Fanzine Brasil

SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

domingo, 26 de agosto de 2018

GANGUE MORCEGO - UMA BREVE HOMENAGEM:

Por: Vannucchi

A estética singular e original que eles criaram está eternizada no álbum "Olhem Para As Ruas".
Quem acompanha atentamente a cena musical independente do Brasil, especialmente da vertente Dark, já deve ter ouvido o nome da Gangue Morcego. Infelizmente, estes mesmos indivíduos que estão sempre ligados nesse universo, certamente também foram informados de que, por hora, a  banda está oficialmente "separada"- os membros ainda mantém contato entre si, mas não durante um período de tempo indeterminado, não irão mais subir aos palcos.

A passagem deles pelo meio musical não foi tão longa, mas no espaço de tempo em que estiveram ativos, construíram uma arte qualificada, através da qual penetraram no coração de muita gente. A história da Gangue Morcego foi, e sempre será bela, inspiradora, e intensa. A banda nos deixou um álbum incrível e shows memoráveis. A estética singular e original que eles criaram está eternizada no álbum "Olhem Para As Ruas", um trabalho elogiável em todos os possíveis aspectos - desde as composições das letras, até a parte instrumental e a arte gráfica. Todos esses elementos que compõe o álbum funcionaram idealmente e resultaram numa harmonia brilhante. Sem sombra de dúvidas, a Gangue Morcego é uma das bandas mais caprichosas e arrebatadoras do atual cenário underground brasileiro e isso me parece indiscutível. Escreveram uma história linda e deixaram um presente maravilhoso para os apreciadores do Pós-Punk. Somos gratos por ter a música deles, já que atualmente vivemos num momento de uma imensa decadência e de uma infeliz padronização musical. Eles nos deram esperança através de sua legitimidade e qualidade. 

Presenciei apenas um show da banda (em minha cidade natal, Sorocaba) e foi uma experiência muito boa e marcante, que guardarei para sempre comigo. Sei que muitas outras pessoas também viveram momentos inesquecíveis proporcionados pela Gangue Morcego, seja através de suas melodias, letras ou shows. Está é uma breve nota que pretende  homenageá-los e mostrar o reconhecimento pelo trabalho deles. A despedida desses grandes e talentosos músicos não poderia passar despercebida na Fanzine Brasil. Sucesso aos músicos que deram vida a um dos universos mais fabulosos do Pós-Punk nacional.








SIOUXSIE AND THE BANSHEES - UMA BREVE ANÁLISE DA RELEVÂNCIA DA BANDA NO CENÁRIO MUSICAL:

Por: Vannucchi

Durante as décadas de setenta e oitenta, inúmeras bandas se destacaram em Londres, num período em que o cenário musical era especialmente caracterizado pelo contexto do Punk e do Pós-Punk. Dentre tais bandas, surgiu uma que se diferenciou por possuir uma mulher nos vocais. Eram eles: Siouxsie And The Banshees. A vocalista era ela: Siouxsie Sioux.  

 SATB, 26 Nov. 1980, California Hall, São Francisco. Foto de Chester Simpson.
Siouxsie Sioux, a “rainha punk” ou a “gótica mulher gato dos anos noventa”, foi responsável por representar um pouco de toda a atmosfera musical da cena. Sioux transpunha para o trabalho dos Banshees, uma dose de obscuridade hermética (o que, por favor, lembre-se, não faz dela uma gótica), unida com pinceladas de agressividade e de poesias singulares. E claro, sua imagem energética, um tanto desleixada, meio punk, meio não-punk, chamava a atenção da mídia. Mas Siouxsie representou muito mais do que quaisquer tipo desses (perigosos!) rótulos midiáticos e, assim, tornou-se um ícone cultural e um dos grandes nomes do Rock And Roll. 
Siouxsie Sioux - 1979.
 O primeiro álbum de estúdio dos The Banshees foi o The Scream, lançado em 1978. Esse trabalho, imediatamente já lançou a banda para o sucesso no ramo musical, fama que se estenderia muito firmemente durante toda a década de oitenta e também, posteriormente, culminando no final do grupo que ocorreu nos anos noventa. Neste período, além deste mencionado trabalho de estreia, foram lançados mais dez álbuns de estúdio, até o ano de 1995, momento em que o Siouxsie And The Banshees anunciou sua separação, embora viessem a se reencontrar e a tocar juntos na década seguinte (fato que, convenhamos, não deveria ter acontecido).  
 
