Fanzine Brasil

SIOUXSIE SIOUX - SOPROS DE VIDA

Grandes homens, assim como grandes tempos são um material explosivo interior do qual uma força imensa é acumulada (....)

“DISCO DA BANANA”- A OBRA PRIMA IGNORADA

Eu sabia que a música que fazíamos não podia ser ignorada

SEX PISTOLS - UM FENÔMENO SOCIAL

Os Sex Pistols foram uma das bandas de Rock mais influentes da história.

ATÉ O FIM DO MUNDO

Com custos acima de mais dez milhões de dólares, é um filme encantador, artístico, típico das obras de Wim Wenders, realmente, é uma obra fascinante, mais uma certo do diretor alemão.

AFINAL, COMO SURGIU O CINEMA?

Um breve questionamento e historio sobre o assunto.

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WOLF CITY - AMON DUUL II

Wolf City é um dos maiores clássicos do Rock Progressivo. É um álbum que celebra magicamente este gênero musical, e que é foi gravado por artistas imensamente talentosos

domingo, 5 de março de 2023

RUÍDO QUE DESORGANIZA: CONHEÇA O NOVO EP DO BALLET CLANDESTINO

 Por Juliana Vannucchi

A cena brasileira de música independente segue em alta com o surgimento constante de novas bandas e com a persistência de grupos tradicionais, como o Ballet Clandestino, que com mais de uma década de carreira, permanece consistente nos palcos e firme na qualidade de suas produções musicais. 

Em 2012, enquanto muitos conspiracionistas se preparavam para o fim dos tempos, o Ballet Clandestino se preparava para dar os primeiros passos de uma carreira musical bem sucedida. Era o início de uma trajetória longa, que está completou dez anos em 2022. 

A banda surgiu no meio das sombras e da atmosfera funesta do caos urbano que rege a cinzenta capital paulista. No início, o grupo era composto por Vinícius Primo (guitarra e voz), Natan (baixo e voz) e Cecília (bateria). Não demorou muito para que a baterista fosse substituída por Rocero e este, por sua vez, deixou o trio em 2019, quando Tiofrey assumiu as baquetas. 

Desde os primórdios, gradualmente a banda foi crescendo e se consolidando como uma das principais representantes do pós-punk nacional. Na bagagem, o Ballet Clandestino carrega uma discografia composta por 4 EPs, todos lançados em formato físico. De modo geral, as músicas mesclam distorções e ruídos com versos reflexivos sobre o cotidiano nas grandes cidades e seu desfecho existencial. Nas letras, de maneira geral, encontramos temas politizados e sentimentais, como menções ao tempo que se esvai no trabalho sufocante e mecânico que tange o sistema capitalista, além de menções ao visual mórbido do meio urbano e referências ao consumismo desenfreado, à solidão, etc. 

Neste início de março, a banda paulistana, uma das mais icônicas da história do pós-punk nacional, presenteou os fãs com o lançamento de seu novo EP, intitulado “Ruído Que Desorganiza”, nome originado a partir de uma faixa chamada “Ruído”. Vinicius Primo, guitarrista e vocalista do Ballet Clandestino, explica o significado do título: “É um nome que, de certa maneira, sintetiza um pouco a nossa intenção enquanto criadores de música (ou ruído). Além do que, nesse momento de crescente avanço das ideias conservadoras, temos que ser o ruído, ou seja, aquilo que incomoda, que desorganiza. Temos que ser a subversão desses valores que oprimem e esmagam quem nasceu pobre”.

 A última produção original da banda data de 2020, ano em que o trio se afastou dos palcos em função da pandemia. Esse período, contudo, não foi infrutífero, pois os integrantes continuaram ativos em suas casas, esboçando ideias de riffs, de letras e esboços para novas faixas. Consequentemente, o lockdown teve reflexos diretos no EP de 2023, conforme nos contou Vinicius: “O último EP que lançamos foi em 2020, durante a pandemia, e de lá pra cá, como não estávamos fazendo shows e nem ensaiando, devido às restrições da pandemia, acabamos cada um na sua casa tendo várias ideias que estavam soltas e, conforme fomos retomando os ensaios, começamos a dar continuidade a esses riffs, vendo o que seria mais legal, o que fluía melhor, até realmente concluir uma música com letra e tal. Óbvio que no meio de tudo isso alguns riffs foram descartados, outros perdidos (rsrs) e outros optamos por não usar”. Natan, baixista do grupo, considera que esse foi o trabalho mais bem gravado da história da banda, embora também, justamente em função da pandemia, tenha sido o mais longo e doloroso: "Os ensaios foram espaçados e tomamos os cuidados necessários para evitar uma possível transmissão da covid. Longos ensaios deram origem a um grupo de músicas, elegemos os quatro sons para a gravação. O resultado final superou nossas expectativas". 

 

O Ballet Clandestino segue firme como uma das bandas mais duradouras, cults e interessantes do pós-punk nacional
 

Para dar vida ao EP “Ruído Que Desorganiza”, a banda procurou Luis Tissot, que já havia produzido os 2 EPs anteriores (“Impróprio Necessário”, de 2018, e “Descompasso Cinza”, de 2020) e que ao ser contatado pela banda, logo sugeriu que o grupo gravasse o novo material no Estúdio Aurora. A esse respeito, Vinicius comentou: “Pra mim, o fato de termos tocado lá, juntamente com a produção do Luis, foi uma combinação ideal que fez toda a diferença no resultado final”.

 De modo geral, a sonoridade do álbum lembra o New Order em seus primórdios, mas é mais sombria e menos eletrônica do que as produções embrionárias da banda inglesa. Mesmo com essas diferenças, nada nos impede de apelidar o Ballet Clandestino de “New Order Tropical”, sem deixar de esclarecer, no entanto, que a banda brasileira é mais charmosa, possui linhas de guitarra mais cativantes e é, definitivamente, mais intelectualizada do que os britânicos. Para Tifery, baterista da banda, esse é "o álbum mais criativo e corajoso do Ballet Clandestino. A gente tentou coisas diferentes, buscou algumas outras influências e o resultado foi bem satisfatório". Nas letras, percebemos um desabafo sentimental pautado em preocupações sociais, dramas existenciais e problemas urbanos. De acordo com os integrantes, as canções centram-se em assuntos diversificados e não possuem nenhuma conexão temática entre si, sendo que todos os integrantes participaram ativamente da composição lírica. Sobre esse aspecto do álbum, Vinicius declarou: “As letras se deram de forma subjetiva e bastante poética, para expor nossas aflições em relação ao que nos incomoda no dia a dia, nesse modus operandi do mundo”. Natan, refletiu sobre o conceito de "ruído" em meio ao contexto cotidiano da capital aulista: a buzina de um carro diz se podemos avançar ou parar, a sirene de uma ambulância sinaliza atenção, um trovão é o prenúncio de que vai chover, então corra! Ou pegue um guarda-chuva. As palavras em coro em uma manifestação na avenida Paulista falam sobre lutas, reivindicações por melhorias. São barulhos, são ruídos que bloqueiam, sintonizam, organizam e desorganizam. Os sons que as cidades apresentam dizem muito sobre ela, e sua ausência pode significar alguma repressão. Escute o barulho da cidade, escute Ballet Clandestino. 

