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SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

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WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

"O PROCESSO DE ESCRITA ME GUIOU E ME PROTEGEU": CONVERSEI COM O BUDGIE SOBRE O SEU LIVRO DE MEMÓRIAS, SOBRE AS LEMBRANÇAS DE SUAS PASSAGENS PELO BRASIL E DIVERSOS OUTROS ASSUNTOS

 Por Juliana Vannucchi

Em meados de 2025, Budgie, lendário baterista da banda Siouxsie & The Banshees, lançou seu tão esperado livro de cunho autobiográfico, intitulado “The Absence: Memoirs of a Banshee Drummer”, no qual compartilha memórias de sua infância e de seu percurso musical, além de falar sobre alcoolismo, fama e seu relacionamento conturbado com Siouxsie Sioux, romance que começou com encontros secretos em quartos de hotel para que o casal não fosse flagrado por outros membros da banda, e que se acabou de maneira tumultuosa e traumática. Descrito por Lydia Lunch como "um relato de viagem em busca da autodescoberta", o livro, que ainda não foi traduzido em língua portuguesa, teve uma recepção geral bastante positiva e logo se tornou uma leitura indispensável para os fãs dos Banshees. Atualmente, Budgie é casado e vive na Alemanha com a esposa e os filhos. 

Conversamos em primeira mão com o ex-baterista dos Banshees afim de trazer informações e detalhes sobre o livro para os fãs brasileiros. Budgie foi atencioso e imensamente solicito desde o primeiro contato que fiz com ele, e prontamente decidiu me responder. Inicialmente, conversamos a respeito dos primeiros passos que ele deu em sua duradoura trajetória com os Banshees. Budgie resgatou memórias desse início e teceu reflexões: “Na época em que tudo começou eu já estava no meu próprio barco, com passagem só de ida para a terra dos tambores e do mel, quando Kenny Morris e John McKay, navegando no barco SS Banshee, pularam fora de suas embarcações ou, talvez, apenas tenham se sentido forçados a caminhar para fora delas. Eis que nossos barcos se cruzaram numa certa noite, e Kenny e eu trocamos de lugar. Normalmente, penso que apenas me rendi repentinamente para os holofotes que brilhavam sobre a banda Siouxsie And The Banshees naquele ano, mas, após a recente morte de Kenny, estou começando a pensar sobre como as ações dele, na verdade, me deram a oportunidade de me destacar e brilhar. Essas janelas de oportunidade são raras e podem surgir apenas uma vez na vida. No final das contas, se eu tivesse dito não para a banda, a decisão de Kenny de deixar os Banshees sequer teria me afetado. Ao dizer sim, eu confirmei sua a decisão e me coloquei em uma típica situação de tudo ou nada. Então, a partir disso, tive que provar que era um substituto à altura, e eu estava realmente pronto e confiante. Ironicamente, serei sempre grato a Kenny – mas será que a minha gratidão deve ser tingida com algum pesar por ele não ter continuado, ou posso encontrar algum consolo em talvez ter poupado Kenny das águas mais turbulentas que aguardavam a embarcação SS Banshee? Claro que se tudo tivesse sido diferente, talvez toda essa turbulência futura pela qual passei nunca tivesse surgido – o futuro não nos pertencia”.

 

“Me recordo, em 1979, da minha primeira vez tocando bateria com os Banshees, no De Montfort Hall, em Leicester, ocasião em que Robert Smith do The Cure era o guitarrista da banda. O público conhecia as músicas da banda melhor do que eu naquela noite (...)

Na sequência de nossa conversa, Budgie contou que sempre carregou com ele um bloco de anotações e um pequeno diário, embora nunca tenha sido consistente com nenhum deles. Esses itens fariam com que seu livro germinasse: “Às vezes, eu preenchia o bloco com alguns esboços e em determinadas ocasiões, conseguia elaborar um relato mais detalhado sobre algo, mas eu nunca tentei propriamente contar uma história, apenas mantinha anotações e esboçava imagens. Escrevi o que se tornaria o início e o fim propriamente ditos do meu livro apenas dois dias depois do meu aniversário de 50 anos, em 23 de agosto de 2007. Porém, nessa época eu tinha pouca disciplina, estratégia e direção. Anos mais tarde, durante uma turnê com John Grant eu conheci o Bobby Gillespie e nós conversamos sobre escrita. Eis que então, o Bobby me apresentou a Lee Brackstone, da ‘White Rabbit’ (*editora que viria a publicar seu livro). A ideia de uma autobiografia, no entanto, começou em 2016 e tornou-se realidade em 2021, sendo que a versão final foi entregue de forma definitiva apenas no fim de 2024. Então eu diria que, após muitos anos fazendo diversas anotações mais dispersas, levei, no fundo, um total de três anos para elaborar o material original e o livro em si”.

O processo de escrita envolveu algumas inseguranças emocionais. Budgie comentou que estava um tanto apreensivo em relação a como iria se sentir quando escrevesse as páginas iniciais e as finais. Porém, ele nos contou que não houve nenhuma emoção paralisante ou demasiadamente desafiadora: “Ao me tornar participante e não apenas comentarista, o processo de escrita me protegeu e me guiou. Sempre esperei que a escrita fosse catártica para mim e, com sorte, também para o leitor". Apesar dessa constatação, Budgie confidenciou que houve momentos de dor enquanto elaborava seu livro: “Mas no geral, a parte mais dolorosa de todo o percurso foi aceitar que, durante anos, acreditei nas distorções dos fatos feitas por outros e tomei como verdades as minhas próprias mentiras. Suponho que seja a catarse, a libertação de emoções reprimidas por tanto tempo, a parte mais dolorosa”.

O autor disse que a primeira turnê de lançamento do livro começou em Glasgow, no The Strip Joint, um modesto bar, que também já foi loja de discos e casa de shows: “Essa ocasião definiu o padrão para os eventos subsequentes, cada um deles sendo um pouco maior que o anterior, mas todos mantendo uma atmosfera amigável e intimista. Com muitos encontros emocionantes com velhos amigos de longa data, o evento mais comovente para mim foi em Liverpool, ocorrido num salão de baile com janelas com vista para o Rio Mersey. Eu estava sentado em um sofá com Will Sergeant, guitarrista do Echo And The Bunnymen. Minha irmã e outros familiares estavam presentes, juntamente com Pete Griffiths, baixista do Spitfire Boys, que estava logo ali, na primeira fila. A reação em todos os lugares pelos quais transitei, de Edimburgo a Londres, foi, e continua sendo, avassaladora, poderosa e inspiradora”.

Budgie prosseguiu suas considerações sobre os eventos envolvendo seu livro de memórias: “John McKay compareceu ao meu evento de lançamento, na livraria Rough Trade East, em Londres. Estava muito cheio para conversarmos, então apenas nos abraçamos e fizemos um minuto de silêncio. Eu já havia encontrado John uma vez, em 1987, na véspera de seu casamento com sua noiva, Linda. Quarenta e seis anos depois, finalmente reconhecemos aquele momento decisivo, aquele que mudou nossas vidas, em 1979”. Em seguida, perguntei se algum outro ex-integrante dos Banshees esteve presente ou deu algum retorno em relação ao livro: “Nenhum outro membro da banda comentou qualquer coisa, exceto o nosso ex-assistente pessoal, Billy "Chainsaw" Houlston, que me mandou um joinha de Brighton, Inglaterra! Mas, bem, Chain e eu somos fãs de longa data do Black Sabbath! Paranoico? Jamais!”. Certamente Budgie não se importa com o silêncio de Siouxsie e Severin. Até porque, preserva boas lembranças das aventuras que viveu com a banda. E dentre as tantas memórias que carrega, perguntei quais são mais tocantes: “Me recordo, em 1979, da minha primeira vez tocando bateria com os Banshees, no De Montfort Hall, Leicester, ocasião em que Robert Smith do The Cure era o nosso guitarrista. O público conhecia as músicas dos Banshees melhor do que eu naquela noite, mas eu soube, a partir daquele momento, que teria muitas, muitas outras noites para melhorar”. Budgie prosseguiu, compartilhando outras memórias marcantes: “Lembro da gente rindo e dançando no ônibus em nossas primeiras turnês pelos EUA. Não havia necessidade de excessos naquelas ocasiões e estávamos simplesmente eufóricos com a agitação e o cansaço de tudo aquilo que vivíamos. Também me lembro dos nossos primeiros shows em Los Angeles, realizados no Whiskey A Go Go, na Sunset Strip. Fizemos duas apresentações por dia durante três dias consecutivos, mais uma vez eufóricos com a agitação e o cansaço de tudo aquilo! Eu sempre adorei me hospedar no Hotel Tropicana, em Santa Monica Boulevard. Nosso ônibus chegava do deserto e nós simplesmente dávamos voltas – tocávamos no Whiskey, bebíamos no Palms, que ficava na mesma rua, aprontávamos bastante na piscina com o pessoal do The Cramps e com a Lydia Lunch, e depois tomávamos café da manhã no Dukes 'Diner. Quando o Tropicana fechou, nos mudamos para o Mondrian ou o Le Park e, claro, para o Sunset Marquis, na 1200 Alta Loma Drive”. 

