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SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

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WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

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quarta-feira, 8 de julho de 2026

DOS LIVROS FAVORITOS ÀS MAIORES DIFICULDADES DA CARREIRA: UMA CONVERSA COM ZIA MCCABE, DA BANDA THE DANDY WARHOLS

 Por Juliana Vannucchi

A icônica multi-instrumentista norte-americana Zia McCabe é especialmente conhecida por seu papel na banda The Dandy Warhols, da qual passou a fazer parte dem 1995, tocando teclado e contrabaixo. Com seu talento exuberante e visual descolado, Zia marcou a estética do grupo e participou da produção e gravação de seus álbuns mais importantes. 

Ao conversar com o nosso site, o primeiro tema aborddo foi o frustrante cancelamento do show inédito que a banda faria no Brasil em 2025. Nesse contexto, Zia lamentou-se pela situação, comentou que a banda adoraria vir ao nosso país e falou sobre a possibilidade de uma turnê na América do Sul: “Ainda não conseguimos organizar uma nova turnê. Se - ou quando - conseguirmos ir ao Brasil, nossos fãs podem esperar um repertório bem psicodélico, com algumas músicas de cada um dos nossos álbuns”. Zia, aliás, conhece uma quantidade imensa de músicos e bandas brasileiros e nos contou que dentre os seus favoritos estão Os Mutantes, Sérgio Mendes, João Gilberto, Marcos Valle e, segundo ela “muitos outros que poderiam ser mencionados aqui”. Aliás, vale citar que Zia, em mais de uma ocasião já incluiu músicas da banda Os Mutantes em seu repertório de DJ..

 Zia McCabe: “Quero ser lembrada como alguém que foi uma luz". 

Embora Zia tenha passado grande parte de sua vida dedicando-se ao rock, ela nunca viveu integralmente nesse ambiente, afinal, no decorrer dos anos precisou conciliar a carreira musical com a maternidade e com outras tarefas da sua vida pessoal e admitiu que fazer isso foi muito difícil: “Levar um bebê ou uma criança pequena em turnê sem a presença de uma babá em tempo integral é desafiador e exaustivo. É uma experiência repleta de risadas, lágrimas e momentos adoráveis. Depois, quando minha filha começou a ir para a escola, deixá-la com o pai por semanas a fio era difícil, pois eu sentia saudades dela e acabava perdendo alguns momentos importantes de sua vida”. Ademais, de acordo com a integrante dos The Dandy Warhols, dar conta de todas as suas paixões e responsabilidades parece impossível na maior parte do tempo: “Tenho que criar os filhos, cuidar da casa e da propriedade, lidar com o mercado imobiliário (ramo no qual ela trabalha), com a banda, tocar como DJ e, agora, ainda tenho que cuidar de projetos de instalação e fazer minhas esculturas. Tudo isso fica frequentemente disputando a minha atenção. Mas, geralmente, eu dou conta de tudo -  geralmente”, frisou.

Registro feito porTori McGraw (@afterr.hourrs)

Satisfeita com seu percurso musical e revendo sua vasta história com os Dandy Warhols, McCabe comentou que os melhores e piores momentos em shows são paradoxalmente os mesmos: “Os lendários gigs de abertura são os mais memoráveis. Como, por exemplo, quando abrimos para o David Bowie, os Rolling Stones e Tom Petty... Foi tudo incrível. Porém, ao mesmo tempo não é a coisa mais divertida tocar para tantas cadeiras vazias enquanto o público vai chegando aos poucos como aconteceu nessas ocasiões”.

Fora do universo musical, a carismática Zia admira diversas personalidades, sobretudo, segundo ela “as pessoas que se preocupam em tornar o mundo um lugar melhor", como é o caso, conforme ela mesmo listou, de Willie Nelson, Jane Goodall, Greta Thunberg e Bernie Sanders. A contrabaixista também contou que gosta de ler e revelou seu particular apreço por ficção científica clássica, sendo que dentre os seus escritores favoritos estão Robert Heinlein e Ray Bradbury, além de gostar de livros de realismo mágico, com destaque para os autores Gabriel García Márquez e Haruki Murakami.

Para encerrar nossa conversa, perguntei a Zia como ela gostaria de ser lembrada e que tipo de marca deseja deixar impressa no coração das pessoas que a conhecem: “Quero ser lembrada como alguém que foi uma luz, um guia, um bom exemplo de como viver uma vida espetacular e alguém que deixou um belo legado — incluindo grandes músicas e esculturas — para que gerações futuras o descubram e o apreciem”.

 


segunda-feira, 16 de março de 2026

"A MÚSICA CONECTA AS PESSOAS, ELA NOS FAZ SENTIR E PENSAR": CONFIRA NOSSA ENTREVISTA COM NEI BITTAR

 Por Juliana Vannucchi

Nei Bittar é um músico brasileiro que atualmente reside na Alemanha, país no qual atua profissionalmente como professor de música. Sua rota, no entanto, começou a ser traçada há bastante tempo. O primeiro instrumento que estudou foi a guitarra elétrica, que inicialmente aprendeu a tocar com seu pai, quando tinha doze anos. Mais tarde, seguiu seus estudos com um professor, afim de aprimorar o conhecimento sobre escalas e teoria musical. Assim, durante aproximadamente três anos, fez aulas com Antonio Freire, do grupo sorocabano Banda da Feira. Nei, então, após um determiando período, interrompeu esses estudous e iniciou sua trajetória numa banda de metal chamada Tremor Terror. Um tempo depois, se desligou desse projeto, retomou as aulas e ingressou no conservatorio de Tatuí, no qual permaneceu até concluir os estudos de Violão Clássico. Lá, no último ano, começou a fazer aulas de alaúde na Emesp, onde na época lecionava Guilherme de Camargo. Nesse espaço, Nei teve oportunidades para crescimento e obteve conhecimentos enriquecedores que contribuiram fortemente para sua atual formação. Enquanto estudava na Emesp, lecionava música numa escola pública em Barueri e, após a pandemia, como os exames eram praticamente todos feitos online, prestou uma prova afim de estudar na Escola de Música e Artes do Espetáculo do Porto, em Portugal, na qual foi admitido e permaneceu durante por dois anos, período no qual conheceu muitas pessoas da área e participou de diversos festivais. Nei, então, no decorrer dessa rotina, teve contato com a Escola Superior de Artes de Bremen, onde ingressou e atualmente estuda Bacharelado em Música Antiga, especificamente em alaúde. Conversamos com esse talentoso músico, que nos contou a respeito de sua história musical e compartilhou diversas vivências, reflexões e conhecimentos. 

1. Qual foi, exatamente, o momento da sua vida em que você decidiu que desejava ser um músico profissional? E qual é a sua memória mais antiga envolvendo a música? 

Não me lembro exatamente do momento em que decidi me tornar músico profissional. Quando terminei a escola, pensei em estudar algo como administração ou direito. Cheguei até a estudar direito por conta própria para prestar concursos, porque realmente não tinha ideia de como continuar minha formação. Na época eu tocava guitarra elétrica e não havia muitas opções de formação superior que não fossem voltadas para MPB ou jazz. Então optei por estudar violão clássico. Foi um tiro no escuro, porque eu nunca tinha tido contato com essa linguagem. Meu professor de guitarra elétrica me preparou para a prova de ingresso, consegui passar e, aos poucos, fui pegando cada vez mais gosto pelo violão. Foi assim que decidi que queria seguir a música profissionalmente.

2. Pensando em sua trajetória, quais você acha que são os principais desafios enfrentados por quem pretende trilhar esse caminho? Que dicas você daria para aqueles que estão inicialmente esse percurso?

Um grande desafio é encontrar uma direção para o trabalho e estruturar uma forma de ter retorno financeiro com aquilo que você faz - entender o que é preciso fazer para que esse retorno aconteça. Uma dica que foi fundamental para mim é sempre ir atrás das pessoas que fazem o mesmo que você faz ou que você gostaria de fazer. Fazer contatos e perguntar, perguntar, perguntar. O conhecimento é primordial.

3. Em que medida você acha que a vida de um músico no Brasil é mais difícil do que a de um músico que vive na Europa? Levando em conta a sua experiência, como compara esses contextos? 


Em alguns aspectos é bem mais difícil. Na Europa, proporcionalmente, as pessoas têm mais acesso ao ensino de música desde crianças, e estudar música desde cedo faz uma enorme diferença. Além disso, há mais ofertas de formação e mais oportunidades para tocar em festivais. No geral, sinto que há mais espaço para a música.  


"Eu acredito que toda música feita com propósitos comerciais tende a ser um pouco pobre do ponto de vista artístico".

4. Pra você, qual é a importância da música na vida das pessoas? 

A música conecta as pessoas. Ela nos faz sentir e pensar e é justamente o que impede que sejamos planos. Ela nos acompanha desde os primórdios da humanidade. 

5. Muita gente atualmente fala em “música boa” e “música ruim”, geralmente, neste último caso, referindo-se ao mainstream. Você tem algum critério de avaliação em relação a isso?

Eu acredito que toda música feita com propósitos comerciais tende a ser um pouco pobre do ponto de vista artístico, porque não nasce exatamente de uma expressão própria do artista, mas de uma tentativa de satisfazer o desejo do mercado. A música pode até ser boa, mas acaba sendo mais rasa.

6. Uma vez eu assisti um espetáculo regido por uma ótima orquestra que tocou somente clássicos do rock. Lembro que o maestro, ao se apresentar, argumentou que geralmente separamos a “música clássica” de outros gêneros e que, embora isso seja compreensível, às vezes fica parecendo que música clássica é coisa de erudito e que o rock and roll é coisa da plebe. Mas ele explicou que muitas músicas de rock são extremamente qualificadas do ponto de vista estrutural e criativo e que, de certa forma, não seriam inferiores à música clássica. Como você avalia isso?

Isso é uma ideia equivocada, começando pelos próprios nomes usados. Muitas das músicas tocadas por orquestras em salas de concerto não são exatamente ‘clássicas’, nem necessariamente eruditas no sentido que esse termo costuma sugerir. O rock, assim como a música de concerto, tem sua própria retórica. Se olharmos para o rock progressivo, por exemplo, veremos músicas com estruturas tecnicamente e musicalmente tão complexas quanto as de uma obra de concerto.