 

Capa do novo EP da banda

O EP é empolgante e suas faixas enérgicas mantêm a clássica assinatura dark e funesta que sempre acompanhou o grupo ao longo de seus dez anos de existência. As músicas são tão melancólicas que temos a impressão de que a composição foi feita com auxílio de Arthur Schopenhauer, enquanto o filósofo esboçava as primeiras linhas do livro “As Dores do Mundo”. Em “Ruído Que Desorganiza”, encontramos uma sequência de melodias saborosas e, apesar do clima sombrio, as atraentes linhas de guitarra portam aquela tradicional selvageria punk. Esse conjunto faz qualquer coração instintivamente se agitar, reagindo espontaneamente às emoções desencadeadas pelas músicas da banda. 

Com essa nova produção digna de elogios, o Ballet Clandestino segue firme como uma das bandas mais duradouras, cults e interessantes do pós-punk nacional, que em sua genética carrega a resistência, o talento e a criatividade. Os trabalhos da banda despertam um interesse cada vez mais crescente, e a sua contribuição legada ao universo da música independente é digna de administração. Precisamos reconhecer o êxito do Ballet Clandestino, que evolui cada vez mais, tanto em relação às gravações e produções, que contam com uma qualidade refinada, quanto em relação aos shows realizados, que têm  uma adesão cada vez maior por parte do público brasileiro. Perguntei a Natan o que podemos esperar da banda no restante do ano. A resposta do baixista foi segura e repleta de entusiasmo: "Pretendemos ir o mais longe possível com a música, tocar em espaços onde ainda não tocamos. Queremos tocar fora de São Paulo e até o final do ano esperamos que esse projeto aconteça". O novo da EP da banda está disponível nas plataformas digitais.

MARC BOLAN: O DANÇARINO CÓSMICO

Por Juliana Vannucchi

Marc Bolan sempre foi conhecido por ser um exímio guitarrista. Seu primeiro contato com o instrumento se deu aos 9 anos de idade e, nessa faixa etária, o futuro vocalista do T. Rex fascinou durante algum tempo os colegas de escola, até ser expulso por suas posturas reprováveis. Esse talvez tenha sido o primeiro público que ele conquistou com seu talento. Fora dos limites desses muros da escola que reprovou seu comportamento, havia um mundo todo aguardando por ele.

Em 1967, um dos anos mais especiais da história do rock, em que os EUA viviam a experiência do “summer of love”, e bandas experimentais como o Velvet Underground despontavam, surgiu o grupo Tyrannosaurus Rex, que logo se tornou o “T.Rex”. E foi precisamente com o T.Rex que Bolan tornou-se uma lenda atemporal, atingindo o ápice de sua carreira no início nos anos setenta, período no qual a banda se tornou um verdadeiro sucesso comercial. Visualmente falando, a estética da banda foi especialmente marcada pela extravagante sensualidade androgênica do vocalista, que em seu figurino abusava do glitter, do brilho e das cores. Bolan sacudiu os anos setenta londrinos e parecia ter vindo de outra dimensão para oferecer ao mundo um estilo musical e performático altamente criativo, que atravessou o tempo como uma flecha e que ainda atinge o coração de várias gerações. Vale lembrar que nos bastidores do estrondoso sucesso do T. Rex estava Tony Visconti, “guru do Glam”, que trabalhou com outras lendas do gênero, como Bowie e Sparks, e que chegou a declarar que, ao ver Bolan pela primeira vez, o que viu foi “um verdadeiro gênio”.

 

Bolan, o rei do glitter, criou riffs de guitarra memoráveis
 

Bolan chegou a acompanhar de perto os primeiros passos do punk rock. O T. Rex fez, inclusive, uma turnê com o The Damned, em 1977. Ademais, o músico chegou a apresentar publicamente a banda Generation X, antes de uma apresentação do T.Rex, e na ocasião enalteceu carismaticamente a figura de Billy Idol. Também acompanhou de perto e atenciosamente o primeiro show dos Ramones em solo britânico. Não à toa, o T.Rex faz parte das clássicas bandas de protopunk, que são aquelas cujo legado reverberou fortemente nas produções dos primeiros materiais e shows de grupos punk.

Marc Bolan, que era grande fã do rebelde James Dean, faleceu tragicamente num acidente de carro apenas quinze dias antes de completar trinta anos. O veículo era dirigido por sua parceira Gloria Jones, com quem o vocalista do T.Rex teve um filho, nascido em 1975.


Referências:

https://amp.theguardian.com/culture/2011/jan/30/underground-arts-60s-rebel-counterculture

https://www.theguardian.com/music/2015/feb/09/tony-visconti-marc-bolan-was-raw-talent-i-saw-genius

https://www.theguardian.com/music/2020/sep/04/marc-bolan-perfect-pop-star-t-rex-singer-tribute-album-elton-john-u2

https://amp.theguardian.com/tv-and-radio/2017/sep/16/marc-bolan-cosmic-dancer-review-bbc4-documentary

domingo, 5 de fevereiro de 2023

EXPOSIÇÃO DE ARTE: AMAZÔNIA EM FOCO

 Organização: Juliana Vannucchi. 

Colaboração: Camilo Nascimento

A floresta amazônica, em suas tantas dimensões possíveis, é o tema da exposição deste ano. Os artistas convidados para participar do projeto, tiveram liberdade para explorar, através de suas próprias linguagens, os inúmeros elementos que compõem a floresta e suas ricos aspectos, tais como sua variada biodiversidade (águas, plantas, rochas, animais), os povos originários da região, crises ecológicas, etc. 

Nossa intenção é homenagear poeticamente a floresta que, certamente, é uma das maiores honras do nosso país. É importante esclarecer que este projeto carrega também um pano de fundo crítico que leva em conta as diversas ameaças que assolam esse importante espaço, prejudicando as espécies locais e comprometendo sua paisagem.  

Entendemos que a floresta amazônica é um solo sagrado. Um verdadeiro templo de mistérios e encantos nos quais sonhos e realidades se confundem. Suas dádivas são vitais para qualquer indivíduo, de qualquer canto do globo, e talvez representem uma fresta de esperança para um futuro mais harmônico e pacífico. 

