Por Juliana Vannucchi
Em meados de 2025, Budgie, lendário baterista da banda Siouxsie & The Banshees, lançou seu tão esperado livro de cunho autobiográfico, intitulado “The Absence: Memoirs of a Banshee Drummer”, no qual compartilha memórias de sua infância e de seu percurso musical, além de falar sobre alcoolismo, fama e seu relacionamento conturbado com Siouxsie Sioux, romance que começou com encontros secretos em quartos de hotel para que o casal não fosse flagrado por outros membros da banda, e que se acabou de maneira tumultuosa e traumática. Descrito por Lydia Lunch como "um relato de viagem em busca da autodescoberta", o livro, que ainda não foi traduzido em língua portuguesa, teve uma
recepção geral bastante positiva e logo se tornou uma leitura indispensável para os fãs dos Banshees. Atualmente, Budgie é casado e
vive na Alemanha com a esposa e os filhos.
Conversamos em primeira mão com o ex-baterista dos Banshees afim de trazer informações e detalhes sobre o livro para os fãs brasileiros. Budgie foi atencioso e imensamente solicito desde o primeiro contato que fiz com ele, e prontamente decidiu me responder. Inicialmente, conversamos a respeito dos primeiros passos que ele deu em sua duradoura trajetória com os Banshees. Budgie resgatou memórias desse início e teceu reflexões: “Na época em que tudo começou eu já estava no meu próprio barco, com passagem só de ida para a terra dos tambores e do mel, quando Kenny Morris e John McKay, navegando no barco SS Banshee, pularam fora de suas embarcações ou, talvez, apenas tenham se sentido forçados a caminhar para fora delas. Eis que nossos barcos se cruzaram numa certa noite, e Kenny e eu trocamos de lugar. Normalmente, penso que apenas me rendi repentinamente para os holofotes que brilhavam sobre a banda Siouxsie And The Banshees naquele ano, mas, após a recente morte de Kenny, estou começando a pensar sobre como as ações dele, na verdade, me deram a oportunidade de me destacar e brilhar. Essas janelas de oportunidade são raras e podem surgir apenas uma vez na vida. No final das contas, se eu tivesse dito não para a banda, a decisão de Kenny de deixar os Banshees sequer teria me afetado. Ao dizer sim, eu confirmei sua a decisão e me coloquei em uma típica situação de tudo ou nada. Então, a partir disso, tive que provar que era um substituto à altura, e eu estava realmente pronto e confiante. Ironicamente, serei sempre grato a Kenny – mas será que a minha gratidão deve ser tingida com algum pesar por ele não ter continuado, ou posso encontrar algum consolo em talvez ter poupado Kenny das águas mais turbulentas que aguardavam a embarcação SS Banshee? Claro que se tudo tivesse sido diferente, talvez toda essa turbulência futura pela qual passei nunca tivesse surgido – o futuro não nos pertencia”.
Na sequência de nossa conversa, Budgie contou que sempre carregou com ele um bloco de anotações e um pequeno diário, embora nunca tenha sido consistente com nenhum deles. Esses itens fariam com que seu livro germinasse: “Às vezes, eu preenchia o bloco com alguns esboços e em determinadas ocasiões, conseguia elaborar um relato mais detalhado sobre algo, mas eu nunca tentei propriamente contar uma história, apenas mantinha anotações e esboçava imagens. Escrevi o que se tornaria o início e o fim propriamente ditos do meu livro apenas dois dias depois do meu aniversário de 50 anos, em 23 de agosto de 2007. Porém, nessa época eu tinha pouca disciplina, estratégia e direção. Anos mais tarde, durante uma turnê com John Grant eu conheci o Bobby Gillespie e nós conversamos sobre escrita. Eis que então, o Bobby me apresentou a Lee Brackstone, da ‘White Rabbit’ (*editora que viria a publicar seu livro). A ideia de uma autobiografia, no entanto, começou em 2016 e tornou-se realidade em 2021, sendo que a versão final foi entregue de forma definitiva apenas no fim de 2024. Então eu diria que, após muitos anos fazendo diversas anotações mais dispersas, levei, no fundo, um total de três anos para elaborar o material original e o livro em si”.