Siouxsie And The Banshees é uma banda bastante influente, tendo sido referência para outros grandes nomes da música como, por exemplo, o U2, The Smiths, Radiohead & outros. Foram responsáveis por lançar grandes sucessos musicais como “Cities In Dust”, “Hong Kong Garden” e “Kiss Them For Me”, e sempre receberam bons elogios por suas produções. Não há dúvidas da relevância musical, do legado que os Banshees deixaram, e da intensidade musical e excelente trabalho que a banda fez durante toda a sua carreira, marcado por grande força sonora, com um instrumental bem intenso e, claro, nos vocais, uma mulher brilhante que, durante toda a sua trajetória musical, gritou e cantou suas vivências e emoções para o público, deixando sua marca na história da música.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

MY TIME SPENT WITH JESSIE EVANS


By: Juliana Vannucchi

“When a human awakens to a great dream and throws the full force of his soul over it, all the universe conspires in your favor". - Goethe. 
In early July I had the great opportunity to spend a few days at the home of singer-songwriter Jessie Evans, who currently resides in Ubatuba, on the coast of São Paulo, Brazil. Before I went there I didn’t know her personally so I was anxious and slightly apprehensive about meeting her, cause after all, I did not know exactly who I would meet and what our relationship would be like. Fortunately, everything went perfectly well and I was positively surprised by Jessie, who has such a big heart and is very kind.
During the time I spent with her, we talked about a lot of cool and normal things, like dreams, dogs, UFOs, Buddhism, football, politics, etc. I discovered that she and I have many things in common, and in a way, a very similar way of looking at and understanding existence. We have a very similar vision of the world. All of this was was great to realize since nowadays it is very rare to find people with an open mind, questioning, critical and non-alienated like Jessie.
A good time with friends
   I can assure you that she provided me very satisfying moments that I will keep with me for all the eternity. I discovered and explored wonderful things about her that were new to me. It was definitely very interesting to live in her world for a few days and absorb a little of it. It has done me good and it will help me grow and be inspired.

 I learned new things about her. I did not know, for example, that Jessie practiced Yoga in the mornings - admirable. I also did not know that she drove a VW van (the same as my friends). She also told me that David Bowie saved her life, and it happened in a deeply mystical way. I also found out a little about her mother’s life, who played drums and wrote wonderful poetry. I even read some that was compiled in a booklet. We also talked about Masaru Emoto's intriguing research, which shows how our emotions can affect the reality around us - this was a big surprise, how could I know that Jessie knew this researcher, which I really appreciate? 
Her art is a mechanism by which she seeks to bring joy to people
 
What I found was a cheerful person, immensely kind and welcoming, inspired by the subtlest details of life, a nature lover and one that gave me very pleasant moments. My brief living with Jessie Evans and her husband was enough to understand the reasons why her artistic productions are so profound, charming and contagious: because as she told me herself, her art is a mechanism by which she seeks to bring joy to people.
She's definitely one of the most authentic artists I've ever met. Her productions and her daily life are far from the media manipulation and marketing demands of the music industry. In other words, Jessie is not the kind of person who allows herself to be shaped by the numerous external impositions of the monstrous cultural factory that invents (pseudo) artists and creates songs in laboratories, always aiming for profit; she's not cliché, she's a real artist.
 At one point, on one of the several days of my stay in Ubatuba, I talked to a kind neighbor of Jessie who told me an interesting phrase, which I decided to write down immediately after listening, and which I want to share with the readers: “Nowadays, people only copy and don’t create". This phrase, unfortunately, translates this poor artistic-cultural context that prevails nowadays, in which originality is often replaced  by standardization. It is a period of decadence, in which there are much product and little truth, art is losing its aura, losing its space. But of course, there are still some truly talented souls to save us, as is the case with the exceptional Jessie Evans.
Official albuns

I do not see Jessie as a person to be idolized. I hate idolatry, because, inspired by the Nietzschean thinking, I believe that when we idolize something/someone tend to create idealizations and at the moment we idealize, we leave the real world, only to cling to illusions, and therefore idolatry can be harmful. It would be offensive to say that I see her like this (like an idol), even because a humble person like her would never put herself on a different level from the others. After all, Jessie also values and gives attention to others. Honestly, I believe she does not want to be idolized, she wants to be valued. And that's what she has of me: I value her. And before I value her as an artist, I appreciate the great human being she is, the sister who has become for me, the caring mother that she is in her daily life, the caring wife she is, and the adorable way she treats animals.
For those who are interested: For more information about the cultural industry, I suggest reading The Work of Art in the Age of Its Technical Reproducibility and general studies on the Frankfurt School, specially the thoughts of Theodor Adorno and Max Horkheimer. Understanding this subject helps - and greatly - to better understand what exists behind the scenes of the current music industry.

