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segunda-feira, 6 de julho de 2020

FABLES OF THE RECONSTRUCTION: O ÁLBUM CONCEITUAL QUE MUDOU A HISTÓRIA DO R.E.M.

Por: Abel Marinho

No dia 10 de junho de 1985, há 35 anos atrás, o R.E.M. lançava o que pode ser dito com o seu primeiro álbum de transição e, talvez, o mais desafiador da carreira da banda até aquele momento. Se afastando um pouco do Jangle Pop e se aproximando mais de um som sombrio e Pós-punk, o Fables Of The Reconstruction é um álbum um tanto peculiar e um divisor de águas na discografia da banda. Alguns fãs o amam por seu experimentalismo, outros o consideram muito estranho e o menos marcante dos 7 álbuns lançados pelo R.E.M. durante os anos 80. Mesmo assim, é um trabalho que merece atenção pela coragem da banda em se arriscar em uma sonoridade nova.

O Fables Of The Reconstruction é um álbum conceitual, influenciado pelo gênero Gótico Sulista com temas rurais e personagens obscuros. Para ajudar na criação de um panorama psicodélico para o álbum, a banda se mudou para Londres e trabalhou com Joe Boyd, famoso por ter produzido o single “Arnold Layne” do Pink Floyd e os primeiros álbuns de bandas/artistas Folk como Faiport Conventin e Nick Drake (ele também produziu a trilha sonora do filme "Laranja Mecânica").

Grande parte do material de composição da banda nessa época também veio das experiências das viagens dos integrantes pelo país em turnês quase constantes até aquele ponto, bem como de um crescente senso de ativismo político, aspecto esse que encontraria uma expressão mais aguda nos álbuns subsequentes, “Lifes Rich Pageant” e “Document”.

É interessante notar que cada membro da banda decidiu adotar um pseudônimo para incorporar melhor as histórias contadas nas faixas: 

Bill Berry “WT Berry – Best Boy”,
Peter Buck “PL Buck – Ministry of Music”
Mike Mills “ME Mills – Consolate Mediator”
Michael Stipe “JM Stipe – Gaffer Interpreter”

O controverso "Fables of the Reconstruction": aclamado por uns, reprovado por outros...
Faixas

Começamos a jornada musical com “Feeling Gravitys Pull”, uma abertura completamente diferente se comparada com os dois álbuns interiores. Assustadora e lúgubre, poderia ter sido facilmente escrita pela banda The Cure durante a fase do Pornography, com sua guitarra lenta e cromática e termina de forma majestosa com um quarteto de cordas. A música descreve de forma surrealista como é cair no sono usando como referência as fotografias do artista visual dadaísta Man Ray. A música é uma das melhores aberturas do acervo da banda e define o tom do álbum.

“Maps and Legends” segue substituindo o som macabro da canção anterior por uma versão melancólica do Jangle Pop que lançou a banda ao mundo e traz a característica harmonização vocal entre Michael Stipe e Mike Mills, que canta letras diferentes das do vocalista. É sem dúvidas uma das composições mais fortes do grupo! A faixa foi feita em homenagem ao Reverendo Howard Finster que fez a capa do segundo álbum da banda, e foi conhecido por ter transformado seu lar em uma obra de arte com mais de mil pinturas. 

O R.E.M. é uma das bandas mais autênticas da frutífera década de oitenta.

Enfim, chegamos em uma das favoritas dos fãs: “Driver 8”. A música possui um som mais comercial, porém, essa sonoridade está longe de ser genérica! A canção oscila magnificamente entre alegria e solidão enquanto descreve de forma abstrata áreas rurais e referências ao Southern Crescent, um trem de passageiros que continua a operar até hoje. Há diversas metáforas sobre o desejo de fuga de um ambiente tedioso e o desejo de uma vida nova. O vocalista Michael Stipe disse ter “visto” a canção antes mesma de tê-la criado, o que pode ter contribuído para as imagens tão bem descritas.

Logo na sequência, com um começo suave, “Life And How To Live It” segue com um Folk atmosférico e acalentador, repleto de imagens abstratas e metáforas sobre o autor Brivs Mekis, da cidade natal da banda, Athens, na Georgia. O escritor possui duas casas conectadas por um buraco na parede e se “mudava” para cada uma quando se entediava da outra, tudo sendo descrito em um livro chamado  “Life and How To Live It”.

Novamente, voltamos ao som tenebroso com “Old Man Kensey” uma das mais subestimadas da banda. Com uma guitarra soturna e um baixo pesado, além de obviamente as harmonizações angelicais entre Stipe e Mills, a canção é como um filme de terror rural que conta a história de Kensey, um amigo do pintor Howard Finster que roubava caixões e sequestrava cachorros...

