiro esquerda) foi o primeiro vocalista do AC/DC.

Dave deixou o AC/DC, mas nunca perdeu o contato com a música. Continua firme, forte e marcando presença nesse universo. Ele ainda compõe, canta e vive em busca de inspiração. Em relação aos artistas e bandas que o agradam, contou que escuta produções bem diversificadas e refletiu: “Eu ainda amo canções que tenham algum significado, que possuam uma história para contar e melodia, podendo ser uma balada, rock, blues ou música clássica. Eu não escuto apenas uma categoria ou estilo musical, ou somente um artista, já que a música é tão diversa e eu gosto disso”. Evans também comentou sobre o que escuta atualmente, enfatizando que não tem grande interesse pela música moderna e por produções recentes: “Em boa parte do meu tempo, estou no YouTube viajando para o passado, ouvindo bandas e artistas com os quais não estou familiarizado ou estou descobrindo pela primeira vez. Volto até a década de 1920 para ouvir e assistir artistas nos antigos vídeos em preto e branco. Há tantas bandas e músicos para pesquisar e podemos apreciar seus talentos na música e performance”.

O músico já esteve no Brasil em várias ocasiões, tocou por aqui inúmeras vezes e demonstrou bastante carinho por nossas terras: “Sempre utilizei músicos brasileiros na minha banda. A última turnê de alguns anos atrás foi definida como a maior turnê de um artista internacional no Brasil, mesmo não tocando no Rio de Janeiro, já que os agentes pareciam achar que o Rio não era uma cidade do rock. Eu fiquei desapontado, mas ainda tenho esperança de estar lá um dia”.

Para encerrar nosso papo com icônico Dave Evans, nós o convidamos para um desafio e fizemos a seguinte pergunta: se você fosse escolher suas cinco melhores músicas para apresentar a alguém, quais seriam elas? O rocker pareceu ter uma certa dificuldade em responder e ressaltou que há muitas faixas interessantes em suas produções, mas conseguiu selecionar cinco delas que, inclusive, ficarão aqui como dicas para os leitores: "Sold My Soul To Rock And Roll", "Bad Ass Boy", "Put Up Or Shut Up", "Only The Good Die Young", "Baby Blue Eyes", além de muitas outras que, aliás, estão disponíveis nas principais plataformas de música.

 

Dave Evans já se apresentou em várias cidades do Brasil e costuma ser aclamado pelos fãs brasileiros.

FLORES, SIM. ARMAS, NÃO: COMO O VERÃO DO AMOR MUDOU O MUNDO

Por Juliana Vannucchi

Em 1967, o verão do hemisfério norte não foi uma estação do ano qualquer. Nessa época, o bairro Haight-Ashbury, em São Francisco, sediava uma concentração grandiosa de hippies. E foi justamente nessa cidade, no dia 14 de janeiro que ocorreu um evento chamado “Human Be-In,” encabeçado por movimentos estudantis provenientes da San Francisco State University, da City College e da Berkeley. Na ocasião, intelectuais, poetas, músicos, entusiastas da esquerda, moradores de rua, rebeldes insatisfeitos com o sistema e outros ativistas se uniram na busca por uma ruptura radical em relação aos padrões vigentes. Trajes coloridos, flores, rock and roll e o uso abusivo do LSD tomavam conta da cidade. Alguns meses mais tarde, no dia 17 de abril, a cidade de Nova York colocou trezentas mil pessoas nas ruas e sediou uma passeata pela paz, que criticava veementemente a sangrenta Guerra do Vietnã e propunha uma busca por modelos de vida alternativos. Em julho do mesmo ano, ocorreu na Califórnia o famoso Festival Pop de Monterey, que contou com a presença de lendas como Jimi Hendrix e Janis Joplin. Chama-se “verão do amor” o conjunto dessas e outras manifestações que desabrocharam naquele verão de1967 do hemisfério norte e que, de modo geral caracterizava-se por contestar a cultura dominante, propondo uma revolução pautada na ruptura com os tradicionalismos e as convicções dessa época. Essas manifestações culminaram na contracultura. 


"If you’re going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair”.
 