 

"Faça planos, faça os deuses rirem!” (Budgie)

Pedi a ele que nos contasse alguma das tantas histórias que aborda em seu livro. Ao invés disso, gentil e prestativo, Budgie, surpreendentemente disse que nos contaria uma aventura inédita que não citou em sua autobiografia: “Vou te contar uma história que não entrou no meu livro. Isso aconteceu pelo mesmo motivo que faz com que algumas músicas não entrem num álbum: falta de espaço ou muitos incidentes acontecendo quase ao mesmo tempo. Quando eu tinha dezessete anos, na verdade, quase dezoito, me mudei para Liverpool, que ficava a apenas 16 quilômetros a oeste da minha cidade natal, St. Helens, para frequentar a faculdade de artes. Não queria me distanciar muito de dois guitarristas que eu conhecia e que considerava como sendo um possível plano B, caso a faculdade não desse certo por algum motivo. Era o final do verão de 1976, meu curso de pintura estava indo bem, mas eu tinha dois problemas sérios: dinheiro e pesquisa acadêmica. Minha tutora de estudos acadêmicos era uma senhora de voz rouca chamada Dinah. Ela enrolava seus próprios cigarros e fazendo isso sorria como se soubesse um grande segredo, que não seria revelado. Através da Dinah, conheci um rapaz chamado Terry, que talvez fosse o pai de uma certa menina que caminhava pelos enormes cômodos com piso de parquet da casa de Dinah, em Sefton Park. Terry era um jovem ator que trabalhava no Everyman Theatre, que ficava no final da Hope Street, perto da catedral católica da cidade. Eu passava em frente ao Everyman diariamente a caminho da faculdade e de volta para casa. O Everyman era um teatro importante, no qual futuras estrelas de cinema aprimoravam suas habilidades, tal como Julie Walters e Pete Postlethwaite. No Everyman também havia outro jovem ator promissor que conheci na casa da Dinah, no ensolarado verão de 1976. Terry tocava baixo e me perguntou se eu poderia montar minha bateria para um primeiro ensaio com um cantor que nos acompanharia. É claro que concordei, pois isso significaria que eu poderia eventualmente iniciar meu tal plano B com aqueles guitarristas de St. Helens. No primeiro ensaio estávamos eu, Terry e o amigo cantor dele. A única música que me lembro de termos ensaiado se chamava Rosalita, de autoria de Bruce Springsteen. Eu nunca tinha ouvido falar desse músico até então, mas a faixa que escolhemos era bem ok, um pouco longa, mas tranquila de tocar. O vocalista que estava conosco era realmente ótimo, sabia a melodia e conhecia MUITO BEM a letra da música e, além disso, ele possuía tinha charme carismático que certamente conquistaria qualquer público – a impressão que tive era ótima. Parecia que uma banda estava se formando e, então, sugeri que meus benditos amigos guitarristas se juntassem a nós – o que, afinal, poderia dar errado nessa empreitada? Na semana seguinte, Wardy chegou atrasado com o violão na mão e acompanhado de um amigo que vinha com ele e que estava bastante debilitado. Eu vagamente reconheci esse sujeito debilitado como alguém que eu sempre via dormindo nos pubs de St. Helens. O tal rapaz pegou no sono e, enquanto isso, começamos a tocar Rosalita. Era uma música complicada para um trio sem saxofonista, mas estávamos conseguindo dar conta. Tudo ia bem até o amigo de Wardy acordar. Desorientado e distante, ele começou a vasculhar sua bolsa até encontrar o que procurava. Percebi tarde demais porque seu rosto me era tão familiar - ele tinha as pupilas contraídas de um viciado em opioides. A St. Helens dos anos 70 estava inundada de drogas ilegais e analgésicos controlados. Ou seja, tendo escapado por pouco do tédio e desespero induzidos pelas drogas dos "Cowboys das Farmácias" de St. Helens, eu, sem saber, simplesmente convidei um deles para entrar no ambiente em que estava. Enquanto ele lutava para encontrar uma veia adequada para injetar algo, percebi que o clima ficou constrangedor e o plano de tocarmos juntos estava acabado. Terry ficou horrorizado, eu fiquei com raiva e envergonhado com tudo aquilo. Nosso vocalista, em seu glorioso estilo Elvis Presley, já havia até saído do prédio, para nunca mais voltar. Retornei para a minha rotina de pintura até que, em 1977, os Spitfire Boys bateram à minha porta. Era uma nova oportunidade para o plano B. Mas muitas vezes me perguntei, e às vezes ainda me pergunto, como teria sido estar em uma banda com Billy Mac, de "Simplesmente Amor"? Mais conhecido pelos que são entendidos como Sr. Bill Nighy. Mas, aí, quem, afinal, teria interpretado o adorável Rufus Scrimgeour de Harry Potter?"

Abordei na sequência, as passagens de Budgie por nosso país, que foram detalhadamente narradas pelo baterista: “Minha primeira vez no Brasil foi entre novembro e dezembro de 1986. Eu me lembro muito bem do choque que tive ao ver a extrema riqueza e a extrema pobreza, tanto nas favelas próximas às praias do Rio de Janeiro, quanto debaixo das pontes e ao longo das rodovias de São Paulo. Lembro-me também da cena marcante de ver uma pessoa sentada do lado de fora da catedral em São Paulo, com o cabelo verde, parecendo líquen. A pessoa estava lá, simplesmente estática, meio que como um bicho preguiça parado. Também me recordo da vista incrível do Morro do Corcovado e da estátua do Cristo Redentor. Tocamos duas noites no enorme Palácio das Convenções em São Paulo, e depois fizemos uma viagem alucinante por pontes precárias e estradas sinuosas cobertas de nuvens até o litoral para um show em uma casa noturna em Santos, retornando, posteriormente, para um último show em São Paulo antes de finalmente pegarmos um vôo para o Rio”. Certa vez eu soube que Budgie levou discos que ganhou no Brasil quando esteve aqui pela primeira vez. Perguntei a respeito: “Os discos eram presentes de bandas locais e dentre eles, ganhei um CD do Chico Science & Nação Zumbi – uma mistura de Living Colour, Nine Inch Nails e percussão brasileira. Fiquei tão empolgado que levei minha nova coleção de vinis brasileiros para a BBC em Londres e convenci a DJ Janice Long a me deixar apresentá-los em seu programa. Não sei se conseguiria passar pela segurança da BBC com um monte de vinis do Brasil hoje em dia! Janice Long, uma defensora da música alternativa, infelizmente não está mais entre nós”.

Para encerrar nosso produtivo diálogo, perguntei ao Budgie quais são os seus os seus próximos passos: “O futuro será mais uma questão de equilíbrio e, no fundo, bem diferente do que eu havia imaginado. Depois de um ano gravando o podcast Curious Creatures com o Lol Tolhurst e, claro, gravando e promovendo o álbum Los Angeles com o Lol e o Jacknife Lee, senti que precisava estar mais presente na vida da minha família. O livro me permitiu alcançar um melhor equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal. Dito isso, fui convidado para colaborar em uma versão operística de Parzival aqui na Alemanha, no Festival de Bad-Hersfeld, que ocorrerá ainda este ano. Ademais, há mais eventos literários surgindo. Gostei muito da experiência de narrar a versão em áudio do meu livro, algo que gostaria de fazer com outros livros. Inclusive, é claro que também gostaria de ter outro livro meu para narrar. E ainda tem muitas batidas que estão esperando para serem tocadas e pinturas que estão esperando para serem pintadas… faça planos, faça os deuses rirem!” 