What a wonderful place...
Me in Ubatuba.

My cosmic sister and me.



I value her. And before I value her as an artist, I appreciate the great human being she is


Do you want to know more about Jessie Evans?   

Official Links:

Facebook: https://www.facebook.com/jessieevansmusic?__mref=message
Youtube: https://www.youtube.com/user/jessieevansmusic
Instagram: https://www.instagram.com/jessieevansmusic/
Site: http://www.jessieevans.net/
Bandcamp: https://jessieevans.bandcamp.com/album/glittermine

More articles:


https://whiplash.net/materias/cds/270773.html

http://www.audiograma.com.br/2017/05/interrogatorio-jessie-evans/

http://www.acervofilosofico.com/entrevista-exclusiva-com-jessie-evans

If you want to read this article in Portuguese, click on the link below: 
http://www.audiograma.com.br/2018/08/alem-do-som-meu-convivio-com-jessie-evans/
*This text was previously published in: www.audiograma.com.br



sábado, 12 de maio de 2018

ESCARLATINA OBSESSIVA LANÇA MÚSICA NOVA

Por: Juliana Vannucchi


Na primeira semana de maio, o duo Escarlatina Obsessiva, um dos maiores expoentes do cenário underground brasileiro, lançou uma música inédita chamada "Obaluaiyê". 
Foi a primeira faixa divulgada pelo duo em 2018, e ainda neste mesmo ano, em Julho, será lançado pela Deepland Records, um novo álbum de estúdio, que será o sétimo da carreira da Escarlatina Obsessiva. 
Karolina Escarlatina, baixista e vocalista da banda.

A música Obaluaiyê foi divulgada junto com um videoclipe inédito gravado na magnífica região de São Tomé das Letras, em Minas Gerais. Tanto o vídeo quanto a música mostraram-se imensamente originais, ousados e notavelmente qualificados. De acordo com informação do site oficial da banda: "O novo clip da nova música da Escarlatina Obsessiva traz surpresas e novidades na sonoridade/temática do novo álbum. A banda novamente entrou por um desvio de sua trajetória, e agora explora outros universos." 
 Nosso blog indica a música para todos aqueles que apreciam uma arte honesta, profunda a arrebatadora e também para os que apoiam a cena underground brasileira e, claro, mundial. 

sexta-feira, 2 de março de 2018

THE SCREAM: "SIGN THE BANSHEES: DO IT NOW"

Por Vannucchi

Algumas bandas, simplesmente conseguem êxito logo em seu primeiro álbum, e esse é o caso da Siouxsie And The Banshees. É uma imensa responsabilidade comentar sobre um clássico tão criativo e inovador quanto o The Scream, lançado em 1978 pela Polydor. Antes deste referido ano, o grupo londrino já havia conquistado alguns fãs e também retinha certa atenção da mídia. Entretanto, apesar dessa discreta (embora já relevante) presença dos Banshees no cenário musical e em solos londrinos, havia certa dificuldade em assinar com alguma gravadora, pois nessa época, muito material bom circulava por Londres e, assim, era preciso chamar a atenção para conseguir contrato.


https://i0.wp.com/www.audiograma.com.br/wp-content/uploads/2018/08/195a24b0.jpg?resize=418%2C331
                 "Assine com os Banshees: Faça isso agora".
 
