Fanzine Brasil

sábado, 29 de agosto de 2020

A HISTÓRIA LUNÁTICA E SELVAGEM DO THE CRAMPS

 Por Abel Marinho

O rockabilly foi a porta de entrada para a juventude rebelde nos anos 50. Artistas como Elvis e Link Wray causaram muita polêmica por quebrar com os conservadorismos vigentes da época, e por serem figuras chaves na criação da subcultura dos rockers. 20 anos mais tarde, esse grupo de artistas ficou fora de moda, dando espaço a novos jovens rebeldes, conhecidos como punks. E o que aconteceria se misturássemos a crueza do punk rock com o som agitado e reconhecível do rockabilly?
 
Foi dessa mistura louca e imprevisível que se originou o The Cramps, um dos fundadores do gênero psychobilly, termo criado pela própria banda, embora Lux tenha afirmado que essa palavra não se encaixa precisamente a eles, e Ivy os considere como um simples “grupo de blues”. Além desse gênero, em termos estéticos, a banda sempre abordou temas humorísticos e irônicos de humor negro, com piadas de duplo sentido sexual e menções a filmes-B, misturados ao som típico anos 50, mesclados a uma dose da tradicional agressividade do punk rock. Poderíamos dizer que escutar Cramps seria como escutar Elvis se ele fosse vocalista do Sex Pistols!

  
Toda essa irreverência e petulância se originaram do casal fundador, Lux Interior (que escolheu esse nome de um comercial de carros) e Poison Ivy (ela escolheu o nome a partir de uma visão tida num sonho), que se conheceram quando o vocalista e um amigo deram uma carona para ela durante uma viagem. Movidos pela paixão por surf music, rockabilly, filmes-B e tudo relacionado a cultura, os dois se tornaram amigos e começaram a frequentar shows em rock juntos, pois de acordo com Lux: “Nós só queríamos ir em shows no sul da Califórnia pois todos lá se vestiam como loucos e não importava a banda que estava no palco. O público era mais interessante que a banda. Eu queria estar em uma banda e ela tocava guitarra”. 

Mas não foi de imediato que o The Cramps se formou, pois levou um tempo até  esse sonho se concretizar e isso não aconteceu em Sacramento, que foi o local em que se encontraram pela primeira vez. O destino é mesmo incrível. Eles dois, não só coincidentemente os dois se conheceram enquanto naquela carona, mas ambos acabaram na mesma aula de arte na faculdade! Era uma aula sobre arte e xamanismo, que dizia que a Bíblia era um código para se fazer cogumelos alucinógenos. Lux não apareceu o semestre inteiro e apenas apareceu no dia do aniversário de Ivy, para lhe entregar um desenho. Desde então, eles nunca mais se separaram. 

Lux Interior e Poison Ivy, um dos casais mais loucos e icônicos do rock.

De início, a banda teve diversas dificuldades antes de finalmente conseguir um espaço para tocar ao vivo. Mudaram-se para Akron, cidade natal do vocalista, porém, não fizeram nenhum show além de alguns ensaios. Faziam diversas viagens até Nova York para ver os Ramones e isso os levou a travar amizade com os Dead Boys, o que os levou a conseguir espaço na cena underground do CBGB’s (embora o dono do clube, Hilly Kristal os odiasse). Ainda nesse período, conseguiram espaço também no Max Kansas City, um dos berços primários do punk rock. Foi nesse contexto que nasceu a lenda das performances selvagens, loucas e irreverentes feitas pela banda, das quais fazia parte o famoso hábito de Lux, de engolir o globo do microfone... 

Um evento particularmente interessante na história do The Cramps foi o famoso show gratuito realizado no hospital psiquiátrico Napa State Mental Hospital, em 1978, no qual vários pacientes tentaram fugir. Com certeza esse era um ambiente propício e uma situação nada incomum para uma banda como o The Cramps! Outra história interessante é que, durante alguns anos, Ivy trabalhou como dominatrix, e ela própria já confirmou a história dizendo: “Isso é verdade. Foi uma época muito interessante. Eu estava ganhando muito mais dinheiro do que qualquer outra pessoa na banda. E o trabalho me agradou. Não lutamos da maneira que teríamos se eu apenas continuasse trabalhando como garçonete. Isso nos permitiu ser independentes”. 

Imagens do show lendário que a banda fez no hospital psiquiátrico

Os anos 80 talvez tenham sido o período mais prolífico na carreira da banda. Eles participaram do  famoso filme “Urgh! A Music War” e compuseram a faixa "Surfin’ Dead" para o longa “A Volta dos Mortos Vivos”. Embora a banda fosse bem conhecida e aceita na Europa, ela nunca teve o mesmo sucesso nos Estados Unidos, e constantemente lutava para assinar um contrato no país - que, ironicamente, é o berço do rockabilly. No entanto, nada disso os abalou. O The Cramps sempre se manteve firme em seu som e não importa quantos anos se passassem, eles nunca mudavam seu estilo, pois de acordo com Lux: “No momento em que começamos, e ainda hoje, você ouve as pessoas dizerem: ‘Queremos fazer algo novo. Não queremos ter nada a ver com o passado. 'Bem, está tudo bem, mas com certeza você faz um monte de porcaria assim". 

Foi com esse espírito que os Cramps jamais deixaram de gravar, mesmo em seus anos finais em que pararam de realizar turnês. Tiveram Ivy como a gerente da banda, e ela sempre manteve sua mão-de-ferro nos aspectos administrativos. Em sua trajetória, também contaram com o talentoso Kid Congo Powers. O tempo passou desde quela carona. O The Cramps sobreviveu ao teste do tempo e, até hoje, continua a ser uma grande referência para incontáveis bandas do meio punk e do rockabilly. 


Referências:




0 comentários:

Postar um comentário

TwitterFacebookRSS FeedEmail