 

Budgie tocando com os Banhees em São Paulo, em 1986.

 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A IMPORTÂNCIA DE GILLIAN GILBERT PARA A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE MUSICAL DO NEW ORDER

 Por Juliana Vannucchi

Situada no noroeste da Inglaterra, Manchester foi o berço de algumas das bandas mais consagradas de todos os tempos, dentre as quais podemos citar Oasis, The Stone Roses, The Smiths e claro, o icônico Joy Division cujos integrantes, após o trágico falecimento de Ian Curtis, deram origem ao New Order, que foi mais uma façanha da Factory Records. 

Essa cidade inglesa e esse precioso cenário musical formaram a atmosfera em que a talentosa Gillian Gilbert nasceu e cresceu. Na época em que o Joy Division brilhava e vivia o ápice de seu sucesso, Gilbert travou um romance com o baterista da banda, Stephen Morris e foi essa relação que pavimentou o caminho para sua entrada no New Order, em 1980, do qual Gilbert fez parte contribuindo tanto como tecladista, quanto como guitarrista. O primeiro passo de sua jornada na banda teve início quando, numa ocasião, o guitarrista Bernard Sumner machucou a mão e, impossibilitado de manejar seu instrumento, foi logo substituído por Gilian, que conseguiu corresponder positivamente no palco, agradando os membros da banda que nessa época, ainda se chamava Joy Division e carecia de uma identidade própria. Quando recebeu o convite para se juntar definitivamente ao grupo, a jovem Gillian cursava Design Gráfico no Stockport College, mas abandonou prontamente os estudos para viver sua aventura musical. Curiosamente, nessa época Gilbert sequer sabia tocar teclado e precisou até mesmo fazer algumas aulas para que pudesse se familiarizar melhor com o instrumento que, posteriormente, dominaria com maestria. A respeito desses seus primeiros passos, certa vez comentou numa entrevista: “No início, achei isso tudo difícil, porque nunca tinha estado em uma banda que compunha músicas antes do New Order. Mas todos me apoiaram bastante e me incentivaram a fazer parte da equipe de composição”. A habilidade musical, as ideias e a criavidade de Gilbert foram elementos decisivos para que o New Order finalmente surgisse como uma fênix das cinzas do Joy Division, se encontrasse esteticamente e definiesse uma sonoridade própria e autêntica que o desvinculasse do estilo musical da banda comandada por Ian Curtis. O modo de Gilbert tocar teclado e trabalhar com o sintetizador, pendendo para experimentalismos dançantes foi o que, no final das contas, definiu e moldou as características musicais essenciais da banda de electro-pop mais aclamada dos anos oitenta. Numa entrevista concedida ao portal Classic Pop Magazine, à multi-instrumentista explicou que essa transição de estilo na qual o New Order se consolidava e abandonava de vez os resquícios do Joy Division, aconteceu de forma definitiva no álbum “Power, Corruption And Lies”. Gilbert também contou que o sucesso de Blue Monday, faixa de maior destaque do disco, foi um tanto acidental: “Tínhamos acabado de conseguir nosso primeiro estúdio de gravação, que possuía uma atmosfera diferente de gravar na nossa sala de ensaio. Só queríamos ver até onde podíamos chegar em gravações de estúdio. Blue Monday soa tão regrada porque queríamos que os sequenciadores pudessem tocá-la enquanto saíamos do palco, recusando-nos a voltar. Queríamos encontrar um robô que pudesse cantar todas as palavras. Nunca nos passou pela cabeça que uma música assim, feita nesses moldes e com essas intenções faria sucesso até Rob se empolgar".

Gillian Gilbert (1983).
 
Em 1994 Gilbert se casou com Stephen Morris com quem, em certo momento, deu vida ao modesto projeto The Other Two que, embora tenha sido razoavelmente atrativo para os fãs, não engrenou comercialmente e tampouco fez grande sucesso. O casal lançou apenas dois discos e, além disso, começou a trabalhar com a criação de músicas para programas de televisão. Em 1998, Gilbert parou de fazer turnês com o New Order para cuidar de sua filha que tinha graves problemas de saúde. Em 2001, participou da gravação do sétimo álbum de estúdio de banda e posteriormente foi substituída. Ela voltaria ao grupo somente uma década mais tarde, quando o New Order, que já não contava mais com Peter Hook, se reinventou e produziu o elogiável e “Lost Siren”.

Referências:

https://pitchfork.com/thepitch/1069-new-orders-gillian-gilbert-on-putting-motherhood-ahead-of-music/ 

https://www.theguardian.com/music/2023/may/02/there-were-no-macho-blokes-we-were-all-one-gillian-gilbert-on-her-journey-with-new-order

https://www-classicpopmag-com.translate.goog/features/new-order-interview-power-corruption-lies/?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc

https://www-neworder-com.translate.goog/2021-interview?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc



 

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

REFLEXÕES SOBRE O LEGADO DE SOO CATWOMAN

 Por Juliana Vannucchi e Neder de Paula 

O mês de outubro começou com a triste notícia do falecimento de Soo Catwoman, entidade do movimento punk que, através de sua poderosa imagem, nos deixa um valioso legado sobre liberdade de expressão e rebelião estilística. Sua história começou a ser traçada por volta de 1976, em Londres, quando o punk rock, em seu período embrionário, ainda dava seus primeiros passos. Nessa época, Soo começou a fazer experimentos inusitados com sua aparência e, dessa forma, quebrando as barreiras da moda vigente, com um estilo visceral e um visual totalmente original, logo se tornou um verdadeiro modelo estético para o punk e para a arte em geral. Ela criava seus próprios acessórios e roupas, e inventava penteados e maquiagens únicos. Com essas armaduras, foi revolucionária e invadiu as ruas londrinas, chocando muitas pessoas. Ativa no universo punk, a emblemática Soo Catwoman travou amizade com os membros do Sex Pistols, frequentou clubes noturnos undergrouds e marcou presença em diversos gigs, iniciativas que firmaram sua representatividade e foram determinantes para que a egrégora do movimento punk se desenvolvesse e se consolidasse, imagetica e ideologicamente. 

 

Amiga dos integrantes do Sex Pistols, Soo chegou a dividir um apartamento com Sid Vicious.
 

Mas Soo Catwoman sempre foi muito mais do que um ícone visual: ela representava a coragem de ser diferente sem precisar gritar. Sua presença nos lembrava que a atitude punk não se resume apenas ao barulho ou à rebeldia agressiva, mas também à firmeza silenciosa de quem se recusa a ser moldado por padrões. Ela mostrou que estilo é postura, e que a autenticidade pode ser a arma mais poderosa contra a mesmice. Dessa forma, Soo Catwoman nos deixa como herança inúmeros ensinamentos importantes, dentre os quais, certamente uma grande lição se destaca: devemos afirmar destemidamente a nossa própria individualidade, fechando-nos para todo tipo de comentário alheio depreciativo e pautado na mediocridade do senso comum. E isso aprendemos a partir de sua postura, pois, afinal, Soo foi uma mulher singular e essencialmente transgressora… talvez, esteticamente falando, a mais criativa de toda a vasta cena punk da Inglaterra. Cabe mencionar que seu estilo de vida destoava substancialmente da padronização dos comportamentos e aparência que predominam no mundo de hoje, no qual nos deparamos muito comumente com pessoas enlatadas em seus pensamentos, previsíveis em suas ações e que se vestem unicamente de acordo com os ditames de um mercado que as acorrenta na medida em que comanda o que se deve consumir, fazer e vestir. Soo, contrariamente a isso, nos apresentou a ideia de que a maneira como nos vestimos tem que vir do coração, ou seja, deve ser fruto da subjetividade. Ela era inovadora, distinta e dona de uma mente afiada e atraente que a munia de boas ideias. Conforme consta em seu site oficial: “Sua rebelião era silenciosa. Rebelião sem palavrão, sem anarquia. Era sobre liberdade pessoal”.