O processo de escrita envolveu algumas inseguranças emocionais. Budgie comentou que estava um tanto apreensivo em relação a como iria se sentir quando escrevesse as páginas iniciais e as finais. Porém, ele nos contou que não houve nenhuma emoção paralisante ou demasiadamente desafiadora: “Ao me tornar participante e não apenas comentarista, o processo de escrita me protegeu e me guiou. Sempre esperei que a escrita fosse catártica para mim e, com sorte, também para o leitor". Apesar dessa constatação, Budgie confidenciou que houve momentos de dor enquanto elaborava seu livro: “Mas no geral, a parte mais dolorosa de todo o percurso foi aceitar que, durante anos, acreditei nas distorções dos fatos feitas por outros e tomei como verdades as minhas próprias mentiras. Suponho que seja a catarse, a libertação de emoções reprimidas por tanto tempo, a parte mais dolorosa”.
O autor disse que a primeira turnê de lançamento do livro começou em Glasgow, no The Strip Joint, um modesto bar, que também já foi loja de discos e casa de shows: “Essa ocasião definiu o padrão para os eventos subsequentes, cada um deles sendo um pouco maior que o anterior, mas todos mantendo uma atmosfera amigável e intimista. Com muitos encontros emocionantes com velhos amigos de longa data, o evento mais comovente para mim foi em Liverpool, ocorrido num salão de baile com janelas com vista para o Rio Mersey. Eu estava sentado em um sofá com Will Sergeant, guitarrista do Echo And The Bunnymen. Minha irmã e outros familiares estavam presentes, juntamente com Pete Griffiths, baixista do Spitfire Boys, que estava logo ali, na primeira fila. A reação em todos os lugares pelos quais transitei, de Edimburgo a Londres, foi, e continua sendo, avassaladora, poderosa e inspiradora”.
Budgie prosseguiu suas considerações sobre os eventos envolvendo seu livro de memórias: “John McKay compareceu ao meu evento de lançamento, na livraria Rough Trade East, em Londres. Estava muito cheio para conversarmos, então apenas nos abraçamos e fizemos um minuto de silêncio. Eu já havia encontrado John uma vez, em 1987, na véspera de seu casamento com sua noiva, Linda. Quarenta e seis anos depois, finalmente reconhecemos aquele momento decisivo, aquele que mudou nossas vidas, em 1979”. Em seguida, perguntei se algum outro ex-integrante dos Banshees esteve presente ou deu algum retorno em relação ao livro: “Nenhum outro membro da banda comentou qualquer coisa, exceto o nosso ex-assistente pessoal, Billy "Chainsaw" Houlston, que me mandou um joinha de Brighton, Inglaterra! Mas, bem, Chain e eu somos fãs de longa data do Black Sabbath! Paranoico? Jamais!”. Certamente Budgie não se importa com o silêncio de Siouxsie e Severin. Até porque, preserva boas lembranças das aventuras que viveu com a banda. E dentre as tantas memórias que carrega, perguntei quais são mais tocantes: “Me recordo, em 1979, da minha primeira vez tocando bateria com os Banshees, no De Montfort Hall, Leicester, ocasião em que Robert Smith do The Cure era o nosso guitarrista. O público conhecia as músicas dos Banshees melhor do que eu naquela noite, mas eu soube, a partir daquele momento, que teria muitas, muitas outras noites para melhorar”. Budgie prosseguiu, compartilhando outras memórias marcantes: “Lembro da gente rindo e dançando no ônibus em nossas primeiras turnês pelos EUA. Não havia necessidade de excessos naquelas ocasiões e estávamos simplesmente eufóricos com a agitação e o cansaço de tudo aquilo que vivíamos. Também me lembro dos nossos primeiros shows em Los Angeles, realizados no Whiskey A Go Go, na Sunset Strip. Fizemos duas apresentações por dia durante três dias consecutivos, mais uma vez eufóricos com a agitação e o cansaço de tudo aquilo! Eu sempre adorei me hospedar no Hotel Tropicana, em Santa Monica Boulevard. Nosso ônibus chegava do deserto e nós simplesmente dávamos voltas – tocávamos no Whiskey, bebíamos no Palms, que ficava na mesma rua, aprontávamos bastante na piscina com o pessoal do The Cramps e com a Lydia Lunch, e depois tomávamos café da manhã no Dukes 'Diner. Quando o Tropicana fechou, nos mudamos para o Mondrian ou o Le Park e, claro, para o Sunset Marquis, na 1200 Alta Loma Drive”.