7. Quais são as principais diferenças entre a guitarra e o alaúde?

As diferenças são muitas, mas também existem algumas proximidades. O alaúde é um instrumento acústico com cordas duplas, o que exige um trabalho de produção do som bastante específico. A guitarra, por sua vez, geralmente é tocada com palheta, o que pode ser uma limitação para a execução de linhas polifônicas. O alaúde, apesar de ser dedilhado, ainda tem em sua técnica de mão direita uma herança do plectro usado no alaúde medieval. Por isso, a mecânica da mão pode ser um pouco semelhante quando se tocam linhas melódicas: o movimento de palheta para baixo corresponde ao polegar, e o de palheta para cima ao indicador. Um detalhe interessante é que, no alaúde, costuma-se apoiar o dedo mínimo da mão direita no tampo enquanto se toca - algo que muitos guitarristas também fazem.

"O rock, assim como a música de concerto, tem sua própria retórica. Se olharmos para o rock progressivo, por exemplo, veremos músicas com estruturas tecnicamente e musicalmente tão complexas quanto as de uma obra de concerto".


8. Já me deparei com pessoas que atacam o punk rock pelo fato de que muitas músicas desse gênero são tocadas e compostas de um modo simplista. Por outro lado, penso que esse aspecto pode, na verdade, ser bem positivo por abrir as portas para que as pessoas acreditem que podem tocar alguma coisa. Nessa caso, será que uma música de qualidade pode ser medida somente com base em sua complexidade? Como você analisa essa questão? 

Do ponto de vista de uma análise musical, podemos dizer que é mais simples. Mas chamar algo de simples não significa falta de qualidade. Nesse caso, o impacto do som é muito mais importante do que as relações harmônicas. É uma música explícita.

9. Seu foco de trabalho atualmente é a música renascentista? Poderia nos contar um pouquinho a respeito das características musicais desse período?

Sim, eu toco música renascentista e também barroca, mas me identifico mais com a primeira. No período do Renascimento ainda não existia uma concepção de harmonia baseada em acordes como pensamos hoje. A música era construída principalmente a partir do contraponto - várias melodias independentes soando simultaneamente, seguindo regras específicas de composição. Quando ouvimos isso hoje, muitas vezes temos a impressão de que essas linhas estão apoiadas em acordes, como se fossem a base, mas, na realidade, eram combinações estáveis de notas, pois o pensamento musical era essencialmente linear.  Esse resultado ‘harmônico’, para nossos ouvidos modernos, se aproxima mais de certas linguagens do rock do que da música do período clássico. Um exemplo interessante é a introdução de "Stairway to Heaven", que pode ser entendida como uma variação do Passamezzo antico, uma progressão bastante comum no Renascimento.


 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

"O PROCESSO DE ESCRITA ME GUIOU E ME PROTEGEU": CONVERSEI COM O BUDGIE SOBRE O SEU LIVRO DE MEMÓRIAS, SOBRE AS LEMBRANÇAS DE SUAS PASSAGENS PELO BRASIL E DIVERSOS OUTROS ASSUNTOS

 Por Juliana Vannucchi

Em meados de 2025, Budgie, lendário baterista da banda Siouxsie & The Banshees, lançou seu tão esperado livro de cunho autobiográfico, intitulado “The Absence: Memoirs of a Banshee Drummer”, no qual compartilha memórias de sua infância e de seu percurso musical, além de falar sobre alcoolismo, fama e seu relacionamento conturbado com Siouxsie Sioux, romance que começou com encontros secretos em quartos de hotel para que o casal não fosse flagrado por outros membros da banda, e que se acabou de maneira tumultuosa e traumática. Descrito por Lydia Lunch como "um relato de viagem em busca da autodescoberta", o livro, que ainda não foi traduzido em língua portuguesa, teve uma recepção geral bastante positiva e logo se tornou uma leitura indispensável para os fãs dos Banshees. Atualmente, Budgie é casado e vive na Alemanha com a esposa e os filhos. 

Conversamos em primeira mão com o ex-baterista dos Banshees afim de trazer informações e detalhes sobre o livro para os fãs brasileiros. Budgie foi atencioso e imensamente solicito desde o primeiro contato que fiz com ele, e prontamente decidiu me responder. Inicialmente, conversamos a respeito dos primeiros passos que ele deu em sua duradoura trajetória com os Banshees. Budgie resgatou memórias desse início e teceu reflexões: “Na época em que tudo começou eu já estava no meu próprio barco, com passagem só de ida para a terra dos tambores e do mel, quando Kenny Morris e John McKay, navegando no barco SS Banshee, pularam fora de suas embarcações ou, talvez, apenas tenham se sentido forçados a caminhar para fora delas. Eis que nossos barcos se cruzaram numa certa noite, e Kenny e eu trocamos de lugar. Normalmente, penso que apenas me rendi repentinamente para os holofotes que brilhavam sobre a banda Siouxsie And The Banshees naquele ano, mas, após a recente morte de Kenny, estou começando a pensar sobre como as ações dele, na verdade, me deram a oportunidade de me destacar e brilhar. Essas janelas de oportunidade são raras e podem surgir apenas uma vez na vida. No final das contas, se eu tivesse dito não para a banda, a decisão de Kenny de deixar os Banshees sequer teria me afetado. Ao dizer sim, eu confirmei sua a decisão e me coloquei em uma típica situação de tudo ou nada. Então, a partir disso, tive que provar que era um substituto à altura, e eu estava realmente pronto e confiante. Ironicamente, serei sempre grato a Kenny – mas será que a minha gratidão deve ser tingida com algum pesar por ele não ter continuado, ou posso encontrar algum consolo em talvez ter poupado Kenny das águas mais turbulentas que aguardavam a embarcação SS Banshee? Claro que se tudo tivesse sido diferente, talvez toda essa turbulência futura pela qual passei nunca tivesse surgido – o futuro não nos pertencia”.

 

“Me recordo, em 1979, da minha primeira vez tocando bateria com os Banshees, no De Montfort Hall, em Leicester, ocasião em que Robert Smith do The Cure era o guitarrista da banda. O público conhecia as músicas da banda melhor do que eu naquela noite (...)

Na sequência de nossa conversa, Budgie contou que sempre carregou com ele um bloco de anotações e um pequeno diário, embora nunca tenha sido consistente com nenhum deles. Esses itens fariam com que seu livro germinasse: “Às vezes, eu preenchia o bloco com alguns esboços e em determinadas ocasiões, conseguia elaborar um relato mais detalhado sobre algo, mas eu nunca tentei propriamente contar uma história, apenas mantinha anotações e esboçava imagens. Escrevi o que se tornaria o início e o fim propriamente ditos do meu livro apenas dois dias depois do meu aniversário de 50 anos, em 23 de agosto de 2007. Porém, nessa época eu tinha pouca disciplina, estratégia e direção. Anos mais tarde, durante uma turnê com John Grant eu conheci o Bobby Gillespie e nós conversamos sobre escrita. Eis que então, o Bobby me apresentou a Lee Brackstone, da ‘White Rabbit’ (*editora que viria a publicar seu livro). A ideia de uma autobiografia, no entanto, começou em 2016 e tornou-se realidade em 2021, sendo que a versão final foi entregue de forma definitiva apenas no fim de 2024. Então eu diria que, após muitos anos fazendo diversas anotações mais dispersas, levei, no fundo, um total de três anos para elaborar o material original e o livro em si”.

O processo de escrita envolveu algumas inseguranças emocionais. Budgie comentou que estava um tanto apreensivo em relação a como iria se sentir quando escrevesse as páginas iniciais e as finais. Porém, ele nos contou que não houve nenhuma emoção paralisante ou demasiadamente desafiadora: “Ao me tornar participante e não apenas comentarista, o processo de escrita me protegeu e me guiou. Sempre esperei que a escrita fosse catártica para mim e, com sorte, também para o leitor". Apesar dessa constatação, Budgie confidenciou que houve momentos de dor enquanto elaborava seu livro: “Mas no geral, a parte mais dolorosa de todo o percurso foi aceitar que, durante anos, acreditei nas distorções dos fatos feitas por outros e tomei como verdades as minhas próprias mentiras. Suponho que seja a catarse, a libertação de emoções reprimidas por tanto tempo, a parte mais dolorosa”.

O autor disse que a primeira turnê de lançamento do livro começou em Glasgow, no The Strip Joint, um modesto bar, que também já foi loja de discos e casa de shows: “Essa ocasião definiu o padrão para os eventos subsequentes, cada um deles sendo um pouco maior que o anterior, mas todos mantendo uma atmosfera amigável e intimista. Com muitos encontros emocionantes com velhos amigos de longa data, o evento mais comovente para mim foi em Liverpool, ocorrido num salão de baile com janelas com vista para o Rio Mersey. Eu estava sentado em um sofá com Will Sergeant, guitarrista do Echo And The Bunnymen. Minha irmã e outros familiares estavam presentes, juntamente com Pete Griffiths, baixista do Spitfire Boys, que estava logo ali, na primeira fila. A reação em todos os lugares pelos quais transitei, de Edimburgo a Londres, foi, e continua sendo, avassaladora, poderosa e inspiradora”.