 

Ao longo dos anos setenta, Soo foi capa de inúmeras revistas punks.
 

Sua morte não apaga sua força; ao contrário, apenas reforça a imortalidade de sua mensagem. Soo deixa um rastro inspirador para quem busca viver de forma verdadeira, independente e ousada. Ao pensar em seu legado, enxergamos a importância de continuar propagando a ideia de que a individualidade é, em si, uma forma de resistência. Sua imagem segue viva em cada gesto de liberdade estética e em cada pessoa que, mesmo hoje, ousa ser quem realmente é. Assim, Soo Catwoman se despede do mundo físico, mas permanece eterna como símbolo de autenticidade e liberdade. 



quarta-feira, 10 de setembro de 2025

THE BANGLES: TUDO SOBRE A GIRL BAND CALIFORNIANA

 Por Juliana Vannucchi

Em 1981, Susanna Hoffs e suas estimadas amigas, as irmãs Vicki e Debbi Peterson, formaram a banda The Bangles, que logo se tornou um imenso sucesso em sua cidade natal, Los Angeles e, aos poucos, foi se consolidando e conquistando os demais territórios do EUA até atingir uma imensa visibilidade que fez com que o grupo extrapolasse os limites geográficos de seu país para se tornar um verdadeiro fenômeno global. Peterson e sua irmã cresceram numa família que cultuava a música. Vicki, na adolescência, amava Hollies e The Beatles, dava sinais de rebeldia e só pensava em seguir a carreira musical. Foi ela quem deu a Peterson seu primeiro kit de bateria que, posteriormente, a irmã pagou com o salário que ganhava trabalhando no Mc’Donalds. Por sua vez, Hoffs tinha uma mãe que tocava as músicas dos Beatles para ela durante a infância. Por influência de seu gosto musical e do ambiente familiar no qual cresceu, começou a tocar violão na adolescência e mais tarde viria a obter um diploma em Artes, pela Universidade de Berkeley. Esse diploma levou-a a também ter uma carreira artística no mundo da sétima arte, no qual Hoffs arriscou-se como atriz, além de ter trabalhar também com trilha sonora, como foi o caso da faixa Now And Then, que gravou para o filme Buffy the Vampire Slayer.

 

A The Bangles é uma verdadeira lenda dos anos oitenta e uma das girl bands mais apaixonantes e importantes da história.


A discografia da The Bangles é composta por uma trilogia de sucesso lançada nos anos oitenta, um álbum de 2003, e um último trabalho de estúdio produzido em 2011. O disco de maior prestígio é o Different Light, de 1986, no qual encontramos um dos hits mais prestigiados e divertidos dessa década, Walk Like An Egyptian. Escrita pelo compositor Liam Sternberg, a letra foi inspirada numa história interessante: certa vez, ele cruzava o Canal da Mancha quando a embarcação em que estava foi surpreendida por movimentos bruscos. As pessoas, assustadas, começaram a mover seus corpos para buscar equilíbrio e permanecer de pé; e isso o lembrou das artes egípcias. Eis que ele pegou um caderninho de anotações e simplesmente registrou as seguintes palavras: Walk Like An Egyptian. Outro single de extraordinária fama é Eternal Flame, que está presente no álbum Everything, de 1987. Hoffs declarou que gravou os vocais dessa música inteiramente nua. Teria sido uma sugestão de seu produtor. Já, Hazy Shade Of Winter, cover de Simon & Garfunkel gravado em 1987, é provavelmente a canção mais impressionante da girl band californiana. A letra é uma verdadeira ode filosófica sobre o tempo e seus efeitos paradoxais, e as meninas definitivamente, nessa versão magnífica e profunda, superaram a canção original. De modo geral, as músicas das Bangles são uma espécie de musicalização de um diário de adolescentes, no qual encontram-se confissões de insegurança, decepção, desejo, paixão e também alguns retratos de vivências românticas. Tudo isso atribui um clima meigo e doce às suas composições. Nos palcos, as meninas - muitas vezes, cabe dizer, acompanhadas por músicos de apoio - sempre brilharam por ter entre elas uma forte química que assegurava uma notável harmonia e fazia com que seus espetáculos fossem sempre cativantes.

A The Bangles é uma verdadeira lenda dos anos oitenta e uma das girl bands mais apaixonantes e importantes da história.



Referências:

https://www.latimes.com/entertainment-arts/music/story/2025-02-18/the-bangles-memoir-eternal-flame-susanna-hoffs-debbi-vicki-peterson

https://www.rollingstone.com/music/music-news/the-bangles-california-girls-201071/

https://en.m.wikipedia.org/wiki/The_Bangles

 

NOVA FORMAÇÃO E NOVO ÁLBUM: O ANO TRIUNFAL DA SHE IS DEAD

 Por Juliana Vannucchi

Com seus ruídos explosivos e distorções sonoras enérgicas, a She Is Dead, banda curitibana “especializada em pesadelo”, definitivamente já se consolidou com uma das maiores representantes do rock brasileiro. Nos últimos meses, o inspirado grupo tem realizado uma série de shows e lançado materiais novos, indicando que talvez esteja vivendo o período mais frutífero de sua trajetória. Uma das novidades desse ano em relação à She Is Dead é a mudança de formação dos integrantes. Atualmente, a banda conta com a presença do cofundador, guitarrista e vocalista, Mau Carlakoski, Tais D’Albuquerque, no contrabaixo, Murilo Vitorette, na bateria, Maria Scroccaro, como guitarrista e vocalista e Kim Tonietto no vocal e no contrabaixo. Essas alterações ocorreram no final de dezembro de 2024, época em que a banda passava por um momento de grande desgaste que a levou a se reinventar. Esse período desafiador fez o grupo curitibano passar por uma série de mudanças internas e dissoluções que culminaram na saída de todos os membros. Apenas Mau permaneceu disposto a dar sequência ao projeto, conforme ele nos relatou: “Lembro que comprei uma placa de áudio, baixei o Ezdrummer e decidi gravar sozinho o quarto disco. Foi quando o Murilo Vitorette apareceu na minha frente, como um raio que cai do céu, perguntando se poderíamos gravar juntos. Foi surpreendente porque ele sequer sabia como estava a banda! O Murilo gravou o terceiro disco com a gente, mas estava morando bem longe de Curitiba, e hoje já está morando longe de novo, rsrs. Nós dois, então, fomos atrás de outros baixistas, mas não encontramos. Eis que, de repente, lembrei de uma das mais geniais instrumentistas do cenário independente nacional, a Tais D’ Albuquerque. Depois de conversar com ela, fomos convidar aquela que muda a história daqui pra frente, que é Maria Scrocaro. Ela entrou contribuindo muito com com os vocais, guitarras e composições, algo que não tem precedentes. A partir disso, as coisas realmente mudaram pra melhor”. Mas ainda faltava a cereja do bolo, que complementaria a banda de forma definitiva, fazendo com que ela praticamente renascesse das cinzas: “Então veio o nosso presente de Deus, a beleza em forma humana… foi a volta de Kim Tonietto, que fundou a banda e é parte fundamental dessa história toda”, declarou o vocalista. Mau Carlakoski se mostrou entusiasmado com essa atual formação e com o clima existente entre os músicos: “Temos um espaço bacana de trocas, o que está possibilitando a criação de músicas diferentes. Também há toda a parceria, amizade, momentos legais e bons papos, que se mostram cada vez mais fortes e enriquecedores. É muito maneiro o clima da galera reunida, tanto nos shows, quanto no dia-a-dia”.


A nova versão do grupo, renascida como uma fênix, prova cada vez mais que está triunfando e vivendo seu auge criativo.