Assim sendo, levando em conta o contexto local acima descrito, um fato ocorreu um fato marcante no início de carreira dos Banshees: um fã criou uma campanha de graffiti na cidade natal da banda, e pintou paredes de grandes gravadoras com as palavras "Sign the Banshees: Do It Now" (“Assine com os Banshees: Faça Isso Agora”). Por fim, os Banshees realmente conseguiram assinar um contrato e começaram a escrever sua trajetória. O The Scream foi gravado em apenas uma semana durante agosto de 1978, e mixado em três semanas, um curto período de tempo para um resultado tão brilhante. A formação para a produção do álbum era esta: Siouxsie Sioux (vocal), John McKay (guitarras e saxofone), Steven Severin (baixo) e Kenny Morris (bateria e percussão). Esse conjunto funcionou muito bem e a qualidade do álbum é simplesmente magnífica. Se comparado aos trabalhos posteriores do Banshees, notamos que The Scream carrega uma sonoridade mais violenta, característica herdada diretamente do Punk. A música de abertura, Pure, anuncia o clima visceral e contagiante do restante do disco. Essa faixa introdutória conta com um notável e envolvente toque de guitarra de McKay. O álbum segue com canções mais agitadas e agressivas e carrega verdadeiros clássicos da banda, como Mirage, Overground, Carcass e Metal Postcard. Possui ainda uma incrível versão de Helter Skelter do The Beatles, que, aliás, pode-se, sem grandes problemas, afirmar que ficou melhor do que a canção original de McCartney e Lennon.


Resultado de imagem para Capa original do The Scream (1978)
              Capa original do The Scream (1978).
 
As composições foram, em sua grande parte, escritas por Severin, Sioux e McKay. A maior parte das letras soa de maneira enigmática e não possui nenhum sentido estritamente explícito, sendo que esta seria uma marca de praticamente toda a carreira dos The Banshees, especialmente no que diz respeito às letras de Siouxsie Sioux. Além da considerável contribuição de McKay como compositor, o músico merece destaque pela presença espetacular de sua guitarra durante todo o álbum, e é possível afirmar que, em conjunto ao intenso vocal de Sioux, ele foi o grande destaque de The Scream. Seven e Morris também fizeram um trabalho digno de reconhecimento e seus instrumentos soam harmônicos e contagiantes em todas as faixas. Siouxsie, é claro, apresentava-se ao mundo com sua vigorosa presença vocal caracterizada por um tom sublime e atraente.
 
O The Scream foi inovador e ilustre em sua totalidade. Curiosamente, vale citar que o álbum foi destaque no popular livro 1001 Albums You Must Hear Before You Die (“1001 Álbuns Que Você Deve Escutar Antes de Morrer”). E com certeza, você deve escutar antes de morrer, essa é uma boa dica... 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

IAN CURTIS E SEUS PRAZERES DESCONHECIDOS


Por: Vannucchi


No dia 18 de maio de 1980, Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division, enforcou-se em sua residência aos 23 anos. Antes do ocorrido assistiu a um filme do genial cineasta alemão Werner Herzog e escutou o álbum The Idiot, de Iggy Pop. Era mais um caso de suicídio envolvendo um músico de sucesso. Certamente você deve estar se perguntado quais foram as causas para esse trágico acontecimento. É impossível afirmar, pois a mente e as emoções Ian não nos pertencem e jamais teremos com dizer por absoluto o que o levou a tirar a própria vida.  Alguns se atrevem a especular a situação proferindo que o vocalista não suportava seus ataques epiléticos. É bem possível que isso o tenha influenciado, mas, repito: não podemos postular nenhuma causa do incidente de maneira absoluta. Dessa forma, Ian Curtis se foi deixando para nós um precioso legado musical caracterizado por imensa sensibilidade e por um lirismo perigosamente denso.

O SENTIMENTALISMO EXISTENCIAL NA OBRA DE IAN CURTIS:

O primeiro álbum de estúdio lançado pelo Joy Division é considerado por muitos com o primeiro disco de Pós-Punk. Isso demonstra grande inovação técnica e criativa. Se não foi o primeiro, certamente um dos primeiros. E há um ponto interessante a ser destacado no posicionamento de Ian diante do contexto que o cercava naquele período: em suas letras, ele abordava questões humanas profundas e intrínsecas, que permeiam pelo coração e consciência de um homem. Isso o diferenciava do que acontecia no período em que sua banda eclodiu porque naquele momento, o Punk era o movimento musical que dominava o mercado e que focava suas letras em problemas urbanos e temas sociais e políticos. Ou seja, Ian Curtis rompeu com essa temática no momento em que impôs seu espírito bayronista como motivação de suas criações artísticas. Essa atitude de Ian significou uma ruptura na história da música e simbolizou as portas de entrada para uma estrada melancólica do Rock And Roll (pós-punk/gótico).