Vale lembrar ao visitante que nossa exposição é movida pela militância artística: nunca nos esqueçamos de lutar pela conservação da floresta e de nos posicionar contra as diversas agressões que ela vem sofrendo nos últimos anos. O compromisso ecológico é de todos nós. Convidamos Big Paul Ferguson, ilustre baterista do Killing Joke, para refletir a respeito da importância de exposições artísticas como esta e para meditar sobre o significado da militância em prol da floresta amazônica. O músico britânico, nos disse as seguintes palavras: 

"Nunca estive na Floresta Amazônica. Talvez eu nunca esteja. Meu próprio país já foi densamente coberto de árvores, muito antes do meu tempo, e estava cheio de vida selvagem há muito desaparecida. Mas quando eu era criança adorava a floresta, era algo mágico. Fiquei triste ao vê-la diminuir lentamente, ano após ano, à medida que as árvores davam lugar às necessidades humanas. Subúrbios, estradas, lojas, crescimento humano e a necessidade de conforto prevalecendo sobre a natureza que alimenta a alma e a abundância de formas de vida. As árvores quase desapareceram agora. Uma tragédia, não para mim, mas para a diversidade da vida.

Parece que não nos importamos o suficiente com os animais em nossa crença de que reinamos supremos e que a ciência e a pecuária industrial são suficientes para nos sustentar. Uma vez que o crescimento antigo se foi, ele não pode ser substituído e agora sabemos o suficiente para perceber a importância dessa maravilha da natureza. Então, como podemos permitir que empresas comerciais privem as gerações futuras do que é conhecido como o pulmão do planeta? Como isso pode ser tolerado? Com toda a degradação ambiental que os humanos estão infligindo ao nosso planeta, talvez seja ingênuo pensar que a ganância pode ser restringida pela consciência. Ou que a empresa comercial jamais terá a clarividência de reconhecer que nunca compreenderemos toda a complexidade da vida. Salve a Floresta Amazônica. Pare as incursões".


TELAS E EXPOSITORES

 

Terras Indígenas 

(Thiago Rocha)

  ***

Resiliência 

(Ana Duarte)

 ***

Dança das Cataratas do Jardim 

(Alejandro Gomez)

 ***

Distopia

(Erica Iassuda)

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Terra Amada, Gigante do Mundo 

(Edelcio Ipanema)

***

Nome popular: Tucano. Nome científico: Ramphastos tocco 

 (Carla C. Andrade Oliveira)

***

  Pensamentos 

(Carlos Zabala)

 
Outra artista convidada para refletir sobre o tema foi Danielle de Picciotto, da banda Hackedpicciotto, formada com o marido Alexander Hacke: 
 
"Quanto mais velha fico, mais eu percebo como a natureza está interconectada com os seres humanos. Eu me tornei mais sensível em relação a como estamos destruindo nosso planeta e, simultaneamente, aniquilando assim a nossa própria espécie. Existe um ditado que diz:“Você é o que você come”. Isso é muito verdadeiro e muitos problemas médicos que existem hoje são causados pela comida manipulada que consumimos, feita com açúcar branco, farinha branca, carne com antibióticos promotores de crescimento e peixe envenenado por microplástico que nossa civilização vende como nutrição. Assim como estamos nos envenenando, estamos matando nosso mundo. Muitas das catástrofes naturais que estão acontecendo são resultado do desmatamento, que está interligado com o cultivo de trigo para o gado, que é vendido como carne bovina. O corte de árvores adiciona dióxido de carbono ao ar e remove a capacidade de absorver o dióxido de carbono existente e a floresta tropical é o exemplo mais dramático do dano que estamos causando ao nosso mundo e a nós mesmos. Uma das maneiras mais fáceis de ajudar a mudar esse padrão é tornar-se vegano. Com isso, você pode ajudar diretamente a impedir a destruição do nosso mundo e da floresta tropical".

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

CRASS: A BANDA ANARCO-PUNK QUE NOS ENSINA A SERMOS NOSSA PRÓPRIA AUTORIDADE

 Por Juliana Vannucchi
 

You must learn to live with your own conscience,
your own morality,
your own decision,
your own self.
You alone can do it.
There is no authority but yourself

Crass
Yes Sir, I Wil


Formada na Inglaterra, em 1977, ano de efervescência máxima do punk rock, a banda CRASS se tornou um dos maiores expoentes desse gênero musical. Em seus primórdios, teve bastante influência de música vanguardista e também do The Clash. Foi fundada por Penny Rimbaud e Steve Ignorant.

A banda se caracterizou por seu forte ativismo político e social, que se refletia tanto na estética do grupo como em suas ações. Visualmente, era comum o público ver os integrantes do grupo utilizando roupas militares, aspecto este que, de acordo com o público, era uma maneira de se postar contra o "culto à personalidade", ideia que, aliás, está presente também no logo da banda, que faz referência ao Nazismo, ao Cristianismo e à bandeira do Reino Unido, "autoridades" públicas soberanas que, conforme o pensamento proposto na identidade visual da banda, tendem a se deteriorar e se autodestruírem. Nos anos oitenta, a militância da banda a levou a participar de ações do Greenpeace e apoiar e impulsionar a Campanha pelo Desarmamento Nuclear (CND).

A banda CRASS também sempre defendeu e se identificou com o anarquismo e constantemente distribuía ao seu público panfletos informativos sobre o assunto.  


"Nós éramos extremamente independentes, você sabe. Não faríamos entrevistas à imprensa e não nos envolveríamos de forma alguma com grandes gravadoras (...)"
 

É importante citar que o grupo elevou a ideologia D.I.Y., componente básico e essencial do movimento punk em patamares práticos extremos e muito inspiradores. Exemplo disso é que integrantes da banda chegaram a viver na Dial House, uma casa de campo do século XVI, na qual desfrutavam de um estilo de vida autônomo muito semelhante ao dos hippies. Penny encontrou esse espaço num certo dia, enquanto andava de moto pela região, e começou a alugar a casa. As pessoas que lá viviam plantavam, colhiam e consumiam seus próprios alimentos. A respeito do local, ainda ativo nos dias de hoje, consta no portal Radical Guide: “Desde 1967, a Dial House tem sido uma casa aberta anarquista-pacifista e a base de operações para uma série de projetos culturais, artísticos e políticos que vão desde eventos de jazz de vanguarda até ajudar a fundar o Free Festival Movement” (https://www.radical-guide.com/listing/dial-house/). Atualmente, qualquer pessoa é bem-vinda no local e pode chegar na Dial House sem aviso prévio, tendo apenas que contribuir de alguma maneira, seja através da jardinagem, da produção artística, da escrita, ou de outra maneira. Ademais, não há nenhuma regra vigente na comunidade.  Além desse estilo de vida livre e alternativo, houve ao longo da história da banda outras atitudes ligadas ao D.I.Y., como o fato de que os membros do Crass criaram seu próprio selo para que pudessem gerir suas produções de maneira autônoma sem depender de gravadoras. Sobre o alcance e o legado da banda, Penny Rambou refletiu numa entrevista concedida ao Huck Mack: “Quando Steve e eu começamos, não tínhamos ideia de que a banda seria algo além de nós dois mijando na sala de música. Mas à medida que a coisa se expandia, todos nós vimos as possibilidades políticas... O punk inicialmente não era nada mais do que uma expansão do rock and roll. Era um pouco mais travesso e um pouco mais antissocial, mas muito dentro do contexto da indústria da música... Mas nós éramos extremamente independentes, você sabe. Não faríamos entrevistas à imprensa e não nos envolveríamos de forma alguma com grandes gravadoras. É por isso que montamos a [CRASS Records], que nos permitiu vender discos por um terço do preço comercial... Queríamos compartilhar essa [autonomia].” Cabe citar também que o próprio lema da banda, “There Is No Authority But Yourself”, que inspirou o título deste conteúdo, traduz a essência do D.I.Y. Penny ainda declarou na mesma entrevista acima citada: “Nós defendemos o faça-você-mesmo. E, na verdade, isso está acontecendo cada vez mais agora”. Na mesma entrevista, o vocalista ainda disse: “Nosso interesse é quebrar barreiras e redefinir; dizer às pessoas: ‘Qualquer um pode fazer o que quiser, mas você precisa realmente sair e fazer isso’… Encontre uma maneira de viver incondicionalmente”. 