Comumente nos deparemos com a precipitada e rasa ideia de que “o rock and roll morreu”. Esse jargão saudosista e raso, é fruto de ignorância. Afinal, conforme destacamos no início do artigo, a She Is Dead é uma prova concreta de que o rock permanece vivo, ativo e até mesmo repleto de originalidade. A esse respeito, Carlakoski refletiu: “Os tempos sempre vão mudando e cada estilo musical tem seus destaque na história. Nesse atual momento em que estamos, no que diz respeito à tecnologia e comunicação, existe sempre aquilo que bomba na internet e que o algoritmo gosta, sendo que tudo isso influencia bastante no alcance se alguns estilos musicais específicos, inclusive do próprio rock que, muitas vezes, não segue uma linha tão pop. Mas esse gênero e modo de vida morreu? Nunca. O que o mantém vivo é a maneira pela qual ele toca pessoal e como ele é essencial no cotidiano de cada um. Mesmo que alguns não escutem rock, os que escutam, escutam de verdade, sentem, gritam, choram! Penso que enquanto houver uma única pessoa viva, sentindo esse impacto do rock, ele nao vai morrer”.

A banda tem um novo disco a caminho, o Us For Us e também está munida de mais alguns singles que são independentes do álbum. Sobre esse atual momento, Carlakoski contou: “Ao longo do percurso dessa nossa gravação, tudo foi acontecendo com bastante animação, gás e gosto em estar ali compondo. Agora estamos ansiosos e animados para lançar esse material e mostrar as novas músicas pra galera. Também queremos fazer mais shows, porque a cada show que passa, a gente encontra mais sintonia no palco, e isso faz diferença nas performances também”.

 
Capa do Us For Us, novo álbum da She Is Dead.

 A She Is Dead já tem um tempo considerável de estrada e no decorrer desse percurso, acumula incontáveis shows e bastante sucesso. Para os integrantes da da banda, o que realmente importa é manter-se relevante musicalmente para eles próprios e permanecer na ativa, compondo, criando e lançando novos materiais, e alimentando assim a química musical interna. Nada disso será problema, afinal, a nova versão do grupo, renascida como uma fênix, prova cada vez mais que está triunfando e vivendo seu auge criativo.




 

sábado, 16 de agosto de 2025

MISFITS: OS MESTRES DO HORROR PUNK

 Por Juliana Vannucchi e Neder de Paula

Em meio à efervescência musical de 1977, ano no qual, tanto na Inglaterra quanto nos EUA despontavam inúmeras bandas, o Misfits surgiu em New Jersey. O compositor e vocalista Glenn Danzig foi o fundador e idealizador do grupo, cuja formação original não durou muito tempo e passou por uma reciclagem antes dos Misfits decolarem. Assim, para o lançamento do primeiro single, intitulado "Cough/Cool" estavam presentes o baixista Jerry Caiafa e o baterista Manny Martínez. Após esses primeiros passos, com uma trajetória marcada tanto pelo sucesso quanto por uma série de desavenças entre os músicos, a banda se dissolveu em 1983. No entanto, para a alegria dos fãs, em meados dos anos noventa, o Misfits estava novamente reunido numa tentativa de reconciliação que mal vingou e logo fracassou.

Desde os primórdios, a banda se distanciou notavelmente da estética que prevalecia naquela época, adotando em seu visual e em suas letras, referências provenientes do universo do horror. Danzig, fã de Allan Poe e apreciador d quadrinhos, desenhava esqueletos em suas roupas enquanto o baixista Jerry Only pintava seu rosto de forma caricata e fazia um penteado inusitado que fez com a banda fosse identificada como representante do “devilrock”. Visualmente, parecia que todos os integrantes tinham saído do universos dos quadrinhos de terror para invadirem o nosso mundo. Ou, então, parecia simplesmente que tinham se levantado de alguma cripta para assumirem instrumentos musicais enquanto faziam barulho e traziam mensagens do além. Suas letras, afinal falavam sobre Halloween, vampiros, sangue e filmes B. E instrumentalmente falando, com uma excêntrica e bem-sucedida mistura de punk e rockabilly, os Misfits se firmavam com uma sonoridade original e, assim, se tornaram um dos representantes mais interessantes e originais da vasta leva de grupos de 77. A conceituada revista Rolling Stone certa vez, de forma precisa, os descreveu como sendo essencialmente “a banda arquetípica de horror-punk do final dos anos 1970 e início dos anos 1980.” 

Mais do que uma simples banda, o Misfits se consolidou como um símbolo cultural, um ícone do inconformismo e da celebração do grotesco.
 

Em 1979 o single “Horror Business” explodiu. Na capa, havia uma figura cadavérica que agradou tanto os fãs quanto os membros da banda, que adotaram a caveirinha como mascote. E essa a icônica imagem que até hoje estampa tanta camiseta em todos os cantos do mundo. O sucesso crescia exponencialmente e a banda ia se consolidando cada vez mais. Os integrantes seguiam algumas cartilhas clichês do punk rock que envolviam shows caóticos, brigas públicas, prisão dos membros da banda e até mesmo a criação de um fã clube aos moldes do DIY, no qual Danzig estampava camisetas para fãs no porão da casa de sua mãe.

Aliás, Danzig sempre foi a figura mais polêmica da banda. Politicamente, já demonstrou não compactuar com o binarismo ideológico que paira nos EUA e se justificou dizendo que adota tanto um lado mais conservador, quanto também uma visão liberal. Para decepção de muitos fãs, em 2017 saiu em defesa de algumas atitudes de Donald Trump. O vocalista ainda entende atualmente a cultura de cancelamento compromete a liberdade de expressão e pensamento, gerando polêmicas vazias. Nesse âmbito, Danzig chegou a declarar que o punk rock jamais encontraria terreno para surgiu no cenário atual. entenda que os liberais, por vezes, se tornam demasiadamente radicais e opressores em seus discursos proibitivos. Os dois lados, de acordo com Danzig, são excessivamente mentirosos e movidos por corrupção. Porém, se politicamente nenhum lado o agrada muito, por sua vez, o sempre controverso Danzig ao ser acusado de satanismo, revelou sustentar uma postura dualista e disse que abraça tanto o bem quanto o mal. Em certa ocasião,o músico chegou a declarar abertamente ter afinidade com alguns aspectos do satanismo. Assim como já afirmou categoricamente que não compactua com o Cristianismo, cuja ideologia, segundo Danzig, se propõe a escravizar as pessoas.

Ainda que envolto em tantas controvérsias e com uma carreira marcada por altos e baixos, o legado do Misfits ultrapassa os limites do horror punk e ressoa fortemente até os dias atuais. A estética da banda, seu visual grotesco e teatral, além das letras inspiradas em filmes de terror e ficção científica, foram capazes de influenciar não só a música, mas também o cinema, a moda alternativa e toda uma subcultura que se formou em torno do macabro e do absurdo. O impacto do grupo pode ser sentido em bandas como AFI, Alkaline Trio, My Chemical Romance e até no mainstream, com artistas que bebem da mesma fonte de horror visual e lírica sombria.

Mesmo com as inúmeras trocas de integrantes, disputas judiciais sobre o uso do nome da banda e a constante reinterpretação de seu catálogo por diversas formações, o Misfits continua sendo uma entidade viva dentro do rock underground. Em apresentações esporádicas, reunindo figuras históricas como Glenn Danzig, Jerry Only e Doyle Wolfgang von Frankenstein, o grupo arrasta multidões, demonstrando que sua aura cult permanece intacta, com fãs de diferentes gerações sedentos por vivenciar aquela experiência que mistura teatro de horror e punk selvagem em estado bruto. Portanto, mais do que uma simples banda, o Misfits se consolidou como um símbolo cultural, um ícone do inconformismo e da celebração do grotesco. Sua importância reside não apenas na música, mas no imaginário que ajudaram a construir — uma espécie de circo punk de horrores que segue inspirando outsiders, rebeldes e criadores independentes ao redor do mundo. É essa força estética e ideológica que garante ao Misfits um lugar eterno na cripta sagrada do rock underground.