As letras que Ian escrevia eram sombrias e pessimistas aos olhos da maior parte das pessoas que as liam. Lembra-me de Arthur Schopenhauer que, até hoje, é taxado como um filósofo pessimista. Certamente há uma semelhança entre ambos, pois tanto Curtis quanto o pensador, propuseram-se a retratar os lados negros e a dor da existência humana. Eles empenharam-se a sair debaixo da segurança da luz e das proteções que ela nos oferece, e experimentaram explorar corajosamente a miséria e a dor da nossa condição. Reconhecer o lado escuro do se humano os proporcionou associações com o pessimismo. Certa vez, o músico fez uma declaração importante a respeito de suas composições: "Escrevo sobre as diferentes formas que diferentes pessoas lidam com certos problemas, e como essas pessoas podem se adaptar e conviver com eles". Isto é, Ian Curtis, de fato, reconhecia os problemas que permeavam pelo mundo, e não os negava.

Além dessas observações em sua maneira de escrever, é válido ressaltar que o jovem compositor teve algumas influências para moldar esse perfil. De acordo com uma biografia escrita por sua viúva, ele foi fortemente influenciado por nomes como Nietzsche, Rimbaud, Oscar Wilde, Aldous Huxley, Sartre e Dostoiévski. Ian Curtis foi um híbrido de todos estes ídolos. Parece ter herdado o “amor fati” do primeiro, a aventura do segunda, o sarcasmo de Wilde, a postura reflexiva de Huxley, de Sartre e do escritor russo, certamente uma visão angustiante diante da realidade. Uma série de gênios que formou um outro gênio. Certamente sua retração e sensibilidade emocional fizeram de Curtis mais um artística enigmático e um tanto complexo de ser compreendido. Sua dança no palco era feita com singularidade, repleta de movimentos espalhafatosos e um tanto quanto desengonçados. Era uma forma de ironizar seu pior inimigo: o ataque epilético. Isso é bem nietzschiano.

 “ISTO NÃO É UM CONCEITO, É UM ENIGMA”:

A imagem da capa de “Unknown Pleasures” é intrigante. Foi feita por Peter Saville e Chris Mathan, mas foi Bernard Sumner quem teve a ideia da imagem. Trata-se de um de gráfico do sinal de rádio captado por um radiotelescópio do pulsar PSR B1919+21, a primeira estrela de nêutrons descoberta. Isto é, a imagem consiste numa visualização monocromática das ondas eletromagnéticas emitidas por uma estrela enquanto ela morria.

Na contracapa do álbum, consta a seguinte sentença: "Isto não é um conceito, é um enigma". É uma frase que possibilita nossa mente a viajar por inúmeras possibilidades. Talvez seja uma alusão à nossa própria jornada de pensamento. Será que é possível conceituar o mundo ou a tentativa de formular respostas sempre nos levará, inevitavelmente a problematizar algo novo, nos prendendo a dúvidas circulares? É filosófico e bastante intrigante. Para o filósofo Hegel, o mundo poderia ser sistematizado racionalmente. Schopenhauer o criticou colocando em destaque um aspecto que não pode ficar de fora de quaisquer afirmativas quanto ao mundo: a emoção. Portanto, para este última pensador, não podemos simplesmente tentar enquadrar a natureza em um sistema lógico deixando de lado as nossas próprias sensações particulares e experiências sensíveis.

Ou talvez, Ian não tenha tentativo dizer absolutamente nada do que foi mencionado acima. Pode ser sido apenas uma frase... algo relacionado com o cosmos ou com a morte de uma estrela.

*Texto anteriormente publicado em: www.acervofilosofico.com.br

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

IGGY POP: O GÊNIO INDOMÁVEL DO ROCK AND ROLL

Por: Vannucchi

O que, afinal, é o Rock And Roll? Como podemos defini-lo? Alguns dizem que é absolutamente tudo. Outros dizem que é liberdade. Alguns afirmam que é rebeldia e há quem diga que é apenas barulho. Qualquer definição que o Rock And Roll possa vir a ter, esta, certamente foi representada por Iggy Pop. O músico incorporou todo o espírito do Rock durante toda a sua carreira. Ele foi absolutamente tudo! Criou álbuns que soam distintos uns dos outros, tendo sido versátil, representou a liberdade quando não se importou com críticas e julgamentos, vivendo dentro de sua insana e poética natureza, foi rebelde quando rompeu paradigmas e demonstrou sua fúria, e também fez muito, mas muito barulho. 
 