 

 

Dial House.
 

Outro marco da história do CRASS é a artista Gee Vaucher, cujos trabalhos sempre tiveram como foco temáticas de cunho social e político. Essa artista nascida em Essex foi responsável pela criação de algumas capas icônicas de álbuns do CRASS, e também se tornou um dos nomes mais venerados e influentes de toda a estética punk. Foi ao lado dessa incrível mulher que Penny começou a alugar a Dial House e escrever a história mágica desse local. De acordo com a Vaucher, a casa possuía o intuito de ser um ambiente acolhedor e livre: “As pessoas sabem que, se não tiverem nada, podem pelo menos vir aqui por uma noite, recuperar as forças, ser alimentadas e regadas e, com sorte, sair com o coração melhor", comentou Vaucher numa entrevista concedida ao jornal britânico The Guardian. Vale citar que a própria mãe da artista foi enterrada na Dial House, de tão forte que foi a ligação de Vaucher com a casa de campo.

Que fique a lição... O CRASS é capaz de mudar vidas e incentivar qualquer pessoa, em qualquer aspecto possível. É uma banda necessária que abre nossas mentes e nos ajuda a construir uma visão de mundo mais crítica.

Referências:

https://www.ainfos.ca/02/nov/ainfos00589.html

https://thequietus.com/articles/05258-penny-rimbaud-crass-interview

https://www.radical-guide.com/listing/dial-house/

https://www.theguardian.com/culture/2014/jul/19/gee-vaucher-crass-penny-rimbaud

https://www.huckmag.com/art-and-culture/music-2/crass/

https://en.wikipedia.org/wiki/Crass

https://web.archive.org/web/20110604190525/http://www.music.ucsb.edu/projects/musicandpolitics/archive/2010-2/cross.pdf




CORRIDA DE CARROS, GIG NA PAULISTA E MUITA LOUCURA: O UNIVERSO DO THE EDWOODS

 Por Juliana Vannucchi

O rock brasileiro está muito bem representado pelo The Edwoods, duo paulista que realiza criativos experimentos sonoros com os gêneros psycobilly e garage rock, complementando essa mescla com uma aura essencialmente underground.

A dupla é formada pelos irmãos Andy Edwood, vocalista e baterista, e o guitarrista Eron Edwood. Vale observar que o drum kit de Andy é simples e mininalista, composto por duas caixas e um prato que são tocados sempre em pé, de uma maneira alucinante. Cantando, Andy é uma versão tropical de Lux Interior.

Eron, por sua vez, utiliza brilhantemente sua Gretsch e está sempre munido com captadores humbunckers para agitar os ouvintes com uma textura suja e distorcida, que lembra o The Stooges. Em relação aos pedais, o guitarrista explicou: “Nossa distorção vem do Morning Glory da JHS Pedals... Tentamos outros pedais, até o glorioso e cultuado Big Muff...Mas a combinação perfeita ficou com o Morning Glory somada a minha pegada e a minha total falta de técnica. Em certo momento, sentimos a necessidade de alguns sons graves na banda, daí a utilização de um oitavador da Boss, que dá uma sonoridade próxima de um contrabaixo”. Por usarem somente dois instrumentos, o resultado é um rock em estado puro, cru e catastrófico. De modo geral, as músicas da dupla parecem uma fusão estranha e cativante de James Chance, Stray Cats e The Cramps, com um visual de filmes trash sanguinários dos anos oitenta. Em relação ao conteúdo das letras, encontramos temas bem diversificados, como corrida de carros, terror, relacionamentos caóticos e, de acordo com Andy, principal compositor, “também falamos de gente doida igual a gente” (risos).

 

O Fanzine Brasil recomenda: coloque o The Edwoods na sua playlist.

Atualmente, o The Edwoods é um dos grupos mais populares dentro do cenário de bandas nacionais independentes. A esse respeito, Eron refletiu: “Nós ficamos pouco mais de uma década sem tocar (tiramos uma década sabática), então dá para fazer uma análise da cena independente de dez anos atrás e da cena atual. O que eu posso falar é  que, como antes, há muitas bandas boas e uma galera ativa que faz as coisas acontecerem. Num mesmo rolê você pode encontrar uma casa dando a oportunidade para duas ou três bandas de estilos variados mostrarem seu trabalho”. O guitarrista ainda destacou a relevância das redes sociais para bandas underground e deixou um conselho aos que se interessam por bandas autônomas: “Poderia ficar aqui citando várias bandas que estão fazendo um ótimo trabalho, mas com certeza acabaria esquecendo de várias e isso seria injusto... Então o conselho que dou é para fuçarem as redes sociais e as plataformas de streaming, pois existem bandas com trabalhos lançados e que ainda não chegaram aos ouvintes daqueles que estão ávidos por algo novo”.

Ao falar sobre a história do duo, não podemos deixar de citar os famosos gigs realizados na Avenida Paulista, que possibilitam uma interação mais direta e ampla com um público variado. Andy nos contou que essas são as apresentações mais marcantes do The Woods: “São experiências sensacionais, pois permitem que as músicas alcancem um público maior por causa da rotatividade dos pedestres. Essas pessoas dificilmente iriam a algum bar ou clube pra ver um artista sem conhecê-lo previamente, portanto é um espaço fantástico para divulgação. O The Edwoods tocou em junho de 2022 e foi incrível, houve até a participação do Valdir no nosso show. Ele trabalha com limpeza urbana e estava fazendo seu trabalho na área na qual havia o show. Chamei ele ao microfone, pedi uma salva de palmas e ele ainda dançou algumas músicas. Há até um registro desse momento em nosso Instagram”.