Budgie prosseguiu suas considerações sobre os eventos envolvendo seu livro de memórias: “John McKay compareceu ao meu evento de lançamento, na livraria Rough Trade East, em Londres. Estava muito cheio para conversarmos, então apenas nos abraçamos e fizemos um minuto de silêncio. Eu já havia encontrado John uma vez, em 1987, na véspera de seu casamento com sua noiva, Linda. Quarenta e seis anos depois, finalmente reconhecemos aquele momento decisivo, aquele que mudou nossas vidas, em 1979”. Em seguida, perguntei se algum outro ex-integrante dos Banshees esteve presente ou deu algum retorno em relação ao livro: “Nenhum outro membro da banda comentou qualquer coisa, exceto o nosso ex-assistente pessoal, Billy "Chainsaw" Houlston, que me mandou um joinha de Brighton, Inglaterra! Mas, bem, Chain e eu somos fãs de longa data do Black Sabbath! Paranoico? Jamais!”. Certamente Budgie não se importa com o silêncio de Siouxsie e Severin. Até porque, preserva boas lembranças das aventuras que viveu com a banda. E dentre as tantas memórias que carrega, perguntei quais são mais tocantes: “Me recordo, em 1979, da minha primeira vez tocando bateria com os Banshees, no De Montfort Hall, Leicester, ocasião em que Robert Smith do The Cure era o nosso guitarrista. O público conhecia as músicas dos Banshees melhor do que eu naquela noite, mas eu soube, a partir daquele momento, que teria muitas, muitas outras noites para melhorar”. Budgie prosseguiu, compartilhando outras memórias marcantes: “Lembro da gente rindo e dançando no ônibus em nossas primeiras turnês pelos EUA. Não havia necessidade de excessos naquelas ocasiões e estávamos simplesmente eufóricos com a agitação e o cansaço de tudo aquilo que vivíamos. Também me lembro dos nossos primeiros shows em Los Angeles, realizados no Whiskey A Go Go, na Sunset Strip. Fizemos duas apresentações por dia durante três dias consecutivos, mais uma vez eufóricos com a agitação e o cansaço de tudo aquilo! Eu sempre adorei me hospedar no Hotel Tropicana, em Santa Monica Boulevard. Nosso ônibus chegava do deserto e nós simplesmente dávamos voltas – tocávamos no Whiskey, bebíamos no Palms, que ficava na mesma rua, aprontávamos bastante na piscina com o pessoal do The Cramps e com a Lydia Lunch, e depois tomávamos café da manhã no Dukes 'Diner. Quando o Tropicana fechou, nos mudamos para o Mondrian ou o Le Park e, claro, para o Sunset Marquis, na 1200 Alta Loma Drive”. 

 

"Faça planos, faça os deuses rirem!” (Budgie)

Pedi a ele que nos contasse alguma das tantas histórias que aborda em seu livro. Ao invés disso, gentil e prestativo, Budgie, surpreendentemente disse que nos contaria uma aventura inédita que não citou em sua autobiografia: “Vou te contar uma história que não entrou no meu livro. Isso aconteceu pelo mesmo motivo que faz com que algumas músicas não entrem num álbum: falta de espaço ou muitos incidentes acontecendo quase ao mesmo tempo. Quando eu tinha dezessete anos, na verdade, quase dezoito, me mudei para Liverpool, que ficava a apenas 16 quilômetros a oeste da minha cidade natal, St. Helens, para frequentar a faculdade de artes. Não queria me distanciar muito de dois guitarristas que eu conhecia e que considerava como sendo um possível plano B, caso a faculdade não desse certo por algum motivo. Era o final do verão de 1976, meu curso de pintura estava indo bem, mas eu tinha dois problemas sérios: dinheiro e pesquisa acadêmica. Minha tutora de estudos acadêmicos era uma senhora de voz rouca chamada Dinah. Ela enrolava seus próprios cigarros e fazendo isso sorria como se soubesse um grande segredo, que não seria revelado. Através da Dinah, conheci um rapaz chamado Terry, que talvez fosse o pai de uma certa menina que caminhava pelos enormes cômodos com piso de parquet da casa de Dinah, em Sefton Park. Terry era um jovem ator que trabalhava no Everyman Theatre, que ficava no final da Hope Street, perto da catedral católica da cidade. Eu passava em frente ao Everyman diariamente a caminho da faculdade e de volta para casa. O Everyman era um teatro importante, no qual futuras estrelas de cinema aprimoravam suas habilidades, tal como Julie Walters e Pete Postlethwaite. No Everyman também havia outro jovem ator promissor que conheci na casa da Dinah, no ensolarado verão de 1976. Terry tocava baixo e me perguntou se eu poderia montar minha bateria para um primeiro ensaio com um cantor que nos acompanharia. É claro que concordei, pois isso significaria que eu poderia eventualmente iniciar meu tal plano B com aqueles guitarristas de St. Helens. No primeiro ensaio estávamos eu, Terry e o amigo cantor dele. A única música que me lembro de termos ensaiado se chamava Rosalita, de autoria de Bruce Springsteen. Eu nunca tinha ouvido falar desse músico até então, mas a faixa que escolhemos era bem ok, um pouco longa, mas tranquila de tocar. O vocalista que estava conosco era realmente ótimo, sabia a melodia e conhecia MUITO BEM a letra da música e, além disso, ele possuía tinha charme carismático que certamente conquistaria qualquer público – a impressão que tive era ótima. Parecia que uma banda estava se formando e, então, sugeri que meus benditos amigos guitarristas se juntassem a nós – o que, afinal, poderia dar errado nessa empreitada? Na semana seguinte, Wardy chegou atrasado com o violão na mão e acompanhado de um amigo que vinha com ele e que estava bastante debilitado. Eu vagamente reconheci esse sujeito debilitado como alguém que eu sempre via dormindo nos pubs de St. Helens. O tal rapaz pegou no sono e, enquanto isso, começamos a tocar Rosalita. Era uma música complicada para um trio sem saxofonista, mas estávamos conseguindo dar conta. Tudo ia bem até o amigo de Wardy acordar. Desorientado e distante, ele começou a vasculhar sua bolsa até encontrar o que procurava. Percebi tarde demais porque seu rosto me era tão familiar - ele tinha as pupilas contraídas de um viciado em opioides. A St. Helens dos anos 70 estava inundada de drogas ilegais e analgésicos controlados. Ou seja, tendo escapado por pouco do tédio e desespero induzidos pelas drogas dos "Cowboys das Farmácias" de St. Helens, eu, sem saber, simplesmente convidei um deles para entrar no ambiente em que estava. Enquanto ele lutava para encontrar uma veia adequada para injetar algo, percebi que o clima ficou constrangedor e o plano de tocarmos juntos estava acabado. Terry ficou horrorizado, eu fiquei com raiva e envergonhado com tudo aquilo. Nosso vocalista, em seu glorioso estilo Elvis Presley, já havia até saído do prédio, para nunca mais voltar. Retornei para a minha rotina de pintura até que, em 1977, os Spitfire Boys bateram à minha porta. Era uma nova oportunidade para o plano B. Mas muitas vezes me perguntei, e às vezes ainda me pergunto, como teria sido estar em uma banda com Billy Mac, de "Simplesmente Amor"? Mais conhecido pelos que são entendidos como Sr. Bill Nighy. Mas, aí, quem, afinal, teria interpretado o adorável Rufus Scrimgeour de Harry Potter?"

Abordei na sequência, as passagens de Budgie por nosso país, que foram detalhadamente narradas pelo baterista: “Minha primeira vez no Brasil foi entre novembro e dezembro de 1986. Eu me lembro muito bem do choque que tive ao ver a extrema riqueza e a extrema pobreza, tanto nas favelas próximas às praias do Rio de Janeiro, quanto debaixo das pontes e ao longo das rodovias de São Paulo. Lembro-me também da cena marcante de ver uma pessoa sentada do lado de fora da catedral em São Paulo, com o cabelo verde, parecendo líquen. A pessoa estava lá, simplesmente estática, meio que como um bicho preguiça parado. Também me recordo da vista incrível do Morro do Corcovado e da estátua do Cristo Redentor. Tocamos duas noites no enorme Palácio das Convenções em São Paulo, e depois fizemos uma viagem alucinante por pontes precárias e estradas sinuosas cobertas de nuvens até o litoral para um show em uma casa noturna em Santos, retornando, posteriormente, para um último show em São Paulo antes de finalmente pegarmos um vôo para o Rio”. Certa vez eu soube que Budgie levou discos que ganhou no Brasil quando esteve aqui pela primeira vez. Perguntei a respeito: “Os discos eram presentes de bandas locais e dentre eles, ganhei um CD do Chico Science & Nação Zumbi – uma mistura de Living Colour, Nine Inch Nails e percussão brasileira. Fiquei tão empolgado que levei minha nova coleção de vinis brasileiros para a BBC em Londres e convenci a DJ Janice Long a me deixar apresentá-los em seu programa. Não sei se conseguiria passar pela segurança da BBC com um monte de vinis do Brasil hoje em dia! Janice Long, uma defensora da música alternativa, infelizmente não está mais entre nós”.

Para encerrar nosso produtivo diálogo, perguntei ao Budgie quais são os seus os seus próximos passos: “O futuro será mais uma questão de equilíbrio e, no fundo, bem diferente do que eu havia imaginado. Depois de um ano gravando o podcast Curious Creatures com o Lol Tolhurst e, claro, gravando e promovendo o álbum Los Angeles com o Lol e o Jacknife Lee, senti que precisava estar mais presente na vida da minha família. O livro me permitiu alcançar um melhor equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal. Dito isso, fui convidado para colaborar em uma versão operística de Parzival aqui na Alemanha, no Festival de Bad-Hersfeld, que ocorrerá ainda este ano. Ademais, há mais eventos literários surgindo. Gostei muito da experiência de narrar a versão em áudio do meu livro, algo que gostaria de fazer com outros livros. Inclusive, é claro que também gostaria de ter outro livro meu para narrar. E ainda tem muitas batidas que estão esperando para serem tocadas e pinturas que estão esperando para serem pintadas… faça planos, faça os deuses rirem!” 

 

Budgie tocando com os Banhees em São Paulo, em 1986.

 

domingo, 1 de outubro de 2023

MOMENTOS MARCANTES, BANDAS QUE INSPIRAM E DICA DE MÚSICA: UM PAPO COM DAVE EVANS, PRIMEIRO VOCALISTA DO AC/DC

 Por Claudio Júnior & Juliana Vannucchi

O AC/DC é uma das bandas de rock mais populares e mais importantes de todos os tempos. É raro encontrar um fã desse gênero musical que ao menos não simpatize com alguns dos mais famosos singles e riffs da banda. Geralmente, corpos e espíritos se rendem facilmente ao som cativante do AC/DC. Essa icônica banda australiana deu seus primeiros passos em 1973. Os primeiros capítulos da jornada do grupo começaram a ser escritos pelos irmãos mais queridos do rock and roll, Malcolm e Angus Young. Assim que decidiram formar uma banda, logo encontraram o baterista Colin Burgess e o vocalista Dave Evans, que juntou-se a eles após ver um anúncio de jornal, mas que deixou o AC/DC precocemente, tendo feito parte da banda apenas ente os anos de 1973 e 1974. Segundo o cantor, a banda passava por momentos complicados e turbulentos na época e a questão financeira era bastante incômoda. De qualquer forma, esse curto período de tempo foi suficiente para que Evans vivesse experiências fantásticas e cravasse sua marca na história no rock, afinal, certamente o AC/DC, ao menos em partes, solidificou seu estilo e sua carreira a partir do legado passageiro de Dave Evans e carrega em sua assinatura as fagulhas deixadas por sua passagem relâmpago. O vocalista original do AC/DC, continua ativo até hoje e sobe em palcos do mundo todo, e em meio a sua atribulada agenda de rock star, ele encontrou um tempinho para conversar com o Fanzine Brasil.
 