Iggy Pop é uma lição sobre a essência do Rock And Roll. Sua energia vital e sua maneira de conduzir seus shows serviram de influência para milhares de cantores e bandas póstumas. Por mais que ele possa ser odiado, ele merece reconhecimento. De um garotinho tímido e quieto que foi em sua infância, tornou-se um furacão que se alastrou pelo mundo todo. Com apoio de David Bowie, cresceu cada vez mais como músico, tendo se destacado com os The Stooges, e também em sua carreira solo, na qual deixou legados elogiáveis como “The Idiot”, “Lust For Life”, “Beat 'Em Up”, “Avenue B”, entre outros. Se você, leitor, ainda não se deu ao luxo de mergulhar no som de Iggy Pop, anote os nomes dos álbuns mencionados logo acima, e manda bala!

* Texto anteriormente publicado no site Whiplash.




 

SEX PISTOLS: A QUALIDADE QUE O SENSO COMUM IGNORA (ou não percebe):

Por: Vannucchi e Marinho

O Sex Pistols sempre foi alvo de controvérsia. Mas a maior parte das críticas direcionadas à banda, são essencialmente vazias e desprovidas de justificativas e embasamentos históricos. Há de se levar em conta inúmeros fatores que nortearam o surgimentos da banda (contexto político, social, ideologia, aspectos musicais da época, objetivo da banda, etc).

No entanto, aparentemente, a maior parte das pessoas que ataca o Sex Pistols com clichês, tais como dizer que eles são mero "produto comercial" ou que são uma "farsa da música", esquecem-se de considerar em suas críticas, vários detalhes importantes sobre a banda.

Dificilmente alguém menciona/recorda/conhece/considera, por exemplo, o fato de que as letras ácidas do Sex Pistols criticavam árdua e diretamente a rainha da Inglaterra que, até então, era odiada por muitos cidadãos, embora quase ninguém se atrevesse a enfrentá-la ou tampouco, dirigir-se a ela. A apatia pela monarquia e pelos valores conservadores foi uma marca explícita da banda. Logo, se há algo que pode ser considerado válido no Sex Pistols, é o cunho político e social das composições. E é válido ressaltar que quando se avalia um objeto (artístico, por exemplo), há de se considerar seus inúmeros elementos, e não apenas detalhes tendenciosos específicos.

Como consequência da bagagem de suas letras, a banda foi notável porta-voz de uma nação. Podemos considerar o seguinte fato como prova disso: na época do lançamento de "Never Mind The Bollocks, Here Is Sex Pistols", o governo britânico proibiu a venda do álbum, de forma que adquirir um exemplar era praticamente contrabando. É o que costuma acontecer quando o poder é afrontado diretamente, e quando há uma arte potencialmente capaz de tirar os indivíduos de suas zonas de conforto.
Como consequência da bagagem de suas letras, a banda foi notável porta-voz de uma nação.
E claro, quando se fala sobre o Sex Pistols, não pode passar branco um detalhe valioso: a banda nunca quis ser brilhantes em termos técnicos. E um dos principais motivos para a banda ser tão odiada é exatamente devido a tal fato, pois a simplicidade provocativa e proposital tornou-os alvo de ataques por parte de músicos e críticos de cunho conservador e ortodoxo. Entretanto, atingir as pessoas, era exatamente o objetivo do minimalismo da banda. Há uma entrevista na qual Johnny Rotten afirma que o principal objetivo dos Sex Pistols era acabar com o Rock, e quando eles perceberam que estavam se tornando uma moda desse próprio gênero musical, eles se separaram.

Logo, os clássicos ataques do tipo: "mas eles só tocam três acordes", “mas eles são minimalistas”, praticamente perdem qualquer sentido lógico considerável. O Punk Rock nasceu como uma ressaca do Rock Progressivo. Todo o movimento Punk provou e tentou mostrar objetivamente que três acordes podem ser suficientes para se criar música e até mesmo para se obter sucesso. Assim, é preciso levar em conta a intenção conscientemente objetiva do Pistols.

E um detalhe válido: os membros iniciais da banda (Johnny Rotten, Paul Cook, Steve Jones e Glen Matlock) eram típicos rebeldes críticos da realidade que os cercava no contexto da época. Eles carregavam uma ideologia, eles estavam frustrados por causa da quantidade de lixo que havia pelas ruas de Londres e também se sentiam descrentes devido ao alto índice de desemprego que permeava pelo país. E nada disso foi uma farsa, era apenas a maneira como pensavam e se comportavam.