Referências:

https://www.theguardian.com/music/2014/jun/29/misfits-review-schlock-horror-kitsch

https://www.mundometalbr.com/danzig-se-voce-nao-pensa-o-que-eles-pensam-eles-querem-te-destruir-isso-nao-e-liberal-na-verdade-e-muito-fscist-sao-todos-fscists-idiotas-diz-glenn-danzig/amp/

https://www.nme.com/news/music/danzig-misfits-trump-muslim-travel-ban-2081376

http://www.inmusicwetrust.com/articles/52h06.html

https://www.theguardian.com/music/2014/may/09/the-misfits-gelnn-danzig-logo-lawsuit-sour-grapes-tantrum-jerry-only

"A POESIA É O NOVO ROCK AND ROLL": O UNIVERSO ARTÍSTICO DE MATILDA JOON

Por Juliana Vannucchi

Em meio às belíssimas e elegantes paisagens da Suécia, sempre protegida pelos poderes de Frigga e inspirada dela sabedoria de Freya, vive a poeta Matilda Jeanette James Joon. Sua paixão pela escrita, manifestou-se na tenra idade. Quando criança, era obcecada em registrar tudo em seus diários. Começou a fazer isso quando tinha somente seis anos. Mais tarde, na adolescência, seus escritos se transformaram cada vez mais em poesia e palavras faladas. E desde então, os versos tornaram-se um caminho inevitável e indispensável em sua trajetória. A respeito da importância da poesia, Matilda refletiu: “A poesia cura. É a conexão entre as almas. Neste caos que a vida é, é uma maneira de permanecermos com os pés no chão, sermos amorosos e não desviarmos o olhar da dor e do sofrimento. Devemos manter nossa humanidade e empatia por todas as coisas vivas e respirantes. Quanto mais lemos, mais nossas almas se expandem - e quando a poesia realmente toca o coração... Bem, é aí que a mágica começa.”

Poema de Matilda Joon, publicado na "Love Love Magazine".

Para Matilda Joon, poesia é amor e magia.

Seguindo suas profundas meditações, a poestisa ainda disse acreditar que a poesia é o novo rock and roll: “Poesia é amor, magia e um bálsamo curativo, está nas minhas veias e no meu sangue. A poesia salvou minha vida mais de uma vez! É a linguagem da alma. Poesia é o novo rock and roll. Tenho melodias florescendo na minha mente e são essas coisas que escrevo. Como eu disse, a poesia pode ser um bálsamo calmante, mas também corta como uma faca, é assim que as palavras realmente são poderosas.”

Matilda possui inúmeras musas inspiradoras, tal como os riachos, as montanhas, o sol, as flores e outros tantos elementos da natureza. Ademais, sente que sua alma é atraída para tudo que é estranho e diferente. Também vê Jim Morrison e Kurt Cobain como fontes de inspiração poética e existencial e, sendo uma leitora avisa, possui uma série de autores favoritos, tal como Mary Oliver, Maya Angelou, Pablo Neruda, Rumi, John Keats, Anne Sexton, E.E. Cummings, Sylvia Plath, Virginia Woolf, Richard Brautigan, Jack Kerouac e Kenneth Rexroth! Dentre outros: “Todos esses são e foram importantes pra mim. No momento, estou lendo o livro Didion & Babitz, de Lili Anolik - (sobre Joan Didion e Eve Babitz) - e eu deveria ter dito antes que Eve Babitz é uma grande inspiração há muito tempo... Quer dizer... que mulher!”

O envolvimento com o rock and roll fez com que Lydia Lunch cruzasse seu caminho em meados dos anos 90. Dali em diante, um laço magnético e espiritual às manteve unidas: “Eu estava assistindo a uma apresentação de Spoken Word da Lydia e lembro que ela pulou do palco no meio do show, correu até mim, me beijou entre os seios e sussurrou em meu ouvido: "Você e eu somos irmãs". Não é um começo lindo para uma amizade que dura desde então? Lydia é uma força, uma inspiração, e como ninguém que conheci em toda a minha vida. Eu a amo de verdade, de coração e alma. Somos muito diferentes como pessoas, mas temos certas experiências de vida extremamente brutais em comum - nos entendemos, pertencemos à mesma tribo de mulheres fortes, estranhas e bruxas que seguem em frente em um mundo cheio de homens psicopatas que só querem destruir tudo o que é belo - homens psicopatas ODEIAM e querem matar mulheres como nós. Sempre foi assim. Como diz Lydia: a guerra nunca acaba. É uma batalha constante para se manter forte e são neste poço de INSANIDADE que acontece em todo o mundo - Criado por homens.”

Em seus poemas, escreve sobre os efeitos do amor, os delírios existenciais, a magia e a natureza. Sua poesia é uma caminhada por estradas encantadas, nas quais o percurso guarda ao leitor uma série de mistérios e surpresas. Matilda demonstra uma força interior imensa em sua escrita que, com toda certeza, é uma poção capaz de reavivar qualquer alma e curar qualquer coração.

Poema e arte de autoria da artista.



 

sexta-feira, 4 de julho de 2025

O MUNDO MUSICAL DE JOHNNY THUNDERS

 Por Juliana Vannucchi

Em 1971, o The New York Dolls ganhou vida e chocou a cidade de New York com sua ousada estética glam, caracterizada pelo visual andrógeno de suas integrantes que se adornavam com gliter, maquiagem e trajes tipicamente femininos. O grupo, que gravou dois inspirados álbuns de estúdio e faliu logo em seguida após ambos fracassarem comercialmente, seria uma das maiores influências do punk rock, ao lado de bandas como MC5, The Stooges e Velvet Underground. E quem assumiu a guitarra do The New York Dolls foi um jovem até então pouco conhecido, chamado Johnny Thunders. O cargo de guitarrista de uma banda de protopunk tão lendária já bastaria para que seu nome entrasse de vez para a história do rock. Seu nome real era John Anthony Genzale. Ele nasceu em 1952, numa família de classe média. Abandonado na tenra pelo pai, viveu sob os cuidados da carinhosa mãe e de sua protetora irmã. Na adolescência, ao lado do beisebol, sua grande paixão foi o rock and roll. Nessa época começou a tocar guitarra e se mudou para NYC com sua namorada...

Depois do fiasco vivido com o The New York Dolls, Thunders, que estava inserido no fervor do meio musical nova iorquino dos anos setenta, formou o grupo Johnny Thunders & The Heartbreakers. Com ele, estavam o baixista Richard Hell, ex-Television e o talentoso baterista Jerry Nolan. Hell logo abandonou o projeto e, então, dois novos músicos se uniram à banda para contribuir com o icônico álbum “L.A.M.F.”, de 1977, que, embora tenha sido a única produção de estúdio do novo grupo de Thunders, foi suficiente para se tornar um dos maiores álbuns de punk rock de todos os tempos, contribuindo para que a identidade sonora e visual desse gênero se solidificasse. Os anárquicos Heartbreakers, guiados pelo depravado poeta e vocalista Johnny Thunders se tornaram, nessa época, figuras emblemáticas em New York. Fizeram uma série de shows no CBGB, enquanto viam seu atraente trabalho musical se espalhar aos poucos, inicialmente por Londres e depois, por outros vários países. No entanto, a banda, seguindo o roteiro mais clichê possível de um grupo nova iorquino desse período, logo se viu vítima de um uso excessivo de drogas que culminou em sua dissolução.

Porém, pouco mais tarde, em 1978, o incansável Johnny Thunders lançou seu debut solo, o “So Alone”. Contando com uma assinatura propriamente punk, mas com solos de guitarra extensos e enérgicos que superavam as fórmulas mais convencionais do gênero, o debut emplacou até mais do que sua carreira com o The Heartbreakers. Foi através desse disco que ele se tornou efetivamente uma lenda da cena underground de New York. A gravação contou com uma surpreendente quantidade de músicos, como Peter Perrett, famoso vocalista e guitarrista da banda inglesa The Only Ones, os ex-Pistols Paul Cook e Steve Jones, Chrissie Hynde, do The Pretenders e outros grandes nomes dessa mesma geração. Resquícios de R&B e rockabilly percorrem algumas faixas e as enriquecem. E claro que, como era de se esperar, esse elenco de músicos exageradamente mesclado que Johnny escalou, entregou um trabalho de qualidade. Em suas letras, encontra-se um pouco de niilismo e muito romance.