A princípio, queríamos entender um pouco da experiência que ele teve com a banda. Dave nos contou que viveu momentos ótimos e memoráveis, como as primeiras gravações, o primeiro clipe, o primeiro show nacional com ingressos esgotados, um hit gravado e já logo de cara tocando nas estações de hora em hora, entre outras tantas coisas que foram muito boas. Contudo, por outro lado, enfrentou dificuldades na época embrionária do ACD/C, enfrentando uma série de precariedades: “As piores experiências foram algumas más condições em turnês e não sermos pagos em alguns shows”. 

 

Dave Evans (primeiro esquerda) foi o primeiro vocalista do AC/DC.

Dave deixou o AC/DC, mas nunca perdeu o contato com a música. Continua firme, forte e marcando presença nesse universo. Ele ainda compõe, canta e vive em busca de inspiração. Em relação aos artistas e bandas que o agradam, contou que escuta produções bem diversificadas e refletiu: “Eu ainda amo canções que tenham algum significado, que possuam uma história para contar e melodia, podendo ser uma balada, rock, blues ou música clássica. Eu não escuto apenas uma categoria ou estilo musical, ou somente um artista, já que a música é tão diversa e eu gosto disso”. Evans também comentou sobre o que escuta atualmente, enfatizando que não tem grande interesse pela música moderna e por produções recentes: “Em boa parte do meu tempo, estou no YouTube viajando para o passado, ouvindo bandas e artistas com os quais não estou familiarizado ou estou descobrindo pela primeira vez. Volto até a década de 1920 para ouvir e assistir artistas nos antigos vídeos em preto e branco. Há tantas bandas e músicos para pesquisar e podemos apreciar seus talentos na música e performance”.

O músico já esteve no Brasil em várias ocasiões, tocou por aqui inúmeras vezes e demonstrou bastante carinho por nossas terras: “Sempre utilizei músicos brasileiros na minha banda. A última turnê de alguns anos atrás foi definida como a maior turnê de um artista internacional no Brasil, mesmo não tocando no Rio de Janeiro, já que os agentes pareciam achar que o Rio não era uma cidade do rock. Eu fiquei desapontado, mas ainda tenho esperança de estar lá um dia”.

Para encerrar nosso papo com icônico Dave Evans, nós o convidamos para um desafio e fizemos a seguinte pergunta: se você fosse escolher suas cinco melhores músicas para apresentar a alguém, quais seriam elas? O rocker pareceu ter uma certa dificuldade em responder e ressaltou que há muitas faixas interessantes em suas produções, mas conseguiu selecionar cinco delas que, inclusive, ficarão aqui como dicas para os leitores: "Sold My Soul To Rock And Roll", "Bad Ass Boy", "Put Up Or Shut Up", "Only The Good Die Young", "Baby Blue Eyes", além de muitas outras que, aliás, estão disponíveis nas principais plataformas de música.

 

Dave Evans já se apresentou em várias cidades do Brasil e costuma ser aclamado pelos fãs brasileiros.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

YOUNG PUNKS WANTED: A HISTÓRIA DE LORA LOGIC POR ELA MESMA

Por Juliana Vannucchi

Lora Logic é um dos nomes mais respeitados da história do punk rock. Ela se eternizou ao lado de Poly Styrene, vocalista da banda X-Ray Spex, na qual Logic tocou saxofone. Tive a honrosa oportunidade de conversar com a Lora e conhecer um pouco melhor sobre sua história. 

O primeiro assunto que surgiu foi o seu passado. Lora lembrou carinhosamente de sua infância, de como a música entrou em sua vida, transformando-a para sempre, e do papel significativo que a mãe teve nesse processo tão marcante: “Tudo começou com a minha mãe. Ela cresceu numa fazenda na Finlândia e por isso nunca teve a oportunidade de aprender algum instrumento ou dedicar tempo à arte. Então, quando ela se mudou da Finlândia para a Inglaterra, quis que eu meu irmão aprendêssemos a tocar instrumentos, pois ela adorava música”. Foi então que por volta dos 5 anos, na escola, Lora começou a ter aulas de violão, violino e piano, mas achou essa rotina entediante e um tanto desestimulante: “Então, disse pra minha mãe que queria mudar e ela propôs clarinete, aulas de canto”. Porém, depois de conhecer as músicas de David Bowie, pelas quais se encantou, passou a se interessar pelo saxofone: “Pensei que meus pais não comprariam porque era caro, mas certo dia, para minha surpresa, voltei da escola e lá estava o mais belo saxofone esperando por mim. Eu simplesmente não acreditei. E comecei a tocar três, quatro, cinco horas por dia. Eu amava o som, tão alto e barulhento e, certamente, os vizinhos não gostavam nada dos barulhos que eu fazia. Tive algumas poucas aulas com um músico que era excelente, embora não fosse um professor tão bom. Eu aprendi mais através da prática”. Inicialmente, foi inspirada por riffs de clássicos do rock, como Chuck Berry e Bil Hayle And The Comets, pelos quais nutria uma enorme admiração. 

Mas, afinal, como Lora migrou de uma adolescente que apreciava esses nomes lendários para o caótico universo punk? Antes de entrar para a banda X-Ray Spex, Lora conta que tinha uma rotina solitária com seu instrumento: “Eu tocava saxofone sozinha no meu quarto, mas houve um momento em que isso começou a ficar meio chato pra mim. Eu queria tocar em alguma banda, embora não soubesse como ou em qual, exatamente. Bowie e T-Rex eram meus heróis na época, e eu pensava que se eles chegaram lá, eu talvez também poderia. Naquele período, se você queria entrar numa banda, mas não conhecia ninguém da área, você procurava algo nos jornais. Foi assim que, um dia, ela encontrou um anúncio intitulado “Young Punks Wanted”. Lora confessou que não sabia do que se tratava a palavra “punk”, nunca tinha ouvido falar a respeito do punk rock: “Na verdade, pensei que poderia ser alguma expressão americana, mas aquilo chamou minha atenção, me prendeu e achei muito interessante. Entrei em contato com o manager, eles disseram que não estavam necessariamente procurando um saxofonista, mas me deram a oportunidade de ir até eles”. 

 

"O público era poderoso, não tirava o olho do palco e ficava vidrado na performance dinâmica da Poly S."
 

Perguntei a Lora qual foi a sensação de se encontrar com Poly pela primeira vez. Sua voz mudou com essa questão, demonstrando afeição e alegria com as memórias resgatadas. No primeiro encontro entre as duas, Lora tinha apenas quinze anos: “Quando a vi pela primeira vez, Poly que abriu a porta para me receber e ela estava vestindo exatamente a mesma coisa que eu (risos). Isso foi realmente incrível! Ela me recebeu e deu uma risadinha. Assim que eu a vi, eu me senti totalmente confortável com ela, era como se nós já nos conhecêssemos há bastante tempo. Havia uma conexão cósmica muito forte entre nós e penso que talvez já nos tenhamos conhecido em vidas passadas. No final das contas, tanto a Poly quanto o mananger gostaram da ideia de uma saxofonista tão jovem na banda”. O resto é história. Lora refletiu sobre a dificuldade que tem para descrever a energia dos primeiros gigs do X-Ray Spex: “Foi algo eletrizante, único e revigorante, pois havia muita química na banda. O público era poderoso, não tirava o olho do palco e ficava vidrado na performance dinâmica da Poly S. Havia uma combinação de elementos que era simplesmente única”. Ela observou também que a plateia era composta por pessoas incríveis, como a Jordan Mooney e Soo Catwoman, por exemplo, e que as pessoas que frequentavam o show se caracterizavam por sua individualidade e pela excentricidade, aspectos esses que faziam com que os gigs fossem ocasiões muito especiais. 

O primeiro single da banda X-Ray Spex, "Oh Bondage Up Yours!" foi lançado em 1977, e o debut, Germ Free Adolescents, em 1978. Lora não permaneceu muito tempo com a banda e em 1979 criou o grupo “Essencial Logic”. O primeiro álbum, "Beat Rhythm News" foi lançado no mesmo ano, mas logo no começo de 1981 a banda se separou. No entanto, em 2022, após um longo período, os fãs foram surpreendidos com o lançamento do elogiável álbum “Land Of Kali”.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

UMA MANHÃ COM BLIXA BARGELD

 Por Juliana Vannucchi

Colaboração: Erica Iassuda

Era uma manhã nublada de fevereiro. Há dias chovia intensamente na região de Sorocaba, no interior de São Paulo. E essa, definitivamente não era uma manhã qualquer, pois nesse dia, eu e artista paulista Erica Iassuda tivemos a oportunidade de conversar com o aclamado músico alemão Blixa Bargeld.

O papo durou aproximadamente meia hora e tentamos usar esse tempo da maneira mais proveitosa possível. Atencioso e um tanto tímido, Blixa respondeu educadamente e de maneira objetiva a todas as questões que fizemos. Uma das primeiras abordagens foi a respeito de suas passagens pelo Brasil. O entrevistado mostrou-se orgulhoso ao dizer que já esteve inúmeras vezes no país e contou, inclusive, que gravou um álbum com Nick Cave em nossas terras. Além disso, citou Caetano Veloso como um músico brasileiro que aprecia. 

 

Blixa ao lado de Nick Cave.
 

Na sequência, levando em conta seus experimentalismos estéticos e ousadias musicais, perguntamos se ele se considera um músico dadaísta, e Blixa admitiu que o dadaísmo foi importante historicamente para ele no sentido técnico. Mas apesar disso, contou que não possui uma única linha de trabalho: “O processo de criação depende do material em que estamos trabalhando”. Ainda dentro do contexto criativo, decidimos perguntar como foi sua relação com o punk rock. Segundo o músico alemão, musicalmente e estilisticamente falando, o punk rock não teve muito efeito em sua vida, mas, por outro lado, foi um gênero que, no aspecto ideológico, teve certa relevância na sua carreira porque mostrou que as pessoas poderiam fazer algo por si mesmas e ter autoridade. No entanto, ele conta que cresceu ouvindo bandas como Pink Floyd, Can e Bob Dylan e enquanto mergulhava no som dessas bandas, não esperava que um dia se tornaria músico ou chegaria a gravar um álbum: “Parecia algo tão distante de mim”. 


