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SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

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WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

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quinta-feira, 24 de abril de 2025

CONHEÇA ZÉ NINGUÉM, O FAMOSO POETA MARGINAL DAS RUAS SOROCABANAS

 Por Juliana Vannucchi

Muitos sorocabanos certamente já se depararam com Zé Ninguém, poeta marginal que ocupa ruas, vielas, encruzilhadas e transportes públicos da cidade, recitando seus versos para qualquer um que esteja disposto a ouvi-los. Ele usa seu dom poético como um grito de guerra, fazendo dele a mais poderosa arma de revolução existencial, cujo propósito é invadir corações e, com isso, salvar e ajudar as pessoas de alguma forma. É muita sorte ter um poeta tão sensível vagando por Sorocaba e figuras artísticas assim, tão criativas como Zé Ninguém, merecem nossa atenção e sempre devem ser valorizadas. Mas apesar de atualmente brilhar por nossa querida Terra Rasgada, a trajetória de Zé Ninguém começou em outro espaço e em outro tempo...

Por trás desse pseudônico, está o jovem Gabriel Gomes Almeida. Ele nasceu em Campinas, no hospital universitário da Unicamp, no dia 24 de novembro de 2000. É o oitavo filho da dona Josefa Gomes de Almeida, que tem mais sete filhas e outro menino. Almeida terminou os estudos escolares em 2019, aos 19 anos, poucos meses antes do início da pandemia. Posteriormente, ingressou na faculdade, matriculando-se no curso de Letras. Ao longo dos anos, trabalhou em diversos ramos, assumindo vários cargos diferentes. Atualmente, no entanto, é servente e trabalha com seu cunhado. Em meio a todas essas experiências de vida, sempre houve uma poderosa conexão entre ele e a arte, sendo que seu percurso poético começou ainda na tenra idade, quando Gabriel envolveu-se com a música: “Eu sempre gostei de rap, funk, música clássica e pagode”. A partir dessa afinidade, aos doze anos ele começou a escrever, e tinha a intenção de se tornar cantor de rap: “Foi exatamente com essa idade que eu passei a escrever alguma coisa, rabiscar, anotar os meus sentimentos e foi a partir daí que peguei gosto pelo conhecimento e, a partir disso, simplesmente não parei mais de buscá-lo”.

 

Zé Ninguém e sua companheira Fernanda.   
 

Desde então, seus escritos foram aumentando e a poesia foi ocupando um espaço cada vez maior em seu dia-a-dia, se tornando uma paixão sem a qual o jovem não vive: “A poesia, pra mim, é a própria vida. Não existe nada se não existe poesia. Antes mesmo de começarmos a nos comunicar, a poesia já existia... antes mesmo do primeiro átomo se formar, a poesia já estava versando o universo. Então, na vida das pessoas a poesia é a emoção de viver, de ser e de sonhar. Sem poesia, penso que não haveria vida”. No entanto, apesar dessa ligação com os versos ter se iniciado cedo, foi apenas mais tarde, precisamente em 2023, que a slam poetry entrou em seu caminho, fazendo com que Gabriel encontrasse de vez o seu verdadeiro rumo, ao qual tanto se dedica atualmente. Afinal, foi através dessa expressão poética que ele, aos poucos, foi se tornando um notável expoente poesia marginal de Sorocaba: "Eu desenvolvi com outros artistas o projeto Slam Trincheira que vai estrear oficialmente no mês que vem, na zona norte da nossa cidade. Em suma, o objetivo do projeto é revigorar a poesia sorocabana, trazendo novos poetas para a nossa cidade e criar, assim, uma nova frente de poemas, remetendo especialmente à zona norte que acredito ser ainda muito negligenciada na arte".  E foi justamente nesse meio poético da slam que Gabriel assumiu o pseudônimo de Zé Ninguém, pelo qual está consolidando seu reconhecimento. A respeito desse nome artístico, explicou: “Tento levar às pessoas que me veem recitando, a essência não só da poesia, mais das próprias pessoas, pois busco refletir ali a dor do mundo para que saibam que não estão só, que tem um outro alguém com elas. Porque geralmente, quando nos sentimos sós, pensamos que não somos nada, que não somos ninguém. Que somos só mais um em meio de tantos. E isso me inspirou a criar meu pseudônimo de Zé Ninguém, que representa a todos, além de ser mesmo tempo, um nome que serve como ato de resistência, força e coragem”. 

 

Zé Ninguém é um poeta que tem muito a nos ensinar e que possui uma maneira cativante e inspiradora de recitar seus versos.

Gabriel acredita que pessoas de todo o mundo podem se encontrar em seus versos, reconhecendo-se neles, como se fossem espelhos de suas almas, nos quais se sentem acolhidas e representadas de alguma maneira. E o cenário atual da arte sorocabana que, segundo o jovem poeta está evoluindo e se fortalecendo gradualmente, parece ser justamente o espaço ideal para que ele possa fazer com sua arte atinga um número de pessoas cada vez maior. Zé Ninguém, afinal, entende que a arte porta em si um potencial transformador, necessário para que as pessoas possam ter uma formação mais humana e digna, elevando o patamar de suas consciências. Nesse âmbito, refletiu: “Acho que aqui em Sorocaba devemos ser mais ativos no meio artístico. Essa cena, afinal, pode fazer muita gente mais feliz e tirar as crianças do caminho errado”.

Zé Ninguém é um poeta de rua que tem muito a nos ensinar e que possui uma maneira cativante e inspiradora de recitar seus versos. É um militante heroico da zona norte, nobre em seu propósito de difundir a arte por todos os cantos da cidade e abrir espaço para que outros artistas possam ter voz e, assim como ele, mostrando seus talentos ao mundo. Devemos nos orgulhar de ter um poeta como ele peranbulando por nossas terras. 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

THE BOLSHOI: A TRAJETÓRIA DE UMA DAS BANDAS MAIS MARCANTES DOS ANOS OITENTA

 Por Juliana Vannucchi

O The Bolshoi foi uma das principais bandas da New Wave oitentista e seu principal hit, "Sunday Morning" foi um dos singles mais aclamados dessa década, bombando principalmente no Brasil e na Argentina, países em que o grupo conquistou uma enorme quantidade de fãs. Em sua letra, essa clássica e hipnótica faixa retrata a hipocrisia e a tirania presentes nas instituições religiosas e o quanto esses aspectos podem ser destrutivos na vida de um indivíduo. Parece soar também como uma espécie de desabafo pessoal em relação ao tédio e ao desgosto enfrentados por uma devoção religiosa forçosamente imposta. 

É uma banda que canalisou toda a atmosfera dos anos oitenta e a eternizou em suas elogiáveis e memoráveis canções. 
 

A formação original do The Bolshoi, de 1984, consistia no brilhante Trevor Tanner nos vocais e no comando da guitarra, Graham Cox no contrabaixo e Jan Kalicki na bateria. O famoso Paul Clark se juntaria ao grupo em meados de 1986 para assegurar ao The Bolshoi o refinamento sonoro ideal através de seus teclados e também de sua guitarra. Tanner, principal letrista do grupo, contou numa entrevista que em sua infância já possuia uma grande afinidade com a música. Quando era criança escuatava canções celtas e na juventude foi um grande fã de David Bowie e Deep Purple, sendo que todas essas diversificadas influências, de alguma maneira reverberaram em suas produções musicais. Na mesma entrevisyta em questão, Travor também revelou que durante a adolescência, sofria uma certa pressão por parte de seus professores de escola que insistiam para que ele tivesse êxito profissional, enquanto o menino, contrariado e com uma postura bastante rebelde, desejava ser um guitarrista famoso. E sabemos que, afinal, foi exatamente isso que aconteceu ao menos durante os anos oitenta, em que o The Bolshoi brilhou e lançou uma trilogia marcanrte de álbuns de rock alternativo: O debut foi o "Giants", seguido do icônico "Friends", que foi o triunfo de banda, o álbum mais comercial e popular e, por fim, o grupo gravou o "Lindy's Party", que também fez sucesso e conseguiu se sobressair. Em 2015, a banda surpreendentemente lançou seu último trabalho inédito, intitulado "Country Life", que foi ao mercado numa edição limitada. Suas faixas, contudo, foram gravadas há décadas atrás, mais precisamente em 1988.

Paul Clarke, certa vez comentou que muito conteúdo musical mágico surgiu nos anos oitenta. Certamente sua banda era parte desse cenário tão rico e diversificado, de tal forma que é difícil pensarmos na música dessa década sem que "Sunday Morning" invada nossas mentes. Foi uma trajetória curta, embora bastante competente e, no final das contas, a banda dominou o mundo com um único single que bastou para que se eternizassem. De maneira geral, o The Bolshoi oferece canções que, por vezes, soam de uma forma ligeiramente sombria e, em outros momentos são empolgantes e oferecem uma clima mais pop e dançante. Mas todos esses traços distintos sempre funcionaram bem e os caminhos sonoros do grupo, mesmo que variados, foram grandes acertos. É uma banda que canalisou toda a atmosfera dos anos oitenta e a eternizou em suas elogiáveis e memoráveis canções e sobretudo na voz única de Tanner. Para concluir nossa abordagem, citaremos uma fala de Trevor que, sempre carismático e bem-humorado, numa entrevista proferiu alguns conselhos a jovens artistas: "Apenas divirta-se e seja você mesmo. Não se preocupe em ser legal. Não é legal tentar ser legal. Eu só acho que um músico jovem ou um músico antigo deveria fazer o que é certo para você. E se as pessoas não gostam, que merda. Se você gosta, ótimo. Mas não ceda e seja algo que você não é".

