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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

THEATRE OF HATE: UMA HISTÓRIA CURTA, MAS ATEMPORAL

 Por Abel Marinho

Um álbum antológico...

Westworld é o primeiro (e último) álbum de estúdio da banda inglesa Theatre of Hate, que encerrou nessa produção sua trajetória de estúdio. Após seu lançamento, foram criados alguns singles incríveis como “Original Sin”, “Rebel Without A Brain” e “Nero”, e o grupo conseguiu seguidores leais na cena underground, chamando a atenção do famoso DJ John Peel, antes mesmo de lançar seu álbum de estúdio. Parte dessa fascinação com o grupo se dá não só pela originalidade de misturar música Pós-punk com elementos western, como também pelos shows incríveis ao vivo, que eram cheios de intensidade. O Theatre of Hate era considerado uma das melhores bandas para se ver ao vivo na cena underground, e prova disso é que suas primeiras gravações oficiais foram justamente álbuns ao vivo lançados pela própria banda.

Toda essa repercussão positiva fez com que o grupo gravasse seu primeiro disco com ninguém menos que Mick Jones do The Clash. Com certeza, um ótimo pontapé inicial para qualquer banda! O álbum foi gravado com um quarteto que contava com a Kirk Brandon nos vocais e na guitarra, Stan Summers no baixo, John “Boy” Lennard no saxofone e Luke Rendle na bateria.  

O Westworld, de 1982, se tornou um dos álbuns mais memoráveis do Pós-punk britânico
 

E eles brilharam...

Começamos o álbum com aquela que é a melhor música da banda! “Do You Believe In The Westworld” é facilmente reconhecida pela bateria tribal que inicia a música simulando galopes, seguidos por uma guitarra com ritmo de funk tocada por Brandon, que pincela tudo com sua voz barítona desesperadora, cantando sobre imagens apocalípticas, assegurando um verdadeiro sentimento western como pano de fundo. A música termina com uma atmosfera um tanto épica e experimental. É com certeza um dos maiores hinos do pós-punk oitentista e o maior hit da banda, tendo garantido a eles um lugar no Top of the Pops, um dos maiores programas musicais do Reino Unido. O próprio John Peel introduziu a banda no início do programa, quebrando o hiato de 14 anos fora das telas.

Sobre o impacto de “Westworld”, Kirk Brandon afirmou: “Essa mitologia do faroeste sempre esteve presente. Mas a verdadeira pergunta da música - você acredita no mundo ocidental? - é uma pergunta tão grande, talvez ainda mais hoje, que acho que é com essa frase que as pessoas mais se conectaram. A música é, na verdade, sobre Ronald Reagan, os russos e a guerra nuclear. A maioria das pessoas com as quais eu cresci presumia que um dia as nuvens em forma de cogumelo iriam surgir e isso seria o fim de tudo”.

Após um finale tão grandioso como a faixa anterior, “Judgement Hymn” começa como uma trilha sonora de um faroeste melancólico acompanhado pelo saxofone fúnebre de Boy Lennard. Logo a bateria entra em ação, apresentando um dos momentos mais extraordinários do álbum e servindo como um complemento perfeito da faixa anterior, além de manter a mesma obscuridade dela. O saxofone e o baixo aqui são os carros chefes que carregam a sobriedade da canção, além de, obviamente, haver a voz valquírica de Brandon.

A letra dessa música é baseada numa canção de natal. Porém, sabemos que o vocalista da banda frequentava uma escola religiosa e isso nos permite especular que talvez essa vivência tenha sido a principal por trás da letra, embora aqui o tema religioso se torne releitura espetacularmente apocalíptica. O final da música é especialmente digno de atenção, justamente por ser tão caótico quanto a letra.

Após duas canções atmosféricas, “63” quebra um pouco com o esperado e nos apresenta um som mais punk, embora os vocais espaçados e distantes de Brandon continuem assegurando um certo ambiente taciturno. É uma canção interessante cuja letra não é muito diferente daquelas que escreviam outras bandas de punk/pós-punk: vemos aqui uma temática política e críticas ao governo - no caso, sobre soldados que eram enviados para a morte no Vietnã. Porém, a canção poderia ter uma produção um pouco mais clara e o refrão parece levemente desleixado e pouco inspirador.

“Love is A Ghost” volta com um clima bem mais funesto e talvez seja a canção mais sombria de todo o álbum. Com um andamento lento, toques de piano fúnebres, um saxofone grave de Boy e o baixo robusto de Stammers, pode ser o mais próximo que a banda tem de um som chamado gótico. A letra sobre o suicídio de um amante contribui para a dramaticidade da canção, embora novamente pudesse ser mais bem trabalhada e menos repetitiva.