Até o momento, a banda paulista lançou um EP físico intitulado “Drag Racer”, que foi lançado em 2020, em formato de vinil de 7 polegadas e cujas músicas também estão disponíveis em todos os serviços de streaming. A previsão é de que no primeiro semestre de 2023 lancem dois singles inéditos.

O Fanzine Brasil recomenda para o bem de seus ouvidos e de sua insanidade mental: coloque o The Edwoods na playlist.


DORMENTE: UMA EXPERIÊNCIA ALUCINANTE

 Por Juliana Vannucchi

Victor Fortes e Ítalo Riber bateram um papo com o Fanzine Brasil e contaram sobre a trajetória da banda Dormente e sobre o álbum “Abismo de Informação”, lançado em 2022. Com uma estética futurista, o duo se destaca pela originalidade de suas composições que mescla uma atmosfera sonora oitentista, com psicodelismo eletrônico e um toque temático surrealista. 

Era o primeiro sábado de dezembro. Seria um dia praticamente normal no SESC, em Sorocaba, se naquele sábado chuvoso, meus ouvidos e minha alma não tivessem sido cativados e dominados pelas músicas da banda Dormente.

Na ocasião, eu os escutei pela primeira vez quando ainda passavam o som e se preparavam para uma apresentação que aconteceria no começou início da noite. Felizmente, nesse dia eu estava acompanhada por Imira Rando, aluna de música erudita no conservatório de Tatuí que, além de ter um conhecimento musical refinado, mais cedo havia comentado comigo que uma banda talentosa tocaria no Sesc e que ela conhecia um dos músicos e também a mãe dele. Assim foi mais fácil me aproximar do Victor Fortes e trocamos algumas palavras cerca de dez minutos subir aos palcos.

Nesse encontro, eu não conseguia esconder o meu entusiasmo em relação às músicas da banda e as primeiras palavras que dirigi a ele foram uma série de elogios, além de fazer uma comparação um tanto ousada entre a música dele e o Krautrock alemão. Ousada, mas não incorreta. Definitivamente, a Dormente lembra um pouco de Tangerine Dream. E Can e Eloy e... Devo! Sim: Devo. Eles são punks também, mas somente no espírito e na atitude, pois, afinal, a banda é pautada pelo D.Y.I. Victor me contou, inclusive, que ele é responsável pela criação dos clipes produzidos pelo duo:  Todos os clipes do Parestesia, exceto o de Não tá Okay, que roteirizamos juntos, fui eu que fiz. Além de música, eu sempre gostei de mexer com audiovisual, design e animação. Muitas dessas coisas eu aprendi a fazer só para conseguir usar com as minhas músicas, pois é algo muito caro de produzir (e com razão), por todo o trabalho que demanda, então teve um momento em que eu me dediquei bastante a estudar isso e, dessa forma, a banda conseguiu economizar bastante. A maioria dos vídeos não tem um roteiro certo, apenas um conceito em que eu tento experimentar o máximo possível e ver o que sai dessas experimentações, tudo com baixíssimo orçamento.

 

A banda é capaz de tirar qualquer um desta realidade. 

A pedido meu, Victor me acompanhou até a frente do palco e, gentilmente, me mostrou os instrumentos e equipamentos que ele e Ítalo usariam no show. Eu fiquei encantada ao ver aqueles aparatos e logo suspeitei que estava ao lado de um verdadeiro gênio musical – a suspeita, posteriormente, foi confirmada. Perguntei sobre a preferência pelo sintetizador e Forts explicou que é um instrumento acessível para produção de música, pois basta instalar uns programas de synth digital no computador e já dá para usar. Mas nas palavras do músico: “É um instrumento bem caro, isso foi um dos motivos de a gente demorar tanto para começar a se apresentar”. Naquele momento, mentalmente o comparei com o Alan Vega, mas preferi não externar. E vale dizer que apesar do gosto pelo experimentalismo eletrônico, Victor comentou que o instrumento que mais domina e com o qual mais se sente familiarizado é a guitarra, embora também toque baixo e esteja aprendendo bateria. Logo depois, ele se despediu e foi ao camarim a fim de se preparar para o show.
 

"O objetivo principal da banda é fazer a galera se divertir, dançar e curtir a vibe, o resto é lucro”.
 

Alguns dias depois, tive a oportunidade de conversar com ele novamente e perguntei sobre a experiência de ter tocado no Sesc: “Foi nossa segunda participação no evento, na primeira ainda estava rolando a pandemia, então participamos do preamp e não tocamos, mas recebemos uma assessoria muito legal de uma galera foda; agora, nessa edição, tivemos a oportunidade de apresentar o nosso som ao vivo pra galera, foi nosso segundo show, ainda acertando algumas questões técnicas, mas já rolando legal”. Victor contou que a banda nasceu, sobretudo, a partir de influências provenientes de música eletrônica experimental. Na época em que começou a esboçar a primeira música, ele escutava frequentemente Boards of Canada: “Senti vontade de tentar fazer um som diferente, não igual ao dessa banda, mas tão diferente quanto. No início, era só um desafio que eu me impus, mas eu gostei tanto do primeiro resultado que saiu, que foi a música “procrastinação”, que eu mostrei ela para o Ítalo (na época era ela bem mais crua que a versão atual do álbum), ele curtiu bastante, e nisso começamos a conversar na possibilidade de criar um projeto nesse estilo, então passei semanas compondo uma música atrás da outra”. Ítalo Riber é um músico experiente, tão brilhante quanto Victor. É o tipo raro de músico “mágico” capaz de fazer qualquer projeto e produção funcionarem. Encaixa-se em tudo e dá conta de tudo. Riber me contou que a banda Dormente é bastante peculiar: Com certeza, é o trabalho mais incomum do qual já fiz parte. É a primeira vez que tive que me preparar por algum tempo em um instrumento ainda não explorado por mim, o sintetizador. Além disso, eu ainda toco ao mesmo tempo a bateria e canto algumas músicas junto com o Victor. É uma delícia sentir a independência do meu corpo quando as músicas já estão rolando. No começo dá aquele suadouro, parece que não vai dar certo, no fim tudo se encaixa e a coisa toda funciona. A superação de barreiras é uma delícia. Lembro que quando comecei a dirigir, eu precisava desligar o som para fazer uma baliza, agora nem percebo mais. A mesma coisa acontece na banda, no começo eu mal respirava, agora já consigo até pensar em outra coisa enquanto executo as músicas”. Ítalo também comentou a respeito do processo criativo da dupla e de como o estilo sonoro foi definido: “O formato de duo só veio no final do processo de produção do álbum Parestesia, que foi todo composto e gravado pelo Victor. Eu sempre contribuí com seleção de repertório, direção artística e musical, e o Victor, com a direção criativa”.