Blixa contou que o diretor alemão convidou Nick Cave e ele quando o filme já estava pronto.

 

Blixa, refletindo sobre sua prolífica carreira, confessou que "Round Number 2" talvez seja seu álbum menos interessante, embora tenha dito que em geral ele gosta e se orgulha de todas as suas produções. E ainda observou de maneira descontraída: “Mas meu álbum preferido é sempre o último que eu lanço”.  

Não podíamos deixar de questionar sobre a experiência de Blixa no filme “Asas do Desejo”, de Wim Wenders. Ele contou que o diretor alemão convidou Nick Cave e ele quando o filme já estava pronto. De acordo com Blixa, inicialmente, Wenders pretendia fazer um filme sobre anjos e também tinha vontade de fazer um filme em Berlim. Então uniu essas duas ideias que resultaram no longa. Falando em Nick Cave, ele lembrou ainda que deixou o Bad Seeds porque estava casado e achou que não seria saudável para o casamento continuar em duas bandas, optando assim por ficar apenas no Einstürzende Neubauten.

Blixa continua ativo no universo musical, e fora desse meio, possui uma discreta ao lado da família, para a qual gostar de cozinhar, sendo esse um dos seus hobbies.




sábado, 20 de agosto de 2022

SHOWS MEMORÁVEIS, UMA VISÃO LIBERTÁRIA DO MUNDO E LANÇAMENTOS FUTUROS: A JORNADA ÉPICA DA BANDA BALLET CLANDESTINO

 Por: Vannucchi

A banda paulistana Ballet Clandestino celebra 10 anos de carreira em 2022. Atualmente, o grupo figura entre os principais nomes da cena independente do país. Conversamos o guitarrista e vocalista Vincius Primo, que nos contou sobre os momentos mais marcantes da história do trio, sobre os planos futuros, sobre a cena underground brasileira e outros assuntos. Confira e deixe sue comentário aqui nos contando se você já assistiu algum show da banda e qual é a sua música favorita! 

1. Parabéns pelos dez anos do Ballet Clandestino! Você imaginava que chegaria tão longe? Qual foi o maior desafio enfrentado nessa década?  

Poxa! Muito obrigado, Juliana! E queria aproveitar aqui o espaço pra agradecer a matéria que você fez sobre esses nossos 10 anos para o Fanzine Brasil. 

Bem, sinceramente, imaginar, nós imaginamos, sim, ainda que tenha sido de forma despretensiosa e inocente – já penso, aqui, por exemplo, nos 20 anos rsrs – mas não tínhamos certeza de que realmente fôssemos chegar a essa marca tão simbólica e especial, primeiramente, porque esses 10 anos se passaram muito rapidamente. Ademais, em 2015, quando entramos no estúdio para gravar nosso primeiro EP, foi justamente por medo de que a banda acabasse sem ter deixado nada registrado. Isso já havia acontecido com outros projetos musicais que eu tive e o Ballet, desde quando era só um projeto de estúdio sem maiores pretensões, sempre foi para mim algo diferente e especial. Então, levando tudo isso em conta, eu simplesmente não queria deixar de fazer um registro, nem que fosse só para eu ouvir depois de anos e lembrar da experiência, sabe? E foi justamente a partir da gravação desse EP inaugural que o projeto se solidificou e nossa história começou a fluir de uma maneira incrível.

2. Qual é a melhor memória que você tem dos momentos vividos com a banda? 

Já são 10 anos, então há muitas boas recordações de shows e pessoas especiais que conhecemos em decorrência da banda. É difícil citar uma memória ou outra em particular, mas posso dizer que as viagens para tocar fora da nossa cidade sempre deixam histórias legais gravadas na mente. Foi o caso do Woodgothic, em 2017, da Decadence em Araras, no interior de São Paulo, em 2018... das vezes em que fomos ao RJ, de quando tocamos em Juiz de Fora, que também foi uma ocasião muito legal e etc. Essa possibilidade de podermos ir para outros lugares em consequência da música que fazemos é sempre muito boa e é algo gratificante!

3. Vocês têm um calendário de shows bem cheio, né? Pelo que sei, há planos para tocar fora do país. Já há data para isso? 

Com essa trégua da pandemia e com os shows voltando a acontecer, esperamos mesmo ter uma agenda mais cheia, seja para tocar aqui em São Paulo ou fora da capital. Nas apresentações que fizemos em 2022, reparamos que o público tem comparecido em maior número do que antes da pandemia e isso motiva bastante! Nos faz querer tocar mais. Vale dizer que lançamos nosso último EP, o Descompasso Cinza, em 2020, durante a pandemia e não tivemos show de lançamento e nem nada disso. Então, devido a esse contexto, agora queremos mesmo é estar nos palcos.

Sobre uma possível turnê fora do Brasil: é uma vontade grande que temos. Antes da pandemia estávamos tentando “desenhar” a melhor forma de colocar esse plano em prática. Agora, porém, temos que repensar isso e tentar viabilizar a possibilidade de isso acontecer da melhor forma possível para nós dentro dessas circunstâncias atuais.

 

"Muitas letras que escrevo inspiradas em livros que leio".

4. Como você vê a atual cena independente do país? Está mais fortalecida desde que você iniciou sua trajetória? 

O cenário dito independente hoje no Brasil, eu enxergo da seguinte forma: como não há um grande espaço da grande mídia hoje para o rock – como havia há alguns anos atrás, por exemplo – existe, então, dentro da própria cena independente um certo “mainstream underground”, que diz respeito às bandas que tem um selo apoiando os seus lançamentos, são vinculadas a agências que marcam seus shows e etc., mas, seguem tendo o status de banda independente, porque não estão na grande mídia. E existe, de fato, as bandas que são independentes de tudo, sem selo, sem qualquer apoio e tudo é feito pelos integrantes da melhor forma que conseguem fazer.  E é onde nós nos incluímos.

Não vejo isso de forma ruim e tampouco sei explicar por quais razões isso ocorre. Mas é como enxergo a cena independe hoje no Brasil. Todo o rock parece ter ficado “independente”. Nós somos uma banda oriunda da cena punk de São Paulo e, por isso, sempre estivemos bem à margem de muita coisa. E foi dessa forma que aprendemos a fazer as coisas como banda.

5. Qual foi o acontecimento mais inusitado que vocês viveram na carreira? 

Com certeza chegar aos 10 anos, haha. Seguimos tocando, compondo e ainda acreditando no grupo, simplesmente pelo fato de que amamos tocar e fazer música, antes de qualquer coisa, para nós mesmos!

6. Vocês pretendem lançar algum material novo este ano? 

Queremos lançar um novo EP até o final desse ano (2022). Já temos o nome dele definido e a capa. Serão 4 sons e já estamos ensaiando e terminando os arranjos para que possamos gravar e lançar tudo ainda esse ano.

7. Qual membro da banda é o principal letrista? Quais são os temas que mais se destacam ao longo da discografia de vocês?

Todos na banda escrevem letras. Assim como também todos chegam com riffs, ou linhas de baixo, esboços a partir dos quais desenvolvemos algo que virá a ser uma música. Às vezes acontece de alguém já trazer a música pronta, com introdução, letra e tudo. É assim, desde o início, todos compõem. Quando o Rocero estava na bateria ele também trazia ideias para a guitarra, linhas de baixo e letras. Ele é autor de algumas letras como Escolhas, "Eterno Vazio, Contra o Tempo... E com o Tiofrey também rola assim, a letra da faixa Pés Descalços - que está no nosso último EP, o Descompasso Cinza – é dele. Assim como a ideia do nome do EP - Descompasso Cinza - também foi dele.  E tudo isso acontece de forma muito natural, pois todos se sentem à vontade para trazer as ideias de música, letra e arte. 

Sobre os temas, mesmo que abordados de diferentes maneiras, às vezes uma visão mais ampla pensando na sociedade, às vezes trata-se de algo mais voltado para o sentimento do indivíduo no meio da sociedade, sempre expomos uma visão libertária do mundo. Questionamos nas letras os valores da sociedade capitalista e alienada, propondo uma ruptura com está forma de viver que está posta para todos nós.

No caso, por exemplo, das letras que eu escrevo, posso dizer que muitas são inspiradas em livros que leio. É o caso da Substantivo Abstrato, Falsas Necessidades, Impróprio Necessário e por aí vai. Praticamente todas as minhas ideias para letras surgem a partir de algo que leio. Seja uma notícia, uma poesia ou na maioria dos casos, ou, conforme citei, livros.

 

"Espero que nossa música sirva como companhia, que ajude a aliviar alguma possível tensão e, sobretudo, que desperte alguma reflexão (...)"
 

8. Por que vocês optam por lançar materiais físicos. Eu, particularmente, sempre prefiro materiais assim. Mas atualmente, a maioria opta por conteúdos digitais. Quais são as vantagens e desvantagens de ambos?

Acredito que o material físico ainda tenha seu charme e valor para nós que começamos a ouvir música dessa forma. Através desses suportes, seja vinil, CD, etc... Porém, atualmente a questão do digital deixa o acesso à música muito mais fácil, seja pelo valor que uma plataforma de streaming cobra, seja pela praticidade de você estar em qualquer lugar e poder ouvir ali a faixa que quiser no seu celular, por exemplo. E a música não deixa de ser “menos” música porque você está ouvindo em streaming ou qualquer outro formato digital. Além disso, é inegável que mesmo quem compra o material físico, muitas vezes acaba também consumindo música via plataformas digitais.

Como disse acima, o material físico tem seu charme e também tem seu “fetiche” de colecionador. E há também a questão do valor alto, que muitas vezes deixa desinteressante a possibilidade de lançar o material desse jeito.

Às vezes vejo o custo de que algumas bandas cobram pelo merchan (camisetas e tal) e isso me faz entender o porque o rock hoje em dia possui seu maior público composto por pessoas na faixa dos 30 anos. Um adolescente, sem emprego e pertencente a uma realidade como está em que nós viemos, jamais teria condições de comprar uma camiseta de banda no valor que é cobrado atualmente por muitos grupos. Hoje, há bandas que vendem até café com seus nomes. Certas coisas eu não entendo. Nem é crítica. Mas é que realmente não consigo entender esse lance de vender café, cerveja, uma linha de um monte produtos com o nome da banda que não tem nada a ver com a o universo musical. Daqui a pouco tem até sabonete... hahaha.