Malcon McLaren surgiu apenas como um catalisador. O estilista foi um visionário. Quando conheceu os futuros membros do Pistols, disse a eles que deveriam formar uma banda, e então, os quatro rebeldinhos revoltados viram a chance de expressar publicamente tudo que só diziam em casa, entre amigos e na Sex (loja de Malcon que era um clássico ponto de encontro de jovens deslocados ou insatisfeitos com seus cotidianos). Aliás, uma das críticas constantemente feitas à banda e que chega a ser cômica por sua futilidade, é o fato de que Malcon supostamente escolhia ou criava as roupas dos membros do Sex Pistols. Como se inúmeras outras bandas/músicos do Rock And Roll não vestissem peças extravagantes ou aproveitassem profissionalmente seus visuais (sendo que esses muitas vezes eram confeccionados por estilistas).

Portanto, para criticar ou se posicionar em relação a qualquer coisa, é necessário embasamento reflexivo/argumentativo e desvinculação com qualquer tipo de especulação provinda do senso comum. Dizer o que todos dizem é inércia, pensar o que todos pensam é uma forma de alienação. É preciso, no mínimo, considerar os inúmeros aspectos acima mencionados antes de afirmar falaciosamente que o Sex Pistols é "ruim". 

* Texto anteriormente publicado no site Whiplash. 

SEX PISTOLS: UM FENÔMENO SOCIAL

Por Vannucchi

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história. Representantes ávidos do gênero Punk, eles conduziram a ideologia de uma geração e, mesmo tendo lançado apenas um álbum de estúdio (Never Mind The Bollocks), tornaram-se influentes o suficiente para não serem mais esquecidos. Eles levaram consigo a alma rebelde do Rock And Roll (que existia já em seu primórdio), criaram um estilo musical de seus gostos, sem se preocupar com possíveis condenações midiáticas, e buscaram sempre, se expressar livremente, independente do que viessem a dizer.

Embora haja controvérsia, a maior parte da crítica especializada afirma que os Sex Pistols foram o grupo responsável pela introdução do gênero Punk Rock (tanto como música, quanto movimento no Reino Unido). Isso aconteceu em 1975, quando a banda foi formada em Londres, composta inicialmente pelo vocalista Johnny Rotten, o guitarrista Steve Jones, o baterista Paul Cook e o baixista Glen Matlock. Matlock foi substituído por Sid Vicious no início de 1977. O sucesso musical que obtiverem, foi conduzido por um nome bem familiar na história da música: Malcolm McLaren. O empresário os notou e enxergou potencial na rebeldia do grupo. Aliás, essa rebeldia, certa tarde, invadiu os lares da maior parte das famílias da Inglaterra, através de um programa televisivo. Narremos aqui um dos dias mais inesquecíveis (e brilhantes) da história do Rock And Roll: 1 de dezembro de 1976, Siouxsie Sioux (que posteriormente se destacaria com seus Banshees), os Pistols e outros punks, participavam de um dos programas de maior audiência da TV inglesa, levado ao ar às cinco da tarde, a famosa “hora do chá”, em que famílias concentram-se frente à TV. E então, durante a transmissão do programa, pela primeira vez na história, a expressão "Fuck Off" (Foda-se) é dita diante das câmeras. O protagonista da história só podia ser Johnny Rotten.

Pouco depois de o Sex Pistols dar as caras no cenário musical britânico, bandas semelhantes começaram a surgir e o movimento Punk, foi se alastrando pelo país e, consequentemente, por outros lugares no mundo. Rotten, certa vez, comentou o motivo social que levou o movimento a eclodir com tamanha intensidade: “A Inglaterra no início da década de 1970 era um lugar muito deprimente. Estava completamente degradada, havia lixo nas ruas, desemprego total, praticamente todos estavam em greve... Todos foram criados em um sistema de educação que deixava bem claro que se você veio dos subúrbios, você não tinha mais a menor esperança e nenhuma perspectiva de emprego. Foi daí que surgiu a minha pessoa pretensiosa e os Sex Pistols e depois de nós uma série de imitadores imbecil”.