Referências:

https://issuu.com/revistathe13th/docs/paul_clarke

https://www.thebolshoi.co.uk/articles/

http://themadcapspeaks.squarespace.com/trevor-tanner-interview/

https://louderthanwar.com/the-bolshoi-friends-to-be-reissued-by-beggars-arkive/

O ENCANTO DOS BORDADOS DE EVELINE

   Por Juliana Vannucchi

A costura, se manejada de forma habilidosa e praticada com originalidade, pode, certamente, se tornar uma verdadeira expressão artística. E a parisiense Eveline, com seu potencial criativo e sua destreza para lidar com linhas, corte e arranjos, é prova disso. Ela começou a bordar há oito anos atrás, quando nasceu o primeiro filho de seu irmão mais velho: "Queria bordar o nome dele - William - no presente que comprei, pois adoro presentes feitos à mão. Então, pratiquei um pouco e consegui. Gostei  bastante do processo, pois sempre adorei trabalho manual. E gosto ainda mais quando demora para ser concluído e exige foco". A partir da primeira experiência com o presente de seu estimado sobrinho, essa prática artesanal passou a se tornar cada vez mais intesa na vida de Eveline que, então, começou a bordar roupas para si mesma, para alguns amigos e, posteriormente, começou também a criar produtos para algumas bandas - como cuecas -, por exemplo: "Mas essa prática se tornou, por assim dizer, mais 'artística' quando comecei a bordar poesia e letras de músicas em linho vintage". A versatilidade estilística, desde então, acompanha firmemente o seu trabalho. Assim como uma Moira, imersa e infalível em sua sofisticada atividade, e sempre afiada, inspirada, firme e dedicada, Eveline, permanece até hoje ativa em suas produções, que se transformaram numa verdadeira paixão e que possuem o amor como principal eixo condutor. A esse respeito, refletiu: "Na verdade, é uma das coisas mais fascinantes para mim: inspiração e criação, de onde vem isso?! É um mistério absoluto, mas sinto que tudo vem do Amor. A natureza expressa isso através de árvores, flores, animais, insetos. O ser humano faz isso através da arte, se é que minha colocação faz sentido". 

Quando está bordando, Eveline gosta, de preferência, de focar numa mesma peça durante horas. Ela entende que esse processo mais prolongado é relevante num mundo caoticamente inquieto, no qual os níveis de ansiedade andam aflorados e, consequentemente, o foco de atenção das pessoas em qualquer atividade se torna mais baixo: "Sou professora de meditação, e não vou dizer que é a mesma coisa, mas acho que tem algo que também traz uma espécie de paz interior quando estou bordado, por envolver uma coisa repetitiva e o modo como eu preciso estar focada nisso, me deixa bem tranquila. Na verdade, existem estudos que mostram os seus benefícios: os níveis de cortisol, que é o hormônio do estresse, diminuem quando estamos concentrados numa tarefa criativa. Portanto, recomendo fortemente que quem está ansioso, tente fazer algo criativo". Ora, sabemos que da experiência criativa pode surgir uma conexão com a arte que, nas palavras de Eveline: "Surge a partir de uma forma de olhar o mundo, uma forma muito especial e peculiar, às vezes estranha, de olhar para ele, de observá-lo, também de viver nele, e principalmente de senti-lo. A arte associa-se à necessidade de expressar tudo isso também de uma forma muito pessoal. Na verdade, não tem um propósito, mas tem que ser".

Eveline, que já teve algumas de suas produções artesanais expostas em diversos locais, atualmente tem algumas de suas peças expostas no Howl! Arts, em New York: "Neste mês, minha amiga Cynthia Ross lançou seu primeiro livro de poesias e ela, muito gentilmente, encontrou um espaço pra mim nesse lançamento, no qual estou tendo a oportunidade de apresentar o meu trabalho - no caso, especificamente, meus bordados de alguns poemas dela - em uma galeria em Nova York. Ainda não consigo acreditar que isso está acontecendo". Nos trabalhos manuais de Eveline, a arte encontra seu propósito e se concretiza materialmente de maneira brilhante. Em suas costuras e ideias, há muitas coisas para serem admiradas e aprendidas. 

 

Bordado de um poema escrito por Cynthia Ross, intitulado "The Universe Loves You". 

Nesse borbado, Eveline anuncia o lançamento do livro de Cynthia Ross, em Paris. 
    








sábado, 11 de janeiro de 2025

A HISTÓRIA DO LOVE AND ROCKETS

 Por Juliana Vannucchi

O Bauhaus foi uma das bandas darks de maior sucesso durante os anos oitenta, lançando quatro álbuns aclamados nessa referida década. No entanto, após conquistar inúmeros fãs, produzir singles de sucesso e realizar performances teatrais memoráveis, o grupo se dissolveu em função de algumas desavenças surgidas entre o vocalista Peter Murphy e os demais integrantes do grupo. Foi então que o guitarrista Daniel Ash juntou forças com o baixista David J e com o baterista Kevin Haskins para dar vida à banda Love And Rockets, que permaneceu ativa de 1985 a 1999, posteriormente, juntando-se brevemente para turnês entre 2007 a 2009 e, mais de dez anos depois, em 2023, a banda surpreendentemente se reuniu novamente para tocar no festival Cruel World, que teve um impacto significativo na trajetória do grupo, incentivando-o a permanecer ativo.

No decorrer de sua inspirada trajetória, de modo geral, o Love And Rockets incorporou estilos musicais variados em suas composições, flertando com o glam rock, com o rock progressivo, com o pop rock e com o cosmic rock e, nesse âmbito, a cada novo álbum, a banda progressivamente se distanciava cada vez mais da sonoridade do Bauhaus, consolidando aos poucos seu potencial criativo e arquitetando uma atmosfera sonora bastante singular, especialmente marcada pela poderosa voz do brilhante Daniel Ash, cujo talento antes era parcialmente ofuscado pela incontestável presença de Peter Murphy. Certamente, no Love Ane Rocketes, o trio Ash, David J e Haskins encontrou mais liberdade para suas composições do que quando estava no Bauhaus, que se prendeu quase que inteiramente ao território dark.

 

O Love And Rockets é uma banda poderosa, com um potencial verdadeiramente ritualístico

O single de maior sucesso da banda e talvez o único que tenha explodido globalmente foi “So Alive” que, curiosamente, assim como aconteceu com a faixa “Bela Lugosi’s Dead, do Bauhaus, foi gravada num único dia. Numa entrevista, Daniel Ash fez algumas revelações interessantes referentes às etapas de criação e produção desse grande hino do Love And Rockets: “Escrito, gravado e produzido em 24 horas (…) Todos as melhores músicas parecem ser absolutamente instantâneas (…) É estranho isso. Não sei, tudo meio que se alinha em um período de 24 horas e bum, você tem aquele momento mágico, como gosto de chamar. Muito estranho. Foi particularmente estranho em “So Alive”, a maneira como isso aconteceu, porque quando entrei no estúdio tudo que eu tinha era a primeira linha e os dois acordes. Na ocasião, deveríamos estar gravando uma outra coisa, mas eu disse: “Não, não, não, estamos fazendo essa música”. Fui muito arrogante e eles disseram: “Bem, podemos ouvir?” E então eu disse: “Não, ainda não escrevi!” [Risos] Eu tenho a primeira linha e os dois primeiros acordes, mas vou para o porão e escrevo, e estarei lá em cerca de meia hora.” E foi exatamente o que eu fiz. Desci ao porão do Black Wing Studios em Londres. Cheguei uma hora depois e foi isso. Nós o colocamos de lado. Kevin começou aquela batida de bateria imediatamente. Dave pegou a linha de baixo. Foi instantâneo. Que dia incrível". A música foi lançada em 1989 e alcançou várias marcas importantes de sucesso. Atingiu o primeiro lugar no Canadá e ficou entre as 30 mais tocadas na Austrália, na Nova Zelândia e nos Estados Unidos (nos EUA, liderando também a parada Billboard Modern Rock Tracks por cinco semanas). Mas por trás dessa composição tão espontânea e intuitiva, havia uma inspiração carregada de sentimento. Certa vez, num sábado à noite, em que a banda não tinha compromissos, Ash foi a uma festa e num determinado momento se deparou com uma linda mulher de cabelos longos e castanhos, que estava do outro lado de uma sala escura e sombria na qual o vocalista se encontrava. Ash se encantou com aquela atraente figura, mas não a abordou porque era casado nessa época. Entretanto, ficou apaixonado pelo resto do fim de semana. A esse respeito, certa vez declarou: “Foi como se eu a conhecesse em de outra vida ou algo assim. Foi exatamente isso que me atingiu como uma tonelada de tijolos. Eu não conseguia parar de pensar nela.” Como ela estava do outro lado do salão, ele não pode ver a cor de seus olhos e na letra, faz referência a isso...

Em outras composições do Love And Rockets, o método artístico que prevaleceu na vida de Daniel Ash foi o “cut-up, que consiste numa técnica dadaísta, na qual recorta-se palavras aleatórias de um jornal, livro ou revista para se construir um determinado texto. Sobre essa questão, num entrevista, o músico explicou: “Tanto um riff de guitarra quanto uma manchete podem gerar uma ideia (…) Eu uso há muito tempo, desde meus primeiros trabalhos, como ‘Slice of Life’, que ganhei de um fanzine em Nova York. Comecei cortando manchetes e continuo essa prática até hoje”. Ainda em relação ao seu método de composição, Ash também declarou: “O que descobri é que isso liberta você completamente porque, na maior parte do tempo, o processo criativo acontece no subconsciente. O método ‘cut-up’, onde você pega pedaços de texto e os reorganiza, funciona nisso. Minha fonte preferida é o National Enquirer, que tem manchetes altamente dramáticas que geram frases interessantes. Para mim, a técnica de ‘cut-up’ funciona incrivelmente bem. Acredito que William Burroughs tropeçou nisso acidentalmente quando cortou parte de seu próprio texto. Simplesmente parecia certo para ele, e lá estava, uma ferramenta transformadora que pegou a escrita comum e a transformou em algo extraordinário".