Claro que acabo enxergando nisso tudo um movimento existente para compensar o fato de as pessoas não precisarem comprar o material físico sobre o qual comentei acima, para poder ter aceso à música da banda. E eis que então cria-se essa gama de produtos diversos, de certa forma, até meio bizarros, contendo a logomarca da banda.

Imagine, por exemplo, um rapaz de 16 anos saindo de casa pra ir a um show. Ele pede dinheiro aos pais e quando volta diz que comprou um café da banda... É surreal isso... Por essas e outras o rock está deixando de dialogar com o público jovem.

Sobre nossos lançamentos físicos, na verdade rolou com nossos 3 primeiros EPs, que saíram em fita K7, com uma tiragem de 50 cópias cada um e foram feitos por nós mesmos. Algum deles saiu como .RUIR.Records que, na verdade, sou eu mesmo.

E teve o split ao vivo com a banda Tempos de Morte, que também saiu em K7 graças ao Filipe da VladTapes, que idealizou tudo, desde o show, captação do áudio, gravação das fitas e outros detalhes... O cara é um guerreiro do underground! Além de sempre apoiar as bandas nos shows ainda mantém a VladTapes como selo que dá a oportunidade de bandas terem os seus sons lançados num formato físico super caprichado. A produção de trabalho K7 é praticamente um trabalho artesanal.

9. Que papel vocês esperam que a música de vocês desempenhe não vida dos ouvintes? 

Espero que sirva como companhia, que ajude a aliviar alguma possível tensão e, sobretudo, que desperte alguma reflexão para algo de maior importância. Mas que também sirva como diversão. A música tem que ser tudo isso, né?

10. Como vocês gostariam de estar daqui dez anos? 

Esperamos continuar tocando, lançando material novo e podendo seguir com essa grande aventura que é manter uma banda na ativa. Também espero que continuemos conhecendo pessoas e lugares através de algo que nós fazemos com tanto prazer!

segunda-feira, 23 de maio de 2022

UMA DÉCADA DE HISTÓRIA E UM BRINDE AO BALLET CLANDESTINO

Por Juliana Vannucchi

Globalmente falando, 2012 foi um ano um tanto peculiar. Nessa época, reinavam teorias da conspiração sobre o fim do mundo. Contudo, enquanto alguns supersticiosos construíam bunkers e estocavam alimentos, um trio paulista de amigos, composto por Vinícius Primo (guitarra e voz), Natan (baixo e voz) e Cecília (bateria) se reunia, afinava seus instrumentos, escrevia suas letras e iniciava sua bem sucedida trajetória musical. A respeito dos primórdios, Primo comentou: “Nascemos timidamente e sem pretensão alguma sequer de fazer show. Na realidade, a banda surgiu como um projeto bem despretensioso e calcado na linguagem sonora das Mercenárias. E obviamente essa influência das Mercenárias persiste até hoje, pois é uma banda da qual gostamos demais”. Para alguns era o fim do mundo, para outros, o pontapé inicial de uma jornada musical admirável (e repleta de shows! Primo estava errado!!).

De lá para cá, a banda passou por uma mudança: em 2013, a baterista Cecília, que fez parte da formação inicial, deixou o grupo, e Rocero assumiu as baquetas: “Era um amigo meu e do Natan, que também compartilhava das mesmas influências e perspectivas musicais que a gente. Com ele na banda, o lance dos ensaios ficou mais contínuo, as músicas foram surgindo e a linguagem pós-punk se desenvolvendo. O novo membro da banda contribuía com ideias, riffs, letras, etc.”, recorda-se Vinícius. A partir de então, com uma sonoridade sombria que se inspira no punk rock setentista e no pós-punk, a banda reuniu uma discografia volumosa, composta por um total de 4 EPs, dos quais o primeiro foi lançado em 2015, e um splt ao vivo com a banda irmã Tempos de Morte. Todos, inclusive o split, foram lançados em de forma física em fita k7. Em 2019, houve outra mudança na bateria, e Rocero foi substituído por Tiofrey. Segundo Natan, “Com sua entrada observamos a introdução de uma pegada robusta nas músicas, apropriando-se da bateria de uma forma magistral e energética”.

 

"A evolução é constante. A cada show realizado e críticas apontadas, buscamos crescer".
 

Atualmente a banda figura entre os principais nomes nacionais do pós-punk. O mundo não acabou e agora, em 2022, o Ballet Clandestino está completando uma década de existência. A esse respeito, Vinícius refletiu: “Em 2022 chegamos aos dez anos, e para te falar a verdade, nem parece (risos). Acho que devido a esses dois últimos anos estarmos na pandemia. Então não ensaiamos com frequência, não teve nenhum show e tal.  Nosso último EP, Descompasso Cinza, saiu bem na pandemia, em julho de 2020, e com isso ainda sinto que não o divulgamos como deveríamos. Voltamos com os shows agora e ainda não pensamos em algo para marcar esses dez anos de existência”. Perguntei ao grupo como eles enxergam a trajetória acumulada ao longo de todo esse tempo de estrada. Natan refletiu: “A evolução é constante. A cada show realizado e críticas apontadas, buscamos crescer. Observamos que não somos os mesmos no palco se fizermos uma comparação com o primeiro show ocorrido em 2015. Destacamos como evolução a forma como nos enxergamos no palco, como podemos nos posicionar nele, o que não fazer ou fazer. Para o público isso parece ser algo natural, mas precisa ser pensando e discutido. Ainda temos pontos a melhorar”.

Sinceramente, penso que agora estamos mais próximos do fim do mundo do que estávamos em 2012, porém, espero estar enganada porque ainda quero ver o Ballet Clandestino celebrar muitas décadas de existência. Há indícios de que a banda seguirá firme em sua triunfante jornada. O retorno aos palcos é um tanto recente e, assim como inúmeros músicos ao redor do globo, eles foram afetados pela pandemia, embora tenham aproveitado o período para compor novas músicas. Há planos ambiciosos que envolvem shows internacionais pela frente: “Temos planos de lançar um próximo trabalho para o próximo ano e uma custosa mas não inacessível turnê fora do país”, revelou Natan.


Vida longa ao Ballet Clandestino.

 





terça-feira, 17 de maio de 2022

POLÍTICA, LIVROS, PUNK ROCK E MUITO MAIS: CONVERSAMOS COM JACK GRISHAM, VOCALISTA DO T.S.O.L


 Por Juliana Vannucchi

O lendário vocalista do T.S.O.L bateu um papo com o Fanzine Brasil. Num tom descontraído, conversamos e refletimos sobre assuntos bem variados. Jack nos contou sobre seu passado, sobre como entende o punk rock, sobre os problemas políticos que tangem o mundo atual e também sobre outras coisas incríveis que você pode conferir abaixo!

1. Seja muito bem-vindo ao Fanzine Brasil, Jack. Fico feliz em ter você aqui. Inicialmente, gostaria de saber quando você veio ao Brasil pela última vez e como foi a experiência. Você tem muitos fãs aqui…

Bem, em primeiro lugar, obrigado. Não tenho certeza de quanto tempo faz desde que estive aí pela última vez, mas eu amei seu país. As pessoas foram muito gentis, e mesmo enquanto lidavam com questões importantes de suas vidas, elas expressavam um ritmo lindo de viver, que era quase como uma dança do soul através de seus problemas – muito mais desinibidos do que os americanos, um povo que de vez em quando pode ser durão pra caralho.

2. Jack, você está ciente da atual situação política do Brasil? Nós temos um presidente fascista e intolerante. Gostaria de saber sua opinião a respeito desse contexto político do país. É sempre valioso saber o que pessoas como você tem a dizer... 

Eu acho importante não ficar de fora dessas questões e dar minha opinião sobre o que não estou vivenciando. Eu mal sou qualificado para ser um músico. Acho tentador simplificar questões de ordem política, um cara legal de banda tentando ganhar o apoio do povo, mas as coisas nunca são tão fáceis. Eu tenho minhas crenças sobre como as pessoas devem ser tratadas e penso que um governo deve servir e não dominar, pelo que li – os responsáveis no Brasil podem ter essa equação ao contrário.

3.  Por que você acha que o fascismo está aumentando, tanto na Europa, quanto no resto do mundo?

É confortável ter alguém para culpar por seus problemas – ter uma desculpa para suas idiotices. É mais difícil olhar no espelho, para cada país confrontar seus próprios pecados do passado e buscar o envolvimento de todas as pessoas para um bem comum. A culpa faz maravilhas para um ego esmagado. Um líder forte é uma muleta para uma nação fraca. Podemos falar sobre doces surf e diversão agora?


4. Além das questões políticas, há caos e tensão em todos os lugares. Como você acha que será o mundo pós-pandêmico?

Bem, pode ser um caminho para a iluminação, como uma árvore podada antes de ser restaurada a uma glória ainda melhor do que antes. Podemos perceber o quão intimamente estamos conectados. Podemos nos conscientizar de que a dor do meu irmão ou irmã é a dor que eu mesmo sinto.

 

"Eu sempre penso que, talvez, quando alguém gosta do que eu fiz, nós compartilhamos algo por dentro (...)"


5. Você pode nos contar um pouquinho sobre os livros que escreveu? Pergunto isso porque, infelizmente, eles não foram traduzidos para a língua portuguesa. (bem, ao menos, não ainda).

Eu sou um autor inexperiente que está aprendendo a escrever sob o brilho das luzes. Eu acho que não mereço alguns dos elogios que recebi em relação ao meu trabalho. Meu primeiro livro foi o "An American Demon", uma viagem depravada em minha juventude - honesta demais para ser uma autobiografia. O livro seguinte foi uma coleção de contos chamada Untamed. No período desta produção, eu tinha passado por um rompimento, então o trabalho é sombrio e raivoso, e é uma ferida aberta. Depois, escrevi um livro para quem se encontra em recuperação do vício em drogas e álcool - chama-se A Principle Of Recovery e é sobre a minha jornada através de 12 passos. Estou livre desses vícios desde 8 de janeiro de 1989. Atualmente estou trabalhando em um romance policial chamado The Pulse Of The World.

6. O que a música traz para nossas vidas? E que tipo de efeito você espera que suas músicas cause nas pessoas que as consomem?  