A lista de admiradores de Thunders é extensa. Bob Dylan é um dos fãs do “So Alone” e chegou até mesmo a declarar que desejava ter sido o compositor da faixa “Memory”, que até hoje consiste num verdadeiro hino da carreira de Thunders. Billy Duffy, do The Cult, também já se declarou para a banda e disse que desde sua juventude, quando ainda estava engatinhando no mundo do rock, Thunders foi uma inspiração para ele. Já Steve Conte afirmou que como guitarrista, Thunders era simplesmente um combo de Chuck Berry e Keith Richards. Por sua vez, Michael Monroe, o saxofonista afirmou numa entrevista que o Johnny jamais viu seus álbuns ou sua música como negócios. Ele simplesmente os via como pura arte e compunha livremente, como exercício espontâneo de autoexpressão. Essa postura, por si, é essencialmente punk, convenhamos.

 

Thunders dominava as platéias com seu enérgico estilo performático.
 

Enquanto seu álbum solo fazia sucesso, Johnny se perdia cada vez mais em seu uso descontrolado de heroína. Continuou gravando uma série de aleatoriedades sem grande destaque. Esboçou um projeto com o rebelde Sid Vicious e outro com Stiv Bators e Dee Dee, mas nada fluiu tão bem. Aliás, a banda que ele formou com esses últimos dois músicos citados, não teve fôlego para sobreviver e deu seu último suspiro quando Johnny, num ato imprevesível de fúria, quebrou impiedosamente um copo cheio de cerveja na cabeça de Dee Dee. O excesso de agressividade e confusão na vida e carreira do músico crescia exponencialmente junto com o abuso das drogas. Thunders, cada vez mais autodestrutivo, conseguiu gravar ainda mais cinco álbuns de estúdio. No geral, são bons trabalhos, embora estejam absolutamente aquém do clássico “So Alone”, o único que realmente triunfou com todos os méritos. Dentre esses demais discos, o único que possui uma identidade mais original e que flui de maneira  agradável é o “Copy Cast”, de 1988, que contou com a calorosa presença de Patti Palladin.

Johnny Thunders faleceu aos 38 anos, em 1991, sob circunstâncias incomuns e pouco claras. O mundo perdia um dos melhores compositores e talvez o mais elegante guitarrista da história do punk rock, que munido de sua inseparável TV Yellow Les Paul Junior, entrou para a história, sendo até hoje ovacionado pelos admiradores do gênero. Seu primeiro álbum solo, o “So Alone” e o único trabalho de estúdio que gravou com o The Heartbreakers, o “LAMF”, permanecem sendo imensamente influentes e amplamente populares.

Referências:

https://www.loudersound.com/features/johnny-thunders

https://www.guitarworld.com/features/the-life-and-times-of-johnny-thunders

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Johnny_Thunders


quinta-feira, 22 de maio de 2025

POLY STYRENE: A PEQUENA VISIONÁRIA DO PUNK BRITÂNICO

 Por Daniel Rezende

Texto anteriormente publicado no portal Rock Feminino

https://rockfeminino.com.br/2020/07/poly-styrene-pequena-visionaria-do-punk-britanico/

Se Patti Smith foi a “madrinha do punk”, Poly Styrene (nome artístico de Marion Joan Elliott-Said) merece o título de artista feminina mais relevante do auge do movimento punk.

Em 1976, a cantora de 19 anos formou a banda X-Ray Spex, maravilhada com o que tinha visto num show do Sex Pistols. A banda era composta ainda pelo guitarrista Jak Airport, pelo baixista Paul Dean, pelo baterista Paul Hurding e pela ainda adolescente Lora Logic (nome artístico de Susan Whitby), no saxofone. O grupo se distinguia pelos vocais poderosos e vulcânicos de Poly, suas letras marcantes e pelo saxofone de Lora – um instrumento antirock por excelência, que era usado de forma discordante e com efeitos surpreendentes.

Com esse line-up, a banda começou a fazer shows na emergente cena punk londrina. Em 1977, gravaram um dos grandes singles do punk, “Oh bondage up yours”, com seu famoso verso de abertura: “Algumas pessoas pensam que pequenas garotas devem ser vistas e não ouvidas/ Mas eu acho que, ah sujeição! Vá se f…”. Lora Logic saiu logo a seguir, e foi substituída por Rudi Thompson.

Em 1978, a banda conseguiu gravar o primeiro disco, Germfree adolescents. “Oh bondage up yours” não foi incluída na versão original, sendo acrescentada como parte do álbum somente no lançamento em CD na década de 1990.

Germfree adolescents é um soco no estômago. Um dos grandes álbuns não somente do punk, mas da década de 1970, ele tem um vigor e uma coerência impressionantes. Segue a cartilha do punk básico, mas consegue ir além com trechos de guitarra um pouco mais elaborados, uso eventual de sintetizadores e, principalmente, pelo saxofone onipresente de Rudi, que leva melodias, contrapõe-se às frases de guitarra e oferece minisolos imperfeitos.

 

A verdade é que o espírito visionário de Poly anteviu essas conseqüências daninhas há quase 40 anos atrás, e por isso suas músicas continuam atuais e relevantes.

No campo temático, Poly Styrene tinha uma predileção por escrever críticas à sociedade do consumo. O próprio nome artístico dela (em português, poliestireno) se refere ao material utilizado para se fazer produtos descartáveis. Poly era bem morena, com linhagem africana por parte de pai e escocesa por parte de mãe, e essa diversidade cultural lhe conferiu uma mentalidade aberta para enxergar os danos causados por uma sociedade excessivamente materialista e sanitizada. Ela viveu fora de casa dos 15 aos 17 anos e desenvolveu preferência por uma vida simples no campo, sem luxo e com ideais ecológicos.

O ataque ao capitalismo começa logo na abertura, “Art-I-Ficial”, que emula os Sex Pistols e mostra todo o domínio de Poly na arte de cravar uma estaca moral de forma inteligente: “Artificial!/Sei que sou superficial/Mas não me culpe/Eu fui criada com eletrodomésticos/Numa sociedade de consumo”.

Outro destaque é a genial “The Day the world turned Day-glo”, que prevê um futuro com tudo artificial e padronizado, em que materiais sintéticos recriam e se misturam com elementos naturais: estrada acrílica, carro de polipropileno, bolo de borracha, árvore de seda artificial.

Em ritmo frenético, “Plastic bag” oscila entre passagens lentas e trechos alucinados, e trás uma das mais brilhantes metáforas do consumismo desenfreado: “Minha mente é uma sacola plástica/Que corresponde a todas essas propagandas/Ela suga todo o lixo…”.

As críticas ao consumismo eram freqüentes no punk rock – com destaque para “Lost in the supermarket” (The Clash) e “Damaged goods” (Gang of Four). No entanto, ninguém ousou fazer um álbum quase inteiro sobre o tema, agregando ainda questões emergentes na época, como os impactos ambientais.

 “I can´t do anything”, por sua vez, é um poço de negativismo (“Eu não consigo escrever/ Eu não consigo cantar/Eu não consigo ler/Eu não consigo fazer nada/Eu não consigo soletrar/Eu não consigo nem ir para o inferno”), e toca na ferida da violência contra a mulher: “Freddie tentou me estrangular…mas eu acertei ele de volta com meu rato de estimação”. O senso de humor corrosivo não afeta em nada a capacidade de emoldurar uma mensagem, que fica ainda mais viva com a melodia pegajosa e os vocais debochados. 

“Germfree adolescents” bebe na fonte do reggae, contando com uma linha de baixo proeminente e um sintetizador ao estilo do clássico do hard rock “Baba O´Riley” (The Who). Poly esculhamba os relacionamentos superficiais e as fobias do mundo urbano: “Sei que você é asséptico/Seu desodorante cheira bem/Gostaria de te conhecer/Mas você está congelado como o gelo”.

A crise de identidade do mundo pós-moderno raramente foi cantada com tanta propriedade quanto em “Identity”. A falta de referências sólidas e o massacre da mídia se refletem no refrão: “Quando você olha no espelho, você enxerga você mesmo?/Você se vê na tela da TV?/Você se vê na revista?/Quando você se vê, isso te faz gritar?”