![]() |
| "Faça planos, faça os deuses rirem!” (Budgie) |
Pedi a ele que nos contasse alguma das tantas histórias que aborda em seu livro. Ao invés disso, gentil e prestativo, Budgie, surpreendentemente disse que nos contaria uma aventura inédita que não citou em sua autobiografia: “Vou te contar uma história que não entrou no meu livro. Isso aconteceu pelo mesmo motivo que faz com que algumas músicas não entrem num álbum: falta de espaço ou muitos incidentes acontecendo quase ao mesmo tempo. Quando eu tinha dezessete anos, na verdade, quase dezoito, me mudei para Liverpool, que ficava a apenas 16 quilômetros a oeste da minha cidade natal, St. Helens, para frequentar a faculdade de artes. Não queria me distanciar muito de dois guitarristas que eu conhecia e que considerava como sendo um possível plano B, caso a faculdade não desse certo por algum motivo. Era o final do verão de 1976, meu curso de pintura estava indo bem, mas eu tinha dois problemas sérios: dinheiro e pesquisa acadêmica. Minha tutora de estudos acadêmicos era uma senhora de voz rouca chamada Dinah. Ela enrolava seus próprios cigarros e fazendo isso sorria como se soubesse um grande segredo, que não seria revelado. Através da Dinah, conheci um rapaz chamado Terry, que talvez fosse o pai de uma certa menina que caminhava pelos enormes cômodos com piso de parquet da casa de Dinah, em Sefton Park. Terry era um jovem ator que trabalhava no Everyman Theatre, que ficava no final da Hope Street, perto da catedral católica da cidade. Eu passava em frente ao Everyman diariamente a caminho da faculdade e de volta para casa. O Everyman era um teatro importante, no qual futuras estrelas de cinema aprimoravam suas habilidades, tal como Julie Walters e Pete Postlethwaite. No Everyman também havia outro jovem ator promissor que conheci na casa da Dinah, no ensolarado verão de 1976. Terry tocava baixo e me perguntou se eu poderia montar minha bateria para um primeiro ensaio com um cantor que nos acompanharia. É claro que concordei, pois isso significaria que eu poderia eventualmente iniciar meu tal plano B com aqueles guitarristas de St. Helens. No primeiro ensaio estávamos eu, Terry e o amigo cantor dele. A única música que me lembro de termos ensaiado se chamava Rosalita, de autoria de Bruce Springsteen. Eu nunca tinha ouvido falar desse músico até então, mas a faixa que escolhemos era bem ok, um pouco longa, mas tranquila de tocar. O vocalista que estava conosco era realmente ótimo, sabia a melodia e conhecia MUITO BEM a letra da música e, além disso, ele possuía tinha charme carismático que certamente conquistaria qualquer público – a impressão que tive era ótima. Parecia que uma banda estava se formando e, então, sugeri que meus benditos amigos guitarristas se juntassem a nós – o que, afinal, poderia dar errado nessa empreitada? Na semana seguinte, Wardy chegou atrasado com o violão na mão e acompanhado de um amigo que vinha com ele e que estava bastante debilitado. Eu vagamente reconheci esse sujeito debilitado como alguém que eu sempre via dormindo nos pubs de St. Helens. O tal rapaz pegou no sono e, enquanto isso, começamos a tocar Rosalita. Era uma música complicada para um trio sem saxofonista, mas estávamos conseguindo dar conta. Tudo ia bem até o amigo de Wardy acordar. Desorientado e distante, ele começou a vasculhar sua bolsa até encontrar o que procurava. Percebi tarde demais porque seu rosto me era tão familiar - ele tinha as pupilas contraídas de um viciado em opioides. A St. Helens dos anos 70 estava inundada de drogas ilegais e analgésicos controlados. Ou seja, tendo escapado por pouco do tédio e desespero induzidos pelas drogas dos "Cowboys das Farmácias" de St. Helens, eu, sem saber, simplesmente convidei um deles para entrar no ambiente em que estava. Enquanto ele lutava para encontrar uma veia adequada para injetar algo, percebi que o clima ficou constrangedor e o plano de tocarmos juntos estava acabado. Terry ficou horrorizado, eu fiquei com raiva e envergonhado com tudo aquilo. Nosso vocalista, em seu glorioso estilo Elvis Presley, já havia até saído do prédio, para nunca mais voltar. Retornei para a minha rotina de pintura até que, em 1977, os Spitfire Boys bateram à minha porta. Era uma nova oportunidade para o plano B. Mas muitas vezes me perguntei, e às vezes ainda me pergunto, como teria sido estar em uma banda com Billy Mac, de "Simplesmente Amor"? Mais conhecido pelos que são entendidos como Sr. Bill Nighy. Mas, aí, quem, afinal, teria interpretado o adorável Rufus Scrimgeour de Harry Potter?"