O Love And Rockets é uma banda poderosa, com um potencial verdadeiramente ritualístico, que atinge fortemente nossas almas e corações e que é facilmente capaz de dialogar com o universo de qualquer pessoa. Os álbuns desse icônico trio de rock alternativo, são substancialmente catárticos e podem conduzir os ouvintes, ou para uma aventura plenamente introspectiva, repleta de sensibilidade, ou, então, fora do planeta, levando-o para a lua, para o cosmos… numa interminável viagem mágica.

Álbuns de estúdio*

Seventh Dream of Teenage Heaven (1985) -
☆☆☆
Express (1986) -☆☆☆☆☆
Earth, Sun, Moon (1987) - ☆☆☆☆☆
Love and Rockets (1989) - ☆☆☆☆☆
Hot Trip to Heaven (1994) - ☆☆☆☆
Sweet F.A. (1996) -☆☆
Lift (1998) -☆☆

____


*Avaliação do site:
☆ - Modesto
☆☆ - Médio
☆☆☆ - Bom
☆☆☆☆ - Excelente
☆☆☆☆☆ - Lendário

Referências:

https://www.brooklynvegan.com/bv-interview-daniel-ash-talks-love-and-rockets-reunion-reissues-bauhaus-motorcycles-and-more/ 

https://viewlesswings.com/2023/05/30/daniel-ash-on-crafting-the-lyrics-for-love-and-rockets-part-1-interview/ 

https://en.m.wikipedia.org/wiki/So_Alive_(Love_and_Rockets_song) 

https://www.songfacts.com/blog/interviews/daniel-ash-love-and-rockets-bauhaus 

https://www.slicingupeyeballs.com/2023/05/01/daniel-ash-interview-love-and-rockets-reunion-bauhaus-ashes-diamonds/



A SHE IS DEAD É TUDO QUE OS FÃS DE ROCK QUEREM

 Por Juliana Vannucchi

A banda curitibana She Is Dead, surgida há alguns anos atrás como promessa musical, já se consolidou como um dos mais consagrados nomes da história do rock nacional. Em 2020, em seu período embrionário, antes de alcançar o estrelato, a She Is Dead, que se propunha a oferecer ao público um “rock para corações despedaçados”, lançou seu primeiro EP, o “Living In My Hate”, seguido pelo “Forget Our Dreams”. No ano seguinte, um novo passo profissional foi dado e a banda lançou o aclamado álbum “Story Of Lies” e também o elogiável “We Love Reverb”. Por fim, em 2023, a She Is Dead presenteou seu público com o lendário “All The Monsters”, o mais maduro, refinado e experimental de seus trabalhos. Todos os EPs e álbuns foram produzidos por Luís Orta. Atualmente, a formação conta com Mau Carlakoski (vocais e guitarra), Kim Tonieto (baixo e vocais), Maria Scroccaro (guitarra) e Alessandro Santiago (bateria).

De modo geral, em suas apaixonantes músicas, a banda apresenta uma mescla da velocidade e da fúria do punk rock com cargas sentimentais e melancólicas do pós-punk -especialmente nas letras - e boas doses de uma agressividade vocal tipicamente noventista. Nos palcos, o trio sempre mostra uma energia contagiante que lembra os momentos mais gloriosos do Sonic Youth e, assim, facilmente leva a plateia a chacoalhar a cabeça e corresponder com a barulheira excitante feita pelos integrantes da banda. O resultado de todos esses elementos sonoros é um deleite para qualquer fã de rock and roll e a She Is Dead, assim, merece estar na playlist de qualquer apreciador desse gênero musical, para os quais são simplesmente fundamentais. E... se por acaso, seu coração está ferido, pode ter certeza de que o trio, por meio de suas músicas, oferecerá o remédio ideal. Acredite: eles, de fato, têm a receita perfeita para esse tipo de enfermidade. São catárticos, selvagens e por sua competência, convencem fãs e críticos desde que estrearam no mundo do rock. Com certeza devem ser escutados no último volume! 


A banda She Is Dead em sua formação atual.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

BALLET CLANDESTINO: UMA LENDA DO PÓS-PUNK NACIONAL

 Por Juliana Vannucchi

Em 2012, na capital paulista, despontava a banda Ballet Clandestino, que com o passar dos anos se firmaria como um dos nomes mais significativos do pós-punk nacional. Atualmente, sua formação conta com o brilhante Vinícius Primo, que comanda a guitarra e o vocal, Natan, contrabaixista e vocalista, além de Tyofrey, o talentoso baterista do grupo. A discografia do powertrio é composta por um total de 4 EPs, todos lançados em formato físico, sendo que a mais recente produção, intitulada “Ruído Que Desorganiza”, foi lançada em 2023.

 

Ballet Clandestino: uma banda perigosa ao senso comum e valiosa aos que desejam sair da caverna.
 

Todos os EPs da banda são cativantes e dignos de elogio. As músicas, instrumentalmente falando, são carregadas de pinceladas melancólicas e possuem uma atmosfera predominantemente obscura. As letras, por sua vez, são bastante poéticas, expressam um teor reflexivo e tratam de maneira profunda uma série de conflitos que tangem a realidade humana, como o caos, o absurdo existencial, a solidão, o desespero, dentre outros temas. Além desses aspectos mencionados, as letras também integram críticas sociais e abordagens de cunho político, voltando-se especialmente ao submundo que se oculta por trás do luxo e da correria dos grandes centros urbanos. Devido a tais características, o Ballet Clandestino é uma banda notavelmente singular, emergente das sombras, capaz de envolver sentimentalmente o seu público e, ao mesmo tempo, convidá-lo a contestar a realidade ao seu redor. É um grupo niilista, observador da trágica condição humana, e com uma postura não-conformista, que registra todos esses elementos em seus poemas sonoros. Trata-se de uma banda perigosa ao senso comum e valiosa aos que desejam sair da caverna. Certamente seria um dos grupos presentes na playlist de Lord Byron, que curtiria o som do Ballet Clandestino tomando uma taça caprichada de vinho! Perder-se nas músicas da banda é mergulhar nas profanas e nefastas aventuras que compõem essa estranha vida.

Por toda sua qualidade, o Ballet Clandestino, esse trio ultrarromântico pós-moderno, resiste ao tempo e permanece sendo um cultuado e lendário símbolo do pós-punk nacional, sendo sempre capaz de oferecer ao público conteúdos musicais consistentes e empolgantes.



SPACE MACHINE: A MÚSICA DO FUTURO E A NOVA ERA DO ROCK NOVA IORQUINO

 Por Juliana Vannucchi

James Fox, residente em Nova Iorque, é um sobrevivente da cena punk setentista, que o influenciou fortemente em termos sonoros e ideológicos. O músico, sempre armado com sua guitarra e abastecido por seus sentimentos, ao lado do baterista Eric Blitz, recentemente deu vida ao seu poderoso projeto "Space Machine", através do qual está trabalhando num legado musical que, invariavelmente, está fadado ao sucesso. Com um talento que pulsa em suas veias, James deseja que sua música seja capaz de reverberar na mente e no coração de seus ouvintes. 

 

O Space Machine ofecrece uma sonoridade distópica, alternativa, única e absolutamente fantástica, criada por um guitarrista que está em plena ascensão
 

A música sempre foi um fator necessário na vida de James, que desde a tenra idade a percebia como uma fonte de inspiração e de paixão. Ela nunca deixou de acompanhá-lo, de andar ao seu lado e de, alguma maneira, ser uma espécie de templo protetor. Mas houve um acontecimento traágico que mudou drasticamente os rumos de sua vida e o lançou de vez para um incessante processo de criação musical. Atualmente, Fox, que se apresentará em Nova Iorque no mês de setembro, festeja o simples fato de poder subir aos palcos, pois ele é uma verdadeira fênix do rock, renascida das cinzas da morte. Isso porque, numa fatídica noite de abril de 2020, logo no início da pandemia, foi vítima de um atropelamento que o deixou numa condição de saúde gravíssima, fazendo com que ficasse perto da morte. Ele teve seu rim perfurado, fraturou quatro costelas, quebrou as duas pernas e teve uma séria concussão na cabeça. James se recordou dos terrores dessa experiência: "Lembro-me literal e vividamente do som do metal quando afundei sete centímetros no capô dianteiro do carro. Lembro-me imediatamente depois da forte explosão do vidro estilhaçado do para-brisa, quando a frente da minha cabeça fez contato... sons que nunca esquecerei, seguidos pela vaga sensação de estar no ar, a última coisa de que me lembro antes de acordar". Tudo que ele vive agora, de alguma forma, está entrelaçado ao acontecimento daquela noite e à cadeia de circunstâncias que se seguiu após o acidente. Para James Fox, essa vivência não ocorreu para que ele se tornasse uma testemunha silenciosa, mas, sim, para que extraísse dela algo poderoso e sagrado que pudesse, por meio de sua sensibilidade interior, transformar-se em música. Refletindo, ao recordar-se sobre como essa experiência dolorosa modificou sua perspectiva existencial, comentou: "Agora vejo e sinto toda a beleza, a alegria, a maravilha, o mistério, desta vida e deste mundo... Mas o caminho para cima também passa... Nada muda sem reconhecimento absoluto e honestidade absoluta". Seu coração catalisou as marcas psicológicas e físicas deixadas naquele noite. E o sofrimento virou arte, assumiu a forma de melodias. A música do projeto "Space Machine" é o espectro da beleza gerada pelos horrores que foram confrontados por James, que toca guitarra com uma virtuosidade brilhante e absolutamente hipnótica. 