Portanto, os Sex Pistols representaram (e ainda representam) o sentimento de fúria e revolta de muitos jovens que sentiam-se reprimidos e incapazes de construir um futuro promissor. “E ainda representam”, significa dizer que muitas pessoas ainda carregam esse sentimento e, com certeza, os Pistols ainda fazem sentido no cotidiano de muitas pessoas.

No jubileu de prata da rainha Elisabeth II, que completava 25 anos no poder Inglaterra, a banda lançou o compacto de "God Save The Queen". Um presente inusitado para a rainha, e que deixava bem clara a insatisfação da banda com o regime que estava no poder. Muitos britânicos (por mais que alguns não assumissem) abraçaram a letra e sentiram-se aliviados por alguém, finalmente, estar condenando o poder. Era uma crítica ousada que carregava trechos como "não há futuro na Inglaterra” ou “Deus salve a rainha, seu regime fascista”.

Foi uma banda polêmica e controversa. Odiada por muitos, amada por muitos outros. Mas foi mais do que uma reunião de jovens rebeldes reunidos para fazer Rock And Roll, foi um verdadeiro movimento social que influenciou jovens de todo o planeta, e que, até hoje, conquista seguidores e fãs. Os Pistols foram corajosos, e isso já é o suficiente para torná-los bons.

"…Never Mind The Bollocks, todos concordam, é um dos melhores discos do século XX." Pete Townshend (Guitarrista do The Who /Q Magazine - junho/96).

* Texto anteriormente publicado no site Whiplash.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

PETUR HALLGRIMSSON:

 Por: Vannucchi

Na primeira semana que passei em Londres, em outubro de 2015, tive a felicidade de conhecer e assistir a apresentação de um músico brilhante: Petur Hallgrimsson. Recentemente, ele bateu um papo comigo e o Audiograma publicou o resultado dessa conversa. Agora, a Fanzine Brasil, tem a honra de reproduzir o material. CONFIRA!

1. Petur, você pode nos contar um pouco sobre como começou sua carreira musical?
Comecei a tocar numa garagem quando ainda era adolescente.

2. Quais instrumentos sabe tocar?
O que mais toco é guitarra. Mas também já toquei lapsteel/pedalsteel, além de ukulele e banjo em apresentações ao vivo.

3. Sabemos que você aprecia musicas brasileiras. De quais bandas e cantores você gosta? Como conheceu a música brasileira?
Tom Zé, Os Mutantes, Pedro Santos, Marcos Valle, Joyce, Caetano e muitos outros.

4. Você conhece bastante gente na Europa que aprecia música brasileira? Ou acha raro encontrar alguém que goste?
Sim, acho que todo mundo por aqui conhece Bossanova e gosta e de música brasileira.

5. De que outros tipos de música você gosta? Poderia citar alguns cantores e bandas?
Meus artistas favoritos são o Television/Tom Verlaine, Tom Waits, David Bowie, John Fahey, PJ Harvey, Nick Cave… e outros.

6. Faz quanto tempo que você toca com John Grant? Vão fazer turnê em 2017?
Não haverá nenhuma turnê com ele em 2017…

7. Algum plano de virem para a América Latina?
Eu tenho certeza de que vamos para a América Latina. Só estivemos aí uma vez!

8. No livro “Rumo à Estação Islândia”, escrito por Fábio Massari, há uma página na qual você é mencionado. Como isso aconteceu? Como você conheceu o Fábio?
Eu conheci o Fábio na Islândia, ele estava visitando o país para assistir alguns shows e, na ocasião, eu estava tocando em muitas apresentações em Reykjavik, ao lado de pessoas diferentes. Ele é um cara legal e foi divertido sair com ele!

9. Eu não conheço muito sobre as músicas islandesas. Você poderia sugerir algo para mim e para os leitores que também não conhecem o som do seu país?
Primeiramente, sugiro que conheça uma banda chamada Sigur Ros, (eu participei do no álbum Ágætis byrjun). Também indico Sóley, Samaris, Amina, Ólöf Arnalds…

10. O que você acha da atual indústria musical? Há muita padronização nas musicas atuais?
Na verdade eu não penso sobre as músicas padronizadas.

11. Com a internet, ainda existe espaço para formatos como Cds e LPs? A internet é uma ameaça ou ela ajuda na divulgação?
Eu não tenho certeza… Eu sou muito “old school”… Eu sempre comprei LP’s e até hoje continuo comprando.

* Texto anteriormente publicado no site Audiograma. 

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