Victor também refletiu sobre o significado do intrigante nome da banda e sobre o tipo de efeito que espera que as músicas causem nos ouvintes: “Dormente é quando nos sentimos meio sonolentos, pra baixo, insensíveis. As letras são um pouco sobre isso, sobre inseguranças, frustrações, como se fosse um desabafo. Ao mesmo tempo, o instrumental é algo que te desperta, te faz dançar e sentir, então é sobre essas contradições, você despertar ouvindo Dormente. O objetivo principal da banda é fazer a galera se divertir, dançar e curtir a vibe, o resto é lucro”. Para finalizar, quero dizer, antes que eu esqueça, que esse objetivo do Victor é alcançado com sucesso e que, sem dúvida, as pessoas se perdem nas melodias psicodélicas da banda que, com suas músicas, parece conseguir romper as barreiras convencionais do tempo e do espaço, lançando os ouvintes para os universos mais fantásticos possíveis. É de tirar qualquer um desta realidade.  

Até o momento, a banda lançou dois álbuns de estúdio, “Parestesia”, de 2020, e “Abismo Informação”, de 2022. No próximo ano, pretendem viajar e tocar com mais frequência, não apenas no Brasil, mas, se possível, também no exterior.
 


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

EU BEBERIA COM ESSE CARA #00: THIAGO HALLECK

 Por Juliana Vannucchi

A inauguração desta nova coluna do nosso site tem como protagonista o especialíssimo amigo Thiago Halleck. Mas antes de eu justificar porque eu beberia com esse cara, gostaria de fazer uma menção honrosa ao querido e talentoso escritor Tullio Dias, que há cerca de dez anos atrás fundou o glorioso portal Cinema de Buteco, para o qual tive a honra de escrever inúmeros textos. Tullio, sempre imensamente criativo, certa vez deu luz a um menu intitulado "Eu Beberia Com Esse Cara", que está sendo retomado e adaptado ao nosso site. 

Se eu fosse beber com o Thiago, levaria ele para um ambiente essencialmente underground, com pouca luz e com uma atmosfera ligeiramente soturna, pois penso que ele se sentiria a vontade nesse tipo de ambiente – se ele está confortável, eu também estou. Eu pediria duas Cocas (KS, é claro). Para ser honesta, agora eu me recordo que já estive numa condição parecida com o Thiago, pois em 2019, a Gangue Morcego fez uma apresentação de despedida em Sorocaba e após o gig, no início da madrugada, nós nos sentamos numa mesinha localizada num ambiente externo da casa de shows que era, certamente, essencialmente underground. Naquela ocasião, lembro relatei algo importantíssimo ao Thiago. Contei sobre uma experiência fantástica que eu vivi ao escutar a música "Gato Preto", mas, caros leitores, trata-se de algo confidencial. E tenho a leve impressão de que tomávamos uma Coca-Cola... mas talvez essa parte seja fantasia! Talvez a lembrança de um dos membros da GM dormindo num sofá também seja produto fictício da minha agitada imaginação... ou não? Não sei!

Agora, voltemos: primeiramente eu e o Thiago faríamos um brinde ao Tullio Dias, é claro. Esse seria o pontapé inicial. Depois eu perguntaria se ele leu o livro do Charles Dickens que eu dei para ele em 2019, no qual acima mencionada. Aproveitaria a oportunidade para dizer o quanto adoro o Dickens, especialmente o livro "The Mistery Of Edwin Wood". Contaria entusiasmada que o autor faleceu antes de finalizar seu texto e o final do livro foi supostamente psicografado. Perguntaria em seguida, se ele acredita em psicografia – e eu sei que ele acredita - e logo depois desse breve papo fantasmagórico, deixaria uma coisa muito clara: eu adoro o Dickens, mas meu autor favorito é o G.Wells. Eu li quase todos os livros dele que estão disponíveis em língua Portuguesa. O Thiago com certeza apreciaria essa saudável troca de reflexões literárias e, embora eu não tenha certeza de que ele gosta dos autores ingleses aqui citados, sei que ele aprecia muito a obra de outros dois escritores que eu amo: Albert Camus e Dostoiévski. Aliás, é válido lembrar que a primeira música lançada por Halleck, seu projeto musical solo, foi inspirada na obra “Crime e Castigo”, clássico do escritor russo. Albert Camus renderia em particular, muito tempo de conversa. Juntos, meditaríamos sobre algumas das questões nucleares presentes no ensaio “O Mito de Sísifo”. Por que acordamos? Por que, afinal, fazemos o que fazemos? Qual é o sentido de nossas ações tendo em vista a nossa condição finita? O universo se cala diante de nossas indagações. Seremos sempre estrangeiros numa existência dominada pelo caos, pelo imprevisível e pela instabilidade. Isso tudo é absurdo. 

Após abordar brevemente essa temática literária que me é indispensável em qualquer diálogo, seja lá com quem for, eu perguntaria a respeito de seus atuais projetos musicais e, especialmente sobre como estão as coisas com a talentosa banda Gangue Morcego. Sei que Halleck permanece ativo no meio musical. No momento, a Gangue Morcego está num período de hiato imposto especialmente pela atual barreira geográfica existente entre os membros da banda, mas os integrantes do grupo mantem contato frequente. Atualmente, Thiago está tocando com o Das Projekt, banda com a qual abrirá o show do The Mission no Carioca Club, em São Paulo. Recentemente, colaborou com o Anum Preto para um show que a banda realizou em SP. Ademais, ocupa-se com o Halleck que, conforme já citado anteriormente, consiste em seu projeto solo. É muita coisa... tudo que ele faz, faz com excelência. É um monstro tocando baixo – e eu diria isso pra ele. 

 

Flagra estranha da nossa essência estranha...
 

Para finalizar o nosso encontro que na realidade seria absolutamente interminável, eu puxaria uma série de xingamentos ao Bolsonaro e expressaria minha indignação com as inacreditáveis posturas reacionárias que estão tomando conta do país - talvez essa se tornasse a parte principal do nosso caloroso encontro. Sei que Thiago reciprocamente xingaria e muito o fascista infeliz que nos governa. Nos frustraríamos, é claro. É sempre desgastante falar sobre esse assunto. Mas estaríamos esperançosos com as próximas eleições e faríamos questão de deixar clara a nossa crença nas lutas e nas mudanças positivas que podem ocorrer no país a partir de outubro. 

Enfim, garanto que todo o nosso papo seria intercalado de carinhosas risadas e alguns ótimos registros fotográficos. Acho que precisaríamos de pelo menos umas três garrafinhas de Coca...