Não tenho certeza, mas acho legal quando você cria algo, e isso gera um sentimento em outra pessoa – talvez podendo até atingir alguém de uma parte diferente do mundo. Eu sempre penso que, talvez, quando alguém gosta do que eu fiz, nós compartilhamos algo por dentro, e por causa disso podemos nos tornar amigos.

 

"O punk rock que conheci na minha juventude está morto há anos".
 

7. Qual foi o maior desafio da sua carreira musical?

Não conseguir cantar. Havia uma versão rock do T.S.O.L – uma banda completamente diferente usando nosso nome, e o cantor parecia muito com Jim Morrison. Eu pareço o “Jack”, e o Jack não consegue necessariamente segurar uma nota.
   
8. A frase "punk's not dead" é muito famosa. Mas, afinal, o punk continua vivo atualmente? Você ainda vê o velho espírito punk nos dias de hoje?

Não tenho certeza; as coisas, é claro, são diferentes. O punk rock que conheci na minha juventude está morto há anos. Você não pode simplesmente se vestir de uma certa forma, tocar acordes fortes, se rebelar contra a autoridade e chamar isso de “punk”. Os inconformistas se conformaram com um olhar de inconformismo – isso é punk? Acho que ser “punk” é uma atitude além da música e da moda – é uma vontade de defender suas crenças, desafiar o pensamento do status quo, ficar aberto a ideias conhecidas e viver.

9. Tem algum álbum em particular do T.S.O.L. que seja o seu favorito?

Meu favorito tem que ser o Trigger Complex - nosso último trabalho completo, mas para mim - alguém que não ouve nossa banda, eu prefiro músicas - à noite no palco quando a multidão foi empurrada para a beira do caos, e eu posso sentir que mais um aumento de intensidade poderia levar à anarquia completa, eu olho para nosso baixista Roche e eu afasto ele –  faço meu sinal com a mão para ele entrar na música Fuck You Tough Guy, e a sala explode!      

10. Qual foi a coisa mais esquisita que você já viveu numa turnê feita com o T.S.O.L.? Pode ser alguma situação vivida em hotel, no palco, dentro de um ônibus, etc.

Quando terminamos um show e fomos direto para a cama – sem brigas, sem polícia, sem overdose, incêndios ou acidentes de carro – foi um milagre do caralho! No mínimo ultrajante!

11. Você é um ótimo fotógrafo. Você trabalha com fotografia ou é apenas um hobby?

É um passatempo. Eu gosto de pessoas — a alma em seus olhos. Eu faço retratos. Eu uso isso para conectar. Eu luto contra a ansiedade social, sou superficial e às vezes sinto que minha fala e meus modos são forçados. Quando estou atrás da câmera, tudo é mais fácil.

12.  Se você tivesse uma máquina do tempo e pudesse viajar para o passado, qual momento da sua vida você gostaria de viver novamente? E o que você mudaria?  

Nada. Nunca cometi nenhum erro porque a soma de minhas ações é que me trouxe aqui, num lugar no qual estou muito feliz. Mas se pudesse mudar alterar qualquer coisa, eu teria economizado minhas milhas de passageiro frequente e ter causado mais por aí.

13. No que você está trabalhando atualmente? Quais são os planos para o futuro?  

Atualmente estou terminando um filme sobre a minha experiência no TSOL. Se chama “Ignore Heroes” e estou sou responsável pela produção e também pela direção.


sábado, 16 de abril de 2022

10 PERGUNTAS PARA O BAIXISTA DO THE MISSION

 Por Juliana Vannucchi

Os fãs brasileiros estão ansiosos pelo retorno do The Mission ao Brasil . E é recíproco: Craig Adams nos contou que os membros da banda também estão! Confira esse papo incrível que tivemos com um dos maiores nomes da história do Post-punk e veja o que podemos esperar das apresentações do The Mission.

1. Craig, seja bem-vindo ao Fanzine Brasil. Está ansioso para vir ao país este ano? Quando foi a última vez em que você esteve aqui? Aliás, eu escutei uma história de que você levou um choque... isso é sério? 

Olá!

Sempre amei tocar no Brasil, é sempre empolgante pra mim. Nunca sabemos o que vai acontecer... como foi o caso daquela vez em que levei um choque quando estava no Rio de Janeiro. Meu baixo encostou numa barreira que havia ali, e o choque me jogou para o outro lado do palco. Desde então, passei a usar um sistema no meu baixo... sem fios com esse material elétrico neles.

2. Você gosta de música brasileira? Conhece bandas ou músicos daqui?

Preciso dizer que infelizmente não estou por dentro da cena musical brasileira. Eu moro nos Estados Unidos, e a rádio aqui é uma porcaria. Além disso, pelo fato de não ter saído durante cerca de dois anos ou até mais, não estou descobrindo muitas músicas novas ultimamente. Eu ouço a BBC, mas como o que toca é de língua inglesa e nunca toca música em nenhum outro idioma, é difícil de encontrar alguma outra coisa.

3. Craig, como você aprendeu a tocar baixo? Por acaso alguém da sua família é músico?

Originalmente sou pianista e desde os seis anos treinava num nível bastante alto.  Também estudei violoncelo [Que tem quatro cordas!! Talvez tenha começado nesse ponto?]. Toquei teclado em algumas das minhas primeiras bandas e até fiz algumas gravações com esse instrumento. Porém, foram o punk rock e heavy metal que realmente me fizeram tocar baixo. Eu adorava Motorhead, Hawkwind e especialmente o Lemmy e seu estilo de tocar. Eu acho que vi o Motorhead umas trinta vezes e, numa ocasião, me encarreguei de tomar conta da banda quando eles vieram fazer uma sessão de autógrafos na Virgin Records, uma loja em Leeds na qual trabalhei quando tinha dezesseis anos.

Meu pai cantava blues em pubs e clubs de Leed nos anos cinquenta e sessenta, até que eu nasci e minha mãe deu um basta nisso! Hahaha.

4. Tem algum álbum da discografia do The Mission que seja o seu favorito? E por acaso tem algum do qual você não gosta?

Não há nenhum em particular que seja o meu favorito ou que eu goste menos. Há dias em que eu que gosto de um determinado álbum, há dias em que não gosto. Alguns realmente não costumo ouvir, a não ser que adicionemos uma música deles para tocar ao vivo.

5. Como você descreve o “God's Own Medicine”?  Algumas pessoas costumam dizer que é um álbum “gótico”. Você concorda? O que essa palavra significa para você?

Foi nosso primeiro álbum. Ele foi e ainda é muito importante para nós. Acho que cabe a outras pessoas descrevê-lo, nós apenas fomos lá e fizemos de forma natural o que achávamos bom. A cena gótica é ótima, embora eu não ache que realmente tentamos ser algo para uma determinada cena. Usávamos preto e isso parecia legal, sem contar que não precisávamos lavar tanto essas roupas escuras porque não dava para ver a sujeira... hahaha. 

 

"Nos primeiros dias do The Sisters Of Mercy havia muito caos".

6.  Qual foi a coisa mais chocante que já aconteceu num tour do The Mission? Pode contar algo que aconteceu, por exemplo, num hotel, no palco ou em qualquer contexto.

Bom, isso seria revelador!!! Já se falou bastante de ‘incidentes’ de imprensa/mídia para manter a maioria das pessoas feliz, mas fico satisfeito por saber que alguns dos 'segredos incidentes nunca serão revelados!!!

7. Qual foi o show mais memorável que você já fez com o The Sisters Of Mercy? E qual é a melhor recordação dos tempos que você passou com o grupo?

Acho que tenho que dizer que foi o último no Royal Albert Hall, em Londres, mas nós fizemos muitos shows ótimos em pouco tempo. Na época era tudo novo e muito empolgante. Nos primeiros dias de banda havia muito caos e alguns desastres malucos, mas nós melhoramos, e então tudo simplesmente explodiu!

8. Quando o The Sisters Of Mercy estava gravando o clássico First And Last And Always, você imaginava que o álbum seria tão aclamado?


Na verdade, não. Nós gravamos a maior parte do álbum num estúdio localizado em Stockport, perto de Manchester. Fiquei hospedado num hotel simples do tipo bed and breakfast, pois não tinha dinheiro e, como sempre, tudo foi um pouco caótico. Sabíamos que o álbum era bom, mas ele não recebeu críticas muito favoráveis na época. Vejo esse álbum como uma espécie de gravador lento que as pessoas, aos poucos, começaram a gostar, e agora ele é o que é.

9. Os fãs brasileiros estão muito ansiosos com a vinda da banda. O que podemos esperar dos shows do The Mission este ano?

Bom, estamos com o nosso novo baterista, o Alex, dos EUA. Ele estava tocando em uma banda de abertura, chamada Feather Trade, quando eu estava tocando na minha outra banda, a Spear Of Destiny, faz alguns anos. Dessa forma, há um frescor na banda que talvez estivesse faltando nos últimos tempos... Tem sangue novo!! Mas estamos todos muito animados para sair pelo mundo novamente [como é todo mundo].

10. Se você tivesse uma máquina do tempo e pudesse viajar para o passado, que momento da sua vida você gostaria de reviver? Você alteraria algo em seu passado?

Eu realmente deveria ter mantido meu treinamento formal de piano, já que agora isso faz falta, embora eu fosse adolescente e odiasse isso. Eu ainda consigo tocar um pouco, mas como não pratico, acaba surgindo um atraso na hora de fazer a leitura e reproduzir algo.
Fora isso, tudo foi muito bom.


segunda-feira, 14 de março de 2022

UMA CONVERSA COM SIMON RAYMONDE, BAIXISTA DA BANDA COCTEAU TWINS


 Por Juliana Vannucchi

Apoio: Erica Iassuda

O Fanzine Brasil bateu um papo com Simon Raymonde, experiente compositor, lendário baixista da banda Cocteau Twins e músico colaborador do This Mortal Coil. Conversamos sobre a atual indústria musical, sobre sua gravadora independente, a Bella Union, sobre música brasileira e diversos outros assuntos. Confira, comente e compartilhe a entrevista! 

1. Simon, o mundo inteiro está passando por um momento sombrio e tenso. Como você está sobrevivendo e enfrentando essa realidade tão turbulenta?