Levando em consideração o contexto acima, podemos dizer que, de modo geral, tanto o final dos anos sessenta, quanto um período da década seguinte simbolizaram um momento globalmente revolucionário, no qual uma série de pessoas de diferentes ocupações e situações sociais protestou pelos mesmos ideias: a paz, o amor, a liberdade e o fim guerra. O principal fio condutor desses fenômenos sociais foi o rock e os grandes nomes desse gênero, como o consagrado guitarrista Jimi Hendrix, Jim Morrison, o famoso Rei Lagarto, Joplin, a rainha do rock, Lennon, líder dos Beatles e pacifista militante, e inúmeros outros músicos. Aliás, em tal contexto, cabe citar que a icônica frase “make love, not war”, proferida certa vez por Lennon, se tornou um jargão da contracultura. E teve outro lema que se popularizou ainda mais: “If you’re going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair”, que certamente foi a frase mais famosa do período. Aproveitando que citamos alguns mitos do rock & roll como influências da contracultura, vale mencionar que 1967, ano o “summer of love”, foi justamente um dos momentos mais prolíficos desse gênero musical. Nessa época foram lançados, inclusive, alguns dos álbuns mais lendários e visionários de todos os tempos, como é o caso da produção de estreia do The Doors, o clássico e influente "Stg. Peppers", dos The Beatles, o psicodélico "The Piper At The Gates of Dawn", o magnífico "Are You Experienced", de Hendrix, "Disraeli Gears", do Cream o experimental “álbum da banana”, do Velvet e muitos outros. Os conteúdos e estéticas presentes nesses discos, serviam de combustível para que aquela geração rebelde e insatisfeita em relação aos padrões predominantes se fortalecesse em suas lutas e propostas ideológicas e estéticas. 

O “summer of love”, não foi apenas um verão utópico marcado pelo sexo, pelas drogas e pelo rock and roll. Foi uma época verdadeiramente transformadora, marcada por libertações e conquistas sociais. É importante observarmos que os principais ideais propostos durante o “verão do amor” reverberam em lutas contemporâneas, tal como a busca pela consciência ecológica, a igualmente social, a emancipação da mulher, liberdade sexual e outras. Até porque, vários movimentos de esquerda eclodiram nos EUA durante a contracultura e posteriormente se espalharam pelos outros cantos do mundo, como é o caso, por exemplo, do Women's Lib (movimento feminista) e do Gay Liberation, tido como precursor do movimento LGBT. É certo que 1967 foi uma época, em suma, de conscientização e questionamento. Tudo isso foi tingido por criatividade e guiado pelo rock. De São Francisco para o mundo. Do passado, para os dias de hoje. Sua realidade, de alguma forma, foi notavelmente influenciada por esse ano tão decisivo e pelo verão mais lendário e especial de todos os tempos.

Em 1965, o poeta beat Allen Ginsberg usou pela primeira vez a expressão “power flower”, ao sugerir que os ativistas que se manifestavam contra a Guerra do Vietnã deveriam receber "massas de flores" para distribuir aos policiais, imprensa, políticos e espectadores. Essa brilhante ideia foi literalmente colocada em prática.

 

Sonhos e realidade, delírio, loucura, flores, êxtase, liberdade, drogas e amor...
 

“Power Flower”: Essas duas palavras se tornaram um slogan hippie. Até hoje, sabemos, as flores continuam sendo imensamente poderosas. Há, porém, outros inúmeros objetos poderosos no mundo, e, infelizmente, são os mais ameaçadores e sanguinários que costumam ser cultivados, tal como ocorre com as armas. Mas por que nós ou, ou o Estado, não podemos simplesmente escolher o poder das flores? Plante. Colha, envie e distribua flores. Isso tende ser sempre mais saudável. Adote esse slogan hippie e deixe que ele faça parte do seu cotidiano. As flores não podem resolver todos os nossos problemas e certamente não acabarão com o sofrimento, a crueldade e hostilidade que tangem a existência, porém, elas possuem o enorme potencial de tornar nossas almas mais serenas e geralmente nos dão fôlego para que possamos prosseguir em nossa desafiadora jornada de uma forma mais inspirada e tranquila. As flores são pura transcendência.

O Festival de Woodstock foi também fruto do verão de 1967. Esse glorioso evento sintetizou toda a energia que compunha a contracultura norte-americana dos anos sessenta. Musicalmente falando, até hoje, é considerado por muitos como o maior festival da história do rock & roll. A magia aconteceu em 1969, numa fazenda localizada na cidade de Bethel, n estado de New York e se estendeu do dia 15 a 18 de agosto. Janis Joplin, The Who, Hendrix e outros grandes artistas marcaram presença nos palcos e embalaram o público a um delírio catártico ímpar. Cerca de quinhentas mil pessoas estiveram presentes. Sonhos e realidade, delírio, loucura, flores, êxtase, liberdade, drogas e amor, foram alguns dos ingredientes que se misturaram para elucidar a química do memorável Woodstock. Ao menos durante três dias, absolutamente tudo foi possível e liberado. Barreiras foram rompidas e normas destruídas com afinco.

Referências:

https://billpetro.com/history-of-the-summer-of-love

https://www.google.com.br/amp/s/amp.theguardian.com/travel/2007/may/27/es

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ver%C3%A3o_do_Amor

https://www.vanityfair.com/culture/2012/07/lsd-drugs-summer-of-love-sixties

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