 

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

ZINE CAST - #02: SONIC YOUTH: UMA BANDA PARA O FIM DO MUNDO

 Produção: Fanzine Brasil

Edição: Sidan Rogozinski

O Sonic Youth é uma das bandas mais fantásticas e singulares de todos os tempos. Suas músicas são pura magia, sendo capazes de servir como trilha sonora para qualquer momento e sentimento das nossas vidas. Mergulhar nas texturas e melodias da banda é perder-se para além do espaço e do tempo, experimentando vivências novas, intensas e que estão além da razão. Como compreender ou descrever uma banda tão brilhante e diferente? Convidamos o Sidan Rogozinski para tentar responder essa questão e nos contar um pouco sobre a história do Sonic Youth! Clique no link abaixo e confira nossas reflexões...

https://soundcloud.com/juliana-vannucchi/zinecast-02-sonic-youth-uma-banda-para-o-fim-do-mundo?si=0ba189ad22a74f39b458db1513efa369&utm_source=clipboard&utm_medium=text&utm_campaign=social_sharin

 Caros leitores, a partir de agora, todos os episódios da primeira temporada do Zine Cast serão exclusivamente transmitidos e reprisados na Rádio Alternativa Rock, a mais aclamada e completa web rádio, que insere em sua programação sons clássicos de bandas independentes e que oferece aos seus ouvintes uma dose necessária de arte, cultura e qualidade! Clique no link abaixo, siga a Rádio Alternativa Rock e desfrute de tudo aquilo que os seus ouvidos merecem... 

https://radioalternativarock.com/b1513efa369&utm_source=clipboard&utm_medium=text&utm_campaign=social_sharing 




segunda-feira, 3 de outubro de 2022

ZINE CAST - #01: SIOUXSIE & THE BANSHEES: TRAJETÓRIA E DISCOGRAFIA

Produção: Fanzine Brasil

Edição: Sidan Rogozinski

 Dessa vez, o Zine Cast mergulha e reflete sobre a trajetória de uma das bandas inglesas mais brilhantes e originais de todos os tempos. Nascidos na cena punk, mas sem se enquadrar de fato nos moldes desse movimento, os Banshees sempre mantiveram uma peculiaridade sonora rara que os colocou num patamar diferente de muitos de seus contemporâneos. O escritor Camilo Nascimento e a convidada Juliana Vannucchi contam sobre os bastidores da banda no Brasil, comentam a discografia dos Banshees e trocam ideias sobre outras questões instigantes serão um prato cheio aos fãs do grupo!

https://soundcloud.com/juliana-vannucchi/zinecast-01-siouxsie-and-the-banshees-trejtoria-e-discografia

 



sábado, 20 de agosto de 2022

SHOWS MEMORÁVEIS, UMA VISÃO LIBERTÁRIA DO MUNDO E LANÇAMENTOS FUTUROS: A JORNADA ÉPICA DA BANDA BALLET CLANDESTINO

 Por: Vannucchi

A banda paulistana Ballet Clandestino celebra 10 anos de carreira em 2022. Atualmente, o grupo figura entre os principais nomes da cena independente do país. Conversamos o guitarrista e vocalista Vincius Primo, que nos contou sobre os momentos mais marcantes da história do trio, sobre os planos futuros, sobre a cena underground brasileira e outros assuntos. Confira e deixe sue comentário aqui nos contando se você já assistiu algum show da banda e qual é a sua música favorita! 

1. Parabéns pelos dez anos do Ballet Clandestino! Você imaginava que chegaria tão longe? Qual foi o maior desafio enfrentado nessa década?  

Poxa! Muito obrigado, Juliana! E queria aproveitar aqui o espaço pra agradecer a matéria que você fez sobre esses nossos 10 anos para o Fanzine Brasil. 

Bem, sinceramente, imaginar, nós imaginamos, sim, ainda que tenha sido de forma despretensiosa e inocente – já penso, aqui, por exemplo, nos 20 anos rsrs – mas não tínhamos certeza de que realmente fôssemos chegar a essa marca tão simbólica e especial, primeiramente, porque esses 10 anos se passaram muito rapidamente. Ademais, em 2015, quando entramos no estúdio para gravar nosso primeiro EP, foi justamente por medo de que a banda acabasse sem ter deixado nada registrado. Isso já havia acontecido com outros projetos musicais que eu tive e o Ballet, desde quando era só um projeto de estúdio sem maiores pretensões, sempre foi para mim algo diferente e especial. Então, levando tudo isso em conta, eu simplesmente não queria deixar de fazer um registro, nem que fosse só para eu ouvir depois de anos e lembrar da experiência, sabe? E foi justamente a partir da gravação desse EP inaugural que o projeto se solidificou e nossa história começou a fluir de uma maneira incrível.

2. Qual é a melhor memória que você tem dos momentos vividos com a banda? 

Já são 10 anos, então há muitas boas recordações de shows e pessoas especiais que conhecemos em decorrência da banda. É difícil citar uma memória ou outra em particular, mas posso dizer que as viagens para tocar fora da nossa cidade sempre deixam histórias legais gravadas na mente. Foi o caso do Woodgothic, em 2017, da Decadence em Araras, no interior de São Paulo, em 2018... das vezes em que fomos ao RJ, de quando tocamos em Juiz de Fora, que também foi uma ocasião muito legal e etc. Essa possibilidade de podermos ir para outros lugares em consequência da música que fazemos é sempre muito boa e é algo gratificante!

3. Vocês têm um calendário de shows bem cheio, né? Pelo que sei, há planos para tocar fora do país. Já há data para isso? 

Com essa trégua da pandemia e com os shows voltando a acontecer, esperamos mesmo ter uma agenda mais cheia, seja para tocar aqui em São Paulo ou fora da capital. Nas apresentações que fizemos em 2022, reparamos que o público tem comparecido em maior número do que antes da pandemia e isso motiva bastante! Nos faz querer tocar mais. Vale dizer que lançamos nosso último EP, o Descompasso Cinza, em 2020, durante a pandemia e não tivemos show de lançamento e nem nada disso. Então, devido a esse contexto, agora queremos mesmo é estar nos palcos.

Sobre uma possível turnê fora do Brasil: é uma vontade grande que temos. Antes da pandemia estávamos tentando “desenhar” a melhor forma de colocar esse plano em prática. Agora, porém, temos que repensar isso e tentar viabilizar a possibilidade de isso acontecer da melhor forma possível para nós dentro dessas circunstâncias atuais.

 

"Muitas letras que escrevo inspiradas em livros que leio".

4. Como você vê a atual cena independente do país? Está mais fortalecida desde que você iniciou sua trajetória? 

O cenário dito independente hoje no Brasil, eu enxergo da seguinte forma: como não há um grande espaço da grande mídia hoje para o rock – como havia há alguns anos atrás, por exemplo – existe, então, dentro da própria cena independente um certo “mainstream underground”, que diz respeito às bandas que tem um selo apoiando os seus lançamentos, são vinculadas a agências que marcam seus shows e etc., mas, seguem tendo o status de banda independente, porque não estão na grande mídia. E existe, de fato, as bandas que são independentes de tudo, sem selo, sem qualquer apoio e tudo é feito pelos integrantes da melhor forma que conseguem fazer.  E é onde nós nos incluímos.