O "Space Machine" é um projeto musical de enorme potencial criativo e que conquistará o coração de todos os apreciadores de rock, ao oferecer um estilo musical inovador do qual nossas almas precisam para se elevar e se purificar. Nesse projeto, nós nos deparamos com o tipo de composição do futuro, que transgride fórmulas comuns e navega por mares originais e sem precedentes, nos quais pedais variados fazem com que a guitarra seja a condutora de uma mescla de space rock com punk e hard, algo vidrante - uma espécie de fusão do melhor de Johnny Thunders com o melhor do Eloy. Trata-se de uma sonoridade distópica, alternativa, única e absolutamente fantástica, arquitetada por um guitarrista que está em plena ascensão e que é uma promessa valiosa no cenário da música independente dos EUA. Nova Iorque, novas eras estão surgindo... sua história nunca terminou nos anos setenta e há novos músicos por aí, prestes a serem consagrados como tantos outros que honraram seu solo. O rock and roll para James Fox é uma missão de vida. Abra seu coração para os hits selvagens de James Fox e explore asonoridade cativante do Space Machine...

domingo, 31 de março de 2024

OS MALTRAPILHOS: 30 ANOS DE ESTRADA E DE LUTAS

 Por Juliana Vannucchi e Neder de Paula

Em 2024, mais precisamente no dia 27 de março, o lendário grupo “Os Maltrapilhos” completou 30 anos de existência. A banda é amplamente reconhecida como uma das principais e mais queridas representantes do punk rock nacional, ainda que sua popularidade esteja muito além das fronteiras de nossas terras. Natural de Ceilândia, conhecida região do Distrito Federal que abrigou vários grupos punks, atualmente a banda conta com Márcio nos vocais e também é composta pelo guitarrista Rafael, pelo brilhante baixista Ismael, pelo baterista Magrão. 

 

Com uma mensagem que atravessa culturas e idiomas, a banda continua a inspirar uma legião de seguidores.
 

Com sua atitude irreverente e comprometimento com causas sociais, Os Maltrapilhos não apenas moldaram o cenário musical, mas também deixaram um legado duradouro que transcende o mundo da música. Suas performances enérgicas e suas letras provocativas continuam a ressoar com uma nova geração de fãs, demonstrando que o punk rock ainda é uma ferramenta poderosa de expressão e resistência. Desde os primórdios, por meio de sua arte, a banda travou uma verdadeira luta pela liberdade, pela democracia, pelo mutualismo, e pela revolta e, em função disso, com letras de cunho crítico e reflexivo, busca denunciar as faces obscuras presentes em nosso país, apresentado pautas sociais e políticas revelantes que arquitetam esse cenário lírico e oferecendo ao mundo aspectos crueis da realidade que nem sempre queremos ver. O grupo, dessa forma, visa utilizar a música como um catalisador capaz de instigar o ouvinte a refutar o mundo ao seu redor para que seja capaz de desvincular-se, assim, de todas as formas de ignorância e opressão que o cercam. Em tempos hostis, nos quais a intolerância e a injustiça imperam, as mensagens dos Maltrapilhos tornam-se mais fundamentais do que nunca. 

No decorrer de todo esse tempo de estrada, o grupo construiu uma imagem sólida e influente no contexto do rock nacional, tornando-se uma verdadeira lenda brasileira de punk rock. Mas é evidente que sua influência vai muito além do sucesso nacional. Com uma base de fãs global e uma mensagem que atravessa culturas e idiomas, a banda continua a inspirar uma legião de seguidores dedicados, provando que, mesmo em um mundo em constante mudança, a essência do punk rock - a rebelião, a autenticidade e a luta por justiça social - permanece tão relevante como sempre.


domingo, 3 de março de 2024

THE STONE ROSES: UM TEMPLO SAGRADO CAPAZ DE ELEVAR QUALQUER CORAÇÃO

 Por Juliana Vannucchi

No final dos anos 80 e início da década seguinte, quando o punk rock já não era mais uma novidade, a cidade de Manchester abrigou uma efervescente onda de bandas de rock que despontavam numa fascinante maré de criatividade. Esse período histórico e as características sonoras dessa geração de grupos emergentes ficou conhecido como “Madchester”. Foi justamente nesse contexto que surgiu o The Stones Roses, grupo formado em 1983, que contava com o talentoso Ian Brown nos vocais, John Squire na guitarra, Mani no contrabaixo e tinha Reni como baterista. 

O primeiro álbum da banda, intitulado “The Stone Roses” foi lançado somente em 1989. Alguns anos mais tarde, em 1994, o quarteto de Manchester presenteou o mundo com o segundo e último disco de estúdio, chamado “Second Coming”. Os integrantes ficaram juntos até meados da década de noventa, quando, por fim, se separaram. Posteriormente, em 2011, anunciaram uma turnê e chegaram até mesmo a produzir novos materiais. No entanto, a carreira da banda nesse retorno não emplacou tanto como quando o debut que chamou a atenção do mundo todo foi lançado. Esse memorável álbum de estreia carrega um total de 11 faixas e possui uma aura imensamente original, cuja musicalidade desvinculava-se tanto do punk rock, quanto do pós-punk, gêneros mais populares do período em que foi gravado. Em função desses diferenciados aspectos criativos e de sua peculiaridade estética, a banda é considerada representante do “alternative rock”, uma vez que foi essencialmente transgressora, escapando dos padrões de sua época e conseguindo aventurar-se em novos terrenos sonoros.

 

Escutar essa banda é uma viagem fantástica, um deleite libertador
 

O “The Stone Roses” é album que possui um carisma atemporal e cativante. Suas melodias grudam na cabeça e fisgam o coração, enquanto os sentimentos melancólicos despejados por Ian Brown soam como um sagrado templo acolhedor. É um disco extremamente qualificado em todos os sentidos possíveis, com variadas influências estilísticas e, em função desse conjunto de elementos, é improvável encontrar alguém que não se encante quando o ouve. Escutar essa obra-prima é uma viagem fantástica, um deleite libertador e repleto de mágica! O ouvinte simplesmente se perde por completo na  experiência sonora profunda das faixas desse apaixonante disco.

Vale citar que a icônica capa desse aclamado álbum chegou, com justiça, a ser eleita pela revista “Q” como uma das "100 melhores capas de discos de todos os tempos". No artigo da “Q” a respeito da arte da capa, o guitarrista Squire, que a criou, revelou: “Ian certa vez conheceu um artista francês quando ele estava viajando pela Europa. Esse cara estava presente em tumultos e contou a Ian como limões foram usados ​​​​como antídoto para gás lacrimogêneo. Havia um documentário com uma ótima cena no início, de um cara jogando pedras na polícia. Gostei muito da atitude dele”. Essa história contada por Squire, não apenas serviu como pano de fundo para a criação da capa do álbum, mas também inspirou uma letra da música "Made Of Stone". 

Essa banda tão inovadora nos deixou como herança um álbum catártico que é capaz de transformar qualquer momento da vida numa experiência atípica e verdadeiramente cinematográfica. O The Stones Roses oferece a trilha sonora ideal para dar sabor a essa existência estranha, que por vezes é tão amarga e indigesta.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

METAL: UMA JORNADA PELO MUNDO DO HEAVY METAL

 Por Juliana Vannucchi

Jaquetas de couro, camisas pretas, cabelos longos… esses são alguns dos aspectos visuais que compõe a aparência clássica de uma das tribos urbanas mais presentes e cultuadas do mundo: os metaleiros, ou mais apropriadamente dizendo, os “headbangers”. É comum nos depararmos com eles andando pelas ruas, mas geralmente não conhecemos a cultura que se esconde por trás dessa aparência e, tampouco, costumamos conhecer suas reais influências sonoras e raízes históricas. Em 2005, um antropólogo canadense chamado Sam Dunn, que faz parte dessa tribo urbana, e decidiu realizar um documentário que mostrasse ao mundo a verdadeira face do heavy metal e de seus admiradores e representantes. Dunn se apaixonou pelo gênero musical aos 12 anos e conta que chegou a escutar o disco "The Number Of The Best", 25 vezes num único dia! Desde seu esse contato com o mundo do heavy metal, tornou-se um verdadeiro fã. O documentário de Dunn, de forma geral, foi muito bem recebido em todo o mundo. O antropólogo procurou realizar uma produção que desvendasse as origens históricas desse tipo de música, a ideologia, a cultura, seus efeitos sociais, e também as controvérsas existentes ao redor desse gênero.