Can’t Get There From Here” apresenta uma quebra totalmente diferente do resto do álbum, com um som mais agitado e bastante influenciado pelo Funk e pelo Blue Eyed Soul, até mesmo com Stipe tomando inspirações de vocalistas de  R&B. A faixa é super divertida e dançante! Embora não tenha um significado em específico, ela pode ser considerada um tributo aos reis do Funk americano, tal como Ray Charles e James Brown. É também a primeira canção da banda a incluir uma orquestra de cornetas.

Green Grow the Rushes” é uma tristonha canção Folk e uma das primeiras da banda a abordar questões sociais. Através de seus acordes agridoces e lastimosos, Stipe narra o tratamento intolerável sofrido pelos trabalhadores imigrantes que chegam a América. Inicialmente, a música surgiu de um pacto feito entre o vocalista e sua amiga da banda 10,000 Maniacs, Natalie Merchant, através do qual ambos escreveriam sobre o genocídio dos povos indígenas americanos. A faixa é uma das mais bem escritas e descritivas canções sociais feitas pela banda em toda sua célebre carreira.

A transição entre a anterior e “Kohoutek” é quase que imperceptível e elas se encaixam perfeitamente,  mesmo  não tendo temas similares em comum. A faixa é um tanto comovente com seu tom de despedida comparando um amor perdido ao cometa de mesmo nome, que só passará pela Terra novamente em 75 mil anos. O R.E.M. não tem tanto enfoque em canções de amor ou decepções amorosas, o que faz com que essa faixa seja um pouco esquecida e injustiçada, o que é uma verdadeira lástima, pois é uma das mais acessíveis, simples e diretas feitas pelo grupo. A mistura perfeita entre Folk e Rock alternativo nessa música a torna uma viagem incrível com os arpejos bem calculados de Peter Buck e com o vocal fascinante de Stipe, que tremula graciosamente até o fim.

Auctioneer (Another Engine)” diferente do compasso lento da maioria das faixas volta às raízes da banda com um som mais frenético. Pode-se dizer que é uma mistura perfeita entre Punk e Folk, e é impossível ficar parado ao ouvi-la! Nela, Stipe narra as histórias de seu avô, que era um vendedor viajante. O tom da música combina com o que parece ter sido uma vida um tanto aventureira...

Após um final tão agitado como “Auctioneer”, a banda volta a fórmula de mais uma canção lenta e rural com “Good Advices” que possui uma letra um tanto mais interessante que sua parte instrumental que, infelizmente, é pouco inspirada e soa de maneira repetitiva. A letra narra a história de como conhecemos estranhos pelo caminho da vida e depois nunca mais os vemos novamente.

Fechando de uma forma diferente das outras canções rurais, “Wendell Gee” bebe mais da fonte seiscentista, tendo focos no piano e banjo ao invés de seguir a fórmula clássica de guitarra, baixo e bateria. Pode ser vista como, de certa forma, uma pré-faixa do álbum Green em que a banda passou a experimentar com instrumentos mais convencionais. Inspirado parcialmente em uma pessoa real, na verdade,a ideia da letra veio de um pesadelo tido pelo vocalista. É um final um tanto interessante para um álbum como Fables Of The Reconstruction.

Conclusão...

O Fables Of The Reconstruction pode ser um um tanto estranho quando o escutamos pela primeira vez, ainda mais se comparado aos dois álbum antecessores. Na época de seu lançamento, devido às circunstâncias em que foi gravado, como a falta que a banda sentia dos Estados Unidos e o desagradável inverno londrino, fizeram que as opiniões dos integrantes sobre o álbum acabassem se tornando públicas, como foi o caso de Bill Berry dizendo que detestava o álbum em uma entrevista nos anos 90, e Peter Buck afirmando que “Driver 8” poderia “ter sido escrita enquanto estivesse dormindo”.  O fato é que Fables Of The Reconstruction continua a ser um dos mais  interessantes trabalhos da banda, mostrando bastante maturidade, mais riscos, mais experimentalismos musicais para os quais foram usados diferentes instrumentos, sons e conceitos. Além disso, é notável o afastamento do Jangle Pop e a presença de conceitos líricos mais compreensíveis ao invés de apenas fragmentos de letras como ocorre em Murmur e Reckoning. Podemos considerar esse o primeiro álbum de transição da banda para um som mais encorpado e um dos primeiros passos em direção ao ativismo social que se tornaria tão conhecido pelo grupo e se tornaria mais evidente em álbuns como “Document” e “Green”.




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