Não vejo isso de forma ruim e tampouco sei explicar por quais razões isso ocorre. Mas é como enxergo a cena independe hoje no Brasil. Todo o rock parece ter ficado “independente”. Nós somos uma banda oriunda da cena punk de São Paulo e, por isso, sempre estivemos bem à margem de muita coisa. E foi dessa forma que aprendemos a fazer as coisas como banda.

5. Qual foi o acontecimento mais inusitado que vocês viveram na carreira? 

Com certeza chegar aos 10 anos, haha. Seguimos tocando, compondo e ainda acreditando no grupo, simplesmente pelo fato de que amamos tocar e fazer música, antes de qualquer coisa, para nós mesmos!

6. Vocês pretendem lançar algum material novo este ano? 

Queremos lançar um novo EP até o final desse ano (2022). Já temos o nome dele definido e a capa. Serão 4 sons e já estamos ensaiando e terminando os arranjos para que possamos gravar e lançar tudo ainda esse ano.

7. Qual membro da banda é o principal letrista? Quais são os temas que mais se destacam ao longo da discografia de vocês?

Todos na banda escrevem letras. Assim como também todos chegam com riffs, ou linhas de baixo, esboços a partir dos quais desenvolvemos algo que virá a ser uma música. Às vezes acontece de alguém já trazer a música pronta, com introdução, letra e tudo. É assim, desde o início, todos compõem. Quando o Rocero estava na bateria ele também trazia ideias para a guitarra, linhas de baixo e letras. Ele é autor de algumas letras como Escolhas, "Eterno Vazio, Contra o Tempo... E com o Tiofrey também rola assim, a letra da faixa Pés Descalços - que está no nosso último EP, o Descompasso Cinza – é dele. Assim como a ideia do nome do EP - Descompasso Cinza - também foi dele.  E tudo isso acontece de forma muito natural, pois todos se sentem à vontade para trazer as ideias de música, letra e arte. 

Sobre os temas, mesmo que abordados de diferentes maneiras, às vezes uma visão mais ampla pensando na sociedade, às vezes trata-se de algo mais voltado para o sentimento do indivíduo no meio da sociedade, sempre expomos uma visão libertária do mundo. Questionamos nas letras os valores da sociedade capitalista e alienada, propondo uma ruptura com está forma de viver que está posta para todos nós.

No caso, por exemplo, das letras que eu escrevo, posso dizer que muitas são inspiradas em livros que leio. É o caso da Substantivo Abstrato, Falsas Necessidades, Impróprio Necessário e por aí vai. Praticamente todas as minhas ideias para letras surgem a partir de algo que leio. Seja uma notícia, uma poesia ou na maioria dos casos, ou, conforme citei, livros.

 

"Espero que nossa música sirva como companhia, que ajude a aliviar alguma possível tensão e, sobretudo, que desperte alguma reflexão (...)"
 

8. Por que vocês optam por lançar materiais físicos. Eu, particularmente, sempre prefiro materiais assim. Mas atualmente, a maioria opta por conteúdos digitais. Quais são as vantagens e desvantagens de ambos?

Acredito que o material físico ainda tenha seu charme e valor para nós que começamos a ouvir música dessa forma. Através desses suportes, seja vinil, CD, etc... Porém, atualmente a questão do digital deixa o acesso à música muito mais fácil, seja pelo valor que uma plataforma de streaming cobra, seja pela praticidade de você estar em qualquer lugar e poder ouvir ali a faixa que quiser no seu celular, por exemplo. E a música não deixa de ser “menos” música porque você está ouvindo em streaming ou qualquer outro formato digital. Além disso, é inegável que mesmo quem compra o material físico, muitas vezes acaba também consumindo música via plataformas digitais.

Como disse acima, o material físico tem seu charme e também tem seu “fetiche” de colecionador. E há também a questão do valor alto, que muitas vezes deixa desinteressante a possibilidade de lançar o material desse jeito.

Às vezes vejo o custo de que algumas bandas cobram pelo merchan (camisetas e tal) e isso me faz entender o porque o rock hoje em dia possui seu maior público composto por pessoas na faixa dos 30 anos. Um adolescente, sem emprego e pertencente a uma realidade como está em que nós viemos, jamais teria condições de comprar uma camiseta de banda no valor que é cobrado atualmente por muitos grupos. Hoje, há bandas que vendem até café com seus nomes. Certas coisas eu não entendo. Nem é crítica. Mas é que realmente não consigo entender esse lance de vender café, cerveja, uma linha de um monte produtos com o nome da banda que não tem nada a ver com a o universo musical. Daqui a pouco tem até sabonete... hahaha.

Claro que acabo enxergando nisso tudo um movimento existente para compensar o fato de as pessoas não precisarem comprar o material físico sobre o qual comentei acima, para poder ter aceso à música da banda. E eis que então cria-se essa gama de produtos diversos, de certa forma, até meio bizarros, contendo a logomarca da banda.

Imagine, por exemplo, um rapaz de 16 anos saindo de casa pra ir a um show. Ele pede dinheiro aos pais e quando volta diz que comprou um café da banda... É surreal isso... Por essas e outras o rock está deixando de dialogar com o público jovem.

Sobre nossos lançamentos físicos, na verdade rolou com nossos 3 primeiros EPs, que saíram em fita K7, com uma tiragem de 50 cópias cada um e foram feitos por nós mesmos. Algum deles saiu como .RUIR.Records que, na verdade, sou eu mesmo.

E teve o split ao vivo com a banda Tempos de Morte, que também saiu em K7 graças ao Filipe da VladTapes, que idealizou tudo, desde o show, captação do áudio, gravação das fitas e outros detalhes... O cara é um guerreiro do underground! Além de sempre apoiar as bandas nos shows ainda mantém a VladTapes como selo que dá a oportunidade de bandas terem os seus sons lançados num formato físico super caprichado. A produção de trabalho K7 é praticamente um trabalho artesanal.

9. Que papel vocês esperam que a música de vocês desempenhe não vida dos ouvintes? 

Espero que sirva como companhia, que ajude a aliviar alguma possível tensão e, sobretudo, que desperte alguma reflexão para algo de maior importância. Mas que também sirva como diversão. A música tem que ser tudo isso, né?

10. Como vocês gostariam de estar daqui dez anos? 

Esperamos continuar tocando, lançando material novo e podendo seguir com essa grande aventura que é manter uma banda na ativa. Também espero que continuemos conhecendo pessoas e lugares através de algo que nós fazemos com tanto prazer!

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