Felizmente, a próxima canção, “The Wake”, é bem sucedida em seus elementos para compensar as falhas das duas canções anteriores. O clima é um tanto experimental e todos os instrumentos fazem sua parte com extrema proeza - o baixo, em si, merece uma atenção especial. No entanto, os vocais de Brandon poderiam ter sido mixados de uma maneira um pouco melhor, pois a intensidade que ele entrega na canção é realmente incrível! Quanto à letra, ela parece um tanto abstrata, embora se note certos temas sócio-políticos e o aparente medo de uma guerra surgir a qualquer momento.

“Conquistador” parece uma continuação da canção anterior e traz de volta o clima épico apresentado no início do álbum. Os cantos gregorianos ao fundo, juntos com a bateria militar e os vocais intimidadores, criticam os séculos e séculos de grandes conquistadores que deixaram trilhas e marcas de sangue para as gerações seguintes. O baterista Luke Rendle merece aclamação por carregar a faixa de forma majestosa, assim como Stammers também merece destaque por sempre oferecer linhas de baixo memoráveis e extremamente espantosas.

“The New Trail of Tears” é um interlúdio que encerra “Conquistador”, ainda continuando com os cantos gregorianos ao fundo, embora conte com a adição de outros instrumentos exóticos e uma ambiência mais elevada e grandiosa, por aproveitar-se de experimentalismos extravagantes. Essa música poderia facilmente ter sido feita pela banda australiana Dead Can Dance.
Infelizmente, a próxima faixa, “Freaks”, é uma das piores músicas já feitas por uma banda pós-punk, sendo até difícil de acreditar que não foi posta no álbum por alguma brincadeira. O instrumental circense agitado parece ter sido feito em cima da hora para preencher algum espaço no álbum, e essa música, com certeza, poderia ter sido substituída por qualquer outro single gravado pela banda. O final consegue ser um pouco melhor que o resto da música. De qualquer maneira, ainda bem que a faixa não dura tanto...

“Anniversary”, por outro lado, melhora um pouco o clima do álbum com uma mistura interessante de jazz e pós-punk. É uma faixa um tanto inquietante, carregada por um baixo minimalista e agudo, que é acompanhado por uma guitarra igualmente mínima. A voz de Brandon é tão tranquila e baixa que sequer parece ser o vocalista cantando, fato esse que adiciona um certo elemento de estranheza à canção, embora acabe funcionando de forma majestosa. O saxofone também tem um dos seus melhores momentos nessa canção um tanto sensual e sombria e as risadas ao fundo também soam bem assustadoras!

Enfim, terminamos o álbum com a dramática e hipnótica “The Klan”. Mesmo sendo um divisor de águas entre os fãs do grupo, essa faixa é um ótimo fechamento para um disco que é, no final das contas, bastante peculiar e esquisito. Nesse ponto, podemos entender que a banda se apropriou de elementos mostrados durante todo o álbum e os juntou num pós-punk experimental epopeico, que conta com baterias tribais e hipnotizantes, carregadas por pianos e uma instrumentalização oriental. É um final fabuloso e que merece reconhecimento!

Vale muito a pena conhecer...

Westworld é um álbum um tanto imprevisível! Nos momentos em que a banda se mostra inspirada, captura perfeitamente o sentimento que quer passar e, quando falham, o resultado não é necessariamente catastrófico, embora possa deixar o ouvinte com a impressão de que algo a mais poderia ser feito. Faixas que não são exatamente ruins poderiam ter sido mais bem interpretadas ou ter uma mixagem melhor. No entanto, podemos notar que, mesmo em sua época, o álbum também teve uma recepção mista, principalmente por não representar toda aquela fúria e energia que os caracterizam quando toavam ao vivo. A banda parece ter sido direcionada a transformar os seus hinos em versões maiores e mais cinematográficas, o que é o caso de canções como “Do You Believe in The Westworld”, “Judgement Hymn” e “Love is a Ghost”, embora a última deixe um pouco a desejar, apesar de ser um marco sensacional quando tocada ao vivo. Mesmo com essas falhas que foram apontadas, Westworld não é um álbum ruim, e isso pode ser provado pela sua relevância, afinal, ele se tornou um dos discos mais reverenciados e influentes da cena pós-punk, e seu impacto pode ser sentido em bandas do gênero até os dias de hoje!

A banda foi formada em 1980, na capital inglesa



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