O documentário de Dunn desenvolveu-se a partir da seguinte questão:“Por que o heavy metal até hoje é um gênero musical tão descriminado e estereotipado?” Para responder a essa pergunta, o canadense frequentou vários países diferentes e realizou filmagens em shows de bandas clássicas de metal, além de entrevistar seguidores do gênero e aclamadas figuras que formam esse universo. Ronnie James Dio, vocalista das bandas "Dio" e "Heaven And Hell", Tony Iommi, considerado um dos maiores guitarristas da história do rock, Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, e outros grandes nomes do metal, como Tom Araya, Dee Snider e Vince Neil são alguns dos personagens que cederam depoimentos para o produtor. Afim de relacionar esses artistas e bandas dentro de um amplo contexto, Dunn apresenta uma árvore genealógica que explora as vertentes do heavy metal e, assim, a partir desse aspecto vai desenvolvendo e organizando sua pesquisa, enquanto ele próprio narra seu roteiro que é mesclado com depoimentos desses músicos e de fãs do gênero.

Dentro dessa estrutura e em busca de respostas para e questão proposta, o filme é dividido em capítulos que dão uma pincelada por vários aspectos importantes do heavy metal, explorando desde seus primórdios, até o preconceito que existe contra esse universo. Dessa forma, o documentário vai tornando-se cada vez mais completo ao apresentar o amplo repertório de bandas desse meio, além de  assumir um caminho nitidamente bilateral na medida em que aborda de forma imparcial não apenas questões técnicas  e processos de criação sonora de músicas do gênero, mas assuntos mais sombrios e delicados, como, por exemplo, a linha de pensamento e ideologia de bandas de metal que tem afinidade com o satanismo e que, de certa forma, foram responsáveis por firmar um estereótipo já antigo que esse estilo musical e seus seguidores carregam. São discutidos também, assuntos como o machismo presente dentro do gênero, e como se deu, ao longo dos tempos, a inserção das mulheres dentro desse meio. Dunn também questiona ídolos do metal quanto a assuntos gerais, como religião, figurino, e retoma também como uma de suas temáticas, um dos momentos mais memoráveis da história do rock and roll, que foi quando Dee Snider, vocalista da banda Twisted Sister, depôs no Conselho de Pais, que foi criado pelo Senado norte-americano sob comando da reacionária Tipper Gore (esposa do ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore), com a grotesca finalidade de fazer diversas acusasões contra o heavy metal e outros gêneros (Prince e Madonna, por exemplo, também foram considerados imorais e acabaram envolvidos no caso). Nessa ocasião, Snider deixou a mídia, Gore, e todo o Senado boquiabertos com a qualidade e fundamentos de seus argumentos. Foi um dos momentos mais expressivos  e emocionantes da história do rock and roll. Em função desse acontecimento, até hoje, podemos ver o músico como um grande mito do rock e verdadeiro símbolo de resistência. Vale dizer também que esse cenário nos leva a reconhecer a rebeldia que o heavy metal carrega em seu DNA agressivo.


O heavy metal e seus fiéis seguidores sobrevivem e com certeza, sobreviverão com, ou sem esse julgamento.

Apesar de toda a qualidade da produção e da visão ampla que Dunn busca expor, considero que talvez ele pudesse ter valorizado e examinado um pouco mais a fundo a faceta histórica do metal, explorando melhor as bandas que formam o primórdio e as raízes estilísticas desse tipo de música. Possivelmente, a meu ver, isso fortaleceria ainda mais o trabalho do jovem antropólogo. Mesmo assim, o resultado final é incrível, emocionante e apresenta ao espectador o heavy metal como algo apaixonante, como uma espécie mundo paralelo acolhedor que está sempre de portas abertas para que qualquer um possa entrar nele. Independente de qualquer crítica por parte da sociedade ou até mesmo do Senado, o heavy metal e seus fiéis seguidores atualmente sobrevivem e, com certeza, sobreviverão sempre, apesar do constamente julgamento que sofrem, pois, afinal, a paixão musical que nutrem se sobrepõe a qualquer possível obstáculo que esse tipo de música e os headbangers possam enfrentar.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

THE EDWOODS EM PAUTA: CAOS, LOUCURA E ROCK AND ROLL

 Por Juliana Vannucchi

No mês mais macabro do ano, época de Halloween, não poderia faltar material sobre a banda underground mais bizarra do país, o The Edwoods, duo paulistano formado por Andy e Eron. Acompanhei a movimentação da dupla ao longo dos últimos meses e decidi bater um papo com os meninos para que me contassem melhor sobre o sucesso e sobre os próximos passos de suas produções musicais. Andy contou que 2023 foi um período particularmente dinâmico para o The Edwoods: "Tocamos pela segunda vez no PsychoCarnival em Curitiba, dividindo o palco com os Sick Sick Sinners, Frenetic Trio, com os Flicts e lá ainda vimos de pertinho os Replicantes, que é uma banda que nos influenciou muito. Gravamos também dois singles novos com a produção massa do Jairo dos Autoramas e de quebra ainda tocamos em uma cena de spanking no Dominatrix Bar, durante uma performance da Ramona e Kinky Alien".

A dupla faz parte de um vasto grupo de artistas do país que luta pela música independente e, com resistência, faz com que a cena autoral brasileira permaneça sólida. A esse respeito, Andy comentou que tanto o punk quanto o rock permanecem fortes e longe de qualquer tipo de crise, ainda que tais gêneros culturais estejam distantes da grande indústria musical: "O rock e o punk estão por aí e sempre estarão. Eles não estão nas grandes mídias, pois não há o devido e merecido espaço, mas estão muito vivos nos bares, pubs e garagens Brasil afora". Sobre esse tema, Eron refletiu: "Acho difícil conciliar interesse comercial com arte. Não é uma equação fácil. Creio que um pouco da liberdade criativa é perdido neste processo, mas vai de cada um também. Olha, se uma grande gravadora nos oferecesse um contrato, nós mudaríamos tudo! Investiríamos no visual para melhorar esta aparência deplorável que temos, aprenderíamos a tocar e faríamos músicas melhores que passassem alguma mensagem positiva".

 

"Se uma pessoa gosta de música ruim, mal tocada e que não fala nada e útil, somos a banda certa". (Eron)

Durante nossa conversa, perguntei aos meninos do que mais se orgulham na trajetória do The Edwoods. Seus rostos foram imediatamente tomados por sorrisos macabros e risadas diabólicas. Então a dupla mais trash do Brasil simplesmente respondeu que se orgulha, sobretudo, de estar “cada vez mais feia, insana e descarada". Aliás, é praticamente impossível manter um diálogo sério com os dois, porém, temos que entender que essa é justamente a essência e a proposta de suas criações musicais: a grande qualidade do The Edwoods encontra-se no barulho, no espírito do rock and roll que encarna em suas vozes e instrumentos e agita o público, fazendo-o perder-se em melodias que afastam, ainda que momentaneamente, qualquer problema ou desassossego. O duo não pretende disponibilizar mensagens profundas ou reflexões complexas (chupa, Pink Floyd!), pois, no final das contas, nem sempre são esses os elementos da vida que mais nos encantam ou dos quais mais precisamos. A realidade cotidiana é penosa e, nesse sentido, a fantasia e o humor são recursos necessários para nossa sobrevivência e para que possamos manter o gosto de continuar encarando a vida da melhor maneira possível. Nossas paixões se encontram, por vezes, no que há de mais simples e banal, e é justamente isso que o The Edwoods revela. Nesse sentido, Eron explicou o papel da dupla e por que alguém deve escutá-los: "Se uma pessoa gosta de música ruim, mal tocada e que não fala nada e útil, somos a banda certa! Se você é assim, procure um psiquiatra e ouça The Edwoods".

Para encerrar a conversa, perguntei a eles com quem gostariam de subir ao palco (valia citar artistas vivos ou que já morreram). Com prontidão e entusiasmo, responderam que escolheriam o "The Cramps"... A única coisa que pude pensar, sinceramente, foi: "Coitados dos integrantes do Cramps, seria bagunça demais para eles... o Lux não aguentaria".

 

 

CONHEÇA O "ALL THE MONSTERS", NOVO ÁLBUM DA SHE IS DEAD

 Por Juliana Vannucchi

A She Is Dead, que há anos figura entre as bandas brasileiras mais consagradas, continua firme e ativa no cenário do rock nacional. No último dia 28, o trio curitibano lançou o álbum “All The Monsters”, gravado e produzido por Luís Orta, que também atuou nos outros materiais do grupo. O disco possui um total de 13 faixas e conta com Mau Carlakoski nos vocais e na guitarra, Kim Tonietto no baixo e nos vocais e, como novidade em relação ao último lançamento de estúdio, as baquetas foram assumidas por Alessandro Santiago, que já havia feito parte da banda no passado e agora retornou no momento certo, se encaixando magicamente na She Is Dead. Santiago nos contou sobre a importância e a satisfação de estar de volta: “Estou feliz com esse momento, tanto pela amizade que tenho com os outros integrantes, quanto pela honra de estar numa das bandas mais viscerais da atualidade. A She Is Dead evoluiu muito ao longo desse tempo em que fiquei fora do grupo. É uma banda que vai ficar marcada na história do rock e, por isso, com certeza estar de volta é algo muito especial pra mim”.

De modo geral, o “All The Monsters”, que pode ser considerado o mais maduro da carreira da banda, possui uma pitada criativa de experimentalismos e carrega uma atmosfera mais próxima do pós-punk, embora mantenha, tal como ocorre nas produções anteriores, bastante afinidade com o rock noventista. Carlakoski nos contou que atualmente a She Is Dead está vivendo seu auge: “Esse novo trabalho apresenta nossas melhores composições e certamente reflete meu momento mais criativo como músico”. Tonietto também comentou sobre o atual momento que vive como músico: “Tivemos um amadurecimento não apenas nas composições, mas também na parte da produção musical. Com mais tempo e calma, pudemos criar melhores faixas para esse álbum. Devemos também agradecer muito ao excelente trabalho do Luiz Orta, que faz mágica com nossas músicas”.