É preciso encarar tudo isso. Enterrar a cabeça na areia não vai funcionar! Seja lá o que seja colocado diante de mim, eu procuro encarar e sair disso ainda mais forte. Acho que, como músico, você desenvolve naturalmente uma pele mais grossa para viver e agora estou mais velho e creio que isso facilita a minha sobrevivência diante de tudo isso. O que estamos vendo na Ucrânia é um povo incrível, com espírito de independência, de luta pelo futuro de seus filhos e que também simplesmente luta por sua própria liberdade. Isso é algo precioso e que merece valor. Sobreviveremos a essa fase, mas será necessário estarmos juntos.

2. Já esteve no Brasil alguma vez? Você conhece ou gosta de música brasileira? Há muitas bandas independentes boas aqui como "She Is Dead", "Gangue Morcego", "Dennis & o Cão da Meia-noite", "Madreperola", “Quântico Romance”. Essas são excelentes e há muitas outras que eu recomendo!

Sim, eu estive aí nos anos 90 com o Cocteau Twins para fazer dois shows e, na ocasião, conheci pessoas incríveis com as quais tenho amizade até hoje! De vez em quando, as pessoas me enviam nomes de algumas bandas e músicas, mas essas suas sugestões são excelentes e estou ansioso para conhecê-las!

3. Em que momento da sua vida você se reconheceu como artista? Você planejou seguir esse caminho?

Eu não ando por aí pensando “eu sou um artista” e acho que nunca fiz isso – ao menos espero que não tenha feito :), embora a música fosse a única coisa que eu sempre quis fazer, além de ter desejado jogar pelos Spurs! Desde o final dos anos 70, depois de ver The Clash e os Pistols, eu sabia que queria ser baixista e penso que, quando as coisas começam inevitavelmente a desmoronar, você pode ficar sem rumo, mas ter a alegria de poder tocar, escrever e especificamente colaborar com os outros, agora me fez ver o quanto sou sortudo.

4 – Tem algum álbum da discografia do CocteAu Twins que seja o seu favorito? E por acaso há algum do qual você não goste?

Quanto mais o tempo passa, mais as melhores memórias permanecem. Eu sei que nós sempre pensávamos que o Treasure era... bem... um trabalho que talvez pudéssemos ter feito melhor (haha), mas ouvindo o álbum de novo, quase 40 anos depois, percebo que ele tem um som bem estranho e acho que não existem muitas coisas que soem como ele. Esse sempre foi o sonho, não é? Ter seu próprio som! 

Eu amo todos os álbuns agora porque parece que cada um é como um pequeno "diário" de nossas vidas, pelo menos é assim para mim. Sonoramente, com certeza o Heaven Or Las Vegas e o Blue Bell Knoll foram um grande salto para nós em termos do que aprendemos como "produtores", mas todos os outros têm um charme!

5. Na época em que o Cocteau Twins estava gravando Treasure, você imaginava que o álbum seria tão aclamado? O que você sentiu durante a produção deste álbum? E por que algumas músicas são nomeadas com divindades mitológicas/religiosas?

Não, haha, não tínhamos ideia do que as pessoas pensariam e também nunca tivemos interesse nisso. :)Bom, na verdade, se alguém dissesse que não havia gostado, acho que não teríamos esquecido. Na época, nós nos sentimos bastante apressados no final da gravação e, como era nossa primeira vez produzindo um álbum juntos como um trio, havia, é claro, muitas incógnitas. Naquele período, sempre dizíamos à gravadora que tínhamos o álbum pronto para gravar, mas na verdade nós literalmente não tínhamos músicas escritas, demos, nenhum material, embora tivéssemos uma certa confiança juvenil (ou arrogância) que costumávamos usar a nosso favor. E todas as nossas gravações desse álbum foram espontâneas e na maior parte totalmente improvisadas, portanto, se tivéssemos tido um tempo de preparação, isso destruiria todo o sentido, de qualquer maneira.

Mas, claro, ouvindo o álbum agora, posso perceber muita incerteza e, conforme eu disse anteriormente, aquele era um relacionamento totalmente novo para nós, então acho que, de modo geral, fizemos um bom trabalho!

"Entre as pessoas, percebemos divisões não apenas físicas, no sentido de distanciamento, mas também politicamente, mentalmente e filosoficamente falando".


6. Como você descreve a lendária Elizabeth Fraser?

Bem, descrevo com todos os possíveis superlativos que você possa imaginar! A Elizabeth nunca gostou de elogios, mas não hesito em dizer que para mim ela é a melhor. Claro que existem outras artistas incríveis na história da música. E se estamos falando de vocalistas femininas, há várias, como Nina Simone, Mahalia Jackson, Aretha Franklin, Dusty Springfield, Kate Bush, PJ Harvey, Patti Smith e a lista continua, porém, eu não consigo pensar em uma vocalista que possa alterar minhas emoções de maneira tão profunda quanto ela consegue. Conhecendo a Elizabeth e sua história, e sabendo aonde ela vai quando canta, talvez não seja tão difícil de entender o que quero dizer. Mas sim, ela é absolutamente maravilhosa, um tipo verdadeiramente único.

7. Qual foi o show mais memorável que você já fez com o Cocteau Twins? E qual é a sua melhor lembrança do período em que tocou com a banda?

O show mais memorável talvez tenha sido um que fizemos na Suécia, provavelmente em 1984, num clube lotado na cidade de Orebro. Estávamos tocando quando, de repente, a Elizabeth simplesmente se virou, saiu do palco no meio da primeira música e nunca mais voltou!

As melhores lembranças são sempre de quando eu estava gravando os vocais da Elizabeth em LPs como o Milk and Kisses, e, enquanto agia de forma completamente tranquila e destemida em tais momentos, sentia-me perpetuamente abençoado, como se tivesse acabado de conversar com um ser supremo! Haha.

8. Como você descreve o álbum "Milk & Kisses" e como era a atmosfera da banda na época em que o gravou?

Surpreendentemente, a atmosfera era ótima. No geral, foi uma boa experiência e provavelmente um bom momento para me aposentar, mas talvez ouvindo agora, eu possa perceber que definitivamente há falhas. Em termos de mixagem, não acho que a produção é a melhor, porém, certamente não é um disco ruim! Fazendo uma retrospectiva, se você olhar muito para trás, pode começar a reescrever a história, então não costumo pensar muito no passado, a não ser quando faço entrevistas como esta! Porém, talvez, olhando para trás agora e pensando no propósito disso, eu diria que deve ser muito estranho para um casal que ficou junto por um longo período e depois se separou continuar trabalhando junto. Mas isso apenas mostra o quanto a música era importante para todos nós, não apenas por sermos um grupo, mas individualmente também e, talvez, tenha sido muito difícil nos afastar disso, pois era algo que todos nós amávamos profundamente.

 

"Nunca foi tão fácil como é agora, em 2022, ser criativo e livre para fazer suas próprias coisas, sem a necessidade de vínculos com corporações ou obrigações contratuais".


9. Quando o Cocteau Twins decidiu se separar, você tinha uma ideia clara do que queria fazer e de como iria seguir?

Não, absolutamente não. Porém, eu sou uma pessoa positiva e, por isso, não gosto de me debruçar sobre aspectos negativos por muito tempo. Então, levando em conta que naquela época tínhamos acabado de começar a gravadora Bella Union, eu me joguei de vez nessa empreitada e... bem, ainda estou fazendo isso vinte e cinco anos depois, portanto acho que deve ter sido uma ideia relativamente boa!

10. Como foi a experiência de participar do This Mortal Coil? Essa também é uma banda muito peculiar e única, da qual músicos muito talentosos – como você- participaram. 

De modo geral, foi uma boa experiência, embora bastante estranha. Se você olhar para as notas dos encartes e se atentar aos nomes dos músicos participantes do projeto, pode imaginar que se tratava de um monte de amigos reunidos dentro de um estúdio de gravação, só que infelizmente não era nada disso. Eu, que estive muito envolvido nos dois primeiros álbuns, estava frequentemente no estúdio, só que normalmente ficava lá apenas com o Ivo e com o Jon Fryer, embora nessas ocasiões eu tenha escrito alguns trechos musicais legais porque o Ivo, na verdade, não era um músico propriamente dito, então eu acho que ele estava apenas utilizando sua amizade com todos nós para que pudesse trazer ao mundo as canções que tinha em mente. Foi um projeto interessante e me sinto muito feliz por ter feito parte dele.

11. Vivemos um momento peculiar e esquisito em que nos encontramos em meio a  uma pandemia, crises econômicas e sociais etc. Como você acha que esse conjunto de situações afetará futuras produções e movimentos culturais? Como produtor musical, como você encara esse momento?

Já pudemos ver o impacto de tudo isso nos últimos dois anos. Entre as pessoas, percebemos divisões não apenas físicas, no sentido de distanciamento, mas também politicamente, mentalmente e filosoficamente falando. Essas divisões parecem estar mais amplas do que nunca e, logicamente, isso cria focos de oportunidades para os artistas criarem algo muito especial. Contudo, sinto que estamos muito longe de onde precisávamos estar como indústria e como nação aqui no Reino Unido e, claro, globalmente também. Parece que o desastre iminente está apenas a um simples piscar de olhos. 

Às vezes, sentimos que algo catastrófico precisa acontecer antes que uma verdadeira mudança revolucionária ocorra, porque eu tenho esperado por uma revolução profissional, cultural e política há muito tempo, e ela simplesmente nunca chega. Continuamos repetindo a história várias vezes e cometendo os mesmos erros também várias vezes. Felizmente, a música é a maior de todas as drogas e podemos nos perder nela e usá-la como um veículo de mudança. Esse é o meu mundo e eu acredito no seu poder.

12. Você acredita que é possível um artista ser livre e criativo mesmo fazendo parte da indústria da música?

Com certeza. Nunca foi tão fácil como é agora, em 2022, ser criativo e livre para fazer suas próprias coisas, sem a necessidade de vínculos com corporações ou obrigações contratuais. Atualmente, você, literalmente, pode fazer o que quiser e, se tiver paixão por isso e, claro, pouca ou muita sorte ao longo do caminho, poderá fazer exatamente o que quiser e, além disso, também ter sucesso!

13. Há alguma banda que você está ouvindo atualmente que todo mundo deveria estar ouvindo também?

Bandas novas? Eu amo Mango, Genn, Golden Dregs, Penelope Isles, Pom Poko, Sophie Jamieson, Rachel Aggs, Pillow Spiders, Blue Luminaire, Warmduscher, C Duncan, Laura Groves e várias outras...

 



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