Abordei na sequência, as passagens de Budgie por nosso país, que foram detalhadamente narradas pelo baterista: “Minha primeira vez no Brasil foi entre novembro e dezembro de 1986. Eu me lembro muito bem do choque que tive ao ver a extrema riqueza e a extrema pobreza, tanto nas favelas próximas às praias do Rio de Janeiro, quanto debaixo das pontes e ao longo das rodovias de São Paulo. Lembro-me também da cena marcante de ver uma pessoa sentada do lado de fora da catedral em São Paulo, com o cabelo verde, parecendo líquen. A pessoa estava lá, simplesmente estática, meio que como um bicho preguiça parado. Também me recordo da vista incrível do Morro do Corcovado e da estátua do Cristo Redentor. Tocamos duas noites no enorme Palácio das Convenções em São Paulo, e depois fizemos uma viagem alucinante por pontes precárias e estradas sinuosas cobertas de nuvens até o litoral para um show em uma casa noturna em Santos, retornando, posteriormente, para um último show em São Paulo antes de finalmente pegarmos um vôo para o Rio”. Certa vez eu soube que Budgie levou discos que ganhou no Brasil quando esteve aqui pela primeira vez. Perguntei a respeito: “Os discos eram presentes de bandas locais e dentre eles, ganhei um CD do Chico Science & Nação Zumbi – uma mistura de Living Colour, Nine Inch Nails e percussão brasileira. Fiquei tão empolgado que levei minha nova coleção de vinis brasileiros para a BBC em Londres e convenci a DJ Janice Long a me deixar apresentá-los em seu programa. Não sei se conseguiria passar pela segurança da BBC com um monte de vinis do Brasil hoje em dia! Janice Long, uma defensora da música alternativa, infelizmente não está mais entre nós”.
Para encerrar nosso produtivo diálogo, perguntei ao Budgie quais são os seus os seus próximos passos: “O futuro será mais uma questão de equilíbrio e, no fundo, bem diferente do que eu havia imaginado. Depois de um ano gravando o podcast Curious Creatures com o Lol Tolhurst e, claro, gravando e promovendo o álbum Los Angeles com o Lol e o Jacknife Lee, senti que precisava estar mais presente na vida da minha família. O livro me permitiu alcançar um melhor equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal. Dito isso, fui convidado para colaborar em uma versão operística de Parzival aqui na Alemanha, no Festival de Bad-Hersfeld, que ocorrerá ainda este ano. Ademais, há mais eventos literários surgindo. Gostei muito da experiência de narrar a versão em áudio do meu livro, algo que gostaria de fazer com outros livros. Inclusive, é claro que também gostaria de ter outro livro meu para narrar. E ainda tem muitas batidas que estão esperando para serem tocadas e pinturas que estão esperando para serem pintadas… faça planos, faça os deuses rirem!”
![]() |
| Budgie tocando com os Banhees em São Paulo, em 1986. |


%20dezembro1986.jpg)