(...) não é exagero algum dizer que o “All The Mosters” é uma produção histórica do rock brasileiro.

 

“All The Monsters” é o disco mais profundo da banda e o que mais cativa o ouvinte. Mau Carlakoski refletiu sobre a simbologia por trás do título escolhido para o álbum: “Nessa nova produção estão reunidos todos os meus monstros, meus fantasmas existenciais, tal como a saudade, as frustrações, a angústia, a esperança e outros monstros. Consegui colocar muitos dos meus sentimentos nesse trabalho”. Nesse novo disco, repleto de emoções e capaz de provocar efeitos poderosos nos ouvintes, o trio se mostra mais confiante, mais solto, mais talentoso em relação aos trabalhos anteriores e definitivamente se supera em termos de criatividade, especialmente ao explorar diversas camadas, nuances vocais e linhas de guitarra muito variadas. Escutar o álbum é uma verdadeira volta ao melhor que os anos noventa pode oferecer em termos de rock and roll. De certa maneira, é como se integrantes do Pixies, Sonic Youth e The Cult tivessem se unido e feito experimentos e gravações conjuntas.

A faixa de abertura, “That´s Ok” começa com bastante barulho, distorções e com um efervescente espírito anárquico que seguirá presente em praticamente todo o restante do álbum, embora na oitava música surja uma leve transição estilística em que os ruídos migram para um clima ligeiramente mais introspectivo. Por fim, cabe dizer que quem não é tocado pela maravilha que esse poderoso álbum oferece, certamente já deve estar morto por dentro, pois não é exagero algum dizer que o “All The Mosters” é uma produção histórica do rock brasileiro. Ao compartilhar seus monstros pessoais no álbum, Carlakoski leva aos ouvintes a exorcizarem os seus num processo catártico hipnotizante.

A banda curitibana tem shows agendados na capital paulista e em Santo André, além de estar confirmada no icônico festival “Punktober”. Para acompanhar a programação e os lançamentos da She Is Dead, acesse os links abaixo e siga o grupo nas redes:

Facebook: https://m.facebook.com/sheisdeadrock/

Instagram: https://www.instagram.com/sheisdeadrock/

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC5rr9E5T52fy6i3mc40-urA

Spotify: https://open.spotify.com/intl-pt/artist/2X18P5qiLWbpeWbcHaCIZb



domingo, 22 de outubro de 2023

GENESIS: PARA SOBREVIVER NO MUNDO REAL

 Por Juliana Vannucchi

No início de outubro, o multi-instrumentista Thiago Halleck, especialmente conhecido por sua carreira como baixista da banda Gangue Morcego, lançou, por meio seu projeto musical solo intitulado HallecӃ, seu primeiro álbum, o “genesis”, mixado e masterizado por Leandro Souza e que certamente consiste na produção mais madura, poderosa e qualificada do músico carioca, que nesse disco, pareceu mais livre e seguro ao aventurar-se em seus experimentalismos. 

Com um total de dez faixas, o consistente álbum caracteriza-se especialmente por sua atmosfera sombria que se mescla harmoniosamente com camadas sonoras eletrônicas e dançantes, resultando num clima essencialmente oitentista. Em meio a esse cenário, Halleck articula seus pensamentos e emoções por meio de sua voz, embalando os ouvintes em suas poesias, repletas de reflexões e lampejos sentimentais. Vale destacar, em particular, alguns excelentes solos e arranjos ferozes de guitarra que talvez sejam, no aspecto instrumental, o ponto mais forte e original deste elegante álbum. As pancadas tribais da bateria são outro ponto precioso que é digno de menção e remetem aos bons tempos em que Thiago era baterista e tocava tal instrumento com mais frequência. Em algumas passagens, cabe dizer também que, propositalmente ou não, Halleck resgata sutilmente a aura musical da banda Gangue Morcego e em tais trechos, o disco faz o ouvinte lembrar nostalgicamente de seu antigo grupo. 

 

Genesis: um dos álbuns independentes mais poderosos de 2023.
 

Embora Thiago Halleck tenha sido responsável pela gravação de todos os instrumentos principais do "genesis", a produção contou também com a participação enriquecedora de convidados especiais e influentes, como o brilhante Dennis Sinned, Edu Krumen, Ricardo Martins, Rafaela Mathias, Priscila Branco, Thiago Castilho e Leo Saitou, que figuram entre os principais nomes do pós-punk nacional e que fortaleceram a qualidade do álbum.  

Nosso site recomenda o “genesis” para todos aqueles que buscam inspiração e forças para sobreviver neste Mundo Real. É um álbum visceral, verdadeiramente impecável e figura entre os lançamentos independentes mais interessantes de 2023. Ficaremos na torcida para que Thiago continue tão inspirado, uma vez que sua inspiração é capaz de abastecer muitas almas e animar muitos corações!

Escute o álbum na íntegra acessando o link abaixo: 

https://www.youtube.com/watch?v=K4QgL3q-w_o


quinta-feira, 13 de abril de 2023

EM SEU NOVO ÁLBUM, DENNIS SINNED REFLETE SOBRE A CRISE DAS RELAÇÕES HUMANAS: “HOJE AS PESSOAS SÃO MEIOS PARA QUE AS OUTRAS ATINJAM SEUS FINS”

 Por Juliana Vannucchi

 Em março 2023, a banda Dennis e o Cão da Meia-noite, projeto autoral do músico paulista Dennis Sinned, lançou seu segundo álbum de estúdio, intitulado “Sobre Lealdade”.
    
O debut da banda, “Id, Ego & Outras Porcarias”, lançado em 2021, aborda como tema principal os conflitos psicológicos do eu e das relações humanas em geral. Nesta nova produção, contudo, Dennis Sinned, o poeta do caos, mestre lúgubre das palavras e dos sentimentos, apresenta como tema principal os valores que sustentam as relações modernas: “Observo que há uma crise nas relações humanas atuais que, a meu ver, estão passando por um processo de transformação que se intensificou durante a pandemia. Talvez nos dias de hoje as gerações mais novas, por exemplo, até dispensem o contato físico, já que normalmente se relacionam à distância, através das redes. Assim sendo, penso que as relações, de certa maneira, estão dentro de nós agora, sendo mais uma espécie de experiência mental, já que não se exige o contato, a troca física”. É nesse contexto que o individualismo, elemento típico da estrutura capitalista e característico das relações virtuais, aparece também como assunto abordado no álbum, conforme refletiu Sinned: “Hoje as pessoas são meios para que outras atinjam os fins que desejam. Eu chamo isso de conveniência das relações”. Esses elementos são apresentados nas letras escritas por Dennis de uma maneira profunda, pessimista e questionadora. Nesse sentido, vale fazer uma menção à última faixa, que consiste num spoken word particularmente interessante e bem surpreendente em seu formato, já que quebra um pouco o padrão musical do álbum. Conforme explica Dennis: “Essa música é como se fosse um áudio de WhatsApp, no qual um amigo envia seus desabafos existenciais a outro, reclamando justamente das conveniências humanas e, mais precisamente, queixando-se dos sofrimentos que a conveniência das relações acarreta”.

 

Dennis Sinned: “Tecnicamente falando, é o melhor álbum que já fiz”.

Entre as razões que levaram Sinned a voltar-se para o tema das relações humanas está o isolamento imposto pela pandemia, que certamente deixou cicatrizes em praticamente todas as pessoas e fez com que muitas delas avaliassem suas vidas de uma forma mais crítica. Outra razão foi o incidente de 2021. Em dezembro, justamente na noite em que realizaria seu primeiro show desde o começo da pandemia, Dennis Sinned foi brutalmente espancado por um grupo neonazista: “Isso afetou de várias formas e alterou meu modo de me socializar, de interagir e pensar no outro”, admitiu o músico.  

No âmbito instrumental, “Sobre Lealdade” é certamente a produção mais experimental da sólida carreira do músico paulista. As faixas carregam traços de gêneros diversos como Ska, Reggae e Hip-Hop, que flertam com a atmosfera pós-punk clássica que, apesar de estar alinhada com esses gêneros tão diversificados, é o fio condutor do álbum.
    
O novo álbum foi gravado nos estúdios da “Dissonância Magnética”, em São Paulo, e foi registrado pelo próprio “Dennis Sinned”. A masterização ficou por conta de “Diego de Oliveira” (“cubüs” / “Paranoia Musique”): “Tecnicamente falando, é o melhor álbum que já fiz”, observou Dennis, satisfeito com seu segundo álbum. Depois, refletiu: “É um álbum mais orgânico também. Os efeitos que usamos são analógicos”.

O músico comentou que desde o lançamento tem feito uma turnê interessante, passando por vários lugares do país: “Estivemos em Minas Gerais, tocando em Juiz de Fora, em São José dos Campos e até mesmo em Brasília”. O álbum está disponível em todas as plataformas digitais (“Spotify”, “Deezer”, “Bandcamp”, “Plainsong”, “Tidal”, “Apple Music” e outras.



 

domingo, 5 de março de 2023

RUÍDO QUE DESORGANIZA: CONHEÇA O NOVO EP DO BALLET CLANDESTINO

 Por Juliana Vannucchi

A cena brasileira de música independente segue em alta com o surgimento constante de novas bandas e com a persistência de grupos tradicionais, como o Ballet Clandestino, que com mais de uma década de carreira, permanece consistente nos palcos e firme na qualidade de suas produções musicais. 