Em 1979, Poly decidiu pôr fim ao grupo. Ela era hiperativa e estava desgastada com as turnês. Entrou para o movimento Hare krishna em busca dos princípios de vida em que acreditava.

Na década de 1990, o grupo se reuniu para shows eventuais e chegaram a gravar um disco, Conscious consumer, que teve pouca repercussão. A banda ainda se reuniria em 2008 para um show em que tocaram Germfree adolescents quase na totalidade. Poly morreu em 2011, devido a complicações de um câncer de mama. O X-Ray Spex cravou seu lugar entre os grandes da era original do punk, e Poly Styrene foi a pequena gigante do punk feminino britânico, liderando uma seleção de peso com nomes do calibre de The Slits, The Raincoats e Gaye Advert (The Adverts).

É de se pensar o que Poly pensaria da sociedade atual, com as redes sociais se sobressaindo às relações pessoais, as múltiplas formas de identidade virtual, as ansiedades que decorrem do uso excessivo de smartphones, o consumo desenfreado de bens baratos e descartáveis produzidos por mão-de-obra explorada e a ascensão ao poder de governantes intolerantes e que diminuem a importância da ecologia na agenda política. A verdade é que o espírito visionário de Poly anteviu essas conseqüências daninhas há quase 40 anos atrás, e por isso suas músicas continuam atuais e relevantes.

Esse texto foi originalmente publicado no meu livro “Rock feminino”, que trás resenhas de grandes álbuns de rock feitos por mulheres. Disponível para compra em:

https://www.amazon.com.br/Rock-feminino-Daniel-Rezende-ebook/dp/B07SYL8VMW

Se quiser conhecer mais sobre rock feminino e alternativo siga meu blog no instagram: @altrockbrasi
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THE BRIAN JONESTOWN MASSACRE RETRATA A GENIALIDADE DE NEWCONB

 Por Juliana Vannucchi

O rock and roll dos anos noventa foi marcado por uma frota de novidades estilísticas e experimentalismos que, de alguma maneira, tentavam se desvincular da musicalidade punk e do universo pós-punk. Essa foi, portanto, uma década convidativa para reformulações sonoras e, não à toa, nesse período surgiram vários grupos épicos que fizeram história.

E foi justamente no início dos anos noventa, São Francisco entregou ao mundo um das bandas de rock mais consagradas de todos os tempos. Com um estilo prioritariamente psicodélico a nada convencional, surgia o banda the Brian Jonestown Massacre, cujo nome é uma referêncoa a Brian Jones e ao tenebroso massacre de Jonestown. Essa história, porém, iniciou-se em meados dois anos oitenta, período em que o grupo começou a se consolidar a partir de uma curiosa fusão sonora entre o folk rock, o indie e o shoegaze. Desde seu surgimento, a BJM, liderada por Anton Newcombe, lançou um volumoso número de álbuns e EPs, ao longo dos quais seus integrantes foram constantemente trocados, fazendo com que uma grande quantidade de músicos diferentes tenha deixado seu DNA na banda. Suas variadas inspirações e influências vão desde The Velvet Underground até My Bloody Valentine. 

No entanto, apesar dessa recorrente mudança de músicos, Newcombe sempre foi o protagonista e o fio condutor do projeto,  assumindo o papel de maestro do The Brian Jonestown Massacre. O líder da banda, que já declarou tocar mais de cinquenta instrumentos, possui uma imaginação vívida e uma profunda sensibilidade, que sempre o levaram a compor com muita intensidade e facilidade. Mas apesar desse vistoso talento, algumas atitudes violentas de Newcombe marcaram fortemente a imagem da banda e mancharam sua reputação. Houve, por exemplo, uma ocasião em que ele espancou membros do grupo. Isso ocorreu em 1996, quando todos já estavam a postos num palco, prestes a iniciar um gig. Talvez, Anton Newcombe não se importe com essa fama de bad boy que foi atribuída a ele. Afinal, curiosamente, certa vez numa entrevista, refletiu: “Eu não acredito em bem e mal. Napoleão foi um grande homem. Ele não era um homem mau. Ele não era um homem bom (…) Tipo, Deus não é bom nem mau. Deus é grande."

Numa ocasião, Greg Shaw, que é presidente da Bomp Records, de Los Angeles, comentou a respeito da personalidade complexa do líder da banda: “Ele se vê como uma espécie de sufi, então vamos nessa. Ele é como um desses personagens espirituais errantes do Oriente Médio que aparecem na sua cidade e começam a falar sobre Deus ou qualquer coisa enquanto tece um tapete. E depois contam as histórias.” Apesar de tudo, Newcombe é um músico engenhoso e de uma rara inesgotabilidade criativa. Ele próprio já se definiu como um "maníaco" em relação ao seu processo criativo: costumar entrar em estúdio, escrever durante cerca de oito horas e ficar imerso em suas gravações até que tenha em mãos a música que desejava criar.  É um gênio diferenciado. Gosta de arte conceitual, se interessa pelas emoções humanas e entende que é existe em si uma "espécie de coisa xamânica que canaliza" sabe-se lá de onde para trazer ao mundo. Inclusive, Courtney Taylor-Taylor, lead singer da banda Dandy Warhols, certa vez o descreveu como "o músico mais doido e mais talentoso que eu já conheci". Em 2004, um documentário controverso sobre o BJM, chamado “Dig!”, reforçou essa má reputação do vocalista mostrando inúmeros momentos de tensão vividos pela banda e o estilo de vida boêmio de seus integrantes. Essa produção fílmica foi responsável por banda transformar a banda num icone cult, popularizando-a em diversos cantos do mundo sendo que até hoje, muito do que os fãs sabem ou querem saber sobre sua história seus integrantes, encontra-se disponível nesse material que é tão precioso, quanto polêmico. 

O álbum mais consagrado do grupo e que mais atrai fãs é o Their Satanic Majesties' Second Request, uma obra-prima irretocável que explora diferentes texturas sonoras e esbanja brilhantismo do início ao fim. Ele, por si só, valeria a carreira inteira da banda. Aliás, se alguém tem dúvidas a respeito da genialidade de Newcombe , basta escutar o apaixonante Their Satanic Majesties' Second Request. É a produção de estúdio que mais de destaca na supreendentemente imensa discografia do BJM, composta, em geral, por trabalhos notavelmente consistentes e qualificados. 

O The Brian Jonestown Massacre é uma banda majetosa e singular, que tem o poder de transportar qualquer ouvinte para outra dimensão. Atuamente, não ninguém mais fazendo o tipo de som que esse poderoso grupo faz. São realmente únicos. Seus álbuns são refinados e sempre profundos - um deles, só inclusive, contou com um total de mais de vinte instrumentos diferentes para ser produzido. De modo geral, os discos da banda carregam um clima etéreo, solos de guitarra distorcidos e sedutores, e são uma espécie de paraíso psicodélico. Além disso, é sempre válido mencionar que o BJM é um grupo essencialmente autárquico, que opera nos moldes do DIY, administrando sua própria gravadora e estúdio. Também nunca ligaram para fama e sucesso, sendo sempre integralmente undergrounds. Enfim, é uma banda fascinante, com músicas catárticas e poéticas e é, certamente, um dos poucos expoentes famosos de rock noventista que conseguiu sobreviver em alta por tanto tempo, sempre firmes diante de uma indústria musical que tanto mudou no decorrer desse longo período.

O BJM é, sem dúvida, uma das bandas mais originais e inventivas dos anos noventa.
 
Referências:

https://www.latimes.com/archives/la-xpm-2004-oct-17-ca-anton17-story.html#:~:text=A%20lot%20of%20people%20close,politesse%20probably%20don't%20either.

https://www.theguardian.com/music/2023/feb/10/brian-jonestown-massacre-anton-newcombe-interview

https://www.psychedelicbabymag.com/2019/05/interview-with-anton-newcombe-of-the-brian-jonestown-massacre.html

https://www.theguardian.com/music/2025/feb/03/the-brian-jonestown-massacre-review-anton-newcombe-de-la-warr-pavilion-bexhill-on-sea

https://www.thetimes.com/culture/music/article/life-with-the-brian-jonestown-massacre-each-day-i-go-into-battle-9pxqfhgq6



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