Em 2012, enquanto muitos conspiracionistas se preparavam para o fim dos tempos, o Ballet Clandestino se preparava para dar os primeiros passos de uma carreira musical bem sucedida. Era o início de uma trajetória longa, que está completou dez anos em 2022. 

A banda surgiu no meio das sombras e da atmosfera funesta do caos urbano que rege a cinzenta capital paulista. No início, o grupo era composto por Vinícius Primo (guitarra e voz), Natan (baixo e voz) e Cecília (bateria). Não demorou muito para que a baterista fosse substituída por Rocero e este, por sua vez, deixou o trio em 2019, quando Tiofrey assumiu as baquetas. 

Desde os primórdios, gradualmente a banda foi crescendo e se consolidando como uma das principais representantes do pós-punk nacional. Na bagagem, o Ballet Clandestino carrega uma discografia composta por 4 EPs, todos lançados em formato físico. De modo geral, as músicas mesclam distorções e ruídos com versos reflexivos sobre o cotidiano nas grandes cidades e seu desfecho existencial. Nas letras, de maneira geral, encontramos temas politizados e sentimentais, como menções ao tempo que se esvai no trabalho sufocante e mecânico que tange o sistema capitalista, além de menções ao visual mórbido do meio urbano e referências ao consumismo desenfreado, à solidão, etc. 

Neste início de março, a banda paulistana, uma das mais icônicas da história do pós-punk nacional, presenteou os fãs com o lançamento de seu novo EP, intitulado “Ruído Que Desorganiza”, nome originado a partir de uma faixa chamada “Ruído”. Vinicius Primo, guitarrista e vocalista do Ballet Clandestino, explica o significado do título: “É um nome que, de certa maneira, sintetiza um pouco a nossa intenção enquanto criadores de música (ou ruído). Além do que, nesse momento de crescente avanço das ideias conservadoras, temos que ser o ruído, ou seja, aquilo que incomoda, que desorganiza. Temos que ser a subversão desses valores que oprimem e esmagam quem nasceu pobre”.

 A última produção original da banda data de 2020, ano em que o trio se afastou dos palcos em função da pandemia. Esse período, contudo, não foi infrutífero, pois os integrantes continuaram ativos em suas casas, esboçando ideias de riffs, de letras e esboços para novas faixas. Consequentemente, o lockdown teve reflexos diretos no EP de 2023, conforme nos contou Vinicius: “O último EP que lançamos foi em 2020, durante a pandemia, e de lá pra cá, como não estávamos fazendo shows e nem ensaiando, devido às restrições da pandemia, acabamos cada um na sua casa tendo várias ideias que estavam soltas e, conforme fomos retomando os ensaios, começamos a dar continuidade a esses riffs, vendo o que seria mais legal, o que fluía melhor, até realmente concluir uma música com letra e tal. Óbvio que no meio de tudo isso alguns riffs foram descartados, outros perdidos (rsrs) e outros optamos por não usar”. Natan, baixista do grupo, considera que esse foi o trabalho mais bem gravado da história da banda, embora também, justamente em função da pandemia, tenha sido o mais longo e doloroso: "Os ensaios foram espaçados e tomamos os cuidados necessários para evitar uma possível transmissão da covid. Longos ensaios deram origem a um grupo de músicas, elegemos os quatro sons para a gravação. O resultado final superou nossas expectativas". 

 

O Ballet Clandestino segue firme como uma das bandas mais duradouras, cults e interessantes do pós-punk nacional
 

Para dar vida ao EP “Ruído Que Desorganiza”, a banda procurou Luis Tissot, que já havia produzido os 2 EPs anteriores (“Impróprio Necessário”, de 2018, e “Descompasso Cinza”, de 2020) e que ao ser contatado pela banda, logo sugeriu que o grupo gravasse o novo material no Estúdio Aurora. A esse respeito, Vinicius comentou: “Pra mim, o fato de termos tocado lá, juntamente com a produção do Luis, foi uma combinação ideal que fez toda a diferença no resultado final”.

 De modo geral, a sonoridade do álbum lembra o New Order em seus primórdios, mas é mais sombria e menos eletrônica do que as produções embrionárias da banda inglesa. Mesmo com essas diferenças, nada nos impede de apelidar o Ballet Clandestino de “New Order Tropical”, sem deixar de esclarecer, no entanto, que a banda brasileira é mais charmosa, possui linhas de guitarra mais cativantes e é, definitivamente, mais intelectualizada do que os britânicos. Para Tifery, baterista da banda, esse é "o álbum mais criativo e corajoso do Ballet Clandestino. A gente tentou coisas diferentes, buscou algumas outras influências e o resultado foi bem satisfatório". Nas letras, percebemos um desabafo sentimental pautado em preocupações sociais, dramas existenciais e problemas urbanos. De acordo com os integrantes, as canções centram-se em assuntos diversificados e não possuem nenhuma conexão temática entre si, sendo que todos os integrantes participaram ativamente da composição lírica. Sobre esse aspecto do álbum, Vinicius declarou: “As letras se deram de forma subjetiva e bastante poética, para expor nossas aflições em relação ao que nos incomoda no dia a dia, nesse modus operandi do mundo”. Natan, refletiu sobre o conceito de "ruído" em meio ao contexto cotidiano da capital aulista: a buzina de um carro diz se podemos avançar ou parar, a sirene de uma ambulância sinaliza atenção, um trovão é o prenúncio de que vai chover, então corra! Ou pegue um guarda-chuva. As palavras em coro em uma manifestação na avenida Paulista falam sobre lutas, reivindicações por melhorias. São barulhos, são ruídos que bloqueiam, sintonizam, organizam e desorganizam. Os sons que as cidades apresentam dizem muito sobre ela, e sua ausência pode significar alguma repressão. Escute o barulho da cidade, escute Ballet Clandestino. 

 

Capa do novo EP da banda

O EP é empolgante e suas faixas enérgicas mantêm a clássica assinatura dark e funesta que sempre acompanhou o grupo ao longo de seus dez anos de existência. As músicas são tão melancólicas que temos a impressão de que a composição foi feita com auxílio de Arthur Schopenhauer, enquanto o filósofo esboçava as primeiras linhas do livro “As Dores do Mundo”. Em “Ruído Que Desorganiza”, encontramos uma sequência de melodias saborosas e, apesar do clima sombrio, as atraentes linhas de guitarra portam aquela tradicional selvageria punk. Esse conjunto faz qualquer coração instintivamente se agitar, reagindo espontaneamente às emoções desencadeadas pelas músicas da banda. 

Com essa nova produção digna de elogios, o Ballet Clandestino segue firme como uma das bandas mais duradouras, cults e interessantes do pós-punk nacional, que em sua genética carrega a resistência, o talento e a criatividade. Os trabalhos da banda despertam um interesse cada vez mais crescente, e a sua contribuição legada ao universo da música independente é digna de administração. Precisamos reconhecer o êxito do Ballet Clandestino, que evolui cada vez mais, tanto em relação às gravações e produções, que contam com uma qualidade refinada, quanto em relação aos shows realizados, que têm  uma adesão cada vez maior por parte do público brasileiro. Perguntei a Natan o que podemos esperar da banda no restante do ano. A resposta do baixista foi segura e repleta de entusiasmo: "Pretendemos ir o mais longe possível com a música, tocar em espaços onde ainda não tocamos. Queremos tocar fora de São Paulo e até o final do ano esperamos que esse projeto aconteça". O novo da EP da banda está disponível nas plataformas digitais.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

CORRIDA DE CARROS, GIG NA PAULISTA E MUITA LOUCURA: O UNIVERSO DO THE EDWOODS

 Por Juliana Vannucchi

O rock brasileiro está muito bem representado pelo The Edwoods, duo paulista que realiza criativos experimentos sonoros com os gêneros psycobilly e garage rock, complementando essa mescla com uma aura essencialmente underground.

A dupla é formada pelos irmãos Andy Edwood, vocalista e baterista, e o guitarrista Eron Edwood. Vale observar que o drum kit de Andy é simples e mininalista, composto por duas caixas e um prato que são tocados sempre em pé, de uma maneira alucinante. Cantando, Andy é uma versão tropical de Lux Interior.

Eron, por sua vez, utiliza brilhantemente sua Gretsch e está sempre munido com captadores humbunckers para agitar os ouvintes com uma textura suja e distorcida, que lembra o The Stooges. Em relação aos pedais, o guitarrista explicou: “Nossa distorção vem do Morning Glory da JHS Pedals... Tentamos outros pedais, até o glorioso e cultuado Big Muff...Mas a combinação perfeita ficou com o Morning Glory somada a minha pegada e a minha total falta de técnica. Em certo momento, sentimos a necessidade de alguns sons graves na banda, daí a utilização de um oitavador da Boss, que dá uma sonoridade próxima de um contrabaixo”. Por usarem somente dois instrumentos, o resultado é um rock em estado puro, cru e catastrófico. De modo geral, as músicas da dupla parecem uma fusão estranha e cativante de James Chance, Stray Cats e The Cramps, com um visual de filmes trash sanguinários dos anos oitenta. Em relação ao conteúdo das letras, encontramos temas bem diversificados, como corrida de carros, terror, relacionamentos caóticos e, de acordo com Andy, principal compositor, “também falamos de gente doida igual a gente” (risos).

 

O Fanzine Brasil recomenda: coloque o The Edwoods na sua playlist.

Atualmente, o The Edwoods é um dos grupos mais populares dentro do cenário de bandas nacionais independentes. A esse respeito, Eron refletiu: “Nós ficamos pouco mais de uma década sem tocar (tiramos uma década sabática), então dá para fazer uma análise da cena independente de dez anos atrás e da cena atual. O que eu posso falar é  que, como antes, há muitas bandas boas e uma galera ativa que faz as coisas acontecerem. Num mesmo rolê você pode encontrar uma casa dando a oportunidade para duas ou três bandas de estilos variados mostrarem seu trabalho”. O guitarrista ainda destacou a relevância das redes sociais para bandas underground e deixou um conselho aos que se interessam por bandas autônomas: “Poderia ficar aqui citando várias bandas que estão fazendo um ótimo trabalho, mas com certeza acabaria esquecendo de várias e isso seria injusto... Então o conselho que dou é para fuçarem as redes sociais e as plataformas de streaming, pois existem bandas com trabalhos lançados e que ainda não chegaram aos ouvintes daqueles que estão ávidos por algo novo”.

Ao falar sobre a história do duo, não podemos deixar de citar os famosos gigs realizados na Avenida Paulista, que possibilitam uma interação mais direta e ampla com um público variado. Andy nos contou que essas são as apresentações mais marcantes do The Woods: “São experiências sensacionais, pois permitem que as músicas alcancem um público maior por causa da rotatividade dos pedestres. Essas pessoas dificilmente iriam a algum bar ou clube pra ver um artista sem conhecê-lo previamente, portanto é um espaço fantástico para divulgação. O The Edwoods tocou em junho de 2022 e foi incrível, houve até a participação do Valdir no nosso show. Ele trabalha com limpeza urbana e estava fazendo seu trabalho na área na qual havia o show. Chamei ele ao microfone, pedi uma salva de palmas e ele ainda dançou algumas músicas. Há até um registro desse momento em nosso Instagram”.

Até o momento, a banda paulista lançou um EP físico intitulado “Drag Racer”, que foi lançado em 2020, em formato de vinil de 7 polegadas e cujas músicas também estão disponíveis em todos os serviços de streaming. A previsão é de que no primeiro semestre de 2023 lancem dois singles inéditos.

O Fanzine Brasil recomenda para o bem de seus ouvidos e de sua insanidade mental: coloque o The Edwoods na playlist.


DORMENTE: UMA EXPERIÊNCIA ALUCINANTE

 Por Juliana Vannucchi

Victor Fortes e Ítalo Riber bateram um papo com o Fanzine Brasil e contaram sobre a trajetória da banda Dormente e sobre o álbum “Abismo de Informação”, lançado em 2022. Com uma estética futurista, o duo se destaca pela originalidade de suas composições que mescla uma atmosfera sonora oitentista, com psicodelismo eletrônico e um toque temático surrealista. 

Era o primeiro sábado de dezembro. Seria um dia praticamente normal no SESC, em Sorocaba, se naquele sábado chuvoso, meus ouvidos e minha alma não tivessem sido cativados e dominados pelas músicas da banda Dormente.

Na ocasião, eu os escutei pela primeira vez quando ainda passavam o som e se preparavam para uma apresentação que aconteceria no começou início da noite. Felizmente, nesse dia eu estava acompanhada por Imira Rando, aluna de música erudita no conservatório de Tatuí que, além de ter um conhecimento musical refinado, mais cedo havia comentado comigo que uma banda talentosa tocaria no Sesc e que ela conhecia um dos músicos e também a mãe dele. Assim foi mais fácil me aproximar do Victor Fortes e trocamos algumas palavras cerca de dez minutos subir aos palcos.

Nesse encontro, eu não conseguia esconder o meu entusiasmo em relação às músicas da banda e as primeiras palavras que dirigi a ele foram uma série de elogios, além de fazer uma comparação um tanto ousada entre a música dele e o Krautrock alemão. Ousada, mas não incorreta. Definitivamente, a Dormente lembra um pouco de Tangerine Dream. E Can e Eloy e... Devo! Sim: Devo. Eles são punks também, mas somente no espírito e na atitude, pois, afinal, a banda é pautada pelo D.Y.I. Victor me contou, inclusive, que ele é responsável pela criação dos clipes produzidos pelo duo:  Todos os clipes do Parestesia, exceto o de Não tá Okay, que roteirizamos juntos, fui eu que fiz. Além de música, eu sempre gostei de mexer com audiovisual, design e animação. Muitas dessas coisas eu aprendi a fazer só para conseguir usar com as minhas músicas, pois é algo muito caro de produzir (e com razão), por todo o trabalho que demanda, então teve um momento em que eu me dediquei bastante a estudar isso e, dessa forma, a banda conseguiu economizar bastante. A maioria dos vídeos não tem um roteiro certo, apenas um conceito em que eu tento experimentar o máximo possível e ver o que sai dessas experimentações, tudo com baixíssimo orçamento.

 

A banda é capaz de tirar qualquer um desta realidade. 

A pedido meu, Victor me acompanhou até a frente do palco e, gentilmente, me mostrou os instrumentos e equipamentos que ele e Ítalo usariam no show. Eu fiquei encantada ao ver aqueles aparatos e logo suspeitei que estava ao lado de um verdadeiro gênio musical – a suspeita, posteriormente, foi confirmada. Perguntei sobre a preferência pelo sintetizador e Forts explicou que é um instrumento acessível para produção de música, pois basta instalar uns programas de synth digital no computador e já dá para usar. Mas nas palavras do músico: “É um instrumento bem caro, isso foi um dos motivos de a gente demorar tanto para começar a se apresentar”. Naquele momento, mentalmente o comparei com o Alan Vega, mas preferi não externar. E vale dizer que apesar do gosto pelo experimentalismo eletrônico, Victor comentou que o instrumento que mais domina e com o qual mais se sente familiarizado é a guitarra, embora também toque baixo e esteja aprendendo bateria. Logo depois, ele se despediu e foi ao camarim a fim de se preparar para o show.
 

"O objetivo principal da banda é fazer a galera se divertir, dançar e curtir a vibe, o resto é lucro”.
 

Alguns dias depois, tive a oportunidade de conversar com ele novamente e perguntei sobre a experiência de ter tocado no Sesc: “Foi nossa segunda participação no evento, na primeira ainda estava rolando a pandemia, então participamos do preamp e não tocamos, mas recebemos uma assessoria muito legal de uma galera foda; agora, nessa edição, tivemos a oportunidade de apresentar o nosso som ao vivo pra galera, foi nosso segundo show, ainda acertando algumas questões técnicas, mas já rolando legal”. Victor contou que a banda nasceu, sobretudo, a partir de influências provenientes de música eletrônica experimental. Na época em que começou a esboçar a primeira música, ele escutava frequentemente Boards of Canada: “Senti vontade de tentar fazer um som diferente, não igual ao dessa banda, mas tão diferente quanto. No início, era só um desafio que eu me impus, mas eu gostei tanto do primeiro resultado que saiu, que foi a música “procrastinação”, que eu mostrei ela para o Ítalo (na época era ela bem mais crua que a versão atual do álbum), ele curtiu bastante, e nisso começamos a conversar na possibilidade de criar um projeto nesse estilo, então passei semanas compondo uma música atrás da outra”. Ítalo Riber é um músico experiente, tão brilhante quanto Victor. É o tipo raro de músico “mágico” capaz de fazer qualquer projeto e produção funcionarem. Encaixa-se em tudo e dá conta de tudo. Riber me contou que a banda Dormente é bastante peculiar: Com certeza, é o trabalho mais incomum do qual já fiz parte. É a primeira vez que tive que me preparar por algum tempo em um instrumento ainda não explorado por mim, o sintetizador. Além disso, eu ainda toco ao mesmo tempo a bateria e canto algumas músicas junto com o Victor. É uma delícia sentir a independência do meu corpo quando as músicas já estão rolando. No começo dá aquele suadouro, parece que não vai dar certo, no fim tudo se encaixa e a coisa toda funciona. A superação de barreiras é uma delícia. Lembro que quando comecei a dirigir, eu precisava desligar o som para fazer uma baliza, agora nem percebo mais. A mesma coisa acontece na banda, no começo eu mal respirava, agora já consigo até pensar em outra coisa enquanto executo as músicas”. Ítalo também comentou a respeito do processo criativo da dupla e de como o estilo sonoro foi definido: “O formato de duo só veio no final do processo de produção do álbum Parestesia, que foi todo composto e gravado pelo Victor. Eu sempre contribuí com seleção de repertório, direção artística e musical, e o Victor, com a direção criativa”.

Victor também refletiu sobre o significado do intrigante nome da banda e sobre o tipo de efeito que espera que as músicas causem nos ouvintes: “Dormente é quando nos sentimos meio sonolentos, pra baixo, insensíveis. As letras são um pouco sobre isso, sobre inseguranças, frustrações, como se fosse um desabafo. Ao mesmo tempo, o instrumental é algo que te desperta, te faz dançar e sentir, então é sobre essas contradições, você despertar ouvindo Dormente. O objetivo principal da banda é fazer a galera se divertir, dançar e curtir a vibe, o resto é lucro”. Para finalizar, quero dizer, antes que eu esqueça, que esse objetivo do Victor é alcançado com sucesso e que, sem dúvida, as pessoas se perdem nas melodias psicodélicas da banda que, com suas músicas, parece conseguir romper as barreiras convencionais do tempo e do espaço, lançando os ouvintes para os universos mais fantásticos possíveis. É de tirar qualquer um desta realidade.  

Até o momento, a banda lançou dois álbuns de estúdio, “Parestesia”, de 2020, e “Abismo Informação”, de 2022. No próximo ano, pretendem viajar e tocar com mais frequência, não apenas no Brasil, mas, se possível, também no exterior.
 


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